"Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que sonha a nossa vã filosofia.""(William Shakespeare)

Senti minha cabeça pesada, e meu corpo dolorido, como se eu tivesse me contorcido de dor, enquanto me torturavam.

Minha mente não estava conectando os últimos acontecimentos com a realidade. Era como um aterrorizante e atormentador pesadelo, em que eu sentia, todo e cada sentimento de desespero, medo e angústia.

A única coisa que meu cérebro parecia capaz de raciocinar tinha nome: CHARLIE, CHARLIE, CHARLIE.

Alguma coisa no fundo da minha mente estava desesperadamente preocupada com ele. Eu não entendia, como um pesadelo poderia ser tão real? Ao ponto de estar me fazendo entrar em colapso de preocupação, aflição e receio.

Foi então que senti algo gelado e húmido tocar em minha testa.

Meus instintos de preservação pessoal, que ainda estavam ligados no estranho pesadelo, me diziam para não abrir os olhos.

Mas minha curiosidade me mandava abrir e olhar o que seria que tocava minha testa.

Senti a curiosidade ganhando mais espaço, enquanto o meu instinto de preservação estava se esvaindo.

Então abri os olhos. Me deparando com dois enormes olhos vermelhos.

E descobri que meu pesadelo havia sido mais do que real. Pois eu ainda estava nele.

Gritei.

Não poderia ter sido tudo real. Não poderia.

Isso não acontecia na vida real. Isso era coisa de filme de terror.

Então por que ainda tinha dois olhos vermelhos me encarando?

-- Não grite! — a mulher dos olhos vermelhos me repreendeu.

Olhei para seu rosto surpreendentemente pálido e me encatei com a figura, que parecia ter saido dos antigos filmes épicos.

Era um rosto arredondado, levemente em forma de coração, e covinhas delicadas em sua face. Seus cabelos eram de um marrom caramelado, com cachos compridos e perfeitos.

Ela era exatamente como eu imaginava que seria Helena de Tróia. Talvez um pouco mais velha. Mas ainda assim linda. O único detalhe que não combinava muito bem com Helena de Tróia, eram os grandes olhos vermelhos.

Mas havia alguma coisa por trás de seus enormes olhos vermelhos.

Não entendia o que seus olhos expressavam. Não fazia sentindo, com tudo que eu estava vivendo. Era como se ela estivesse apreensiva... preocupada.

Meu sangue gelou e eu comecei a ofegar quando senti seus dedos tocando levemente minha testa.

Me afastei para trás, respirando forte, e então percebi que estava em uma cama.
Era grande, maior que uma de casal. E tinha uma colcha vinho com detalhes em dourados.

Olhei apreensiva para o ambiente, tentando achar uma saída.

Era um quarto. Grande e muito bem mobiliado, no melhor estilo retrô elegante.

O unico problema é que não havia saída além da porta que estava fechada, e da enorme janela trancada.

Me perguntei em que andar estaria, e quão dura seria a queda se eu me tacasse com vidro e tudo dali. Me perguntei também quanto tempo aquelas criaturas de olhos vermelhos levariam para me arrastar de volta, caso eu sobrevivesse a queda.

Mas não tive tempo de pensar nada mais, quando a mulher falou em uma voz doce e macia, de um jeito quase maternal.

O que? Maternal? Eles quase matarem eu e meu pai, não havia nada de maternal naquele lugar.

-- Não precisa ter medo. Não irei machuca-la.

Não ter medo?

Como não se tem medo, de criaturas de olhos vermelhos, e caninos enormes que torturam e matam pessoas? Definitivamente eles não ensinam isso nas escolas.

Olhei para ela, estática, sem conseguir responder, ou até mesmo pensar coerentemente.

Eu não podia e não queria confiar nela.

Sua expressão poderia ser calma, mais seus olhos continuavam vermelhos de um jeito desumano.

Tive vontade de gritar para ela se afastar de mim. Mas novamente minha voz parecia ter se evaporado.

Percebi em sua mão, um pano branco levemente molhado, e percebi que era isso que ela estava passando em minha testa.

Me perguntei brevemente o motivo.

Será que era um fetiche deles? Machucar a vítima, para depois cuidar dela e machuca-la novamente?

Foi quando me lembrei dos outros, e me perguntei a onde estariam. E a apreensão
me invadio. Charlie.

-- On-on-de está Charlie? — perguntei tentando parecer firme e destemida.

-- Ele está bem. Provavelmente deve estar no hospital de Forks, cuidando de sua perna. — a mulher respondeu me encarando de forma preocupada, como se esperasse que eu começasse a berrar e ataca-la.

-- Como posso sa-saber se é ver-verdade? — perguntei me encolhendo mais na cama.

-- Não pode! Você apenas terá que confiar em minha palavra. — a mulher respondeu, sorrindo levemente.

Confiar na palavra dela?

-- Eu quero ve-lo. Eu quero saber se ele esta bem! — exclamei sentindo a preocupação começar a tomar o lugar do medo.

-- E Ele está, e continuará assim, se você parar de se extravasar! — ela respondeu, com o mesmo sorrisinho.

Engoli em seco. Ela pareceu reparar.

O que era tudo isso?

-- Não precisa ter medo. Já disse que não irei machuca-la. — repetiu.

-- Por que estou aqui? — perguntei sentindo meu corpo começar a tremer.

Ela me olhou por um breve momento sem expressão, mas eu juraria que seus olhos estavam confusos.

-- Porque você se ofereceu para ficar, caso soltássemos seu pai.

Como ela sabia? Eu não me lembrava dela estar presente, naquele momento. Creio que isso se deva ao fato de seus amigos, ou seja lá o que forem, já terem espalhado as notícias por ai.

-- Não. Eu quis dizer por que estou nesse quarto? — corrigi.

-- Prefere ficar lá embaixo? — me indagou com as sobrancelhas erguidas.

