A Biblioteca Assombrada

1 Midnight Decisions


Notas iniciais
Uma música de recomendação para escutar durante a leitura: https://www.youtube.com/watch?v=S0vdyGPE4bU

As histórias acerca da cidade Volery, agora, permanecem seguras entre seus habitantes. Antigamente muitos vindos de fora se mostraram desacreditados e imaginaram que os contos seriam apenas uma forma de atrair visitantes para a parte esquecida do continente. Mas o lugar, inevitavelmente, dividiu opiniões pelos arredores durante anos. Alguns acreditavam que se tratava de uma terra amaldiçoada, outros apenas repetiram que os mistérios não resolvidos seriam culpa do trabalho preguiçoso dos investigadores. Apesar disso os boatos são verdadeiros independentemente da forma como se concretizam.

Não era como se cada passo devesse ser cauteloso, ninguém precisava estar alerta a cada minuto do dia ou noite, porém, se tornava essencial conhecer os caminhos certos e principalmente qual porta abrir. Informações e orientações vagas, mais que suficientes, se perderam mundo afora. Com o passar do tempo as histórias deixaram de voar com os passarinhos, não chegando mais aos ouvidos de ninguém, e a apreensão unida a dor da perda se limitava aos moradores da cidade. Quando os visitantes descobriam sobre os perigos daquele lugar era quase tarde demais.

As corujas cantavam enquanto o grupo de amigos caminhava errante pelas ruas que pouco conheciam. Explorar uma cidade no meio da noite não era a ideia mais agradável de aproveitar as férias, pelo menos não para um deles em especial, entretanto, a “ausência de algo melhor para fazer” havia sido um pequeno incentivo contraditório. As palavras de Adelle tinham o atingido muito mais do que deveriam, o fazendo deixar o livro sobre o travesseiro e seguir com os amigos para o desconhecido e encontrarem a praia. Entre ler confortavelmente na cama, com uma xícara de café, e seguir para a água gelada em uma noite especialmente fria... a escolha era mais do que clara. Por isso ele seriamente considerou dar mais atenção para a psicologia com o intuito de compreender melhor como a razão simplesmente se esvaia quando Adelle mostrava um sorriso travesso em expectativa.

Vance era o único entre os cinco amigos que estava seco e muito bem aquecido. Sempre fora um rapaz notável entre eles, o que fazia com que muitos questionassem o motivo de sustentar com tanto afinco suas amizades desajeitadas. A resposta estava no fato de sentir-se superior de várias formas diferentes, lhe proporcionando uma sensação agradável o suficiente para suportar as ideias descabidas que permeavam aquelas mentes agitadas.

Ignorava os ocasionais espirros e risadas atrás de si, mantendo as mãos nos bolsos do sobretudo e o olhar atento aos estabelecimentos ao redor. Para ele a cidade era deprimente durante o dia e quando o sol partia a região adquiria um aspecto menos desanimador para algo levemente incômodo. Todas as casas e lojas foram erguidas de tijolos divergindo entre o preto e o azul, em seu último tom, ou madeira. Até mesmo o caminho de pedras cinzentas parecia fantasmagórico com a luz prateada da lua. Tudo não lhe passava de uma péssima escolha de construção e mal gosto para decoração. Pensava que todo aquele lugar continha algo a ser reparado ou melhorado. Sinceramente sabia que o único motivo de terem viajado para Volery era o baixo custo para se manterem sozinhos durante o curto período que passariam longe das responsabilidades.

— Estou congelando — reclamou Percy.

— O que esperava? É quase inverno — comentou Vance sem olhar para trás. — E, deixando de lado esse detalhe, escolheram o pior horário para um banho de mar.

— Eu deveria ter amarelado também — confessou Beatrice ao ignorar o tom repreensivo do amigo e abraçou o próprio corpo. — Quanto falta para chegarmos?

Adelle acabou rindo da pergunta e não deixou de alfinetar:

— De repente aquela casinha parece muito confortável, não é mesmo?

Nesse ponto todos poderiam concordar, até mesmo Vance que estava bem seco por ter ficado na areia. A casa alugada no centro da cidade possuía um aspecto inegável de abandono, aparentemente os donos não cuidavam bem da propriedade e fazia muito tempo desde a última vez que alguém passara algumas semanas nela. Apesar da poeira em cada canto, teias de aranha, móveis antigos com defeitos e insetos que se recusavam a deixar o local, a casa era quente e aconchegante quando se fechava os olhos para dormir. Se Vance, com as roupas secas, sentia o incômodo do vento cortante e ansiava por retornar ao quarto compartilhado, nem mesmo queria imaginar a sensação térmica que os outros experimentavam e como ansiavam pela volta.

