A Bella e a Fera
12 Capítulo 12 - Tudo Sempre Tem Dois Lados
"Todos nós vivemos do passado, e pelo passado morremos."
(Goethe)
(Narrado por Edward Cullen)
Fechei meus olhos, revivendo as varias cenas que lutei para enterrar. Ao mesmo tempo que lutava para mantê-las bem claras. Bem vividas. Para que sempre me lembrem de quem eu sou.
Um monstro.
-- Eu morri em 1849. — comecei de olhos fechados, revivendo em minha mente cada detalhe daquele passado.
-- Eu sei. — ela murmurou com a voz abafada. — Carlisle disse que todos vocês morreram em 1849.
-- Sim. Todos. — confirmei. — Inclusive aqueles que não estão entre nós.
Ouvi ela ofegar.
-- De quem está falando?
Abri meus olhos, e continuei de costas para ela. Não queria encara-la.
-- Olhe ao seu redor, Bella. O que vê?
A respiração de Isabella estava desregulada, e seu coração acelerava como se estivesse com medo.
-- Máscaras. — respondeu, depois de um tempo. — Muitas máscaras. Centenas. Diria mais de duzentas.
-- Sim. 313 para ser exato. Exatamente 314 máscaras. — corrigi. — O que você vê nessas máscaras, Bella? O que elas tem em comum umas com as outras?
Ouvi seu pescoço virando em todas as direções, enquanto seus pés seguiam para a prateleira ao seu lado esquerdo.
-- Oh Meu Deus. — ouvi seu murmúrio de espanto. — Estão... estão... todas... queimadas.
-- Sim. — concordei. — Todas queimadas.
-- Por que? — ela perguntou em um chiado baixo. Como se estivesse com medo de perguntar. — Por que estão todas queimadas?
Olhei mais uma vez para a árvore distante, revendo aqueles momentos em minha mente.
-- Porque foi assim que seus antigos usuários morreram. — respondi. Mas isso não era completamente verdade.
-- Queimados?
Não tinha porque esconder.
-- Na teoria sim. Na pratica apenas seus corpos queimaram. A grande maioria já estava morta.
Ouvir seu ofegar. Ela parecia estar juntando as peças.
-- E o que os matou?
-- Nós!
Continuei olhando para fora, enquanto seu silêncio me incomodava. Ela estava quieta, quase sem respirar. Como se estivesse congelada.
-- Vocês? — perguntou por fim, com a voz engasgada. Parecia que estava forçando para sair algum som.
-- Sim. Eu e minha familia.
Mais silêncio.
-- Vocês mataram todos?
-- Todos.
-- Por que? — sua voz era apenas um suspiro.
-- Sede. Raiva. Dor. — respondi pausadamente. — Não saberia responder com precisão. Foi logo depois de sermos transformados.
-- Por que estavam todos de máscaras?
-- Era a festa de noivado de Rose e Emmet. Um baile a fantasia dado pelos pais de Jasper e Rose. — respondi.
E as imagens começaram a invadir minha mente, enquanto as palavras começavam a sair.
[Flashback de Edward Cullen]
13 de setembro de 1849.
Forks, Washington. Estados Unidos da América.
Casa dos Cullen's. Sala de jantar.
Estavamos todos sentados na grande mesa de madeira da sala de jantar. Até mesmo Rose e Jazz estavam aqui.
Meus pais haviam convecido o Sr e a Sra. Hale, a deixarem eles passarem o fim de semana conosco, para comemorarmos o noivado de Emmett e Rosalie.
O sorriso de Rose era jubiloso, como se ela estivesse realizando um sonho, há muito tempo esperado.
Emmett, por sua vez, quase pulava de felicidade. A alegria por estar casando com a mulher que amava era contagiante. Seus olhos brilhavam, como se refletissem diamantes.
E eu pensei que meus olhos também brilhariam daquela maneira, quando chegasse minha vez. Quando a visse, entrando de véu e grinalda, pelas portas da igreja de Congregational, de braços dados com seu pai, sorrindo para mim.
Para se tornar Minha. Minha mulher. Minha esposa. Minha companheira.
A mulher da minha vida. A Única.
Ela. Isabel.
Minha Bel.
Para sempre.
Suspirei, pensando que ela deveria estar ali, conosco.
-- Ela vai aparecer, Edward. — Alice falou ao meu lado, em um sussuro baixo.
Alice sempre sabia o que iria acontecer.
Para alguns isso soaria extraordinário, anormal, até mesmo ilúcido. Mas Alice tinha pequenas visões sobre o futuro.
-- Não entendo porque não está aqui. — comentei no mesmo volume de voz. — Ela anda meio sombria. Quieta. Parece melancólica.
Alice deu de ombros, pensativa.
-- Você acha que aconteceu alguma coisa, do qual ela não nós contou? — perguntou-me.
-- Responda-me você. É você quem prevê o futuro.
-- O futuro, Edward, não o passado. E quando estavamos no passado não vi nada de interessante no futuro. — ela conseguia me confundir.
-- Tente ver quando ela vira me ver. — pedi, ignorando suas ultimas palavras.
Ela suspirou.
-- Eu não sei como isso funciona, Edward. Eu não tenho controle sobre isso, e você sabe muito bem disso.
Eu a encarei, de canto de olho. Ela estava certa.
Ouvi seu suspiro mais uma vez, e estranhamente eu sabia que não era por causa de Isabel.
Era por Jasper. Mas como eu conseguia compreender minha irmã tão bem?
-- Eu queria poder ver o que houve com Jasper. — Alice murmurou, confirmando o que eu já imaginava.
Olhei para Jazz a minha frente de cabeça baixa, e olhos desfocados.
Era incrivel como ele era uma pessoa comunicativa. As pessoas pareciam ficar triste, só em vê-lo triste. Suas emoções pareciam infectar os seres em sua volta, como vírus.
Mas eu sabia o que estava acontecendo com ele. Surpreendentemente alguma coisa em mim dizia que era por Alice.
O fato dela se manter tão firme, em querer esperar para se casar.
Não é de nosso costume, fazer isso. Normalmente os pais obrigam as filhas a se casarem.
Mas meus pais não. Meus pais respeitam sua decisão. E Jasper?
Jasper à ama demais. Mesmo que não concorde com sua vontade. Ele à ama, e faria tudo por ela. Até mesmo esperar.
Meus pais, pareciam muito felizes, com o noivado de Emmett e Rose. Mas para dizer a verdade, desde que eu e Isabel começamos a namorar, eles vivem sorrindo. O tempo todo. Como se eles não desejassem mais nada, do que nos ver felizes e acompanhados.
-- Senhor Carlisle. — Lucy, nossa empregada, chamou.
-- Sim, Lucy? — meu pai respondeu, olhando-a.
