"A atração pelo perigo está no fundo de todas as paixões profundas do homem."
(Anatole France)

Abri os olhos lentamente, me sentindo confortável.

Olhei em volta, e percebi que estava novamente no quarto, em que conheci Esme, e que quase quis me tacar pela janela, antes da Fadinha chegar e me impedir, e eu me desesperar, quando Jasper perdeu o controle das emoções. Ah, claro. E da minha quase morte novamente.

Tudo parecia ser tão irreal. Mas eu sabia ser real.

Os Cullen's. Vampiros. Lily viva.

Era real. Tudo.

Não podia ser verdade, era dificil de acreditar que há pouco tempo atrás, meu maior problema, se chamava Jacob.

Sim, há menos de 24 horas, para ser mais exata.

Parecia impossivel, que tudo isso havia acontecido em menos de 24 horas. Mas era verdade. Bom, pelas minhas contas pelo menos era. Mas como sou péssima em matemática, é melhor eu não garantir muito.

Respirei fundo e olhei para a janela, imaginando se Emmett ou Jasper teriam me trazido para cá.
Bom, andando é que eu não vim.

Ainda era madrugada, mas eu tinha certeza que em menos de duas horas o sol iria começar a nascer.

Eu não fazia idéia de que horas eram. Não havia relógio algum no quarto.

Olhei para mesa de cabeceira ao lado da cama, esperando ver um despertador.

Mas havia apenas uma jarra de água com um copo, e minha mochila.

Minha mochila, que eu nem lembrava mais que estava com ela nas costas quando cheguei aqui.

A peguei de cima do criado-mudo, e a abri.

Retirei o livro, Orgulho e Preconceito, que o Senhor Müller havia me dado, e o abri, dentro dele havia a rosa vermelha que eu tinha comprado da mulher no parquinho.

E então, eu vi:

Meu celular.

Meu coração disparou.

Seria essa minha salvação?

Liguei o celular, e vi mais de quarenta chamadas não atendidas. E sete mensagens novas.

A maioria das ligações eram de Jacob e Marie, havia apenas algumas de Seth, Embry e Angie.

As três primeiras mensagens, eram de Jacob, mandando eu voltar para casa.
Havia duas também dele, dizendo que havia encontrado meu pai, e mais uma dele, perguntando a onde eu estava, e mandando eu atender suas ligações.

A ultima era de Angie. Que me perguntava se era verdade que eu havia ido antes pra faculdade, sem me despedir dela.

Franzi as sobrancelhas para essa ultima, mas não pensei nisso.

Quer dizer, eu tinha um celular nas minhas mãos.

Mas por que eu não conseguia discar número nenhum?

Talvez porque eu soubesse que não iria adiantar. Se Alice previa o futuro, ela já estaria sabendo da minha ligação. E eu não acreditava realmente, que alguém pudesse me tirar dali. Eles poderiam matar todos que chegassem perto.

Suspirei e desliguei o celular novamente, o tacando dentro da bolsa.

Depois me arrependi, poderia ter visto as horas no celular. Mas não o liguei novamente.

Olhei em volta, sem sono algum.

Então meu olhar caiu na porta do banheiro do quarto. Me levantei e fui até lá.

Ele era como o resto da casa, lindo. Provavelmente maior que meu quarto na casa de Charlie.
Havia uma banheira redonda branca, muito delicada, com desenhos na borda, que praticamente me chamava.

Sorri, e liguei suas varias torneiras. Enquanto olhava nos armários a procura de sais de banho.

Para minha surpresa, encontrei todos os varios — e coloque VARIOS nisso — produtos dos armários, fechados. Até mesmo uma escova de dentes ainda no pacote.

Peguei a escova e a pasta ainda fechadas, e as abri, escovando meus dentes.

E então segui para a banheira, com os vários liquidos de cores bonitas que eu havia encontrado. Despejei grande parte na banheira e entrei, me sentindo relaxada.

Era uma sensação incrivel, ficar na água, de olhos fechados, tentando não pensar em tudo que estava acontencendo.

Não saberia dizer, se eu poderia ter aberto os produtos, e estar utilizando da banheiro. Mas não estava pensando em nada disso.

Apenas em relaxar.

Algum tempo depois, eu sai da banheira, e peguei um roupão branco, muito macio, e cheiroso, que estava em um banquinho ao lado da banheira.

Foi então que me toquei.

Eu iria vestir o que?

Minhas roupas estavam em estado grave depois de um dia como esse.

Vi o enorme guarda-roupa, lindo e antigo, na parede, e fui até la, abrindo-o.

Estava lotado de roupas.

