A Biblioteca Assombrada
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A Biblioteca nunca estivera tão agitada com a presença de novos fantasmas. A maioria se distanciava na primeira oportunidade, rancorosos para com quem os tinha feito mal. Assim viravam os causadores de tormentos e algumas outras situações que deram origem aos pequenos boatos de assombrações. Dessa vez ficariam e a mudança de estação estendeu-se para aquele lugar, o tornado menos vazio. Nas ruas o inverno chegava, trazendo flocos de neve dançando pelo ar, e na Biblioteca Assombrada o ambiente era morno e agradável com o cheiro de hortelã viajando pela sala.
Vance não compartilhou do clima geral, estava em sua personalidade contrariar qualquer que fosse a emoção que o apresentavam. A indiferença cobria-o inteiramente em contraste com a animação dos fantasmas à sua volta. Dahlia corria de um lado para o outro enquanto seu chá esfriava e não parava de fazer perguntas aos recém chegados. Rapidamente os considerou novos amigos e por isso a cada minuto aparecia do lado de um deles. Direcionava uma pergunta para Oliver e dependendo da resposta se aproximava de Percy para investigar mais sobre o que fora falado.
Jacin estivera bem ocupado preparando o café da manhã e agora descansava, apreciando que os outros estivessem confortáveis e enchendo a barriga com o que havia preparado. Fantasmas não precisavam comer, embora naquele local fosse possível e pudessem manter alguns hábitos de quando eram vivos. Ele explicou ser por conta da vontade do Bibliotecário, como uma forma de manter ocupados os fantasmas que ali permaneciam para que tivessem o que fazer. Beatrice e os outros afirmaram não sentirem fome, mas estavam curiosos para saber se a comida fantasmagórica seria insossa ou não. Ninguém torceu o nariz ao comer os sanduíches servidos e Vance os acompanhou sem muita vontade.
Fora garantido que o Bibliotecário anterior esteve presente por muitos anos e nunca tinha se alimentado regularmente. Odalis dissera que por mais de cem anos ninguém tinha entrado ali e ele continuou bem. Tal informação tranquilizava o rapaz ao mesmo tempo causava um incômodo por ter de se preocupar com o detalhe que em seu caso tornava-se mórbido. Afinal os fantasmas poderiam continuar sem qualquer tipo de alimentação, porém o Bibliotecário não parecia um fantasma.
— Tem o mesmo gosto — Vance abaixou a xícara e a colocou sobre a mesa de centro.
— Sim, decepcionante — comentou Percy e recebeu um olhar inquisitivo de Jacin, o qual se encontrava sentado no sofá oposto. — Não que seja ruim, eu só esperava algo novo.
— Posso sugerir que ele experimente preparar um de pimenta caso esteja buscando por boas inovações — respondeu Odalis.
Vance riu fraco com a discussão sobre sabores de chá que surgiu entre eles depois da resposta afiada. Dahlia e Beatrice entraram em consenso que seria interesse provar um chá de chocolate. Como sempre, estava se surpreendendo com os amigos sendo tão naturais e divertidos.
O reencontro instantes mais cedo havia se resumido a um abraço coletivo que o jogara no chão, afirmando de vez que fantasmas poderiam ser tangíveis. Sentiu calor naquele abraço que quase o fizera chorar, mas logo tinha que se recompor porquanto as perguntas choveram sem demora. Beatrice estranhou que ele parecesse realmente vivo, Percy questionou o motivo de estar tenso e Oliver quis saber como ainda estava naquele lugar se havia pedido para que fugisse. O rapaz contou o que aconteceu e o explicado a ele até então, mas nem tudo se resolvera completamente. Ainda não sabia como tinha se tornado o Bibliotecário ou a razão por trás disso.
Caminhou até a janela, intrigado, e observou o céu claro da manhã enquanto os outros ainda conversavam. Parecia irônico como algo que poderia ter desejado na noite anterior fora pelo amanhecer e agora aquele azul acinzentado não fosse suficiente. Abaixou o olhar para a rua e observou algumas pessoas que caminhavam pela calçada, com seus trajes adequados para o inverno, e carruagens eram puxadas pelos cavalos batendo os cascos no caminho de pedras. Quatro pessoas desaparecidas em uma única noite, uma em liberdade buscando por ajuda e nenhuma outra alma naquela cidade poderia se interessar menos.