Me lembrei do lugar sufocador e aterrorizante que era aquele calabouço, e do jeito que ele me afetava com todos aqueles corpos mortos, e toda a falta de ar que minha fobia me transmitia. Só de pensar em voltar para aquele lugar, já sentia minha respiração começar a falhar e antes que pudesse me segurar me vi respondendo por impulso.

-- Não!

-- Então porque reclamas do que te agrada? — questionou com um sorriso compreensivo, como se me entendesse.

-- Eu... eu... apenas queria saber porque não me deixaram lá. — insisti, sabendo que estava fazendo perguntas demais, e me preocupando com isso.

-- Porque você sofre de claustrofobia. Morreria sufocada se continuasse naquele espaço.

-- Como você sabe que tenho claustrofobia? — perguntei sem pensar e me arrependi. Estava sendo ousada demais.

Para meu alivio, ela continuou sorrindo.

-- Porque você estava sufocando. — respondeu simplesmente.

A encarei receosamente e encarei sua mão com o pano.

-- Por que estava passando isso em minha testa?

-- Porque você estava com febre.

-- Você não estava cuidando dos machucados que vocês fizeram em mim? — perguntei novamente por impulso.

Ela me olhou confusa e perguntou.

-- Que machucados que fizemos em você?

-- N-n-ão se-i — gaguejei novamente. — Eu... eu... só es-tou me se-sentindo do-do-lorida.

-- Creio que isso se deva ao fato de você ter pegado uma forte gripe, pela chuva que tomou. Se minha mémoria não falha, esses são os sintomas da gripe; corpo dolorido, congestão nasal, dor de garganta... Mas não saberia te responder com precisão, há muito não pego vírus algum.

Só então percebi, minha garganta arranhada e meu nariz entupido.

-- Mas por que está cuidando de mim? — perguntei sem pesar minhas palavras novamente.

O que faria pessoas como aquelas cuidarem de mim? Especialmente enquanto havia várias outras morrendo lá em baixo.

-- Se isso te incomoda, posso deixa-la morrer de pneumonia. — respondeu sorrindo simples.

Achei que talvez morrer de pneumonia, fosse melhor do que morrer por assassinos de olhos vermelhos, que poderiam me torturar. Mas resolvi guardar esse comentário apenas para mim.

A encarei, sem saber o que responder.

-- Obrigada! — disse por fim, sem acreditar que estava agradecendo a uma mulher que provavelmente nem humana era, e que havia me trancafiado em uma mansão onde existiam varios corpos mortos, depois de um de seus amigos torturar meu pai.

-- Não há de que. — respondeu com um sorriso um pouco maior, e esticou sua mão para mim — Apropósito, sou Esme Cullen.

Antes que eu pudesse processar o que ela havia dito; ela abaixou sua mão, como se fosse errado encostar em mim.

Mas não havia tempo para pensar nisso.

Me levantei apavorada da cama e a encarei chocada e temerosa. Sabia.

Eu sabia, que ela não era humana.

-- Cullen? — perguntei em voz alta. — Impossivel. Os Cullen's morreram há muitos anos atrás.

Ela me encarou com um sorriso triste.

-- De uma certa maneira, sim.

-- Mas... mas... então como pode estar aqui? — questionei ainda assustada e chocada demais pra fazer qualquer outra coisa. — A Senhora é... é... um... fantasma?

Ela me olhou incrédula e divertida ao mesmo tempo.

-- Creio ser sólida demais para um fantasma, não?

-- Não saberia responder, não costumo trombar com muitos fantasmas pela rua. — retruquei me afastando, e indo em direção a janela.

Havia decidido que iria pular, não importando o impacto da queda.

Mas nesse momento um vulto pequeno parou na frente da janela e me encarou com olhos de sangue.

-- Não faça isso. Não seria nada educado sujar minha roseira de sangue. — e eu reconheci a voz. Era a mesma mulher que havia interferido com o homem de máscara.

Ela era a coisa mais perto de um conto de fadas que eu já havia visto. Ela me fez acreditar que fadas realmente existem.

Mas com toda a certeza ela fazia a sininho parecer o capitão gancho.

Pequena, e miúda, com cabelos pretos, curtos e espetados em todas as direções. Rosto branco como o mármore e delicado como uma pétala de rosa, e nariz fino e empinado, como se sua face tivesse sido desenhada para realmente interpretar uma fada.

Uma fada deslumbrante. De olhos vermelhos.

-- É sério, eu levei mais de três décadas para deixa-la impecável. Não acabe com ela. — a fadinha na minha frente continuou.

-- Co... como? — eu não sabia, qual dos 'como' eu queria saber. Se era como ela havia chegado como se fosse o Flash na minha frente, ou como ela sabia que eu iria pular.

-- Bella essa é minha filha, Alice.

Eu a encarei sem entender.

-- C-como sa-sa-be m-meu no-nome? — eu tinha certeza que não havia me apresentado para nenhum desses... seres.

Mas a resposta veio da fada ao meu lado.

-- Ora, até os ratinhos da casa sabe como você se chama. Não foi isso que seu pai berrou como se estivesse sendo crucificado em alto e bom som? Bom, não que tenha ratinhos nessa casa. Eles nem chegam perto, pra dizer a verdade.

Eu a olhei pasma. Como ela podia falar assim de Charlie? Como ela tinha coragem? No minuto seguinte cheguei a conclusão que não gostava mais de fadas, e nunca mais iria ver Peter Pan na minha vida.

Não que eu tivesse muitas esperanças de ver qualquer coisa, que não fosse a morte se aproximando.

Ela riu de alguma coisa que eu perdi e me encarou.

-- Calma, não falei para ofender você ou seu pai. Foi só para lhe explicar como sabiamos seu nome. Continuei a encarando em estado de choque, e me indaguei se a roseira da qual ela havia falado, continha muitos espinhos. Porque pular com toda a certeza seria uma boa opção.

Eles eram o que?