E todas surpreendentemente ainda com as etiquetas. Não sabia se poderia colocar alguma delas.
Mas então vi um pequeno papel, colado no espelho da porta, em letras muito bonitas.

Eu nem iria tocar nele, se não estivesse escrito 'Bella' em cima, quase grifado.

'Bella,

Eu e Rose, tomamos a liberdade de adquirir roupas para você, enquanto você dormia. Espero que não se incomode.
Preenchemos também, os armários do banheiro, com tudo que uma mulher precisa. Não precisa nos agradecer, sabemos que somos demais.

Esperamos que desfrute de todos os itens recém adquiridos, e goste de todas as roupas.

Com votos de bom uso.
Alice e Rosalie.'


Fiquei olhando para o papel. Aonde elas conseguiram arranjar tantas roupas enquanto eu dormia?

E então sorri. Bom, pelo menos não iria ter que ficar de roupão.

Olhei as varias roupas com as etiquetas, e mexi nas gavetas, procurando calcinhas e sutiãs.

Sim, até isso elas compraram.

Só que havia um pequeno problema. Todas as roupas, eram... chamativas demais para meu gosto.

O que havia de saias e vestidos, não estava escrito no mapa. Mas como cavalo dado não se olha os dentes...

Peguei a calça jeans mais simples que encontrei, que como todas as roupas era de marca. E uma blusa branca, também simples.

Me vesti e coloquei as pantufas felpudas brancas, que como o resto dos sapatos, elas também haviam comprado.

Escovei meus cabelos, com uma escova vermelha — que eu abri — que estava no banheiro, e deitei novamente na cama. Sentindo meu estômago roncar.

Eu não havia comido nada, além de uma bolacha. Estava morta de fome.

Olhei para a porta de saida. Pensando em talvez ir até a cozinha.

Mas estava com medo. Não sabia se podia sair.

Meu estômago roncou novamente, e eu me levantei, abrindo a porta.

Estava tudo vagamente iluminado, mas o bastante para mim notar o esplendor do local. Era realmente lindo.

Desci as escadas, parando no primeiro andar, e vendo a ultima porta do lado sul, que antes estava entreaberta, agora fechada.

Minha curiosidade borbulhava. Mas minha fome falou mais rápido, e eu continuei descendo as escadas.

Só havia um porém: Eu não lembrava a onde ficava a cozinha.

Quer dizer, aquela mansão era LITERALMENTE enorme, mais um castelo do que uma mansão.

Olhei para todos os lados, pensando para que lado seguir.

Caramba porque eu não prestei atenção no caminho, quando Emmett desceu comigo?

Respirei, fundo e terminei de descer as escadas. Segui para o lado direito de um corredor, parecia ser igual ao que eu tinha passado com Emmett.

Andei toda a extensão dele, e não achei a cozinha.

Comecei a ficar com raiva, e perdendo ligeiramente a fome.

Virei as costas, e subi emburrada de volta pro quarto.

Mas quando parei no ultimo degrau do andar do meu quarto, e olhei para a enorme escada que continuava para os andares superiores da casa, fui tomada pela curiosidade.

Mordi o lábio inferior, pensando se devia subir.

A curiosidade me mordia, mas alguma coisa dizia pra mim não mexer com o que ta quieto.

Mas como sempre a curiosidade ganhou, e eu me vi subindo as escadas.

Estava no quarto e ultimo andar, depois de passar por corredores iguais aos outros, todos de portas fechadas. Quando vi uma pequena escada em espiral, na lateral do corredor, que levava a algum comodo na parte superior.

Ouvi pequenos barulhos vindos de lá. E prendi a respiração.

Sim, eu deveria correr, e deixar de ser curiosa.

Mas a curiosidade era insistente.

Subi a escada em espiral, me sentindo tonta, com as voltas, e antes que me desse conta já estava na parte de cima.

Havia uma grande parede inteiramente de vidro, que dava para um pequeno lago, que eu mal conseguia enxergar pela escuridão, e a pouca chuva.

O ambiente era todo branco, e em tons claros.

Havia um unico sofá enorme de couro branco, e com cara de ser bem confortável.

Havia uma TV de plasma na frente do sofá, enorme. Não saberia dizer as polegadas, mas ocupava mais da metade daquela parede, e ao seu lado tinha um sistema de som, impecável, não entendia nada sobre isso, mas com toda a certeza devia ter sido uma nota preta.

Olhei melhor para TV, que estava ligada, e vi que estava no canal de esportes, acho que é dai que estava vindo os barulhos.

Mas o que me chamou atenção, foram as enormes prateleiras embutidas nas paredes que iam do chão ao teto, com todos, os tipos de DVD's, e principalmente CD's.

Deus, ali era melhor que uma loja com certeza.