-- Tem uma moça, e dois senhores, querendo conversar com o senhor.
-- Onde estão?
-- Na porta. Esperando para dirigirem-lhes a palavra.
-- Certo, mande-os entrar. Acomode-os na sala de visitas, já estou indo para lá.
Lucy saiu, sorrindo.
-- Tem certeza, meu bem? Você nem sabe quem são.
-- Eu sei quem são, querida. — meu pai respondeu se levantando, com um sorriso fraco. — Com licença.
Fiquei olhando meu pai se retirar, e sabia que não era coisa boa. Olhei para Jasper a minha frente que também encarava Carlisle, com uma sobrancelha erguida, e com a feição preocupada. Como se sentisse que algo ruim estava para acontecer.
Alice me cutucou e me olhou receiosa.
-- O que você viu? — murmurei, para apenas Jasper escutar.
Jasper sabia do pequeno dom de Alice, embora mantessemos isso em completo segredo.
-- Eu não sei. — respondeu em tom baixo. — Estava confuso. Tem uma ruiva, ela parecia nervosa.
E então eu visualizei a ruiva, como se tivesse vendo-a.
Acreditando que isso fosse um produto de minha imaginação, ignorei.
-- Ei, o que vocês tanto cochicham ai? — Emmett perguntou rindo. — Fofocando, é?
-- Nada de interessante, Em. — Alice respondeu, colocando um sorriso nos lábios. — Sei que já brindamos à isso muitas vezes. Mas que tal mais uma? Ao casamento de Emmett e Rose.
Brindou levantando sua taça, o qual foi seguida por todos.
Alice sabia bem como distrair alguém.
Mas quando colocavamos nossos copos novamente na mesa, um barulho alto de algo se quebrando soou, ecoando por todos os lados.
Seguido de vozes alteradas.
-- O que foi isso? — Rose perguntou, se levantando com o susto.
-- Carlisle. — Esme murmurou em voz baixa, e com os olhos pregados na saída da sala de jantar.
-- Fiquem aqui. — pediu Emmett, olhando para Rose, Alice e Esme.
Mas Esme e Alice já estavam saindo porta à fora, junto com Jasper e eu.
-- Nem pensar, Emmett. — ouvi Rose exclamar, antes de percebê-la atrás de mim.
Estavamos chegando na sala de visitas, e começamos a entender o que as vozes alteradas diziam.
-- ISSO NAO FOI UM PEDIDO, CULLEN. — era a voz de uma mulher. E no mesmo instante eu sabia que ela estava pensando em matá-lo.
Senti minha respiração ficar descompassada. Matá-lo? Não podia ser. Ela não podia. Eu não iria permitir. Ele era meu pai.
-- Eu não irei fazer isso. — a voz calma de meu pai se destacava no meio das varias alteradas.
-- Não estamos pedindo, doutor. — disse uma voz grossa e ameaçadora.
-- De maneira nenhuma. — meu pai disse novamente, e uma nota de desespero apareceu em sua voz. — Podem me matar, mas não farei isso. São pessoas, não comida. Não posso simplesmente oferece-las para vocês em uma bandeja de prata.
-- São eles... ou você, doutor. — avisou a mesma voz grossa.
E então, felizmente chegamos a porta, e Emmett praticamente a arrombou.
-- Ah, adoro pratos de entrada, antes do banquete principal. — o dono da voz ameaçadora comentou, enquanto nos olhava.
Ele era alto, e tinha cabelos loiros e compridos, até a altura dos ombros, e olhos de um castanho escuro. Um castanho estranho.
-- James. — um homem alto e negro, o chamou, colocando a mão em seu peito, e o empurrando para longe da porta.
-- E por que não? — o loiro, que parecia se chamar James perguntou. — A baixinha tem um cheiro... delicioso.
Emmett e Jasper se colocaram na frente de Alice, antes mesmo que ele dissesse mais alguma coisa.
James riu.
Eu estava ocupado prestando atenção na ruiva. Ela era exatamente igual ao que eu havia imaginado.
Não poderia ter sido minha imaginação. Era idêntica.
-- Creio, que terei que pedir para se retirarem. — Carlisle falou seco, mas educado.
-- Acho que é o melhor... por enquanto. — o homem negro concordou, olhando para os outros dois. — James, Victoria... vamos.
-- Agora que a noite começou a ficar interessante? — James comentou com um sorriso malicioso.
-- James, por favor, eles não. — meu pai murmurou, em um tom de voz suplicante. Um tom que eu nunca havia escutado sair de seus lábios.
-- Certeza, doutor?
-- Vamos James.
-- Já estou indo, Laurent.
A ruiva olhou para Carlisle.
-- Nós voltaremos, Cullen. — murmurou, antes de seguir para porta, enquanto todos nós, nos distanciavamos para eles passarem.
-- Com toda a certeza. — o loiro concordou rindo, de um jeito doentio, enquanto passava por Alice, e dilatava as narinas perto de seu pescoço, fazendo Emmett e Jasper ficarem rigidos.
-- Pense melhor no assunto, Carlisle. Não consiguirei segurar James e Victoria.
-- Pensarei Laurent. Mas não alimente esperanças.
O homem que parecia se chamar Laurent, concordou com a cabeça, antes de se retirar com elegância.
-- Boa noite. — disse educadamente.
Quando ouvimos a enorme porta de entrada sendo fechada, todos nós olhamos para Carlisle, interrogativamente.
Ele apenas abaixou a cabeça, parecendo cansado.
E enquanto eu o encarava fixamente, vi em minha mente, criaturas de olhos vermelhos, e caninos enormes, atacando pessoas, e bebendo de seu sangue.
Não sabia o que eram aquelas imagens, ou como foram parar em minha mente. Mas de uma maneira ou de outra, eu sabia que eram reais.
[Fim do Flashback de Edward Cullen]
-- Eles eram Vampiros? — Isabella perguntou, assim que terminei de contar, enquanto relembrava perfeitamente em minha mente.
-- Sim.
-- E o que eles queriam? — indagou com a voz abafada.
-- Queriam que Carlisle por ser médico, conseguisse sangue para eles. Ou seja, eles queriam que ele fingisse a morte de seus pacientes, e os entregassem.
Ouvi seu ofegar.
Sabia que para ela, apenas o fato deles terem pensado nisso, era crueldade.
Me perguntei o que diria, se soubesse de tudo o que já fiz.
-- Mas... mas eles não poderiam caçar? — perguntou com dificuldade, como se estivesse sofrendo para dizer essas palavras.
Ri levemente de sua dificuldade.
-- Poderiam, mas a brincadeira de tortura estava perdendo a graça. Queriam alimento fácil e rápido. — respondi.
