A Biblioteca Assombrada
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Antes o frio do ambiente incomodava cada um deles, o que se tornou sem importância quando a urgência os envolveu completamente e acelerava as batidas de seus corações. Cada um daqueles jovens ficava cada vez mais sensível aos estímulos, principalmente os que em nada eram intencionais. A corrida de ambas as duplas na tentativa de encontrarem a entrada e saída da Biblioteca amedrontava uns aos outros. Sendo impossível diferenciar quem era a desconhecida entre eles, se mantinham afastados de qualquer som indicativo de outra presença.
O desespero inicial fizera Oliver reagir impensadamente, aquele sentimento incitou sua necessidade de se mover a qualquer custo, e a resposta passiva de Vance piorou o impulso. Em momento algum tentaram refazer o caminho pelo qual tinham seguido e, por fim, perderam-se. Na verdade, apenas constatavam estarem perdidos oficialmente. Desde que atravessaram as portas sem serem convidados caminhavam como se estivessem de olhos fechados, não sabiam onde estavam ou para onde iam desde o início. Uma ação sem objetivo pode levar a lugar nenhum ou guiar a destinos incríveis, para a infelicidade daqueles amigos eles descobririam cedo o seu desfecho.
Quando a mulher deixou de cantar, por razões desconhecidas a todos, Vance e Oliver decidiram parar também. Se alguém estava perambulando com as mesmas condições, seria complicado os acharem naquela escuridão e o barulho seria o único indicativo certeiro. O absoluto silêncio pela biblioteca anunciou que Beatrice e Percy deveriam ter pensado exatamente o mesmo. Oliver não soltou o amigo, ainda segurava seu pulso com firmeza, e respirava descompassado. Vance compartilhava daquele estado e começava a controlar sua respiração, seu peito subia e descia cada vez mais devagar.
Ele estava atordoado com a mudança. Se dava conta de como aquele espaço poderia ser muito maior do que parecia por fora, o que contrariava aquela breve sensação anterior de que o ambiente se fechava e o cercava limitando seus movimentos. Ergueu o olhar para o topo da estante ao seu lado e o vislumbre dela tinha desaparecido. Aquilo o preocupou quando tinha terminado de respirar um pouco mais calmo, pois logo percebeu que o tempo para descanso seria curto e organizou as informações que tinha. Das portas da misteriosa biblioteca eles eram capazes de enxergar a luz vinda das janelas, mesmo que somente dessem o vislumbre do topo das estantes, o que ainda deveria ser impossível levando em conta os incontáveis metros daquele lugar. Porém tentou encontrar algum sentido. A luz fraca fora vista somente para onde seguiu em frente inicialmente, então as janelas deveriam estar localizadas no ponto central daquele espaço. Recordou-se de terem virado para algum lado depois de conversarem, fez um esforço para lembrar a direção e não obteve resposta alguma de sua memória. Como poderia se lembrar de qualquer detalhe se estavam totalmente no breu? Aceitou, infelizmente, que a corrida sem rumo os levou ainda mais para a esquerda ou direita, onde não havia janelas para prover qualquer resquício de luminosidade.
— Temos que encontrar o centro da biblioteca — sussurrou baixo. — É onde tem luz.
Oliver balançou a cabeça positivamente, gesto que o outro não foi capaz de perceber.
— Escutou?
— Sim — respondeu Oliver, tão baixo que Vance se inclinou para o lado para escutar melhor. — E... se aquilo for verdade e não sairmos daqui?
O rapaz empertigou-se ao perceber o tom arrependido. Encorajar pessoas poderia ser sua última habilidade, caso se atrevesse a dizer que a possuía, e mesmo naquele instante recusava a ideia de tentar algo do qual estava longe de dominar. Decidiu seguir a opção mais adequada ao seu psicológico e ao do amigo: seria consolado por seus argumentos e opiniões coerentes.
— Estou suspeitando que foi enganado e o homem deve ter pagado alguém pra nos assustar. É totalmente ilógico que o responsável pelos desaparecimentos ainda esteja aqui, mais estranho ainda seria pensar que passou a prática adiante... Não. Pode ser possível, mas acredito ser improvável que tenha perpetuado por centenas de anos. E, muito sinceramente, para mim os fantasmas estão longe de serem os culpados se não existem.
— Acredita que podemos andar tranquilamente? — questionou Oliver.
— Está escuro e não sabemos exatamente o que vai acontecer, a cautela pode continuar sendo aplicada. Vamos levar um susto de qualquer jeito e mal sabemos como e quando.