Afinal o que era tudo aquilo?

-- Como... — respirei fundo, tentando achar minha racionalidade — Como você sabia que eu iria pular?

Ela me olhou sorrindo, como uma criança.

-- Porque eu prevejo o futuro, de certa forma.

-- Você prevê o futuro? — indaguei com os olhos arregalados de choque.

A ultima coisa que eu esperava que eles fossem, era videntes.

Ela me olhou confusa, com meu estado de choque.

-- Você esta chocada porque eu prevejo o futuro? Achei que o fato de bebermos sangue te chocaria mais. — ela comentou pensativa. — Tenho que concordar com Emmett, os humanos ficam mais esquisitos a cada década.

A olhei pasma, e tenho certeza que minha boca estava entreaberta.

Ela prevê o futuro?

Beber Sangue?

OS humanos?

Meu cérebro parecia ter parado de funcionar, porque eu não ligava nada com nada.

-- Alice, ela ainda não sabe. — a mulher disse da cama, olhando reprovadoramente pra fadinha vidente na minha frente.

-- Não? Achei que era por isso que ela queria se tacar na minha roseira.

-- Ela se assustou quando ouviu meu nome. Ela esta achando que somos fantasmas.

-- Fantasmas? — a fadinha que se denominava Alice, exclamou me olhando incredula, como se eu fosse louca. — Fastasmas não existem.

-- É. Porque criaturas de olhos vermelhos com certeza são muito mais reais. — falei sem pensar, e no mesmo instante coloquei as mãos na boca.

Eu estava brincando com a minha própria vida. Mas as duas riram. Não sabia se ficava aliviada, ou preocupada.

Elas eram loucas. Essa era a única explicação coerente que meu cérebro conseguia formar.

As outras eram muito irrealistas para minha realidade lógica. Combinariam mais como teorias para um filme de terror.

Senti minha cabeça começar a pesar. Era muita informação para uma pessoa só.

Olhei para elas aparvalhada. Completamente perdida, com as mudanças de humor delas, e com as minhas próprias.

Como elas podiam rir? Depois de matar pessoas? O que elas poderiam ser?

Eu não sabia mais quantos sentimentos poderia sentir.

Sentia, medo; apreensão; preocupação; receio; curiosidade... estava completamente perdida dentro de mim.

Foi quando um homem louro, pálido e absurdamente lindo, adentrou o quarto calmamente, e parou na minha frente.

No momento que seus olhos igualmente vermelhos, encontraram os meus, todos os meus sentimentos pareciam se resumir a um: Traquilidade.

Deus, como ele fazia isso?

Ele era alto, e musculoso, porém magro, tinha os cabelos cor de mel, bagunçados, e o rosto sério.

Parecia estar se concentrando para não fazer caretas de dor, como se sofresse dores dentro de si.

Sua postura era perfeita. Ele com certeza tinha uma elegância educada, mas aparentava ter pulso firme e cabeça feita.

A sua postura firme, me lembrava dos filmes antigos sobre guerras, que eu assistia. Em que os soldados eram todos assim.

-- Jazz? — Alice o chamou preocupada.

-- Eu estou bem Alice. Pelo menos agora eu estou. — ele respondeu ainda com a postura séria, mas com um pequeno sorriso começando a crescer em seus lábios
sérios. — Ela estava me deixando maluco com o turbilhão de emoções. Dava para senti-los do jardim.

Senti-los?

A tranquilidade me tomava. Mas eu não queria ficar tranquila.

Eu queria salvar minha vida, reencontrar meu pai. Para depois, poder ficar tranquila.

Ele pareceu sentir meu interior começar a ficar inquieto novamente, e mais uma vez senti o alivio me tomando por completo, como um calmante.

O encarei calmamente. Embora era para mim ter o encarado assustada, mas a tranquilidade repentina não me permitia.

-- O que é isso? Quem é voce? — perguntei com a voz serena. Mas a curiosidade começava a querer borbulhar em mim.

-- Eu sou Jasper Hale, e é um prazer conhece-la Bella. — o homem respondeu de um jeito galante, mas ainda com a postura de um soldado.

O que eu respondia? O prazer é todo meu?

Com toda a certeza não. Mesmo com ele sendo absurdamente lindo.

Mas ele parecia ter sentindo minhas duvidas, porque riu baixinho, e falou.

-- Não precisa responder. Apenas mantenha suas emoções sob controle, e já estará fazendo um enorme favor, tanto para mim, quanto para você.

Bom, eu não estava entendendo nada. Apenas que eu estava em estado de paz e harmonia dentro de mim, e isto parecia bastar por enquanto.

Me aproximei da cama e me sentei calmamente.

Não podia negar que o que fosse que ele estava fazendo comigo, era bom.

Não sentia mais o medo, mais a preocupação, mais nada. Parecia que eu podia simplesmente deitar minha cabeça no travesseiro e dormir.

-- Obrigada Jazz, mas um pouco e ela com toda a certeza iria acabar com a minha roseira. — Alice agradeceu ao louro sorrindo encantada.

-- E provavelmente iria acabar com meu alto controle. Nunca me senti tão confuso. — ele respondeu a encarando.

Eles se olharam por pequenos minutos, como se estivessem apaixonados. E eu os encarava sentindo que estava invadindo um momento particular. Mas não podia me controlar, tudo ali me intrigava. Mesmo que a curiosidade estivesse escondida bem no fundo da tranquilidade que me dominava.

Mas o momento foi interrompido, quando Alice ficou rígida, e com o olhar desfocado.

-- Edward! — Alice murmurou em um tom baixo, que eu tive que fazer forças para conseguir ouvir.

Nesse momento Jasper ficou rígido, e todo o medo, apreensão, desespero e os outros sentimentos que estavam escondidos pelo manto branco que era o sossego, pareceram voltar como um jato em alto velocidade. Mas me sentia pior. Meu desespero estava de um jeito que eu não conseguia controla-lo.

