A Biblioteca Assombrada
2 Death Waltz
Notas iniciais
Pequenas regras de conduta e cordialidade existem em todos os lugares. Bater à porta é um pequeno exemplo. Evita-se entrar em uma casa sem antes tocar o sino, ou entrar em quartos sem dar breves batidas na porta, e aguardar ser atendido. Talvez quando não se recebe resposta nenhuma seja compreensível entrar sem convite ou aprovação, dependendo das circunstâncias, mas em Volery os gestos de educação são levados mais a sério.
Beatrice fechou a mão e logo três batidas foram ouvidas. Os amigos espiaram pelo canto do olho com a mesma expressão de leve incredulidade, resultando em um sorriso nervoso da moça. Era apenas o costume se fazendo presente, entretanto, ela optou pelo correto em não abandonar a boa educação (mesmo que o objetivo fosse entrar furtivamente em um estabelecimento abandonado na madrugada). O erro, devemos sempre nos lembrar, foram os longos segundos de resposta que aqueles jovens receberam e ignoraram.
O silêncio indicava o vazio.
Oliver empurrou a porta dupla, abrindo caminho para a Biblioteca, e o início pareceu promissor pelo fato de não escutarem nenhum ranger com a ação realizada. Contemplaram o que conseguiram, sendo capazes de perceber as formas vagas das estantes que formavam longos corredores alguns metros à frente. Resquícios distantes de luz da lua exibiam o quão altas eram aquelas estantes, então imaginaram que havia janelas em algum ponto do outro lado da Biblioteca. Havia uma mistura de medo por antecipação, inquietação e expectativa sobre eles, exceto por Vance que permanecia sem ânimo. Entraram sem o receio adequado a não ser pela dúvida se encontrariam alguém ou algo intangível sobrevoando os livros e atravessando paredes.
— Vamos todos juntos? — perguntou Vance.
— Em duplas. — Oliver fechou a porta e em seguida retirou as alças dos suspensórios, realizando movimentos circulares dos ombros para aliviar sua pequena tensão. — Assim será mais fácil reagrupar.
Vance não enxergava nada além da silhueta do amigo e não precisaria de uma imagem clara para perceber que estava animado ao mesmo tempo que temeroso em realmente encontrar fantasmas.
— Por que precisamos separar? — quis saber Beatrice. — Se aparecer um monstro, por exemplo, lidar com ele com mais pessoas seria melhor.
O rapaz passou a mão pelo rosto, o sono se condensando a irritabilidade se atenuava o deixando mais desperto do que realmente gostaria de estar.
— Decidam de uma vez qual a criatura mágica estamos inutilmente procurando — pediu e soltou o ar pela boca. — Fantasmas perdidos ou monstros que vivem debaixo da cama?
— Saberemos quando vermos — respondeu Percy e voltou sua atenção para a moça segurando seu braço. — Em grupo demoraria mais e Adelle ficou sozinha lá fora.
— Exato — concordou Vance. — Em termos reais ela é a menos segura nesse momento.
Desprendeu-se então da atenção que direcionava aos outros três para que tudo terminasse o mais breve possível. Afinal a prioridade era retornar a presença de Adelle e seguirem para a pequena casa e colocar fim na noite exaustiva. Ainda cético, Vance foi o primeiro a seguir em direção as estantes com passos firmes e quase apressados. Escutou os passos de Oliver atrás de si, dando início a caça que considerava sem sentido. Não sabia com certeza o que deveria ser feito em uma busca por fantasmas, porém, imaginou que somente andar sem rumo seria o suficiente.
As vezes os filhos reclamam de sempre escutarem a mesma história ou lições de moral dos mais velhos. Infelizmente, para eles, a repetição se torna necessária para que compreendam e se lembrem com bastante clareza dos ensinamentos. Muitos entraram naquela misteriosa biblioteca quando a hesitação tornava o evento algo discreto, pouquíssimos saíram depois que as investigações começaram e apontavam que o local tinha ligação com os desaparecimentos. O que estava lá demorou para ser minimamente descoberto e temido, depois disso foi devidamente evitado por quem escutava o bom conselho.