Todos pareceram pensar no quanto seria satisfatório se abrigarem debaixo de um cobertor, então o silêncio retornou e trouxe tranquilidade para o rapaz. Apreciava o abster do falar desde que aprendera a ler, pouco antes disso tinha se acostumado com a ausência da troca de falas pelo perigo que algumas palavras representavam.

Passava pouco da meia noite e ele geralmente mantinha o hábito de dormir antes das dez. Suas pálpebras pesavam e sentia seus passos se tornando mais lentos. A rotina quase rigorosa raramente era quebrada por outros, mas a resposta corporal se dava ao fato de continuar estudando mesmo de férias e não dormira na noite anterior. Considerado um prodígio desde a infância, não deixava o que era natural guiar completamente o que se tornou mais importante em sua vida. Por isso virava noite ou outra quando se empolgava com alguns temas e teorias, se não estivesse entretido o sono vencia.

Fechou os olhos por alguns instantes, porquanto seguiriam em frente por mais alguns metros, e se permitiu não pensar em nada. Atentava-se despretensiosamente ao som dos passos dos amigos, das risadas ocasionais e uma tosse ou outra. Alguns deles tinham apresentado sinais de resfriado nos últimos dois dias, o pulo no mar obviamente pioraria. Repreendeu-se por um instante, pois planejava caminhar com calma. Não deveria se preocupar tanto quando eles agiram por pura imprudência, contudo, ali estava pensando nos chás que iria preparar e nos sermões que jamais abriria mão.

— Olha, é a Biblioteca — comentou Oliver.

Vance virou-se para trás, lutando contra a vontade de permanecer na escuridão serena, e abriu os olhos. Os outros quatro estavam próximos, Percy agora abraçava Beatrice, e observavam a maior construção da rua. O rapaz avaliou a fachada e as paredes escuras não apresentavam janelas, parecia apenas um espaço enorme com porta dupla.

— Como é que sabe? — indagou Beatrice semicerrando os olhos para procurar no escuro por qualquer indicação, mas nada além de musgo seria encontrado na entrada.

— Um cara no bar...

— Foi em um bar? Quando? — quis saber Percy, demonstrando uma curiosa mistura entre indignação por não ser convidado e repreensão.

Oliver riu antes de responder:

— De manhã quando fui comprar o café, mas não é a parte importante. Escutei que tinha uma biblioteca assombrada e pela descrição... o lugar é esse.

— Assombrada? — repetiu Adelle.

— Ninguém que entra jamais saiu e o que acontece é um mistério.

Vance estalou a língua, desacreditado e entediado. Na verdade, focou também no bar e questionou internamente se era comum um estabelecimento como aquele estar aberto tão cedo.

— Devem ser levados por fantasmas já que é assombrado — ponderou Percy.

— E se alguém vive aí e coloca um fim em quem entra? — sugeriu Beatrice.

— Temos dez anos de idade? — balbuciou Adelle. — Vamos pra casa, está fazendo frio.

Percy abriu um sorriso largo que na falta de luminosidade da noite se tornou apenas estranho. Era um rapaz alto e esguio, com roupas que sempre pareciam largas demais para seu corpo magro. A camisa úmida grudada a pele evidenciava sua clavícula e, tremendo de frio, estava ainda mais pálido.

— Quer um abraço também? — sugeriu Percy.

— Fique longe de mim — sibilou a moça de volta.

As risadas baixas não quebraram o humor de Vance, que àquela altura tinha se tornado o pior que poderiam obter dele. Sugestões de alguém fazendo o mal era acreditável, mas a polícia teria resolvido, então a opção de serem fantasmas causando alvoroço era o cúmulo.

— Suponho que esteja curioso para nos ter feito parar — disse e encarou Oliver, erguendo as sobrancelhas de modo inquisitivo e quase crítico.

— Pode ser divertido ir lá ver.

— Então subitamente nos tornamos exploradores ou detetives para algo que sabemos não ser verdade. — Vance passou a mão pelo rosto.

— Irritamos o homem da ciência — percebeu Percy e revirou os olhos em desagrado.