Passei os dedos abobada, nas enormes fileiras, encarando a mutidão de CD's. Até que vi em cima de uma mesinha, um livro. O unico naquele lugar.

Parecia com aquele que havia ganhado do Sr. Müller. Com as folhas antigas e gastas, quase como papiro.

O peguei na mão, olhando sua capa apenas com o titulo.

O Morro dos Ventos Uivantes.

O abri, e vi em letras finas e elegantes, em uma tinta desgastada, algo que me fez gelar, e ter certeza que não era para mim estar ali. Estava simplesmente escrito:

Edward Cullen.

De repente a TV parou de fazer barulhos.

Eu senti um vento gelado passar por meu corpo, e uma respiração fria parar em meu pescoço, e murmurar naquela voz sexy e aveludada.

--"Fique sempre comigo... encarne-se em qualquer forma... torne-me louco! Só não quero que me deixe neste abismo, onde não posso encontrar-te! Oh,Deus! É inexprimível! Não posso viver sem a minha vida! Não posso viver sem a minha alma"

Minha respiração ficou presa em algum lugar desconhecido para mim, e meu coração parecia ter se esquecido de bater.

Era ele.

O Maníaco de máscara. Bem atrás de mim, que tinha acabado de recitar Heathcliff.

Eu não sabia a onde estava minha respiração. Apenas que eu tinha que respirar. Mas como?

O medo me dominava, mas por trás dele, sentia arrepios, que não tinham nada haver com o medo. Os arrepios tinham haver com sua sensual voz de veludo.

Fechei os olhos esperando que me matasse. E sentindo minhas mãos começarem a tremer, e o livro começar a escorrer por elas.

Mas então ele segurou minhas mãos firmemente com as suas, me fazendo ter choques térmicos, com sua pele fria, de encontro a minha quente.

Meu interior, parecia em época de reveillon dentro de mim, pois apenas com aquele toque eu parecia conseguir ver Fogos de Artifício.

Eu sentia seu corpo frio praticamente grudado no meu, enquanto suas mãos seguravam as minhas fortemente.

-- Vo-vo-cê n-n-ão te-tem a-a-alma! — gaguejei, e senti ele rir baixo em meu pescoço, criando arrepios involuntários.

Senti minhas mãos pararem de tremer, e ele me virar calmamente para ele.

Eu estava em estado de choque. Procurando desesperadamente me lembrar como se respira, antes que eu desmaiasse por falta de ar.

Mas eu desisti desse encargo, quando encontrei seus olhos agora castanhos.

-- Realmente. — ele respondeu, aproximado seu rosto do meu e parando em meu ouvido. — E sabe por que? Porque eu matei a minha.

Eu estava apatica demais pra pensar, em como ele havia matado sua alma. Isso era impossivel.

Senti seu nariz passar por meu pescoço, enquanto ele tocava seus lábios levemente em minha jugular.

--"E se seu corpo estiver gelado, vou imaginar que foi um vento frio que passou, e se estiver muda, pensarei que é porque está dormindo..." — murmurou.

Eu não pensava em mais nada, apenas que foi isso que Heathcliff havia dito, quando Cathy morreu.

Ele ia me matar.

Já praticamente via a morte vindo de encontro a mim.

E Então o medo se foi.

Quando percebi que não teria mais saida, o medo se foi. Se escondendo atrás do meu consentimento pelo pior.

E agora só me restava tentar conseguir misericórdia dele. Uma ultima tentativa pela minha vida.

-- "Por piedade, não falemos disso agora! Teu sangue sempre calmo não conhece as ardências da febre. Tuas veias estão cheias de água gelada. Mas as minhas fervem e, diante de semelhante frieza, pulam!" — minha voz saiu, rouca e entrecortada. Mas ainda assim firme.

Senti ele sorrindo em minha jugular, e começar a levantar vagamente a cabeça, parando novamente em meu ouvido.
-- E você não faz idéia de como suas veias realmente fervem, de como elas realmente cantam para mim. Como se seu sangue estivesse gritando para estar em minhas veias, descongelando a frieza abundante.

Ok. Ele praticamente tinha falado que iria me matar.

Cade Emmett? Jasper? Carlisle? Esme? Eles somem quando eu preciso.

E Alice? Ela não preve o futuro, será que não viu eu vindo pra cá? Não viu que ele iria me matar?

-- Seu sangue é tão quente, tão doce, tão suave. É meu tipo preferido de droga, como se fosse o melhor tipo de heroína, a mais rara. Daquele tipo que me chama e me vicia. Sem ter como resistir, porque é irreversivelmente irresistivel.

Bom. Pelo menos alguém sentia meu sangue quente, porque para mim, ele tinha virado pedra de gelo há muito tempo.