Isso era exatamente o que eles queriam. Sangue rápido, quando quisessem, sem ter que sair atrás.
Não que eles tivessem abdicado as caças divertidas, e as torturas lentas, mas apenas queriam os dois. O rápido, e o lento. O chato, e o divertido.
-- Carlisle sabia que eles eram Vampiros? — perguntou-me.
-- Sim. Mas essa é a história dele, não minha.
Senti ela balançar a cabeça, e ficar quieta.
-- Aonde está o sofá? — perguntou, e eu a olhei pelo reflexo do vidro a minha frente.
Isabella olhava para o canto aonde estiverá o sofá branco, com Lily.
-- Nada deixa de passar por seus olhos, não é?
-- Hm... Tinha um sofá, náo tinha? — indagou baixinho, como se estivesse se certificando consigo mesma, que não estava tendo alucinações.
-- Queimei — respondi. Me lembrando de como o sofá era novo. Havia adquirido logo depois de destruirmos meu quarto.
-- Por que?
-- Estava manchado. De sangue. — respondi pausadamente. — Não queria nada que me lembrasse do que Lily passou aquela noite.
Percebi seu olhar deixando o lugar aonde estivera o sofá, e olhando para minhas costas.
-- Foi muito ruim?
Sua voz estava fraca, melancólica. E sua expressão triste.
-- Sim. Mas já passou.
Ela ficou quieta, e começou a encarar as prateleiras à sua volta.
-- Então... — começou. — Foram eles que transformaram vocês?
Sua mudança súbita de assunto, me pegou desprevenido, e eu à encarei de canto de olho.
-- Sim. — concordei. — Voltaram durante a madrugada.
[Flashback de Edward Cullen]
14 de Setembro de 1849.
Forks, Washington. Estados Unidos da América.
Casa dos Cullen's. Quarto de Edward Cullen.
Morto!
Era assim que me considerava no momento. Morto.
Meu coração estava quebrado, e eu havia certeza de que ele jamais voltaria a se recuperar.
Parecia que haviam arrancado minha alma de mim. Tirado minha consciência. Meu ar.
Era assim que eu estava no momento, como se estivesse me faltando a coisa mais importante para um ser humano. O ar.
Porque estava faltando a coisa mais importante para mim.
Eu nunca diria que seria capaz, alguém sofrer tal dor, igual a que eu estava sofrendo. Era inimaginável. Era completamente insuportável.
Parecia que eu estava queimando meu próprio corpo. Me auto-flagelando.
A dor emocional era tão abundante, que chegava a ser física.
Largado em minha cama, sozinho. Eu me sentia morto.
E sem mais motivos para querer continuar vivendo. Sem mais motivos para viver.Meu coração parecia sangrar. Minha alma parecia se dissolver.
Eu sabia que se pudesse chorar lágrimas de sangue, seriam elas que estariam deslizando por meu rosto no momento. E não essas gotas transparentes, que não conseguem exprimir um terço da dor que me consome.
Dizem que um homem não deve chorar. Que um homem não deve demonstrar dor. Que um homem não deve sofrer. Que um homem deve ser forte. Deve aguentar a dor. Sempre.
Mas quem disse isso, com toda a certeza não sabia o que era sofrer. Não sabia o que era dor. Não sabia o que era sentir, como se estivesse morrendo sem se machucar.
Não sabia o que era a morte de sua alma. De seu coração.
Essa pessoa não sabia de nada.
Eu nunca havia me sentido tão acabado. Tão ciente de cada parte do meu corpo que era torturada pelo sofrimento. Tão ciente de cada parte morta em mim. De cada parte que estava morrendo.
-- Edward. — ouvi a voz de Emmett do lado de fora da porta. — Posso entrar?
Não respondi. Não havia voz para isso.
-- Edward, abra a porta. Você está nos preocupando. — era a voz de Rose agora.
Mas eu não iria abrir para ninguém. Não queria ver ninguém.
-- Ed. Por favor. Ed... — Alice, implorava do outro lado. — Não faça isso. Sabemos que você está sofrendo, e não conseguimos nem imaginar o quanto. Mas, por favor, deixe-nos te ver. Saber que você está bem. Ficar ao seu lado. Deixe-nos ajudar você. Deixe-nos cuidar de você, Ed. Por favor.
Senti uma lágrima escorrer pelo canto de meu olho esquerdo, e entrar em meus cabelos, se perdendo em meus fios.
Fechei os olhos, e vi seu rosto. Seu lindo rosto. Seu lindo e maldito rosto.
-- Edward. — era a voz calma de Jasper. — Edward, abra a porta.
-- Ou iremos arrombá-la.
Continuei na mesma posição, olhando para o teto, e afundando cada vez mais em minha dor.
-- Ok. — ouvi a voz de Emmett. — Vou arrombá-la
No mesmo instante ouvi algo grande se chocar contra minha porta. Mas não me importava. Nada me importava no momento.
Não demorou muito, e Emmett conseguiu levar à porta ao chão.
Ouvi as vozes, entrando em meu quarto.
Mas eu não os olhei. Não falei. Não me mexi. Não acho que conseguiria, mesmo se quisesse.
-- Edward. — era Emmett me chacoalhando levemente, pelos ombros, mas quando sentiu que eu não me importei, se afastou. — Você está bem, meu irmão?
Não conseguia encarar nenhum deles.
-- Ed... — era Alice agora. — Por favor, Edward, diga alguma coisa. Grite. Ofenda. Esbraveje. Esmurre. Quebre coisas. Mas, por favor, mexa-se.
Senti o desespero em sua voz. Sabia que para ela, era dificil me ver assim. Ela era minha irmã. Ela me amava.
Sabia também, que eles estavam em minha volta, temendo encostar em mim.
-- Edward. — Jasper chamou em tom baixo, e eu sabia, que ele me entendia. Ele parecia sentir o que eu estava sentido, pelo modo com que sua voz saiu fraca. — Fale alguma coisa. Diga qualquer coisa...
Senti um pequeno sentimento de alivio, e confiança. Mas não queria encará-los.
Não queria ver a pena estampada em seus olhos.
-- Edward, não nos torture. — a voz de Rose, saiu engasgada, como se ela estivesse segurando as lágrimas. — Deixe-nos te ajudar.
E eu me surpreendi. Nunca imaginei que ela se importasse comigo.
Mas naquele momento, eu sabia que ela sempre havia sido minha amiga.
Uma irmã.
Mas foi apenas as duas ultimas vozes, que me fizeram esboçar reação.
-- Filho... — era meu pai, que entrava no quarto. Sua voz estava triste, preocupada. — Fale conosco.
Senti uma mão quente tocar minha testa, e vi os grandes olhos de minha mãe me encarando com lágrimas escorrendo por suas bochechas.