Pulei da cama e me encostei na parede, ofegando.

-- Jazz! — Alice alertou. Ele me encarou, mas a paz não veio novamente.

A raiva parecia crescer de algum lugar dentro de mim, e eu não entendia mais nada.

Jasper olhava para a porta, como se tivesse sentindo algo fora do quarto.

-- As emoções de Edward estão interferindo. — Jasper respondeu, se esforçando para fazer alguma coisa.

-- ALICE! — Esme gritou, se colocando na frente de Jasper, que agora havia caninos expostos, e olhos famintos pousados em mim.

Meu desespero cresceu, junto com uma raiva sem explicação, e um sentimento de fome incontrolável, enquanto o medo voltava a me dominar.

Eu me sentia mais perdida que nunca, não entendia mais nada. Achava que estava começando a ficar louca com tudo aquilo dentro de mim.

Minha cabeça começou a latejar, e eu me peguei gritando em desespero para aquelas emoções sem controle pararem.

O medo aumentou quando Jasper saltou para cima de mim, como um leão atancado sua presa. Mas foi interrompido pelo pequeno vulto de Alice que trombou com ele no ar, e os dois cairam com um estrondo no chão.

Eu não conseguia mais pensar, estava fora de controle. Sentia que poderia explodir a qualquer momento.

Os dois ainda estavam no chão, rolando em uma velocidade que eu nao sabia mais o que estava vendo.

Esme rugia perto de uma das comodas, enquanto a segurava com força, quebrando-a; e me olhando com olhos brilhantes, e caninos expostos, como se tivesse se segurando para não pular em mim. Meu medo me dominou, e em um ato desesperado, corri para a porta, passando inevitavelmente por Esme.

Naquele momento achei que fosse morrer.

Ela me segurou pelo braço, e eu senti uma dor terrivel ali. Mas um vulto rápido, passou por mim, soltando meu braço e empurrando Esme com força contra a parede.

Sai correndo em desespero pela porta, sem ver nada, apenas tomada pelo desespero e a raiva que me dominavam. Dos meus olhos já começavam a saltar fortes lágrimas, e meus pulsos estavam fechados, de raiva, de uma maneira que minhas unhas pareciam querer entrar em minha pele.

Já não entendia mais nada. Mas continuava correndo, apenas querendo sair daquele pesadelo.

Não enxergava um palmo na frente do rosto, e não sabia quantos degraus havia descido. Só me dei conta que não estava mais correndo, quando trombei em algo grande e musculoso.

Olhei para cima com os olhos aterrorizados e cheios de lágrimas, e encontrei outro rosto pálido. Mas havia uma diferença, ele não havia olhos vermelhos como sangue, e sim, de um tom de castanho escuro, meio dourado. Mas havia mais uma diferença nesse rosto pálido, de olhos castanhos.

E era seu sorriso encantador, com covinhas.

Como se fosse uma criança que tivesse crescido demais, e se tornado muito forte e grande.

Percebi que estava longe do quarto, e não sentia mais a raiva abundante, apenas o desespero e o medo.

E de um modo que eu desconheço, eu gostei daquele cara enorme com rosto de criança travessa, e simplesmente antes que pudesse me segurar, ou pensar, me vi agarrada em sua cintura, e o abraçando forte, enquanto sentia o medo crescer mais e mais.

Não podia ser. Eu estava abraçando um cara que provavelmente era amigo dos demónios de olhos vermelhos. Mas me senti reconfortada enquanto o abraçava com todas as minhas forças, e deixava as lágrimas de desespero rolar.

Ele era duro e frio, de uma maneira desumana. Mas eu não me importava com aquilo no momento. Não me importava com mais nada. Nunca havia me sentindo tão cansada, tão desgastada como naquele momento, depois de uma mistura de emoções a flor da pele, de um jeito que eu sabia que poderia ter me levado a loucura, ou a atos desesperados, como esse.

Senti uma de suas mãos afundar em meus cabelos, como se me reconfortasse, e seu outro braço passar por minha cintura, me apertando, como se soubesse que eu precisava me sentir protegida.

Eu continuei a chorar desesperadamente, nos braços de um estranho, sem saber quanto tempo havia passado ali.

Minhas lágrimas pararam, e meu coração voltou a bater em um ritmo mais calmo.

Ele pareceu ter reparado que eu estava mais tranquila, porque segurou meus ombros delicadamente, enquanto se afastava de mim, e se curvava para poder ficar em minha altura, e olhar em meus olhos.

Só então reparei em sua beleza estonteante.

-- O que aconteceu? — ele perguntou, com uma voz roupa e aveludada.

E eu o reconheci. Mesmo sem nunca ter o visto. Eu sabia que era ele. Foi ele que arrastou Charlie para fora do calabouço. Eu lembro de ter visto sua sombra grande no chão, e sua voz rouca e sensual perto do meu ouvido, enquanto ele puxava Charlie pra longe de mim.

Era ele.

Meu coração voltou a acelerar, e eu comecei a dar passos para trás, o encarando com olhos arregalados.

-- O que foi? — ele perguntou confuso.

Continuei com os passo pra trás, olhando-o apavorada.

Senti o degrau bater nos meus calcanhares, e comecei a perder o equilibrio, caindo para trás.

Mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ele já
estava ao meu lado, me segurando para não cair.

Me soltei dele, deixando meu corpo cair com estrondo no chão, e me encolhi ao lado do corrimão. Coloquei o rosto em meus joelhos, e voltei a chorar desesperadamente.

Não dava para controlar, o desespero e o medo eram mais fortes que eu.

Eu apenas queria que aquilo acabasse, que eu abrisse meus olhos, e me deparasse comigo em minha própria cama, e percebesse que tudo não passou de um enorme e horroroso pesadelo.

Mas de algum modo eu sabia que não iria acordar e descobrir que era um pesadelo. O desespero era forte demais para ser apenas um sonho.