Meu coração parecia realmente ter parado de bater, e minha respiração parecia realmente ter me abandonado.

-- N-n-não! — pedi, apertando minhas mãos em sua camisa.

Não estava com medo. Não era esse o sentimento que eu parecia estar sentindo.

Era mais como uma tristeza, um desespero depressivo, em que eu apenas queria viver. Apenas.

Ele riu em minha pele.

-- Se você dissesse sim, eu ficaria realmente preocupado. — respondeu, como se estivesse brincando.

Como se me torturasse.

Fechei meus olhos, me esforçando para respirar fundo, e sentindo a morte chegando mais perto.

Eu quase já podia ver, minha mãe vindo me buscar, ao lado da Vovó Swan, enquanto o Vovô sorria gentil atrás delas.

Mas eu não queria ir. Não ainda.

Nunca tive medo da morte. Apenas tenho necessidade de viver; de respirar.

E Charlie. Oh Deus. Ele viria atrás de mim, cedo ou tarde. E iria descobrir sobre minha morte.

Ele iria a loucura, não aguentaria minha perda também. Ele morreria junto.

Não. Ele morto não. Isso não. Eu não suportaria ver isso seja da onde for.

Senti lágrimas começarem a rolar de meus olhos quando os abri novamente, e uma das gotas deslizar por minha bochecha, e cair silenciosamente no pescoço nu de Edward.

Ele desviou a face de meu pescoço, ficando cara a cara comigo, e então ele começou a beijar minhas bochechas, e meus olhos. Ele beijava, limpando todo o lugar que havia caido lágrimas, enquanto segurava meu rosto imóvel entre suas mãos.

-- O q-que vo-vo-cê es-es-ta fa-fa-zen-zen-do? — gaguejei baixo, entre um pequeno soluço.

-- Saboreando seu gosto!

Eu não podia acreditar nisso. Ele era maluco?

Uma de minhas lágrimas cairam passando por meus lábios, e ele as seguiu com os olhos famintos.

Mas ele não tocou seus lábios nos meus. Apenas puxou uma das mãos e passou por entre eles, secando meus lábios, e logo depois lambendo seu dedo.

Maníaco.

-- Se suas lágrimas já tem esse gosto, imagine seu sangue. — ele falou deslizando a cabeça novamente para meu pescoço.

Ele estava esperando o que? Que eu agradecesse os elogios?

-- Sabe, normalmente elas gritam enquanto choram. — disse passando a língua na minha jugular. — E normalmente os corações quase saltam pelo peito, fazendo barulho de orquestra em meus ouvidos.

O que eu respondia? Que esqueci como faz um coração voltar a bater?

Por Deus, porque ele simplesmente não me matava logo, e acabava com isso? Por quê a tortura?

Senti uma raiva borbulhar dentro de mim. Ele ia me matar, secar meu sangue, e ainda ia brincar comigo?

Que me matasse logo. Mas eu não ia ser humilhada.

-- O que você entende sobre coração? — indaguei arisca. — Já que pelo visto você não possui um.

-- Entendo o bastante para saber, que o seu acelerou de medo, com receio de pronunciar essas palavras. Mas você acertou. Não possuo um coração.

-- Então porque não me mata logo, e acabe com isso? — questionei, sentindo as lágrimas voltarem a escorrer.

-- Estou esperando você pedir por isso. — respondeu em meu ouvido, com sua voz, que me criou arrepios até os dedos dos pés. — Estou esperando você implorar para mim te matar.

Ok. Ele estava fazendo chantagem emocional. Por isso toda a tortura. Para mim sentir apreensão. Perder as esperanças.

Ele gostava de torturar sua vitimas. Seja fisicamente ou emocionalmente. Ele gostava de tortura-las. De faze-las se imaginarem mortas, de faze-las pedirem a morte, apenas para acabar logo com a angústia.

-- Não irei pedir pela morte. — murmurei.

-- Você já pediu por ela Bella. No momento em que subiu por aquela escada, você já estava procurando-a.

Engoli em seco. Não havia saida.

-- Você não parece com medo.

--"Coragem é resistência ao medo, domínio do medo, e não ausência do medo." — citei, predendo a respiração.

Ele levantou a cabeça novamente de olhos fechados, respirando fundo o ar a minha volta.

-- Mark Twain, muito apropriado. — comentou ainda de olhos fechados.

-- Por que?

-- Eu o matei!

E então ele abriu os olhos. E não estavam mais castanhos, e sim do mesmo vermelho sangue que eu havia visto da primeira vez.

Sim, o medo havia voltado.

Senti meu coração voltar a acelerar descompassado, quando ele sorriu, um sorriso sarcástico. Mas não era um sorriso normal.