E ela não precisava falar nada. Seus olhos já expressavam tudo o que as palavras não conseguiam transmitir, e antes que percebesse já estava abraçado em sua cintura, como uma criança.
Senti suas mãos pequenas, e leves em meus cabelos.
-- Irá ficar tudo bem, meu filho. Tudo bem. — ela dizia enquanto beijava o topo de minha cabeça.
Não saberia dizer quanto tempo fiquei ali, sentindo seus braços em volta de mim, enquanto ouvia minha familia falar o quanto me amavam, e como tudo iria ficar bem.
Mas eu não acreditava nisso.
Não iria ficar bem. Nunca mais. Pelo menos não para mim.
Eu havia sido torturado da pior maneira possivel. Da mais dolorosa.
Havia uma cicatriz profunda em meu peito.
Uma cicatriz incurável.
Mas então senti meus olhos se fechando, enquanto as mãos de minha mãe me faziam cafuné. E antes que conseguisse lutar contra isso, estava dormindo.
Havia gritos, muitos gritos. Desesperados.
Barulhos altos, como se estivessem derrubando objetos.
Queria ajudar as pessoas que gritavam por socorro. Queria socorrê-las, ajuda-las. Mas eu não as via, não sabia aonde estavam. E seus gritos foram se tornando mais altos, intensos, e suplicantes.
-- ACORDE EDWARD! — e eu reconheci a voz. Era Emmett.
Senti meu corpo sendo chacoalhado. Mas eu não queria abrir os olhos. Não queria acordar. Não queria ver a realidade.
-- EDWARD! — o grito suplicante e desesperado de Alice, me fez sobressaltar, e me dar conta de que não estava sonhando.
Abri os olhos, e vi o rosto dos dois. Suados e bagunçados.
Alice chorava, e tinha uma expressão apavorado. Amedrontada.
-- O que houve? — perguntei preocupado, e percebi minha voz fraca e e rouca.
-- LEVANTE-SE! — Emmett gritou, me pegando pelos ombros e me colocando em pé.
Nesse momento um grito alto e fino, seguido de um rosnado, soou alto, fazendo Emmett gritar um sonoro, 'Não', e correr porta à fora.
Foi então que percebi. A mulher que havia gritado era Rosalie.
Sai correndo atrás dele, e Alice nos seguiu.
-- O que aconteceu, Alice? — mas ela apenas chorava atrás de mim, murmurando coisas estranhas, como 'vi no sonho', 'não deu tempo', 'papai estava certo', 'tarde demais', 'todos mortos'.
Nunca havia visto Alice assim. Tão desesperada. Tão amedrontada.
Onde estava Carlisle?
Esme? Jasper?...
-- Alice. — falei alto, me virando para encará-la, e quase fazendo-a trombar em mim. — O que está acontecendo?
Alice estava com os olhos arregalados de medo. E eu vi a imagem da ruiva, e dos dois homens que apareceram na hora do jantar, mas eles estavam com olhos vermelhos, e enormes caninos.
Mas havia algo a mais nessa cena, que eu não sabia como poderia estar vendo. E era o sangue que escorria de suas bocas. E que no chão, estavam nossos corpos.
Alice, Emmett, Jasper, Rose, Carlisle, Esme... e eu.
Todos brancos e pálidos, com olhos desfocados. Sem vida.
Todos mortos.
Nós estavamos mortos naquela cena.
E naquele momento eu entendi o pavor de Alice. Porque eu também estava o sentindo.
Não fazia idéia do que eram aquelas criaturas. E então me lembrei, das lendas antigas que meu avô contava. Sobre criaturas frias. Sobre os frios. Bebedores de sangue.
Mas isso eram apenas lendas.
Não poderia ser verdade. Não poderia ser real. Não poderia ser. Era impossivel. Irracional. Ilógico. Isso simplesmente não poderia existir.
-- O que eles são, Alice? — perguntei, encarando seu rosto amedrontado.
Alice devolveu meu olhor com pavor estampado em cada pedaço de sua face.
-- E isso importa, Edward? — perguntou em um soluço, enquanto lágrimas escorriam de seus olhos.
Não, não importava. Não quando minha família corria risco. Não quando minha família estava em perigo.
Mas eu estava desesperado para saber com o que estavamos lidando. Como aniquilar aquilo.
Como salvar as pessoas que mais amava.
E então um rosnado alto, seguido de um berro feminino, e gritos desesperados, me fez acordar.
No mesmo instante vi em minha mente, Jasper e Esme baterem com força na parede, e cairem no chão. O desespero me corroeu. Não importava como estava vendo essas cenas. Nada mais havia importância. Apenas minha família.
Escutei mais gritos, me fazendo quase voar, procurando de onde vinham.
Percebi Alice incansavelmente atrás de mim. E quase me ajoelhei, por saber que pelo menos ela estava bem.
Mas a cena que vimos em seguida, nos fez dar passos para trás. Chocados. Amedrontados. Paralisados. Apavorados... Desesperados.
Jasper e Esme estavam estatelados no chão.
Carlisle estava sendo segurado de joelhos pela Ruiva, enquanto o Loiro segurava Rose pelo pescoço.
-- Vamos começar pela Loirinha bonitinha. — o homem comentou. — Não desmaie, Doutor. Não terá graça se o Senhor não presenciar.
-- NÃO!! — ouvi o grito desesperado de Emmett, e só então o vi.
No canto da sala, sendo segurado pelo segundo homem. Laurent. Enquanto tentava desesperadamente se arrastar até Rose.
De seus olhos caiam cascatas de lágrimas, enquanto se debatia incessamente.
Mas antes que eu deixasse o estado de choque, James já estava levando seus enormes caninos até o pescoço de Rosalie, e os cravando em sua pele.
Rose berrou, e se debateu.
Foi a cena mais desesperadora que já havia visto. Minha mãe, e meu cunhado jogados. Machucados, e eu nem sabia se estavam vivos.
Meu pai olhando tudo com olhos arregalados de desespero, e lágrimas fortes caindo por seus olhos, enquanto implorava para James soltá-la.
E Meu Irmão. Meu forte Irmão. Meu corajoso Irmão. Se debatia desesperadamente tentando socorrê-la. Enquanto Rose berrava se debatendo nas mãos de seu agressor.
Percebi Alice atrás de mim, perdendo o equilíbrio das pernas, e tentando se agarrar a mesinha de canto, fazendo essa se quebrar, e partindo o jarro de vidro com flores, que havia em cima.
Comecei a ver imagens em minha mente, que não eram minhas.
Mas antes que pensasse em mais qualquer coisa, me vi correndo em direção a James.
Não sabia o que iria fazer.
Que força teria eu? Um simples mortal, contra aquela criatura de caninos, e olhos vermelhos?