Os quatro que agora perambulavam por aquele espaço repetiam o mesmo de tempos atrás. Não como os viajantes desavisados, é claro, mas como os moradores que sabiam do boato e decidiram arriscar. Carregavam exatamente o mesmo motivo daqueles que tiveram os corações quebrados pela busca interminável por seus fantasmas. O insulto estava na forma como procuravam pelo tudo e nada ao mesmo tempo. Por essa razão um sorriso de satisfação e nostalgia se formou nas sombras, ávido por conhecimento, e imagens esquecidas tremularam com o despertar. Vance não era o único entediado.
A Biblioteca se mostrava um ambiente muito mais gelado que as ruas com o vento cortante a cada esquina. O rapaz imaginou que poderia ser considerado um local histórico a julgar pela fachada simples e o ar rústico por ser erguido com pedras irregulares. A luz fraca da lua iluminava pouco internamente e concedia apenas o vislumbre dos livros em pontos altos, mas o rapaz não se limitou a seguir somente em frente e se arriscou a seguir para a direita. Não queria acabar batendo contra nada ou derrubar livros, mal seria capaz de os recolher naquele breu completo de onde estava, e hesitantemente esticou a mão. Seus dedos tocaram os livros, correndo pelos títulos, e seguiu para madeira da estante. Vance então constatou a poeira e teias de aranha e afastou a mão em poucos segundos. Deduziu que era um lugar abandonado ou a limpeza ocorria entre longos períodos de tempo. Apostou na primeira opção ao se lembrar de ter identificado musgo nas paredes externas quando encontraram a Biblioteca.
Bateu a mão na calça, limpando-a, enquanto o som da caminhada de Percy e Beatrice se distanciava cada vez mais. Era apenas ele e Oliver caso ignorasse como a cada passo havia uma névoa caindo sobre ambos. Vance pouco falava, diferente do amigo que gostava muito de dialogar, e se a ausência de conversa com muitas pessoas era reconfortante... com Oliver se tornava torturante.
— Está odiando tanto assim?
Suspirou, esperava que o amigo falasse sobre a possibilidade de um fantasma estar escondido atrás dos livros.
— Por que pergunta, Oliver?
— Não estou dizendo que o planejado era entrar aqui e tudo mais. A intenção era tirar o seu nariz daqueles livros.
— Estava incomodado por eu estar estudando? Algumas pessoas gostam disso.
— Me preocupei com as olheiras e enxaquecas — revelou Oliver, apertando um pouco seu ombro para que parasse de andar. — Elas pioraram e não tem como me convencer do contrário.
O rapaz tinha certeza de esconder muito bem quando escapava para os estudos noturnos que aconteciam de tempos em tempos. Se certificava de deixar a cama silenciosamente uma hora e meia depois de todos terem pegado no sono, isso quando compartilhavam o mesmo quarto, e então se esgueirava para qualquer outro cômodo. Acendia uma vela ou lamparina e passava o tempo que fosse necessário estudando e trabalhando em suas teorias. Retornava para a cama pouco antes do sol nascer e dormia pouco, acordando com Beatrice abrindo as janelas e deixando os raios solares incomodarem seus olhos. Seus sinais de enxaqueca eram claros, embora algumas pessoas não se atentassem a isso. Nunca fora alguém tão irritado desde que começara a estudar com mais afinco, sua sensibilidade ao som e a luz iam e voltavam o que o configuravam somente como ranzinza. Ninguém parecia suspeitar que sua saúde estava ligeiramente afetada.
Sentiu-se encurralado por mais que a mão de Oliver tivesse afrouxado o aperto e houvesse se tornado apenas um toque compreensivo.
Vance procurou manter-se atento na conversa, procurando uma boa desculpa, entretanto, ao encarar a ausência de luz a sua frente a noção de espaço se tornou outro ponto de preocupação. Aquele lugar começava a passar a impressão de ser maior do que parecia. O quanto tinham andado? Sentia que poderiam continuar em frente, para qualquer lado, que não encontraria um fim. Estranhamente também começava a ter a sensação de que estavam cercados, como se as estantes que os rodeavam se estreitassem naquele instante em que pararam. Respirou fundo ao pensar não ser possível que estivesse ficando inconscientemente afetado pelo boato. Então retornou todo seu foco para a confissão do amigo, ainda que fosse tão desconcertante quanto a sensação de espaço se distorcendo subitamente. Teve certeza de que Oliver não sabia de suas escapadas noturnas mesmo quando se encontravam para diversão em dias de folga, caso ele soubesse teria inventado uma travessura a luz do dia e não consideraria estender ainda mais suas noites.