Pela primeira vez na minha vida, eu poderia dizer, que conhecia exatamente e completamente o significado do desespero.

Eu me sentia sem forçar até para sair correndo, que era o que meu instindo de preservação me mandava fazer.

Mas eu havia desistido. Estava fraca emocionalmente para fazer qualquer coisa, que não fosse chorar.

Que me matassem. Já não ligava mais. Só queria que aquele desespero parasse de me matar por dentro.

Senti o homem se sentando ao meu lado na escada, e eu me encostei mais no corrimão, soluçando.

Percebi ele passando uma de suas mãos em meus cabelos, mas eu me esquivei, e ele abaixou a mão.

-- Nos não causamos uma boa impressão em você, não foi? — perguntou de um jeito meigo.

Não falei, ou fiz nada, apenas continuei chorando.

Ele suspirou.

-- Olhe para mim porfavor! — pediu educadamente.

O seu tom de voz, doce, me fez levantar a cabeça e encara-lo.

-- Vo-vo-ce v-v-a me m-ma-tar? — perguntei gaguejando.

-- Não vou causar mal algum a você. — ele respondeu me garantindo.

-- On-on-de esta Charlie? — indaguei tentando controlar minha voz entrecortada.

Ele suspirou, e pareceu ter entendido porque eu comecei a me afastar dele.

-- Está no hospital de Forks, consertando o estrago que o idiota do Edward fez.

Eu o encarei, tentando achar a mentira em suas palavras. Mas não as encontrei. Ele estava sendo sincero.

-- Por que estão fazendo tudo isso comigo? — perguntei encarando seu pequeno sorriso.

-- Para ser sincero. Nem eu sei direito. — ele respondeu simplesmente.

Eu ia começar a perguntar então porque não me soltavam, ou me matavam logo. Mas ele me cortou no momento em que abri a boca.

-- Alice prevê o futuro...

-- Eu sei. — o interrompi. E ele sorriu.

-- E alguma coisa no seu futuro, ou no nosso, não sei dizer. Mas alguma coisa no futuro, a fez pensar que ter você aqui, seria uma coisa boa. E sabe como é. Não é legal duvidar de alguém que sabe o que vai acontecer.

Eu o encarei.

Uma coisa boa? Por quê será que eu não conseguia acreditar nisso?

-- Eu... eu... estou com medo. — desabafei por fim, sentindo mais lágrimas escorrendo por meu rosto.

-- Eu sei! — ele respondeu, com um sorriso tranquilizador, e passando os braços ao meu redor novamente.

Não sei porque, mais eu deixei seus braços ali e voltei a chorar em seu ombro.
Era reconfortante estar ali.

Era como se já nos conhecêssemos.

Como se um amigo tivesse me confortando.

-- Nada de ruim vai acontecer a você. Eu Prometo.

Naquele momento, com braços frios ao meu redor. Eu esqueci rapidamente, do ocorrido no quarto.

O que era tudo aquilo?

E o que eles eram?

E por que esse tinha os olhos castanhos, enquanto os outros tinham olhos vermelhos?

-- Meu nome é Emmett, caso queira saber. — ele me informou sorrindo.

Respirei fundo. Esperando controlar minha voz, para poder responder alguma coisa que não soasse besta, ou amedrontada.

Mas meus planos foram interrompidos, por uma mão gelada que encostava levemente em meu ombro. E eu tinha certeza que elas não eram de Emmett.

Me levantei assustada, quase dando um pulo pelo susto. Mas Emmett me segurou, e disse sorrindo sereno.

-- Calma. Ele não vai te causar mal.

O encarei sem acreditar, e olhei para o homem que havia tocado em meu ombro.

Ele era alto, como os outros, e tinha os cabelos loiros, e os olhos castanhos, como os de Emmett.

Sua pele era igualmente pálida, e seu sorriso singelo.

Ele era, como os outros, absurdamente lindo. Parecia um artista de Hollywood, mas mil vezes mais bonito. Ele fazia os maiores galãs do cinema como, Brad Pitt, Johnny Depp, George Clooney, e todos os outros, ficarem parecendo um bando de patinhos feios.

-- Bella. — ele disse em uma voz séria e aveludada. — Me desculpe, pelo incidente do quarto. Tomarei providências para que não torne a acontecer.

-- O que exatamente aconteceu Pai? — Emmett perguntou, ficando de pé também.

Pai?

O homem loiro suspirou, e passou as mãos no rosto, como se tivesse cansado.

-- Longa história. De todo modo, creio que teremos que nos juntar, e explicar algumas coisas a Bella. — respondeu me encarando como se pedisse desculpas.

-- Ela ainda não sabe, não é?

-- Não! Pelo que Esme me disse, ela está achando que somos fantasmas. — ele respondeu risonho.

Caramba, qual era a graça? Só porque pensei que fossem fantasmas. E por acaso, ainda não descartei essa hipótese.

-- Fantasmas? — Emmett exclamou me encarando incrédulo. — Precisava ofender?

-- Foi a única coisa que consegui pensar. — murmurei constrangida.

Eles riram.

-- O Senhor acha que já da para junta-la com os outros, ou ainda é perigoso? — Emmett perguntou, parando de rir.

-- Creio que já estão todos sob controle. Leve-a para a cozinha, Alice disse que ela sentirá fome, daqui a dois minutos. Vou chamar os outros. — o homem instruiu.

Sentir que estou com fome?

Mas eu não estava com fome. Sentia tudo, menos fome.

-- Rose ainda não voltou? — Emmett perguntou levemente preocupado.

-- Não! Vou pedir para Alice ver a hora que elas iram voltar. — o homem respondeu, e me mandou um sorrisinho simpático, para logo depois subir novamente as escadas como se deslizasse.

Emmett se virou para mim sorrindo, e passou um braço por meus ombros novamente, me guiando escada abaixo.