Mas não me importei. Não poderia suportar aquilo.
Era minha Família.
Era Rose.
A Mulher pelo qual Meu Irmão morreria. Por quem ele estava morrendo.
Era a Rose. A Mulher que me surpreendeu quando demonstrou que se importava comigo. Aquela que eu já era da Minha Família. Aquela que eu já amava, como irmã.
Minha Irmã.
Não iria deixá-la morrer.
Morreria junto!
Morreria com Minha Família!
Morreria por Minha Família!
Havia pegado todos desprevenidos. Laurent segurava Emmett, enquanto a Ruiva forçava meu pai a olhar James mordendo Rosalie.
Em um ato desesperado, eu já estava agarrado em suas costas, tentando puxar sua boca para longe do pescoço de Rose.
James parecia nem ter notado minha aproximação. Mas rosnou alto quando me sentiu agarrado em suas costas.
Ele tirou os caninos da pele de Rose, e a jogou no chão. Acompanhei seu movimento até cair, e percebi seus olhos vagamente abertos. Estava viva.
James me puxou de suas costas, e pegou-me pelo pescoço com facilidade, mostrando os dentes para mim.
Ouvi o berro de meu pai, e o grito de Emmett. Enquanto James apertava forte minha garganta, tirando meus pés do chão, e me levantando até acima de sua cabeça, enquanto eu agarrava sua mão desesperadamente tentando me soltar.
Sua mão era fria, como gelo, e me apertava com uma força assustadora. Parecia que estava afundando minha pele, para dentro de minha garganta.
Abri a boca em um ato desesperado de respirar, mas nem um pequeno vapor de ar se fez presente em meus pulmões.
Enquanto apertava seu pulso, tentando fazê-lo soltar de minha garganta, olhava as pessoas pelos cantos dos olhos. Minha Família.
Meu Pai gritava desesperado, e Emmett batia no chão com o pulso livre, berrando.
Rose estava estendida no chão, e já não tinha os olhos meio abertos.
Tentei olhar para Minha Mãe, mas ela estava atrás de mim. Apenas vi uma pequena parte do rosto de Jasper, e percebi seus olhos se abrindo.
Senti um imenso alivio, quando constatei que ele também estava vivo.
Fechei meus olhos, saboreando o que provavelmente, seria a ultima vez que os veria.
E então os abri, procurando por Alice.
Precisava vê-la. Se iria morrer, precisava ter uma ultima imagem sua. De Minha Irmã.
E eu a vi. Parada no mesmo lugar. Olhando apática para mim. Desesperada. Amedrontada. Sem reação.
E meu instinto queria protegê-la. Queria abraçá-la, e dizer que tudo iria ficar bem.
Nossos olhos se encontraram, e por seus olhos enxerguei tudo o que não queria ver.
Pois vi meu próprio medo refletido pelos seus. Meus próprios receios. Meu próprio desespero. Minha própria dor.
Vi a mim mesmo por sua mente. Como se estivesse dentro de sua cabeça.
Ouvi seus gritos silenciosos, dentro de minha consciência, implorando para mim não abandoná-la.
Não suportaria mais ver aquilo. Não suportaria mais vê-la daquela maneira. Não suportaria mais sua voz implorando em minha mente. Não suportaria mais ver minha Família sofrendo.
Fechei meus olhos, me entregando a morte.
Já havia aceitado a morte, quando meu mundo desmoronou pela Mulher que amei. Pela Mulher que já havia me matado por dentro. A Mulher que já havia sido minha sentença de morte. A Mulher que ainda amava. A Mulher que agora iria ser a ultima imagem em minha mente.
Isabel!
Mas a morte não veio.
Ouvi um rosnado alto, e senti os dedos frios soltarem minha garganta, me fazendo cair dolorasamente no chão, quase sem consciência, e tentando voltar a respirar.
E então eu entendi o porque. Quando olhei vagamente, para cima, vi a coisa que só fez meu sangue congelar, e o pavor piorar.
Alice estava grudada nos ombros de James. Agarrando o pelos cabelos, enquanto enfiava o caco de vidro, do jarro que havia quebrado, em seu olho.
Aparentemente o olho era o único ponto fraco dessas criaturas.
James uivou de dor, dando passos para trás, enquanto a Ruiva rosnava alto, soltando Carlisle, e correndo em uma velocidade inacreditável até eles, enquanto arrancava Alice pelos cabelos, das costas de James.
Ouvi o berro de dor de Alice, e as suplicas de Carlisle. Junto com os urros de Emmett.
Queria me levantar e ajudá-la. Mas não conseguia. Não conseguia me mexer. Não conseguia respirar. Não conseguia salvá-la. Eu era inútil no momento. Completamente imprestável. Totalmente impotente.
Era agonizante não poder ajudá-la. Não poder tirar-lhe a dor.
-- SOLTE-A! — Emmett berrou tentando se soltar do aperto de Laurent.
Percebi Jasper, agora perto de mim, se mexer, parecendo estar fazendo uma força sobrenatural para levantar e salvá-la. Mas nem mesmo ele havia forças para tanto.
E então vi Carlisle correndo e se jogando contra a Ruiva.
Em um movimento que nem deu para acompanhar, a Ruiva o pegou pelo pescoço, e o jogou longe, fazendo o bater com força na parede, e cair com estrondo no chão.
Emmett urrou mais alto. Enquanto eu tentava tirar forças pra ajudar Alice. Eu precisava. Tinha que salvá-la.
Mas antes que conseguisse algum êxito, ouvi o berro ensurdecedor de Rosalie ao meu lado.
Ela se contorcia no chão, como se estivesse sendo torturada.
-- O FOGO! APAGUEM O FOGO! — gritava, fazendo Emmett berrar seu nome.
Rose colocou as mãos no pescoço, como se estivesse sufocando. E berrava em desespero, como se estivesse sendo queimada.
Ouvi uma gargalhada fria. Doentia. E meus olhos viraram para James.
Ele gargalhava, enquanto tirava o caco de vidro, do olho direito.
E então eu percebi. A parte do caco que estava dentro de seu olho, estava derretida. Estava se dissolvendo. Como se Alice a tivesse colocado em um pote de ácido.
E seu olho, agora sem o caco, tinha apenas um pequeno furo, que parecia estar se fechando sozinho.
Um berro mais alto de dor de Alice, e um de desespero de Rose, me fez esquecer tudo.
Rose ainda se contorcia, enquanto a Ruiva, torturava Alice.
Eu me mexi agoniado, por ver isso.
Alice estava com a perna torta, em um ângulo estranho. E a Ruiva puxava seu braço com facilidade para trás, o quebrando.
Eu me sentia desesperado. Agonizado. Queria me levantar. Tirar a Ruiva de perto da Minha Irmã. Queria matá-la.