Porque ali haviam dois enormes caninos expostos.

Meu coração que até há momentos atrás parecia ter se esquecido de bater, estava prestes a sair do meu peito. Minha respiração estava ofegante, e minhas pernas estavam moles.

Eu já não tinha mais esperenças. Ele ia me matar.

Fechei meus olhos com força, quando ele aproximou seus lábios do meu pescoço, puxando minha cabeça para o lado, pelos cabelos, e retirando os fios que haviam caido em minha julugar.

-- Se você encontrar com Deus pelo caminho, diga-lhe que tenho contas para acertar com ele. Mas se encontrar com o diabo, mande lembraças minhas, afinal velhos amigos, não se deve esquecer.

Eu ofeguei, quando senti seus dentes afiados, passearem por meu pescoço, e fechei os punhos, esperando pela dor.

Ouvi o maniaco rosnando e murmurar algo que eu não consegui ouvir. Como se falasse consigo mesmo.

Não ousei abrir os olhos.

Estava esperando meus momentos finais. Estava esperando a dor. Estava esperando a morte.

Mas ela não veio.

Ouvi um barulho ensurdecedor, de algo batendo com força em alguma coisa perto de mim. E inconscientemente gritei.

O susto me fez abrir os olhos e encarar a cena. E o que eu vi, me fez tremer na base, mas ainda assim sentir uma pontada de esperança.

Jasper estava com os caninos expostos, e em posição de ataque, na frente de Edward.

Mas o maníaco parecia fumaça, era só Jasper se aproximar, que ele se esquivava. Como se lesse sua mente. O que faz sentindo. Já que o maníaco realmente lê mentes.

Jasper rosnou alto, e pulou em cima de Edward, que saltou, se agarrando no teto.

-- Ela é minha! — o maníaco falou, me olhando do teto com olhos famintos.

-- Não faça isso Edward. — Jasper respondeu em um rosnado, enquanto se colocava na minha frente.

E eu me perguntei porque exatamente, Jasper não acalmava ele.

Olhei para Jasper de costas para mim, e senti seu corpo tenso. Quando ele me lançou um olhar preocupado, eu reparei em seus olhos, que expressavam dor, como se ele estivesse se esforçando. Foi então que me toquei.

O desespero me tomou novamente. E a pouca esperança que eu tinha adquirido quando eu o vi, se esvaio.

Jasper não estava controlando as emoções, ele estava perdendo o controle delas.

Por isso ele estava se esforçando, pra conseguir se controlar e não me atacar também.

Mais quanto tempo ele aguentaria? Quanto tempo até os dois estarem tentando me matar?

Pensei em correr, mas Edward estava no teto perto da porta. Pensei em me tacar pelo vidro, mas Jasper estava na minha frente, bloqueando a passagem para o enorme vidro.

-- Não quero te machucar Jasper. — Edward exclamou, se soltando do teto, e caindo no chão.

-- Então não me force a te atacar. — Jasper respondeu, dando um passo para trás.

Mas não porque estivesse com medo, apenas pra me forçar a ir para trás também.

-- O que ela é para você Jazz? Ela é apenas mais uma simples e comum humana.

Jasper rosnou baixinho, e senti seu corpo frio começar a tremer, e seus punhos de fecharem.

-- Você sabe tão bem quanto eu, que isso não é verdade. — ok, agora eu boiei.

Se eu não era apenas uma humana, eu era o que? Eu sentia que estava perdendo alguma parte daquela história.

-- Apenas estranhas coincidências. — Edward rosnou se aproximando.

-- E você melhor do que ninguém, já deveria ter aprendido que não existe coincidências Edward. — Jasper respondeu dando mais um passo para trás, me fazendo encostar na estante com cd's.

Edward rosnou alto.

-- EU A QUERO! — berrou.

-- Você não é o unico.

E então Edward saltou para cima de Jasper, com os caninos expostos, e os olhos borbulhando de ódio.

Jasper rosnou e me empurrou para o lado, me tirando de perto.

Senti meu corpo voando com a força que Jasper havia feito, e minha cabeça batendo fortemente na quina da mesinha, a onde há momentos atrás estava O Morro dos Ventos Uivantes.

Meu corpo fraquejou com a força da batida, e minha cabeça doeu intensamente com a pancada, enquanto um liquido viscoso escorria pela minha nuca.

Depois disso, tudo aconteceu rápido demais.

Jasper e Edward que estavam tentando se atacar no meio do aposento, pararam estáticos, dilatando as narinas. No mesmo instante eu ouvi a voz de Alice berrando, enquanto entrava pela porta como um furacão.

Um sentimento de sede me tomou por completo, queimando minha garganta.