Existe algo que deve saber sobre os moradores de Volery. São pessoas acolhedoras e ao mesmo tempo desinteressadas pelos problemas alheios. Não os culpo pelo modo como aprenderam e ensinam a continuarem sendo distantes e egocêntricos na medida que machuca e os protege. Estão apenas afastando os perigos que rondam dia e noite. Adelle provavelmente derramou lágrimas diante algumas pessoas e implorou por auxílio. Pode ser possível que tenha agarrado a roupa de um deles e o chacoalhado pedindo insistentemente que investigasse e trouxesse seus amigos de volta. Contudo aquela biblioteca estivera presente na cidade por muitos anos e todos sabiam o que representava, apesar de nunca terem compreendido como as coisas aconteciam para aqueles que colocavam os pés lá dentro. Nem mesmo aquela jovem tinha muito a relatar, tudo que poderia explicar era que seus amigos entraram na biblioteca e não saíram.
Vance se assustou quando Beatrice apareceu do seu lado, sentando-se no peitoril da janela para observar a rua também. Seu cabelo ondulado caía por suas costas, estava úmido assim como o vestido simples se encontrava em processo de secagem. Ele compreendeu que os amigos nunca deixariam de ter essa aparência, permaneceriam molhados de água salgada como foram encontrados. Oliver era o único sem aquele aspecto por ter se afastado do mar depois de quase ser atacado por um caranguejo, por isso teve mais tempo para se secar.
Mas Adelle, agora, estava com as roupas secas e confusa com a ausência deles.
— Em algum momento ela vai voltar pra casa — disse Beatrice. — Eu não quero que me veja assim, pode ser muito difícil para ambos os lados. Talvez os meninos pensem da mesma forma. E você?
— Duvido que seja seguro planejar um reencontro.
Beatrice assentiu, ainda sem o encarar, pelo pensamento do que ele poderia acabar fazendo se estivesse na presença de alguém. Jacin dissera brevemente que o Bibliotecário era uma criatura misteriosa e parecia seguir um instinto incontrolável. Para Vance fazia sentido, afinal Dahlia estava entre eles e não possuía o tipo de conhecimento que o Bibliotecário iria querer. O único consolo era que caso Adelle entrasse naquele lugar não seria atacada se ele conseguisse manter distância no segundo e terceiro andar. Seria o que faria, pois não planejava agir daquela maneira tão cruel. Entretanto o incomodava pensar que não se diferenciava tanto do Bibliotecário anterior. Se concordava que a morte não seria um final tão ruim, então ele era o autor de muitos atos que o configuravam como alguém pior que a criatura mágica.
— Opa! — disse Beatrice ao escorregar pela parede.
Vance ergueu as sobrancelhas, surpreso, e a segurou pelos ombros a fazendo voltar a se sentar e não atravessar as pedras sólidas.
— Ser fantasma é complicado — ela concluiu com um riso.
— Teremos tempo para nos acostumarmos.
Os dois trocaram um olhar de amigo, onde nada precisaram dizer para que compreendessem. Falavam de si mesmos agora, mas no fundo a preocupação também era sobre Adelle. Nenhum deles ignorava que existiam mais pessoas envolvidas e logo receberiam a notícia de suas mortes. O retorno nunca aconteceria e eles também sofreriam com a consciência. Os quatro estavam reunidos e poderiam se acostumar com aquela vida, o que não garantia em nada que as pessoas a sua espera se acostumassem com aquela perda repentina e mal contada.
Algo o puxou levemente pelo braço, espiou curioso e descobriu Dahlia.
— O senhor não deveria estar trabalhando, não?
— Acabei de chegar — ele respondeu e bagunçou seu cabelo, a menina fez uma careta. — Mas quem sabe daqui um tempo eu escreva algo.