Mas não conseguia mover um único músculos. O sentimento de impotência, me dominava. E eu nunca havia me sentido mais inútil. Nunca havia me sentido mais fraco. Nunca havia me sentido mais imprestável.
Eu era apenas um pedaço de lixo, no momento. Que não tinha forças nem para proteger Minha própria Família.
Emmett berrava, se chacoalhava e tentava bater em seu capturador. Mas nada parecia atingí-lo. E o homem apenas mantinha um sorriso divertido nos lábios.
-- Alice. — a voz baixa de Jasper, me fez olha-lo rapidamente. Ele tinha os olhos vagamente abertos. E a expressão cruciante, como se estivesse sentindo a dor de Alice.
Mas como eu, ele não conseguia se mover. Mal conseguia olhar.
-- Pare! — ouvi a voz de meu pai, e o vi se arrastando, com varios machucados por seu rosto.
James o encarou com um pequeno sorriso.
-- Pare Victoria. — mandou. — Eu a quero para mim. Seu cheiro é delicioso.
-- Não! — meu pai murmurou, com a voz fraca, se colocando de joelhos em sua frente. — Mate-me. Faça qualquer coisa. Mas deixe minha família ir embora. Deixe os vivos.
James riu, o encarando como se fosse um verme.
-- Nós te demos uma chance, Doutor. Te demos a chance de nos servir, mas o Doutor recusou. — James comentou calmamente. — Tudo tem seu preço. E esse é o preço que você pagará, por querer se colocar contra nós.
-- Por favor. Eu lhe suplico. Eles não. Faço qualquer coisa. Mas deixe os vivos.
James riu novamente, enquanto Rose dava um berro torturante, e seus olhos se arregalavam de uma maneira indescritível.
-- Menos uma — James comentou.
Meu pai o olhou, com lágrimas de desespero.
-- Não. Não a mate. — implorou.
James riu mais uma vez, dessa vez seguido da Ruiva e de Laurent.
-- Mesmo que eu não a mate. Ela irá morrer. De uma maneira ou de outra. — James respondeu indiferente. — Meu veneno já corre por suas veias. Se eu não acabar de matá-la, e se ela não morrer durante a metamorfose, se transformará em uma de nós. Sem alma. Sem coração. Sem escrúpulos. Sem nada. Terminará morta.
-- NÃO! ROSE! ROSE! — Emmett voltou a berrar, olhando para Rose que se contorcia e berrava no chão. — NÃO! ROSE! ISSO NÃO!
-- Decida-se, meu caro. — Laurent exclamou, o segurando firmemente. — Ou você quer ela morta. Ou você a quer incapaz de morrer. Não dá para ter os dois, e viver feliz.
Alice deixava as lágrimas cairem livremente, enquanto gemia de dor, mordendo os lábios para não gritar.
E imagens voltaram a surgir em minha mente. Pareciam estar vindo de Alice.
-- Não! — meu pai murmurou, me fazendo encará-lo levemente. — A salve, por favor.
-- Não tem como salvá-la, Doutor. E mesmo se tivesse não faria. É tarde de mais. Ela será uma de nós, ou morrerá. — James comentou rindo. — Culpe seu filho metido a herói, se ele não tivesse interrompido meu prato inicial, ela estaria morta agora. Mas se quiser eu termino de matá-la. Sem problemas.
-- NÃO! — Emmett berrou.
Percebi algo se mexendo atrás de mim, e pelo canto dos olhos, notei que era minha Mãe.
Ela estava acordando.
-- Ah, que bom que acordou, mulher do doutor. Será bem mais interessante com a Senhorta também presenciando a morte de seus... hm... chama isso de filhos? Pois eu os chamo de comida. — James informou, com o sorriso doentiu em seus lábios, enquanto olhava Esme atrás de mim. Mas logo depois, ele abaixou os olhos para Carlisle. — Mas não se preocupe Doutor. Você será o último a morrer.
James riu estrondoso.
-- "Quero que veja até a última gota do sangue de sua família, sumindo em minha boca. Quero que os veja morrendo. Quero que ouça a última batida de seus corações, a última respiração. Será divertido, não será, Doutor?"
Carlisle estava de uma maneira inimaginável, havia lágrimas escorrendo por sua face, e uma expressão de puro terror em seu rosto.
-- Por favor! Mate apenas a mim. — meu pai implorou o encarando.
Noite Jasper tentando se arrastar, mas James pisou em suas costas, fazendo o se espremer contra o chão, e gemer de dor, de uma maneira torturante. Havia certeza que se Jasper conseguisse berrar, ele estaria urrando a plenos pulmões. Pois por um milésimo de segundos, eu senti uma dor cruciante em minhas costas, como se Jasper estivesse transmitindo sua dor.
-- Já que se anunciou. Você será o proximo. — James comentou, revirando os olhos, enquanto tirava seu pé de cima das costas de Jasper, e o puxava pela camisa.
-- Não! — Alice murmurou com a voz fraca. Falha. Olhando apavorada para Jazz. Mas ele parecia incapaz de lutar. Incapaz de se mexer. Incapaz de fazer qualquer coisa.
Mas antes que James enterrasse seus dentes na pele de Jasper, Carlisle se levantou, se jogando em cima de James. Fazendo esse, olhar raivoso para meu pai.
-- Não! A mim! Mate apenas a mim! — Carlisle suplicou.
James largou Jasper, que caiu com um gemido, e pegou meu pai pelo colarinho, o girando em volta de si.
-- Não irei matá-lo, Doutor. Como disse, quero que você admire isso. Como meu convidado de honra. Olha que privilégio. — James riu, ainda rodando meu pai em torno de si, e o fazendo encarar cada humano da sala. — Mas para você ver como sou bonzinho, te darei o direito de escolha.
O sorriso de James aumentou, e ele encarou Carlisle nos olhos.
-- Qual você quer ver morrer primeiro, Doutor?
Carlisle arregalou os olhos.
-- Qual Doutor? Qual deles você escolhe para conhecer a morte?
-- Eu! Eu! — meu pai respondeu afobado.
-- Para um homem que é julgado por inteligente, você tem problemas abundantes de compreensão. Já deixei bem claro, que o Doutor será o último. — James voltou a rir, e fez Carlisle voltar a encarar cada membro de Nossa Família. — Mas responda, Doutor. Qual? Qual morrerá primeiro? Por qual seu coração bate menos? Qual você prefere menos? Qual você ama menos?
-- A mim. — respondi, unindo forças.
-- Não! — meu pai murmurou.
-- Sim! — exclamei. — Mate-me.
James gargalhou, me encarando com escárnio, e soltando meu pai, que caiu de joelhos no chão.
-- Quero ver seu pai pedir. Quero ver seu pai me implorar para matá-lo.