Para Vance não era necessário ser um homem da ciência para compreender certas coisas. Tratava muitos assuntos de forma que assumia ser extrema, mas ao mesmo tempo considerava ser simples. Se alguém morria, não se tornava algo incorpóreo para que flutuasse de um lugar para o outro sem rumo. Não haviam provas de que as pessoas se tornavam fantasmas, ou que almas vagavam pela terra, e se fosse verdade alguém teria provado. O fato era que também existiam muitas explicações diferentes para os fantasmas. Eram pessoas condenadas a viver entre os vivos por não desapegarem de suas vidas, ou quem sabe precisassem que os mistérios de sua partida fossem revelados para que pudessem descansar... O rapaz não exatamente fazia menos das explicações, apenas não considerava nenhuma delas por ainda não serem devidamente provadas ou se mostrarem mais consistentes. Se fantasmas fossem parte da verdade da vida, por teoricamente serem mortos no mundo dos vivos, considerava que seria algo de importância o suficiente para ser menos secreto.

Seu silêncio dissera cada palavra que se passava na mente, fazendo Percy e Oliver sorrirem como resposta.

— Considere um experimento — sugeriu Oliver.

— Nem pensar.

— Uma pesquisa — reforçou Percy.

— Tenho a mais absoluta certeza de que não pretendem fazer um artigo científico.

— Claro que não, Vance! É para ser divertido e estamos apenas tornando confortável para você — explicou Oliver, dando de ombros.

Aquele era o amigo que mais gostava e odiava ao mesmo tempo, o que não seria segredo para nenhum deles. Vinha de uma família nobre com negócios por muitos lugares, sendo o segundo filho seus problemas eram pequenos se chegasse a considerar que ele tinha algum tipo de problema para lidar. O irmão mais velho, esse sim, estava tendo boas e extensas aulas para aprender a cuidar do império comercial que um dia estaria em suas mãos. Por isso Oliver possuía manchinhas de sol que salpicavam seu nariz, a pele estava sempre bronzeada e reluzente e ele continuava acumulando um incrível talento para lidar com todo tipo de pessoa sem depender unicamente da boa aparência. Era bonito e inteligente a seu próprio modo, o que desagradava Vance quando o amigo surgia com as ideias bobas. Não surpreendentemente ninguém negava ou impedia quando acontecia. Talvez aqueles olhos dourados possuíssem um magnetismo ainda maior do que imaginava.

— Então vamos entrar para procurar fantasmas quando já estamos todos supondo que não existem? É o que chamam de diversão? — continuou o rapaz, com sono e agora irritado.

Recebeu então o olhar de Adelle que se encolheu quando o vento soprou a causando um arrepio.

— Deveria ir com eles, eu espero aqui — ela sugeriu ao esfregar uma mão na outra. — Pare de falar como nossos pais, jovem senhor.

Ele engoliu em seco ao imediatamente reconhecer que tinha feito outra vez. No final permanecia com eles, também, para não sentir que mesmo brilhando no primeiro lugar em tudo que realizava, não existiria espaço para ele além do lado daqueles que aguentavam sua arrogância. Os adultos de verdade apreciavam sua genialidade, não sua presença ou energia e como ultrapassava suas expectativas. Por mais que negasse com todas as suas forças, era tão infantil quanto os outros.

Suspirou ao caminhar até Adelle e tirou o sobretudo que usava, estendendo-o para ela. Conseguia ver as sombras dançando no seu olhar, o medo se contorcia dentro dela com o boato que Oliver havia repassado. Resistiu a vontade de perguntar se ela não gostaria de companhia mesmo para ficarem em silêncio na calçada, pois quando os curiosos deixassem a biblioteca trariam consigo relatos que a assustariam ainda mais. Mas se fosse junto poderia, pelo menos, desmentir cada exagero ou invenção com propriedade. Então cedeu.

— Certo. Que seja rápido. — Vance ajeitou o sobretudo sobre os ombros de Adelle. — Aposto que pegaram friagem e precisam se aquecer logo.

— Vou concordar porque lá dentro não deve ser tão quente — resmungou Beatrice, se agarrando ao braço de Percy. — Duvido que tenha uma lareira acesa.

As histórias de Volery nem sempre são sobre as pessoas que se foram e sim sobre o que aconteceu a elas. Na maioria das vezes nem mesmo sequer repassam os nomes daqueles que se perderam, como uma forma de deixar claro que jamais os verão novamente e para se desprenderem das memórias confusas e sem explicação. Há uma razão para que agora eles digam o nome de todos aqueles cinco amigos com clareza, pois todos tomaram decisões conscientes quando era meia noite.