Eu entrei em desespero. Minha cabeça parecia que iria explodir, e meu corpo não aguentava mais tantas emoções descontroladas.

Meus olhos estavam cheios de lágrimas desesperadas, me fazendo ver tudo embaçado. Enquanto uma raiva sem sentido, crescia dentro de mim.

Em menos de um segundo, em que eu havia batido a cabeça, tudo voltou a se movimentar me causando tontura.

Vi Edward e Jasper, rosnando alto, enquanto me olhavam com olhos famintos. Logo depois eles eram apenas dois vultos, voando ao meu encontro.

Fechei os olhos, gritando, de medo, de desespero, de sede, de raiva... era muita coisa pra uma pessoa só. Sentia que poderia explodir a qualquer momento.

O som alto de uma colisão, estrondou. Fazendo as paredes tremerem, enquanto varias coisas caiam em cima de mim, me machucando.

Abri os olhos por reflexo, e a cena improvável que eu vi, me fez ganhar mais um sentimente... o choque.

Alice estava com o rosto contorcido enquanto segurava Edward e Jasper pelo pescoço, fazendo os dois tirarem os pés do chão, enquanto rosnavam.

Não dava para acreditar, que aquela coisinha pequena da Alice, que parecia tão frágil, e delicada, tivesse imobilizado dois homens fortes e musculosos, de mais de 1,80 de altura.

Minha cabeça doía como se tivessem enfiado uma faca afiada pela minha nuca, e a cada pequeno movimento que eu dava com ela, me fazia sentir que poderia desmaiar a qualquer momento.

O cheiro do sangue chegando no meu pescoço, também estava me deixando tonta. E Alice parecia estar resistindo pra não pular em cima de mim, enquanto os segurava.

-- NAO! — Edward rugiu, a chutando com os pés, fazendo-a bater com força na enorme TV de plasma, a partindo no meio, enquanto a tela se desgrudava em pedaços da parede, caindo no chão.

Fechei os olhos para que os cacos da tela não os furassem.

-- BELLA! — ouvi uma voz conhecida. Emmett.

Abri os olhos, e vi Emmett e Carlisle, com Rosalie e Esme logo atrás, enquanto entravam como vultos no aposento.

No mesmo instante em que entraram, eu senti um alivio percorrendo todo meu corpo.

Mas o alivio durou pouco. Muito pouco.

Por um momento eu esqueci, que Jasper estava descontrolado. Mas no momento em que Esme me olhou com olhos famintos, e se jogou para cima de mim. Eu lembrei.

Carlisle trombou com ela no ar, a empurrando contra uma das estantes, derrubando todo o seu conteúdo.

Emmett me olhou, com olhos vermelhos que eu nunca havia visto nele. E eu percebi o esforço que ele estava fazendo.

Mas então meu mundo parou. Quando uma voz fina gritou.

Lily.

Todos olharam para a porta, a onde estava a pequena, de camisola, e lágrimas escorrendo por sua face. Mas dois segundos depois, tudo voltou novamente.

Jasper pulou em cima de Lily que gritou, mas Rosalie se chocou contra ele, o fazendo cair com estrondo.

-- SAIA DAQUI! — Rosalie berrou para Lily.

Mas Lily não se moveu.

Ela gritava enquanto chorava em desespero. E eu percebi que ela também estava sentindo as emoções de Jasper.

Alice se levantou como um jato, a pegando no colo como se fosse uma pena, e correndo com ela para fora.

Emmett tentava segurar Edward, enquanto esse estava quase chegando até mim.

Percebi que Emmett não respirava.

Esme estava do meu outro lado, fora de si, enquanto tentava me alcançar, mas Carlisle a segurava firmemente pelo pescoço.

Ouvi o grito de Rosalie, quando Jasper a chutou fazendo-a voar, e bater em Emmett, que caiu sobre Carlisle.

No mesmo instante tive certeza que estava morta.

Edward, Jasper e Esme, corriam como vultos para me atacar.

Não conseguia desgrudar o olhar daquelas três criaturas com caninos que vinham para cima de mim.

Gritei, quando senti Carlisle pular na minha frente e voar em Esme. Fazendo os dois cairem com estrondo em cima do sofá branco, que pelo barulho, havia desmontado.

Jasper pulou para cima de mim, enquanto eu colocava uma mão na frente do rosto, por puro reflexo. Por entre os dedos reparei que Emmett havia saltado em cima dele com agilidade.

Apenas Edward chegou até mim, com sua máscara, e seus olhos vermelhos.

Ele me puxou pelo braço, quase o quebrando, e me colocou em suas costas. O movimento me fez gritar de dor, pela minha cabeça.