Carlisle me olhava com olhos arregalados. Ele estava morrendo também. Dava para ver em seus olhos, que aquilo já era sua morte.
-- Não. Nunca!
-- Diga, Pai. Mande me matar. — pedi, tentando ficar de pé, mas fracassando.
-- Não. Você é meu filho. — ele murmurava. — Nunca. Mate a mim.
-- Pai. — implorei. — Por favor. Peça. Ele me matará de qualquer maneira. — ele mataria a todos nós, de qualquer maneira. Mas eu não queria acreditar nisso. Queria ter esperanças que se tivesse que haver uma morte ali, seria apenas a minha.
-- Não. — meu pai murmurou, me encarando. Ele parecia estar louco, desesperado. — Você é meu filho. Não pedirei para matá-lo.
James bufou, chutando Carlisle.
-- Eu gosto de brincadeiras lentas, Doutor. Não de conversas lentas. — avisou impaciente. — Qual deles, você escolhe para morrer? RESPONDA!
-- Nenhum. Mate a mim. Apenas a mim. — Carlisle respondeu apressado.
-- QUAL DOUTOR? ESCOLHA!
Meu pai tinha um mar de lágrimas escorrendo de seus olhos, com força. Nunca havia o visto tão fora de controle. Tão aterrorizado. Tão desesperado. Agonizado.
-- NENHUM! EU OS AMO! NÃO OS CONDENAREI A MORTE! — Carlisle berrou, fora de sua calma, que eu achava ser inabalável. — FAÇO QUALQUER COISA. MAS NÃO MACHUQUE MAIS MINHA FAMILIA. POR FAVOR. ELES SÃO MINHA VIDA!
-- Que emotivo. — James zombou, sem se deixar abalar. — Realmente comovente. Mas já que o Doutor não parece muito propício a cooperar, vou começar a jogar sujo. Ou melhor, mais sujo ainda.
E então James se virou para Emmett.
O tirou dos braços de Laurent, que apenas sorriu malicioso, e o puxou pelos cabelos enrolados, enquanto o jogava com força contra a parede, fazendo Emmett gemer baixo.
-- Agora sim. Você terá que decidir, Doutor. Qual dos dois?. — James perguntou, enquanto encarava Meu Pai. — Decida qual quer que eu mate. Esse ou o outro? AGORA!
-- Pai... — murmurei. — Por favor, diga para me matar.
-- Não! — Meu Pai murmurava desesperado, atordoado. — Nenhum dos dois. Nenhum.
-- Carlisle. — chamei. — MANDE ME MATAR!
-- NÃO! — mas quem respondeu foi Emmett, que agora tinha o braço sendo apertado, pelas mãos frias de James. Dava para ouvir o som dos ossos sendo quebrados. Mas Emmett se mantinha calado, sem gritar. Agüentando a dor. — NÃO FAÇA ISSO, PAI! NÃO FAÇA!
Rose gritou mais alto. E de sua voz saiu o nome de Emmett. E então eu percebi que mesmo se contorcendo pela própria dor, ela implorava por ele.
-- Pai. — me voltei novamente para Carlisle. — Eu não tenho mais nada. Diga para me matar.
Emmett rugiu.
-- NÃO! EDWARD NÃO! — gritou. — PAI, NÃO FAÇA ISSO! NÃO. FAÇA.
James puxou com força o braço de Emmett, e eu percebi que seu braço estava praticamente caido. Rasgado. Emmett mordeu furiosamente os lábios, tentando conter o berro de dor.
-- PARE! — Alice parecia ter encontrado sua voz. — PARE. — implorou.
Seu rosto estava torturado.
Jasper estava parado tentando manter os olhos abertos, enquanto murmurava coisas incompreensíveis.
-- Meus Filhos. — uma voz fraca e falha, saiu de algum ponto atrás de mim. Esme estava se rastejando até nós. — Poupe-os. — implorou.
James a encarou rapidamente.
-- Você também tem um cheiro maravilhoso. Só agora reparei. Melhor que o de sua filha se duvidar. Pena que não está sangrando, creio que com um cheiro desses não me controlaria. Provavelmente já estaria morta.
-- Não! — meu pai murmurou mais uma vez. — Ela não!
James voltou a rir.
-- Então quem, Doutor? Escolha. Qual dos dois?
-- A mim. Carlisle a mim. — insisti.
Emmett voltou a gritar para meu pai não fazer isso, mas não dei ouvidos. Queria vê-lo vivo. Queria vê-los vivos. E faria tudo para isso.
-- A MIM, CARLISLE! — berrei no tom mais alto, que meu corpo permitia. — DIGA!
-- Não! Não! Eu te amo! — ele murmurava. — E Eu o amo. Não posso escolher. Não posso
Eu senti as lágrimas de desespero voltarem a escorrer com velocidade de meus olhos.
-- Mas eu não. — murmurei, sentindo isso doer em mim, como uma facada. — Você não é meu pai. Nem nunca foi.
-- EDWARD PARE! — Emmett berrava. — NÃO FAÇA ISSO!
Carlisle chorava sem mais tentar deter as lágrimas. Não sabia se ele estava levando a sério. Apenas que eu estava aproveitando de seu momento de fraqueza.
-- Edward... — ele começou.
-- MANDE ME MATAR, MERDA. VOCÊ NÃO É MEU PAI. NÃO INSISTA EM TENTAR SER. NÃO INSISTA EM TENTAR OCUPAR O LUGAR QUE NUNCA FOI SEU. E NUNCA SERA — berrei, me sentindo a pessoa mais suja do mundo. Era indescritível o que dizer essas palavras estava me fazendo sentir. — VOCÊS NÃO SÃO MINHA FAMILIA. SERA UM ALIVIO ME LIVRAR DE VOCÊS. DE TODOS VOCÊS.
Alice me encarava como se soubesse o que eu estava fazendo.
Mas meu pai naquele momento de desespero, no momento em que ele próprio estava morrendo por dentro, parecia acreditar em minhas palavras.
Percebi a tortura desesperadora em seus olhos. A decepção, unida com a tristeza agonizante.
-- Mas eu te amo, Meu Filho. — murmurou baixo, muito baixo. — Não posso fazer isso.
Eu berrei, quando finalmente, Emmett deixou escapar um grito de dor. Tirei forças de algum lugar desconhecido e me levantei, indo em direção a James.
-- ME MATE! EU QUERO QUE MATE!
James riu mais alto, e puxou o outro braço de Emmett.
Peguei o pé da mesa que Alice havia quebrado, e bati com toda a força que me restava em sua cabeça.
James olhou raivoso para mim, e segurou Emmett pela gola da camisa, cravando os dentes em seu pescoço.
Gritei, batendo com mais força nele.