Era seu primeiro dia como o Bibliotecário e incontáveis viriam a partir daquele momento. Ainda era Vance Mather, alguém que muito dificilmente recusava a ideia de passar a maior parte de seu tempo cercado de livros. Sua caligrafia poderia não ser uma das melhores, de qualquer modo não pretendia permitir que muitas outras pessoas entrassem naquele lugar para ler o que poderia escrever. Manteria aquelas portas trancadas para evitar riscos daquelas cenas se repetirem. Assim seus dias se passaram como se fossem apenas mais uma noite excedendo seus limites.
Aos poucos Jacin e Odalis chegaram a uma pequena conclusão que tirava um enorme peso de suas costas. Sem explicações ele não tinha herdado os instintos do Bibliotecário. O antigo dono do lugar sentia necessidade de obter conhecimento e de passar adiante através dos livros. Incansavelmente usava todo o tempo que tinha em seu lugar privado e rodeado de papel, tinta e páginas em branco para que preenchesse. Não bebia, comia, dormia ou interagia com ninguém. Contrariando o que os fantasmas conheceram, Vance continuava como antes. Não possuía aquela vontade irrecusável de passar adiante o que sabia e as vezes se entediava. Em nenhum de seus primeiros dias, ou dos próximos, sentiu necessidade de estar realmente passando para o papel aquele amontoado de informações que podia acessar quando quisesse. O fazia para ter com o que se ocupar e manter a mente focada, como quando ascendia para sua provável carreira brilhante que o aguardou tempo atrás. Na verdade passava mais tempo estudando todas as informações que tinha do que realmente repassando para o papel, como Jacin dissera que era originalmente feito. Muitas vezes Vance simplesmente preferia ficar com os amigos a realizar qualquer tarefa feita pelo Bibliotecário anterior.
Ele não saiu da fatídica biblioteca, assim como os amigos, e somente Jacin aventurou-se pelas ruas para vigiar Adelle nos dias que se passaram. A mesma retornou as portas daquele lugar, tentando entrar, mas continuavam trancadas. Como esperavam, ninguém que ela pediu por ajuda se prontificou em ir procurar por pistas. O que igualmente não a impediu de continuar retornando todas as manhãs no departamento de polícia, resultando na menção da Biblioteca na primeira página dos jornais. Aquilo serviu apenas para lembrar os moradores que aquele lugar abandonado não deveria mesmo ser esquecido.
Jacin retornou em um certo final da tarde. Passando através das janelas e cortinas encontrou o Vance sentado a mesa ao lado da cama. O mesmo tinha se acostumado as chegadas abruptas de todos os fantasmas, pois sentia a presença deles em qualquer lugar. Não sabia descrever como era exatamente, apenas tinha certeza de onde cada um estava desde que dentro de sua biblioteca.
— Ela continua aqui e precisamos conversar.
Preocupou-se de imediato, afinal o fantasma raramente falava com um tom minimamente impositivo ou urgente.
— Qual seria o problema? — indagou Vance.
— Adelle enviou cartas aos seus parentes, possivelmente eles chegam em breve com alguma ajuda. Contudo a própria moça tomou uma decisão, pretende investigar outros casos da cidade por acreditar que possam ter alguma relação com o que houve aqui. Nenhuma história termina sem tragédia nesse lugar. Ela também parece ter convencido um oficial a averiguar o caso aqui, mas duvido que ele realmente venha.
O rapaz logo compreendeu a implicação. Adelle acabaria se envolvendo com outros perigos desconhecidos e ele não poderia evitar. Os fantasmas que sobrevoavam a cidade estavam livres da magia que permeava as palavras e vontades de Vance, aguardando momentos apropriados para agirem nas sombras e por conta própria.
Ele se arrependia de ter entrado na biblioteca que encontraram, de não ter impedido os amigos de continuar se aventurando pela noite, e sabia o motivo de terem feito o que fizeram com tanta tranquilidade. Porque não sabiam que deveriam temer. Quanto tempo levaria para que ela e suas respectivas famílias se perdessem naquela cidade amaldiçoada? Passou a mão pelo rosto porque não eram os únicos sujeitos ao perigo. Qualquer um poderia cair no vazio sem perceber.