A decisão dos rapazes pode ser considerada acertada, a cautela jamais deixaria de ser uma boa decisão quando o inimigo ainda era desconhecido. Devemos somente perceber, no entanto, que a fala de Vance foi capaz de tranquilizar aqueles corações assustados. Parecia fazer sentido, então relaxaram por alguns instantes, o que não gerou o melhor resultado para nenhum deles quando o dono daquele sorriso nostálgico e ansioso finalmente decidiu estender a mão.
Quando voltaram a caminhar tomavam cuidado para que permanecessem silenciosos. Oliver ia na frente e tateando uma estante, para evitar a batida contra os livros, e Vance ficou a cargo de encontrar os fracos feixes de luz que nem mesmo chegariam a iluminar o piso. Atentou-se demasiadamente em sua tarefa, ansioso para encontrar a pista que os levaria de volta para a segurança. O avanço da dupla se tornou letárgico em razão da cautela, por isso Vance deixou de encontrar tempo para xingar internamente o fato de a situação transformar o seu precioso silêncio em algo inquietante e desconfortável.
Esquadrinhando a escuridão ele aguardava qualquer sinal daquela moça que cantara mais cedo, queria logo que desse o susto final para que pudessem sair para o ar frio da noite. Lembrou-se de Adelle na calçada, sentando-se no meio fio enquanto adentravam a Biblioteca. Saber que a amiga estava livre daquele desespero o trazia o mínimo de satisfação. Quem sabe ela não estaria aguardando com o homem do bar e risse diante deles quando tudo terminasse. Ela não ria alto como Beatrice, possuindo gestos e reações contidas. Provavelmente seguraria o riso e aos poucos se deixaria levar, cobriria os lábios com as mãos e abaixaria o olhar. Depois perguntaria se estavam bem e, sendo quem era, não economizaria nas falas ácidas para os repreender e provocar. Vance ardentemente desejou pelo findar da brincadeira sem graça, pois quando saísse por aquelas portas a abraçaria e poderia gritar indignado com os amigos por terem apoiado a péssima ideia. Foi o último pensamento feliz antes do fim profundo no qual se afundou.
Ouviram novamente sapatos batendo contra o piso em um ritmo apressado como se estivessem em fuga. Oliver e Vance pararam onde estavam, envolvidos em dúvida, e o discurso tranquilizador do rapaz começava a ser testado. Inesperadamente, ou nem tanto, Oliver não permitiu que ficassem parados enquanto aqueles passos se tornavam mais altos pelos corredores. Contrariando a maneira lenta com a qual andavam anteriormente eles poderiam dizer facilmente que a qualquer momento poderiam cair, afinal se encontravam com um ritmo desajeitadamente apressado para tentar reencontrar os amigos.
O modo oscilante como a noite seguia deixava Vance desnorteado. A princípio tiveram a calma, depois um susto com a travessura de Beatrice seguida da confusão e urgência com uma canção de morte. Se perguntou o quanto faltava para desmaiar e como se alguém pudesse escutar seus pensamentos e aflições, o que viera a seguir foi como uma resposta. Quando ele desmaiaria? Talvez em breve.
O grito estridente de Beatrice o fizera congelar junto do amigo, estagnando novamente, e sentiu o leve tremor que vinha da mão de Oliver segurando seu pulso. O desejo de saber o que acontecia aumentava de segundo em segundo. A amiga gritava frases soltas e palavras mergulhadas em desespero: “não”, “me solte” e “Percy”. O torpor pelo desconhecido caindo sobre eles manteve seus pés presos ao chão, como uma árvore tem suas raízes fundas na terra, e cada músculo do corpo de Vance se enrijeceu quando Percy desfez o nó na garganta e gritou o nome da amiga em resposta. O som criou uma rachadura no coração de Vance, na rocha que pesava em seu peito e que falsamente se mantinha intacta. Percy era o amigo sorridente, que sempre falava serenamente e cantarolava ao realizar tarefas do seu cotidiano ou fingir estar distraído. Nunca tivera a oportunidade de ouvi-lo expressar medo e não imaginava que poderia ser tão cortante como uma lâmina.
Perguntou-se quão séria era aquela brincadeira, caso realmente fosse, pois escutava com clareza o choro de Beatrice misturado aos sons de dor que emitia entre soluços. Uma única pergunta ecoava em sua mente: o que estava acontecendo?
— Percy! — chamou Oliver ao ser tomado pela necessidade de encontrá-lo. — Percy!