James continuou com os dentes enterrados na jugular de Emmett, enquanto mantinha os olhos fixos nos meus.
Continuei batendo nele, enquanto meus gritos se misturavam com os de Carlisle, Rose, Alice, e os fracos gemidos de Esme e Jasper.
E então para meu desespero, Laurent se mexeu e pulou em cima de Jasper, que estava imóvel no chão. Vi os enormes dentes dele, entrarem na pele de Jazz, o fazendo arregalar os olhos, gemendo de dor.
Alice berrou em desespero. Mas antes que pudesse bater mais uma vez em James, senti a ruiva, que havia soltado Alice, me segurar por trás, e virar minha cabeça para o lado.
Logo estava berrando de dor, pelos dois enormes caninos, que eram cravadas em meu pescoço
James ainda me olhava, e eu comecei a ver imagens sem nexo em minha mente.
Meu Pai gritava e eu percebi que ele tentava se levantar, enquanto Alice se arrastava até Jazz, apenas pelas pernas.
Emmett já fechava os olhos. Ele estava morrendo, e eu não podia fazer nada.
Jasper tinha a expressão de dor. Tentando manter os olhos abertos.
E então um gemido baixo, e torturante, soou. E tudo pareceu parar.
Os três pararam. Senti a ruiva largando meu pescoço, e me vi caindo no chão, ao mesmo tempo que Emmett, enquanto Laurent saia de cima de Jasper.
Olhei para os três, que encaravam algo as minhas costas, com os caninos pingando sangue.
Me sentia fraco, mas me forcei a olhar para trás para ver o que havia nos salvado.
E um berro alto de meu pai, me fez tentar me virar mais rápido. Desesperado.
E então meu mundo também parou.
Esme tinha um pedaço de vidro, do jarro quebrado, em seu peito. Jorrando sangue para todos os lados, e chamando a atenção dos demônios para si. Completamente para si. Nos salvando.
Era seu sacrifício. Seu ultimo sacrifício por nós. Ela daria seu sangue para nos salvar. Até sua alma. Ela faria qualquer coisa para tentar nos manter vivos. Qualquer coisa. E ali estava a prova disso.
A expressão de Minha Mãe era de dor, mas seu olhar era firme. Decidido. Sem lágrimas.
Alice berrava, e Carlisle se arrastava até ela.
Mas Laurent foi mais rápido, e a mordeu. Esme gemeu baixo.
James rugiu por não conseguir chegar a tempo, e naquele momento percebi que eles estavam fora de controle. Já não era uma brincadeira, era uma necessidade.
Victoria se virou para Carlisle e o atacou, de uma maneira felina. Selvagem, como um animal.
E James se jogou contra Alice, que gritou alto.
-- Quer que eu te mate? — Victoria murmurou se afastando de meu pai, e pingando sangue em sua camisa. — Ou prefere virar um monstro.
-- Me mate!
E era tudo o que eu queria também.
Morrer! Naquele momento!
Apenas morrer!
Uma cena diferente passou por mim mente, quando encarei Alice.
Nós não estavamos mortos nessa cena.
Apenas extremamente pálidos, e de olhos vermelhos.
Todos!
E então eu vi seus olhos se fechando, e James se levantando.
-- Mudança de planos. — informou sorrindo, e fazendo os outros dois se afastarem de Carlisle e Esme, para olhá-lo.
-- O que é agora, James? — indagou Laurent, em um rosnado impaciente.
-- Dizem que a morte não é a pior coisa que um ser humano pode obter. Eu honestamente, discordo. — comentou, nos olhando. — Mas vamos provar se é verdade.
-- O que você está propondo, James? — a Ruiva perguntou, enquanto segurava meu pai pelos cabelos.
-- Que não os matemos. Apenas os deixemos se transformarem em vários de nós. Em monstros. — James respondeu rindo. — Não existe tortura melhor para humanos tolos, e bons, do que se verem transformados em criaturas sombrias. Para sempre. Monstros. Assassinos. Exatamente como nós. Quero que eles sejam iguais a nós. Sintam o gosto de sangue. E sofram a eternidade pelo que são. Quero que eles se transformem nas pessoas que mais odeiam. Nas pessoas que estão os matando. Quero que eles se transformem em nós.
Mas eu não consegui ouvir mais nada, pois uma queimação insuportável começou em meu pescoço, e eu me vi berrando alucinado.
Outras vozes pareciam gritar junto com a minha. Mas eu não me importei. Não me importei com mais nada. Apenas queria que a queimação acabasse.
Mas ela só aumentou. Se estendendo para cada pequena célula do meu ser.
Eu berrava, implorando pela morte. Queria seguir para o buraco escuro que era dentro de mim.
Queria me livrar da dor cruciante.
Queria morrer.
[Fim do Flashback de Edward Cullen]
Isabella me olhava com a boca entreaberta, e a respiração oscilante. Eu conseguia ouvir perfeitamente seu coração acelerado.
-- Que horrivel. Horrivel. Completamente agonizante. — murmurava. Parecia estar falando consigo mesma. — Totalmente torturante.
Eu ri.
-- Não. Não foi torturante. — comentei. — Foi pior. Muito pior. Não existe palavras para descrever o que é ver torturarem sua Família.
Percebi que minha voz foi morrendo conforme pronunciava essas palavras.
-- Não sabia que tinha sido... tão... tão... desesperador. — comentou com a voz abafada.
-- Você não anda sabendo de muitas coisas.
Ela respirou fundo, e percebi que estava tentando controlar seu coração.
-- É sempre assim, não é? — indagou, e eu me virei para encará-la. Queria ver seus olhos de chocolate.
-- O que?
-- Descobrir uma história. — continuou. — Perceber que seus julgamentos não tinham fundamento. Porque sempre existe um outro lado que não conhecemos.
A encarei. Ela estava mesmo arrependida por ter me julgado como o pior dos seres?
-- Creio que sim. — confirmei. — Tudo sempre tem dois lados. Cabe a nós decidir ouvi-lo, ou ignorá-lo.
Ela me olhou rapidamente, como se me avaliasse. Notei seu olhar parar em minha máscara. Meu castigo.
-- E qual o outro lado de sua história? — indagou.
Me lembrei do que fiz. Do mal que cometi. Do horror que fui.
-- O Lado que realmente me tornou um monstro.
Notas finais
Então imagino que deve ter sido um saco ler tudo isso. Mas foi necessário. Eu tinha que explicar cada segundo do que eles passaram.
Sei que vão surgir muitas perguntas, podem faze-las :D... mas gente, a história de Isabel, não irá ser revelada agora. O que deixou o Edward tão acabado emocionalmente, também não.
Tudo tem uma explicação. :D. Mas não virá todas de uma vez.
Beijos ;*
Deb
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