— Obrigado por me avisar.
Jacin não respondeu, dessa vez passou pela porta depois de girar a maçaneta, e deixou Vence sozinho com seus pensamentos nada felizes ou satisfeitos. O pesadelo continuava tão presente quanto naquela noite, sendo capaz de o fazer sentir aquele ar frio mais uma vez em sua pele. A possibilidade de haverem fantasmas, ou outros causadores de tormentos ainda desconhecidos, era inquietante. Sempre haveria alguém de fora que teria a curiosidade de Oliver ou o seu próprio ceticismo, os levando para caminhos tortuosos e indefinidos cujo destino seria o mesmo.
Cogitou mostrar-se para Adelle e contar a verdade, dizer para que tomasse cuidado e não olhasse para trás quando partisse. Entretanto a conhecia bem o suficiente para saber que ela não soltaria a sua mão ou dos amigos se os tivesse novamente. Sentia o coração pesado com o rumo de sua decisão, mas permitir que ela ou os parentes frequentassem a Biblioteca, ou qualquer outro lugar assombarado, seria desastroso. Nada impediria que outros fantasmas perdidos cessassem os atos em suas ruínas e mais pessoas poderiam encontrar infelicidade.
Tinha a sua disposição conhecimento antigo e valioso que a todo instante era incômodo pensar na forma como o adquiriu. Mesmo que não fosse ele quem tivesse roubado, era agora o próximo com a responsabilidade que fugia desde que entendeu. As circunstâncias não estavam mudando e a decisão de Adelle apenas apressava o que um dia teria de fazer: assombrar aqueles corredores e ser definitivamente um monstro. Volery continuava erguida pela forma como o medo impunha certa postura e decisão, o medo forjava os corações de todos os moradores e dos visitantes. Se a Biblioteca caísse as tragédias aumentariam. Precisava continuar sendo real.
Levantou e respirou fundo, a tarefa exigiria usar a autoridade que acabou recebendo. Seguiu apressado pelo corredor, desceu as escadas que levavam ao escritório que agora se tornara o lugar favorito de Dahlia e Odalis. As duas sempre estiveram curiosas sobre as obras e passavam um bom tempo lendo. Quando passou pelo lugar a menina mal se ateve a sua presença. Odalis somente ergueu o olhar por breves segundos antes de retornar a sua leitura. Vance desceu por mais escadas e alcançou a sala principal, onde os amigos haviam se reunido. Oliver se encontrava sentado no piano enquanto Beatrice tocava. O instrumento surgiu em uma noite de nevasca quando todos compartilhavam do mesmo sentimento de tédio e o rapaz queria ter um piano, o qual materializou-se próximo a parede e fizera sua amiga sorrir. Agora as tardes eram mais agradáveis.
O rapaz pigarreou, ganhando então a atenção dos presentes e o som da música se perdeu.
— Preciso fazer uma pergunta importante — anunciou sem demora, por mais que sua voz soasse um pouco arrastada. — O homem no bar te advertiu sobre entrar aqui?
Oliver deu um pulo do piano e respondeu:
— Não exatamente, disse que ele mesmo não entraria.
— Por que isso de repente? — quis saber Percy e ajeitou as almofadas do sofá para se deitar.
— Estivemos aqui por cinco dias antes de entrarmos na biblioteca abandonada e ninguém comentou nada nesse tempo. Oliver conversou com várias pessoas por onde passou e Adelle também é bastante comunicativa. Apesar disso em momento nenhum soubemos de qualquer perigo e o que deveríamos evitar sendo visitantes. — Vance deu alguns passos pela sala, colocando as mãos nos bolsos. — E Oliver recebeu a informação de alguém provavelmente alcoolizado, pessoas nesse estado costumam falar bastante e com sinceridade.
Beatrice ergueu a sobrancelha, desconfiada da análise súbita e indagou:
— Está pensando em se vingar da cidade inteira pelo o que nos aconteceu?