Só então notei, no esplendor do ambiente. Não dava nem para explicar, como era lindo.

Me lembrava as mansões da alta sociedade que passava nos filmes antigos. E agora que os grandes lustres de cristais estavam acesos, clareando todo os cómodos
do local, ele com certeza era muito mais bonito.

Como se fosse de um seriado antigo.

Quando chegamos no térreo. Ouvi meu estômago roncar. Droga. Eu estava MESMO com fome.

-- Aquela baixinha nunca erra. — Emmett exclamou rindo.

Sua risada era contagiante. Como a risada de uma criança.

E antes que percebesse me peguei rindo levemente, mesmo com todo meu medo e desespero.

Eu gostava de Emmett.

Entramos na enorme cozinha sofisticada, que dava um contraste enorme com o resto da casa no estilo retrô.

Minha curiosidade pulsava, e eu pensei em começar a fazer perguntas a ele. Sabia que de uma maneira ou de outra, ele não iria me atacar caso eu fosse intrometida ou audaciosa.

Mas fiquei quieta.

-- Hm. O que quer comer? — perguntou.

-- Sei lá. — respondi sem jeito. — Pode ser o mesmo que você.

Ele me olhou com um sorriso sacana, e depois gargalhou.

-- Com toda a certeza você não quer isso. Minha alimentação não é o que você chamaria de apetitosa. Pelo menos não para você.

O encarei sem entender e ele abriu a porta superior de um enorme armário — que com certeza eu não alcançaria, sem a ajuda de uma cadeira — a onde havia muitas, mais muitas bolachas. De todos os tipos, tamanhos, marcas e sabores.

-- De tudo que me ensinaram nessa minha enorme existência, nenhuma delas foi cozinhar. — disse a contragosto. — Então que tal uma bolacha recheada, até Esme descer e salvar a pátria dos estômagos humanos?

Eu ri levemente. Ele era engraçado.

-- Seria ótimo. Obrigada.

-- Qual sabor? É só falar.

-- Hm. Que tal morango, tem?

-- Sim Senhora! É a preferida da...

-- Já está corrompendo a menina Emmett? — Alice exclamou entrando na cozinha e o interrompendo.

A encarei ficando com as bochechas vermelhas, enquanto Emmett abria o pacote de bolachas e me entregava.

-- Não. Essa parte eu deixo pra você, bola de cristal. — ele respondeu rindo.
Alice esticou a língua pra ele, como uma criança mimada.

Esme entrou na cozinha, seguida de Jasper.

-- Emmett! — Esme gritou reprovadora. — Bolacha? BOLACHA EMMETT? Ela precisa de comida de verdade e não de porcarias industrializadas que acabam com o estômago.

Emmett sorriu culpado.

-- Foi por isso que eu queria esperar pela Senhora, Mãezinha. Mas Bella estava que nem uma leoa de fome, e ameaçou me matar a tapadas se eu não desse a bolacha pra ela. — EI!

-- Ei! — disse indignada. Esquecendo por um pequeno momento o medo.

Mas quando Esme olhou para mim, com os olhos vermelhos. Ele voltou.

Me encolhi.

-- Calma Querida. — Esme disse com um sorriso fraco, culpado. — Não vou machuca-la.

Claro. Da ultima vez que ela disse isso, quase arrancou meu braço, mas quem liga, né? Um braço a menos, um a mais. Temos dois mesmo.

Jasper ficou um pouco mais distante, e eu senti minhas emoções começarem a se suavizarem novamente

-- Nos desculpe Bella! — Jasper pediu com sua postura impecável, ainda mantendo uma certa distancia. — Não queriamos ataca-la. Espero que possa nos perdoar?

-- Cla-cla-ro. — respondi gaguejando.

O que mais eu iria responder, pra criaturas de olhos vermelhos e caninos enormes?

-- Nos sentimos muito querida. — Esme disse me olhando com seus olhos vermelhos, cheios de culpa.

Para minha imensa alegria, o homem loiro entrou na cozinha, antes que eu pudesse responder.

Ele estava com uma expressão, cansada e perturbada, até mesmo preocupada.

-- Onde ele está? — Esme perguntou.

Mas foi Alice quem respondeu.

-- Ele não ira descer! Não quer encontra-la. E está se preparando para caçar.

Caçar?

Esme olhou triste para Alice, enquanto Emmett e Jasper apenas concordavam com a cabeça, como se achassem que isso fosse o melhor a ser feito.

Minha curiosidade me matava, e eu não pude evitar de perguntar.

-- Ele... ele... quem?

-- Edward querida. — Esme me respondeu. — Creio que você se lembre dele.

Meu cérebro começou a rebobinar minhas lembraças, me levando há horas atrás. Quando a fadinha havia interrompido, o homem que torturava Charlie, e o chamado de Edward.

-- O homem de máscara? — perguntei horrorizada.

Esme sorriu sem graça e afirmou com a cabeça.

-- Edward está tendo problemas... com sua estadia aqui. — o homem loiro me informou.

-- Então me deixem ir. — murmurei olhando para baixo.

-- Não podemos. — Alice respondeu.

-- Por que?

-- Um dia, quem sabe, você venha a compreender. Mas por enquanto, apenas entenda que será para um bem maior.

Eu senti meu desespero começar a crescer novamente, e Jasper se mexer incomodado, enquanto uma onde de tranquilidade aumentava dentro de mim.

Mas não. Não agora.

-- Bem maior? — questionei incrédula. Eu devia estar louca, para estar falando assim, com pessoas que poderiam me matar a qualquer momento.

-- A onde está o bem maior? — continuei. — Aquele homem, ou seila, o que ele é, torturou e quase matou meu pai. Aonde pode existir bem maior em uma casa junto com um maníaco como aquele?

Me sentia estourando de raiva, e Jasper rosnou.

Emmett se colocou no mesmo instante em minha frente.