— Não está sendo tão ruim — desconversou Vance. — Você deu um pulo e caiu quando o caranguejo passou perto do seu pé.
Aquela cena não sairia tão cedo de sua mente. Oliver tinha altura mediana e um porte físico notável, o qual Beatrice e Adelle chamavam de elegante, e ver alguém como ele se assustar por algo que mal lhe deu a mínima atenção havia sido a melhor parte daquela aventura indesejada.
— Isso não aconteceu — afirmou o outro.
Os dois riram e tornaram a caminhar. Oliver se atentou a única parte visível no ponto alto e indicou que virassem à esquerda quando o fraco feixe de luz mostrou um espaço entre as estantes. Seguiram ainda receosos, pois para onde quer que olhassem nada viam com exatidão.
Os segundos passavam lentamente, muito mais do que antes, conforme davam passos sem rumo. Vance desagradava-se muito da forma como as sombras se tornavam inexplicavelmente espessas a sua volta e o ar gelado atravessava sua camisa o fazendo se arrepiar. De certa maneira ele julgou ser parecido com o lado de fora. Deprimente, estranho e desconfortável. A parte ruim era não saber se tinha alguém ali dentro por mais que sua mente o afirmasse que a resposta seria negativa.
— Bea!
Vance deixou escapar um som abafado por entre os lábios, seu corpo estremeceu por um instante como a sensação de estar caindo, e em seguida os passos altos ecoaram pela biblioteca junto a uma gargalhada feminina e aguda que conhecia muito bem.
— Volta aqui! — bradou Percy novamente.
Respirou aliviado depois do pequeno susto.
— Me sinto enganado, ela atuou muito bem aquele medo — resmungou Oliver.
— Imagine o quanto ele deve estar sentindo agora.
A brincadeira que acontecia metros de distância o fez relaxar o corpo, se lembrando do motivo de entrar na biblioteca. Percy estar correndo atrás da amiga depois de ter caído em uma pegadinha era um reforço a sua opinião: nada de estranho aconteceria além do que eles próprios causassem. O máximo que talvez viesse a virar história, em sua teoria, seria um gato pulando a janela e fazendo ruídos que os assustassem até que ouvissem um miado debochado.
A risada de Beatrice ainda podia ser ouvida, assim como a corrida que disputava com Percy, impedindo que escutassem o mais importante: as fechaduras das portas e trancas nas janelas. Nada obstante aqueles dois jovens correndo estavam longe de serem os únicos em busca de diversão através de um susto.
Vance começava a se inquietar com a impressão de estar sendo observado, quando tinha certeza de que o amigo estava do seu lado e muito mais atento no caminho. As vezes os ombros se esbarravam e por mais que a justificativa de Oliver fosse de ficarem próximos para não se perderem, o rapaz suspeitava que estivesse apreensivo desde o início. Ponderou sobre o boato e o motivo de alguém compartilhar tal bobagem, provavelmente seria uma estratégia para enganar as pessoas e as assustar.
— O homem no bar falou tão vagamente sobre essa biblioteca?
— Estou sentindo uma ponta de interesse? — perguntou Oliver de volta, o outro soube que estava sorrindo cinicamente.
— Longe de ser por acreditar em fantasmas.
— Sei. Ele disse que pessoas desapareceram e na maioria das vezes não encontravam pistas consistentes sobre os casos. Um dos desaparecidos foi visto pela última vez entrando aqui e todos que vieram procurar sumiram também.
Vance estagnou, arregalando os olhos, e a sugestão de Beatrice antes de entrarem ali pareceu muito plausível. Avaliou o quão realístico era que alguém surgisse das sombras para os render e no quanto era perigoso. Ele não tinha a aparência frágil de Percy, mas também não possuía a elegância de Oliver. Se considerava um meio termo, detalhe que nunca o incomodou, mas na situação atual era um problema por suas inabilidades de defesa pessoal.