— Pelo contrário. Estou pensando em manter a Biblioteca o mesmo de antes, um lugar a ser temido — ele revelou. — Os próprios moradores se esqueceram.
Os outros se entreolharam, mais atentos ao tópico em questão.
— No que isso ajudaria? — Percy indagou.
Ele teria respondido que ajudaria Adelle a voltar para casa, assim como impediria suas famílias de os procurarem e encontrarem além do que deveriam. Ajudaria os boatos a alcançarem outros lugares e qualquer pessoa relacionada a eles a não se envolver com mais mistérios que dificilmente poderiam resolver. O que pretendia fazer culminaria no retorno dos contos, relembrando a lição que foi dolorosamente aprendida e agora estava perdida. Gostaria de explicar que se permitisse o Bibliotecário, ele mesmo, desaparecer daqueles corredores seria como afirmar as pessoas que não precisavam mais temer. Se fosse somente um lugar com fantasmas dando sustos, ficaria implícito com o passar do tempo que não passaria daquilo. Logicamente as pessoas desafiariam outros perigos que ele não poderia impedir mesmo que desejasse. A cidade ainda abrigava mistérios que não conhecia bem.
Um nó se formava em sua garganta, precisaria vestir aquela capa escura e ir atrás daqueles que entrassem em seu novo domínio. No entanto não o faria como antes. Somente decidiu que quem entrasse na Biblioteca sairia, mas não com vida.
— A partir de hoje estão proibidos de irem para lá — avisou ao apontar para baixo enquanto seguia para o próximo lance de escadas.
Ignorando o protesto dos amigos, Vance desceu para o lugar que tudo acontecera. Com o plano dando certo ou não, teriam muitos anos pela frente e poderia explicar melhor mais tarde. Chegando ao local repleto de estantes altas percebeu que a luz vinda das janelas não iluminavam completamente mesmo durante o dia. Lamparinas surgiram por sua vontade e contemplou pela primeira vez aquele estabelecimento ainda contendo segredos. Finalmente sentia o cheiro de páginas antigas e madeira, o que não tivera a oportunidade de apreciar na última visita. Tinha conhecimento, agora, de que as extremidades continham um bom espaço dedicado a uma confortável leitura. Diferente do que Beatrice supôs antes de entrarem, tinha sim uma enorme lareira.
Caminhava hesitante. Era inacreditável como parecia que somente pisar naquele lugar fazia sua mente agitar de medo mesmo sem ser assombrado por outro alguém. Talvez começasse a ser assombrado por suas decisões dali algum tempo.
Embora não gostasse muito de realmente exercer poder absoluto, soube que seu desejo se realizaria e o fantasma sempre se demonstrou solícito. Ficara decidido que naquela mesma noite Jacin iria até a casa que haviam alugado e diria a Adelle para deixar a cidade o quanto antes. Não pensou muito bem em como queria que ele desse o recado, apenas queria que fosse repassado. Talvez Jacin cogitasse escrever um bilhete na frente dela ou dizer as palavras em alto e bom som. Não se revelaria a dando a oportunidade de fazer muitas perguntas. Fantasmas obtinham duas opções em frente aos que estavam vivos: ficar invisíveis ou se apresentarem com aquele tom azulado, em ambas as opções ela acabaria buscando diálogo e respostas. Independentemente disso Jacin teria de a assustar um pouco no processo, porém, valeria para o próprio bem da moça.
Quando alcançou o espaço com mesas redondas e cadeiras acolchoadas, o fogo crepitava na lareira e Vance sentou-se próximo a fonte de calor. Por alguns momentos apreciou aquela calma, o conforto da ausência de falas permanecia como um alento para mente e físico. Ainda sentia-se castigado, como quando era apenas um menino que muito sabia e nada compreendia. Aos poucos suas pálpebras foram pesando, pois a noite anterior fora dedicada aos estudos de antigas anotações. Seus hábitos certamente não mudaram tão cedo e sem perceber caiu em um sono sem qualquer sonho. Se encontrando inerte e debruçado sobre a mesa, Vance não escutou o girar de uma chave na fechadura.
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