-- Está tudo bem Emmett. — Alice afirmou. — Posso ver. Ele não vai machuca-la.

-- Certeza? — mas quem perguntou isso foi Jasper. Que a olhava preocupado.

-- Sim. — e então ela me encarou. — Tente manter suas emoções pacificas. Iria ajudar muito.

Senti meu rosto corar, pela pequena explosão de raiva.

-- Me desculpem. — murmurei, abaixando a cabeça.

-- Não se desculpe querida. Nós que te devemos desculpas. — Esme me disse sorrindo de um jeito meigo.

Sorri envergonhada.

Enquanto o homem loiro, olhava para a janela da cozinha, como se visse algo.

-- Acho que seria melhor você ir atrás dele Emmett. — disse, ainda encarando a janela.

-- Não! — exclamei por impulso.

Não queria que Emmett me deixasse. Confiava nele. Ou pelo menos estava começando.

Emmett sorriu pra mim. Mais não foi o único. Os outros também sorriram, como se aprovassem o fato de eu estar começando a confiar em um deles.

-- Jasper? — o homem loiro perguntou, encarando-o.

-- Eu vou. Talvez seje até melhor. — respondeu, se virando e saindo porta a fora.

O olhei saindo, e a paz que me emanava desapareceu de vez. Me controlei para conseguir mante-la em meu interior.

-- Acho que você tem muitas perguntas para nós Bella. E nós a responderemos na medida do possivel. Mas primeiramente gostaria de nós aprensentar devidamente. — o homem loiro disse enquanto sorria. — Eu sou Carlisle Cullen.

E então ele começou a apontar enquanto dizia calmamente.

-- "Essa é minha mulher Esme; meu filho mais velho, Emmett; minha caçula, Alice; e o homem que você se referiu raivosamente de maníaco, é Edward, meu filho do meio. O homem que acabou de se retirar, é Jasper Hale, namorado de Alice; e Rosalie Hale, sua irmã gêmea, que você ainda não teve a oportunidade de conhecer, é noiva de Emmett."

Rosalie? Então havia MAIS uma?

-- "Há mais uma pessoa que você irá conhecer. Mas não é o momento para falarmos dela."

O encarei, esperando que ele terminasse. Ele me olhou brevemente, e soltou de uma vez.

-- "Nós morremos em 1849 Bella."

-- Então vocês são REALMENTE fantasmas? — perguntei com a boca entreaberta.

Eles riram.

-- Definitivamente não. — Carlisle respondeu rindo.

-- Mas o Senhor disse que vocês morreram... — comecei, mas fui interrompida.

-- Não nego que morremos. De certa forma.

-- O Senhor me perdeu. — confessei. E ele sorriu.

-- Como irei te explicar. Não estamos vivos, pelo menos não como você. E não estamos mortos, pelo menos não do jeito que você acredita.

-- Então vocês são... zumbis? — arrisquei, me sentindo cada vez mais confusa.

Eles riram mais uma vez.

-- Definitivamente não, novamente. Mas isso, creio, chega mais perto do que fantasmas.

-- Certo. Seje mais especifico por favor. O que vocês são tem nome? — perguntei. — Porque com certeza iria ajudar muito.

Carlisle me encarou com um sorrisinho mistérioso no rosto, e falou:

-- Me responda uma coisa Bella. O quanto você acredita em Vampiros?

O encarei confusa e respondi.

-- Não muito. Nunca coloquei muita fé em mitos. Mas o que isso tem haver com o que vocês são?

Todos eles me olharam sorrindo, como se eu tivesse perdido algum detalhe importante.

E então a ficha caiu.

Senti minha boca se abrir em um cómico 'O'.

-- Vampiros? — murmurei. — Impossivel.

-- Pense Bella. — Emmett disse animado. — Olhe ao seu redor. Olhos vermelhos, caninos enormes... minha alimentação não é apetitosa pra você. Não é tão impossivel é?

O encarei ainda de boca aberta.

-- Você e ele — disse apontando pra Carlisle. — Não tem os olhos vermelhos. — disse tentando encontrar a racionalidade daquilo.

Emmett passou as mãos nos cabelos, como se estivesse pensando em como responder, mas então ele fez um gesto para Carlisle como se desse a palavra a ele.

-- É porque eles estão bem alimentados Bella. — Alice respondeu, parecendo se divertir com minha confusão.

-- Bem alimentados? — perguntei por impulso.

-- Sangue! — a fadinha continuou, como se fosse óbvio.

Bom, ERA ÓBVIO. Se vampiros existissem no mundo real.

Então eu gargalhei.

-- Vocês estão de sacanagem comigo né? Tudo isso é uma pegadinha, que Charlie e Marie pregaram em mim, nao é? Podem falar, não vou ficar brava.

Eles me olharam como se eu fosse louca. E meu sorriso se fechou.

Não era pegadinha.

-- Vocês são mesmo... vampiros? — indaguei.

-- Irrevogavelmente, sim. — Emmett respondeu.

-- E vocês bebem mesmo sangue?

-- É preciso. — Esme.

-- Humano?

-- É o melhor que existe. — Emmett respondeu novamente.

E então meu cérebro começou a conectar as coisas. Por isso não me deixavam ir embora.

Por isso me levaram pra cozinha.

Meus olhos se arregalaram de medo.

Eu era o jantar.

-- Vocês... vocês... vocês... — mas a frase não saia. — ... meu... sangue...

Mas não saia nada com nada.

-- Não vamos beber seu sangue Bella. Embora tenha que concordar que você tem um cheiro exuberante. — Alice respondeu sorrindo. — Da pra entender Edward. Em parte.

-- Obri-obri-gada. — respondi sem entender mais nada.

Na real, o fato de eu não estar entendendo nada, parecia ter virado bem comum.

Fiquei quieta alguns minutos, tentando compreender a situação. Enquanto eles me olhavam pacientemente.

Então um pequeno aperto no meu peito, me fez encara-los.