Rosalie berrou para ele parar, enquanto tentava chegar até nós, mas ele já estava perto da parede de vidro. E sem parar, sem pensar, sem falar, ele simplesmente se jogou por ela, estraçalhando a grande parede transparente.

Fechei os olhos, enquanto afundava meu rosto em suas costas. Senti muitos cacos passarem por minha face, e meu corpo, me cortando.

E berrei em desespero quando percebi que estavamos caindo. Estava preparada para a queda. Mas ela não veio.

Meu corpo começava a escorrer pelo seu, e então senti ele agarrando minhas pernas, cruzando-as em volta de suas costas.

Forcei meus olhos a se abrirem, e me arrependi profundamente.

Ele estava correndo, ou melhor quase voando, enquanto se aproximava do lago que separava aquela parte da casa, da floresta.

Ele se jogou na água, e eu gritei, enquanto prendia a respiração.

Ele mergulhou comigo agarrada a suas costas, enquanto nadava em uma velocidade incrível.

A água quase congelada, me fazia tremer muito, mesmo em baixo dela.

Minha respiração já estava começando a faltar, e abri a boca em um berro silencioso em baixo da água, quando senti meus ferimentos ardendo de um jeito cruciante.

Eu nunca achei que iria sentir tanta dor, como naquele momento.

Meus ferimentos pareciam piscar com a água fria, e meu corpo gritava em protesto por tamanha temperatura.

Eu precisava de ar. E meus braços pareciam estar sendo esmagados, pela força com que o maníaco os segurava.

Sentia minha cabeça começar a querer apagar, pela falta de oxigênio. Mas então senti o ar frio em contato com a umidade quase congelada da minha pele. Ofeguei, sentindo dificuldades para respirar.

Ele começou a sair do lago, extenso, enquanto voltava a correr. Eu tive que fechar meus olhos, pra não vomitar ou perder os sentidos de vez.

Era muito rápido.

Meu corpo inteiro doía, e parecia que eu estava sangrando até na alma.

Eu já não sentia minha garganta queimando como brasa, e também não sentia o ódio sem sentido.

Mas o desespero e o medo ainda estavam lá. Me corroendo por dentro.

Apertei meus braços em volta dele, com medo de cair. Mas me pareceu uma boa idéia me ralar, apenas para não morrer.

Ele já não segurava meus braços com força. Ele usava seus braços para tirar os galhos das árvores de seu caminho, enquanto corria, em uma velocidade sobrenatural.

Comecei a tirar meus braços de seu pescoço, enquanto puxava minhas pernas que estavam em volta de seu quadril.

Ele rosnou.

-- NEM PENSE NISSO! — gritou, enquanto agarrava meus braços com força com uma de suas mãos, e com a outra prendia minhas pernas fortemente em volta de si.

Meu corpo estava completamente grudado no dele. Não havia uma unica parte de mim, que não estava apertada de encontro a sua pele fria.

Mais fria que o vento, mais fria que a água quase congelada.

Os seus cabelos arrepiados, que agora estavam molhados, faziam voar gotas em mim.

Enquanto eu sentia levemente a chuva fraca cair em meu corpo molhado.

Eu ouvi um uivo distante. E Edward rosnou, fazendo uma curva fechada e seguindo para outro caminho.

-- VA EMBORA! — ele gritou.

-- Me... solta que eu vou! — respondi em voz baixa, sem pensar.

Ele rosnou mais alto.

-- Não você. Ela!

Ah. Claro. Doce ilusão.

Olhei em volta, e vi um vulto, correndo em grande velocidade para nos alcaçar.

-- Não vou sem ela, Edward! — era a voz de Rosalie.

Edward apenas rosnou, e aumentou a velocidade, se é que isso era possivel.

-- Edward, pelo amor de Deus, ouça a voz da razão, e solte a garota. — Rosalie gritou, emparelhando conosco.

-- Eu a quero. — ele respondeu.

-- Não Edward. Você sabe que não a quer assim.

Edward rosnou.

-- VA EMBORA! — berrou, ganhando a dianteira.

Ouvi barulhos de galhos, e olhei para cima. Rosalie estava pulando entre as árvores para nos acompanhar.

-- Para onde esta levando-a, Edward? — Rosalie perguntou em voz alta de uma das árvores.

Edward não respondeu.

-- Vá para casa Rose. Não quero ter que lutar com você.

-- E eu não quero ter que te forçar a isso Edward. Então solte-a.

-- NAO!

Edward continuo correndo a toda velocidade, enquanto Rosalie nos seguia, pelas árvores.

Eu ouvia Edward rosnar baixo, a cada cinco segundos. E me perguntei se Rosalie estaria falando com ele, por sua mente.