— Nos trouxe para uma cena de crime?! — exasperou-se Vance.
— Seria preocupante caso eu tivesse parado de escutar e ignorado a parte das suspeitas. Ele também não tinha decidido qual a criatura mágica.
— Melhor irmos embora.
— Isso tem mais de centenas de anos, não tem peri...
A fala de Oliver foi interrompida por uma voz mansa e baixa. Ouviram a canção quase em sussurro que corria por entre livros e poeira, os deixando alertas. Vance inspirou profundamente, olhando de um lado para o outro, e nada encontrava.
— No que Beatrice está pensando? — questionou Oliver. — Não vamos cair nessa.
— Ela aprendeu a tocar piano e dispensou aulas de canto.
Sua pulsação aumentava gradativamente, a apreensão fluía junto ao sangue conforme ele percebia que os sons dos passos dos outros amigos tinham se perdido. Deveriam ter parado também para escutar a canção de palavras em uma língua desconhecida. O significado era incompreensível, mas familiar, e o único detalhe que Vance conseguia decifrar era o deleite em cada verso. Tentou localizar a direção exata da voz, sendo uma tarefa que a cada segundo se complicava pelo sangue tinindo em suas orelhas e o ensurdecendo pela afirmação se repetindo em sua mente. Tinha alguém na biblioteca que entraram.
Ninguém realmente saberia dizer se esse era o objetivo: amedrontar antes de atacar. Nunca fizera real importância, pois nem sempre acontecia dessa maneira e a maioria dos que pisaram na Biblioteca não tiveram tempo de reagir. Simplesmente folhearam livros, absorvendo histórias ou procurando compreender informações, quando subitamente passaram adiante o que tinham obtido em suas vidas quebrando a certeza de que ninguém roubaria.
Novamente veio o desconforto como se o olhar de alguém estivesse fixo em si e acompanhasse cada mínimo movimento involuntário que realizava. A cada estímulo Vance tentava buscar uma forma racional de lidar com o que acontecia. Se havia uma pessoa cantando na biblioteca significava que fantasmas estavam fora de cogitação. Todavia, como pensado anteriormente, se fosse um alguém com o intuito de fazer mal... Assim a mente do rapaz perdeu-se na incoerência trazida pelo medo. O amigo dissera que os desaparecimentos aconteceram há mais de cem anos, porém, ali estavam escutando uma voz misteriosa.
Oliver agarrou a manga da camisa de Vance, apertando-a com força, estando tão alarmado com aquilo quanto o outro. A canção parecia os chamar para uma dança que prontamente recusariam sem pensar duas vezes. Naquele instante Vance decidiu colocar um fim em seus pensamentos confusos e concluir da forma mais clara que conseguia: era uma péssima brincadeira de mal gosto daquele homem no bar.
— Precisamos nos mover, ficar parado será pior — disse Oliver.
O rapaz assentiu, não se importava se era armação. O fato de que qualquer coisa poderia acontecer, e qualquer “bu” proferido seria capaz de fazê-lo gritar de susto, o fazia desgostar daquela situação.
Correram no escuro sem direção certa, esbarrando nos livros vez ou outra quando tentavam dobrar um corredor e se chocavam contra uma estante. A canção permanecia tão tranquila e melodiosa que mantinha o sangue de Vance correndo por suas veias movido pelo temor. A cada avanço o aperto da mão de Oliver em seu pulso o mantinha minimamente aliviado, mas se assustava ao começar a compreender aquelas palavras melodiosas ecoando pelos caminhos da Biblioteca. Identificou não ser exatamente uma língua desconhecida, era antiga e esquecida depois de influenciar o idioma que possuíram agora.
A canção obteve uma leve pausa para uma risadinha ansiosa conforme apertavam o passo. Percebeu que aquela desconhecida cantando poderia estar também limitada a falta de luminosidade, entretanto, sabia muito mais que eles. Afinal encontravam-se dançando ao som de sua voz e Vance estava correto no pensamento. Quem cantava com satisfação, os convidando para uma valsa, conhecia muito bem o vazio. Ele está sempre aguardando ansioso para devorar o que ou quem se atreve a se jogar em seu abismo.
Fale com o autor