Vance quase tropeçou nos próprios pés quando Oliver o puxou, incitando-o a se mexer, e dispararam pelo corredor novamente. O rapaz não foi capaz de fazer nada além de seguir o amigo que continuava tateando os livros para seguirem em frente. A voz de Oliver se fizera presente, forte e imponente, permitindo a prioridade em ajudar se sobressair ao continuar chamando pelo outro. Contudo o ar grave permanecia presente em seu tom, ele sentia tanto medo quanto urgência. Vance se encontrava tão absorto no quanto aquilo poderia ser real e fatal para todos que não conseguia encontrar mais os argumentos lógicos para acalmar a si mesmo ou mais ninguém. O desaparecer da voz de Beatrice criou sentimentos conflitantes. A ausência dos gritos significava que não havia mais razão para tal. Vance tentou e falhou em evitar pensar nessa razão.
Oliver o fazia andar rápido e entre os gritos trocados por ele e Percy, onde chamavam um pelo outro, e um ruído incômodo misterioso era contínuo e voraz que há muito não se escutava por ali. Mas sugiro que evite se enganar, o que agia no vazio daquela biblioteca milenar sempre possuiu equilíbrio. Imagino que tenha deduzido o momento, era a primeira visita que recebia em muitos anos e por isso parecia insaciável. Os ensinamentos em Volery se voltaram para esse detalhe importante: nunca provocar ou incitar interesse principalmente de quem aguardava pelo menor dos incentivos.
Quando estavam perto do reencontro, Vance sabia que em nada seria tranquilizante pela verdade que se fazia presente a cada inspirar e expirar involuntário. A certeza crescente em seu peito contrariava a insistente esperança que tentava se agarrar em pensamento. Queria acreditar que seus ouvidos o tinham enganado, que aquele ruído não poderia ser o que havia imaginado e causado um tremor por todo seu corpo. Perdido em sua própria confusão, apenas percebeu que Percy estava em poucos metros de distância quando respondeu a algo dito por Oliver:
— Eu vou até vocês.
Vance fechou os olhos ao parar novamente e perceber o quanto aquela correria o tinha cansado, ao menos saber que o amigo se aproximaria trouxera quietação a preocupação que tivera com ele também. Foram segundos valiosos antes que caísse uma segunda vez na armadilha que criou para ele e Oliver ao descartar a opção correta. Aquela fala longa com firmeza o suficiente para os acalmar e fazê-los andar de cabeça erguida por alguns momentos resultou em baixar a guarda, por mais que houvessem buscado pela cautela, tornando aquele instante ainda pior.
O ataque fora inesperado e dolorido, arrancando toda aquela certeza de que se uniriam na entrada da biblioteca em algum momento. A segunda tentativa bem sucedida trouxe aflição por toda a extensão da pele de Vance quando teve a oportunidade de escutar claramente o que acontecia. Imaginou que o reencontro com o amigo não o traria calma porquanto confirmaria suas suspeitas sobre o que ocorreu a Beatrice, mas fora além.
Percy não perdera tempo e seguiu em frente com todas as forças quando estavam no mesmo corredor, Vance presumiu que talvez oito metros os separassem naquele instante decisivo. O barulho do sapato de Percy contra o piso deu lugar a um baque abafado e um grunhido de dor e, pela primeira vez desde o instante que perderam uma amiga, Vance reagiu. Seus instintos finalmente começaram a falar, ou ele quem decidira de uma vez os escutar e permitir que o guiasse quando a inércia de seus pensamentos o incomodara diante de algo. Oliver o soltou e deu passos à frente, porém, foi impedido pela mão de Vance se fechando em uma parte de sua camisa forçando-o a regressar.
Pensou que o susto de Percy ser agarrado houvesse o paralisado, o calando, pois nada além explicaria o silêncio após a queda no piso. Somente quando aquele ruído retornou que ele gritou tão alto quanto Beatrice havia feito. Mesmo com a voz preenchendo a mente de Vance, aquele som mais baixo que os gritos era assustadoramente nítido e forte. O aperto na camisa de Oliver acabou se desfazendo conforme ele sentia o âmago se contorcer, virou um pouco o rosto quando a aversão o atingiu e sua resposta para o que acontecia ser afirmada. Nada enxergava a sua frente, mas também fechou os olhos encontrando mais escuridão. Todo aquele tempo o que definia como ruído se revelou claramente. O som de ossos se partindo.
Percy se contorcia em dor, na ânsia de ao menos entender o que o partia e consumia. Os outros dois escutavam as tentativas falhas dele em bater contra aquilo, em escapar daquelas garras... Por esse motivo permaneceram angustiantemente parados, com o choque de saberem que o perigo estava assustadoramente perto e distante de uma maneira estranha. Permaneciam no escuro, sem ver nada a sua frente, mas ambos estavam conscientes de estarem diante um desconhecido singular. Embora soubessem o que o desconhecido fazia bem a sua frente, admitiam que se encontravam perdidos.
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