-- As mulheres lá embaixo...

Mas eu já sabia o que havia acontecido com elas. No momento em que vi o homem de máscara quebrar a grade com tudo, eu já sabia que elas estavam mortas.

Eles sorriram culpados.

-- Edward ficou muito irritado e faminto ontem. — Emmett respondeu fechando a cara. — Eu queria a ruiva.

Eu o olhei.

Por que exatamente eu gostei dele mesmo?

-- Então... — limpei a garganta. — Vocês sequestram as pessoas e as trazem para seu calabouço como um estoque de comida?

-- Não. — Esme respondeu rapidamente.

-- Nós não trazemos ninguém para cá. As pessoas daquele calabouço, são pessoas que vem até nós, por conta própria. — Alice completou.

-- Normalmente são retardados que querem provar pros amigos, que não tem medo de mansões 'mal-assombradas', ou por desafios e apostas bestas. Isso é muito comum no halloween. — Emmett disse sorrindo.- Nós não podemor negar alimentação. Ainda mais quando ela entra de boa vontade em nosso covil.

Ele era maníaco.

Então me lembrei de uma coisa.

-- Quando você disse... — e apontei para Alice — Que o maníaco de máscara estava saindo para caçar. Você quiz dizer que ele estava saindo para... cometer... homicídio?

-- Não exatamente. Você não considera homicídio quando um leão mata um cervo para se alimentar, não é? Ou quando um gato, come um rato. É a cadeia alimentar. A lei da vida. E nós estamos no topo dela. — Alice respondeu rindo, do meu espanto.

-- Mas... — eu comecei, mas me calei.

Não sabia mais o que dizer.

-- Ah. — Alice disse de repente. — Rosalie estará aqui em dez minutos.

-- Até que enfim. Já estava começando a achar que ela havia encontrado com os pulguentos por ai.

E então eu me lembrei. Alice previa o futuro.

Quantos vampiros faziam esse tipo de coisas? Isso era normal?

-- Mas... você prevê o futuro, como pode ser?

Carlisle respondeu, antes que Alice abrisse a boca.

-- Certos vampiros tem capacidades extras. Um dom. Como o de Alice de prever o futuro, e o de Jasper de sentir e controlar emoções, à sua volta.

E eu me lembrei do meu imenso alívio quando Jasper estava perto.

-- É por isso que eu ficava tranquila perto dele. — disse sem pensar.

-- Exatamente! — Alice concordou sorrindo, feliz por eu estar acompanhando. — E é por isso também, que ele quase te matou, e você se sentiu tão desesperada.

Ok, me perdi novamente.

A olhei interrogativa e ela riu.

-- O problema é que você estava um turbilhão de emoções. Ele tentou abafa-las te deixando mais tranquila, mais quando Edward passou perto do quarto, trazendo toda a raiva e o sentimento de sede. Jazz perdeu o controle. Não é facil sentir todos os sentimentos em sua volta. Então as emoções se misturaram, aumentando o seu desespero e te dando uma raiva sem motivos, enquanto Jasper estava sobrecarregado com emoções que não eram dele. E sentindo toda a sede de Edward, e toda a confusão de sentimentos, ele perdeu o controle. Esme que estava perto, recebeu a energia de sede, raiva e desespero que ele expelia pelo quarto. Até mesmo eu senti. Foi realmente difícil para mim, não ataca-la também. Carlisle também sentiu, quando entrou empurrando Esme.

Quando ela terminou, eu ainda a encarava de boca aberta.

E senti pena de Jasper. Se eu já estava maluca com minhas emoções a flor da pele, ele também devia estar, ainda mais depois de sentir as emoções homicidas do maníaco de máscara.

-- Todos vocês tem poderes assim? — perguntei depois de conseguir fechar a boca.

-- Não. — Carlisle respondeu. — Apenas alguns. Aqui em casa, além de Alice e Jasper, apenas Edward possui.

O encarei.

-- O maníaco de máscara? O que ele faz?

-- Edward lê mentes! — Esme respondeu.

Meus olhos se arregalaram. O maníaco de máscara lê mentes?

-- Mas não a sua. — Alice completou.

-- Por que? — perguntei.

Ela deu de ombros.

-- Nem ele sabe.

-- Isso acontece sempre? — indaguei.

-- O que? — Emmett perguntou.

-- Do maníaco mascarado não conseguir ler a mente de uma pessoa.

-- Não! — Alice afirmou. — Aconteceu apenas uma única vez, antes dessa. Há muito tempo atrás.

Continuei olhando para o nada, tentando entender o que diziam.

E uma onde de curiosidade cresceu dentro de mim.

-- Por que ele usa aquela máscara queimada? — perguntei os encarando.

Rapidamente todos se entreolharam preocupados, e então Alice respondeu.

-- Sinto muito Bella. Não esta em nosso direito lhe contar sobre isso. É um segredo unicamente dele. Apenas dele.

Eu pensei em tentar insistir, mas nesse momento uma loira magnifica entrou na cozinha.

Ela era a definição da palabra beleza. Não duvidei nada que seu nome estivesse como sinônimo depois da palavra perfeição do dicionário.

Seus cabelos loiros caiam elegantemente, em leves ondas em suas costas, e seus olhos castanhos pareciam brilhar em sua pele pálida.

Seu corpo era escultural, de causar inveja na maioria das super modelos do mundo.

Ela era sem mais palavras. Perfeita.

Essa só podia ser a tal de Rosalie.

Mas não pensei muito nisso, pois atrás dela, estava alguém que eu nunca esperaria rever em minha vida. Pelo menos não nessa vida.

Era impossivel.

Eu estava vendo demais.

Senti meus sentidos começarem a falhar, e minhas pernas começarem a perder equilibrio.

Eu estava literalmente vendo fantasmas.

Notas finais
Cap duplo para vcs queridas... mandy, paulinha, erika... é nois kkk