-- PARE! — ele ordenou, enquanto rosnava alto, me fazendo sobressaltar de susto. — NAO QUERO OUVIR MAIS NADA!

-- É claro que não quer. Porque sabe que estou certa. — Rose revidou.

-- NAO!

-- Você pode tentar ignorar os fatos Edward, mas isso não os altera.

-- Impossivel! — Edward murmurou, parecendo estar vendo algo, que eu com toda a certeza não estava.

-- Faça me rir Edward. — Rosalie respondeu com um ar zombeteiro. — Esperava que depois de mais de 100 anos, você já tivesse aprendido que a palavra impossivel, só tem valor enquanto você acreditar nela.

Edward rosnou alto. Eu me perguntei, porque ele não me tirava de suas costas e não me matava de uma vez, mas como se lesse minha mente Rosalie respondeu.

-- Você não quer mesmo isso.

-- Como pode saber?

-- Porque se quisesse, você a teria matado assim, que pulou por aquela janela.

Eu gritei, quando um som enorme saiu do peito de Edward.

-- PARE DE ME MOSTRAR ISSO! — ele rugiu.

-- Apenas aceite a realidade Edward.

-- ESSA NAO É A REALIDADE!

-- Talvez a sua não. Mas a dela, talvez.

Eu olhei para cima novamente. 'Dela'?

Deus eu realmente estava perdendo alguma coisa por aqui.

-- MANDE-O IR EMBORA! — Edward rugiu, olhando para trás.

-- Você sabe que ele não vai. Ele já a ama.

Ele quem?

Meu corpo inteiro doía absurdamente, e todas as perguntas sem respostas, estavam me deixando ainda mais tonta.

-- EDWARD! — ouvi um grito distante. Emmett.

-- Pense bem Edward. Achei que você fosse esperto o suficiente, para não cometer o mesmo erro duas vezes.

Edward rosnou. Rosalie suspirou.

-- Olhe melhor minha mente Edward.

-- NAO!

-- Deixe de ser tapado Edward. Não pise no mesmo buraco de escuridão, a onde você já sabe que vai cair.

-- Não é o mesmo buraco.

-- É exatamente o mesmo Edward. Só que tem um pequeno problema dessa vez.

-- E qual seria?

-- Que você não tem espaço para duas máscaras em seu rosto.

Edward parou de correr, me fazendo quase voar por cima dele. Mas ele ainda me segurava com força.

Logo depois, Emmett parou ao lado dele, de olhos vermelhos, e rosto sombrio.

-- Solte-a Edward. — Emmett disse em voz baixa, enquanto me segurava pela cintura.

Mas meus braços e pernas ainda estavam firmemente presos em Edward.

Edward estava parado, imóvel. Como uma estátua.

-- SOLTE-A EDWARD! — Emmett repetiu, enquanto rosnava.

Edward pareceu sair de algum transe, e soltou minhas pernas, e logo depois meus braços, me colocando no chão.

Logo que meus pés tocaram a terra firme, meu corpo começou a cair.

Minha cabeça não aguentava mais. Emmett me segurou fortemente, passando seus braços protetoramente por mim.

Edward se virou para trás, e me encarou, com seus olhos vermelhos.

Mas havia algo de errado. Seus olhos estavam torturados, como se transbordassem dor.

Ele não respirava. Apenas me fitou nos olhos durante um bom tempo. Como se quisesse me explicar com o olhar, o que estava se passando por trás daquela máscara.

Desviei o olhar daquele mar de sangue, e abaixei a cabeça. Enquanto Rosalie descia da árvore, e parava ao meu lado.

Emmett tirou seus braços frios e fortes delicadamente de mim, enquanto me dava um beijo na testa.

-- Você a leva Rose? — Emmett perguntou, e eu ofeguei.

-- Não. — murmurei baixinho, enquanto Rosalie concordava com a cabeça.

Me sentia segura com Emmett.

-- Não estarei longe. Prometo. Mas você ainda esta sangrando. — respondeu, enquanto Rose passava seus braços perfeitos e frios em meus ombros.

Edward ainda me encarava com olhos torturados.

-- Vamos Mano. — Emmett falou, o puxando, mas ele ainda me encarava, sem se mover. — Vamos Edward, antes que algo realmente trágico acontença.

E ele seguiu Emmett. Ainda me olhando enquanto andava. Até sumir por entre as árvores.

Rosalie ainda me segurava pelos ombros. Enquanto eu finalmente me dava conta do que havia sido tudo aquilo.

Eu estive Cara a Cara com o Perigo.

Eu estive Cara a Cara com a Morte.

Mas principalmente:

Eu estive Cara a Cara com Edward.