A Bella e a Fera

20 Capítulo 21- O Maior Amor De Todos - Parte III


14 de Setembro de 1831.

Noyon, Departamento de Oise. Norte da França.


Colina Maudit, Casa dos Russeau, Terceiro Quarto

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Não há como negar, no começo, eu não queria essa criança. Afinal, ela estava acabando com a minha vida. Mas, agora... Agora, que eu via seu lindo rostinho... Que eu a tinha em meus braços, eu não conseguia entender como um dia pensei que seria melhor não tê-la.

Isso com toda a certeza iria acabar com as minhas chances de achar um marido decente, ou até mesmo de ser respeitada. Mas não me importava, porque eu tinha minha filha, e isso era tudo com o que me importava. Porque me sentia forte. Sentia que podia lutar contra o mundo inteiro, por nós duas.

-- Eles chegaram, Amélia. – disse vovó entrando no quarto, e olhando seriamente para minha mãe

Eu lembro que quando chegamos à casa de minha avó, ela não aceitou a situação, mas algo no que mamãe disse para ela em particular, a fez mudar de idéia e vir conosco para essa pequena casinha.

-- Quem chegou Vovó? – perguntei curiosamente, mas sem me importar muito, afinal, eu estava com minha filha.

Não obtive resposta, e nem me importei. E então vovó se retirou e voltou novamente com uma mulher absurdamente bonita, de pele muito pálida e cabelos castanhos escuros caindo levemente ondulados por seus ombros. Atrás dela tinha mais três mulheres, todas lindas e brancas, e todas com o olhar frio.

Não saberia responder se estava vendo demais, ou se era ilusão, mas parecia que seus olhos eram vermelhos. Mas, é claro, que eu estava vendo demais, como elas poderiam ter olhos vermelhos?

-- A criança está pronta? Não temos muito tempo para perder – a mulher disse com a voz fria e aveludada.

-- Sim, já...

Mas antes que minha avó terminasse de responder, minha mãe havia parado ao meu lado, e tirado delicadamente minha filha recém nascida de meus braços.

-- O que...

Mas eu também não consegui terminar de falar, porque nesse instante ela entregou minha filha nas mãos da mulher de cabelos castanhos à frente.

-- Leve-a. E suma com ela! – disse minha mãe em tom frio.

Eu estava sem reação, mas quando a mulher de cabelos castanhos deu um sorrisinho malicioso e virou as costas, junto com as outras, e com minha filha nos braços, a reação voltou.

-- O que... O que está acontecendo? Para onde estão levando minha filha? – perguntei, me levantando e tendo que me apoiar na cabeceira da cama pela dor. Ainda não estava recuperado do parto.

Minha mãe e minha avó me olharam com olhos decididos, e ao mesmo tempo frios.

-- Deite-se Esme! — vovó mandou com a voz fria – Vai piorar se continuar em pé.

-- DEITAR-ME? DEITAR-ME? COMO POSSO ME DEITAR SE VOCÊS NÃO ME DIZEM PARA ONDE MANDARAM MINHA FILHA?

-- Fique quieta! – minha mãe mandou baixinho. – Nós só estamos consertando a bagunça que você causou.

E então eu me dei conta. Elas estavam dando minha filha. Sabe-se lá para quem, ou para que. E meu desespero cresceu, e a dor que senti foi tão intensa, que ignorei todas as dores do recém parto e sai correndo. Passando pelas duas como um raio.

Ouvi minha mãe e minha avó, vindo atrás de mim, e gritando palavras que eu não entendia, porque a única coisa que conseguia pensar era em minha filha.

Quando cheguei à porta da casinha e a abri, vi uma carruagem começando a andar para longe.

Sai correndo no meio da chuva, sentindo o ar frio passando por meu rosto. A tempestade estava forte e violenta, mas não me importei. Não conseguia me importar com nada.

Quando cheguei perto da carruagem, ouvi o choro de minha filha lá dentro, e voltei a gritar.

Não sei como consegui correr tanto da maneira em que eu estava. Mas, creio, que quando se está desesperado, vendo sua filha sendo levada para longe, você consegue até voar se for necessário.

Quando emparelhei com a carruagem e vi minha filha pela janela de vidro da porta, o alivio que senti durou pouco.

Porque ela estava ali nos braços brancos da mulher que a havia pegado, mas quando levantei os olhos para a mulher ela realmente tinha os olhos vermelhos. Ela e as outras. Vermelho como sangue, e quando a mulher de cabelos louros perto da porta olhou para mim, expôs caninos enormes e eu podia jurar que havia um rosnado saindo por sua boca.

A cena foi demais para me fazer tropeçar de medo.

Eu estava apática. O que elas eram? O que era tudo isso? Para onde estavam levando minha filha? O que iam fazer com ela?

Levantei-me novamente, juntando toda a força que tinha. Não me interessava o que eram aquelas mulheres, só me interessava minha filha, mas antes que eu pudesse voltar a correr, senti alguém me segurar por trás.

-- Pare Esme! – era a voz de minha mãe.

-- NÃO! MINHA FILHA! MINHA FILHA! – eu gritava tentando me soltar, ignorando a dor e a tempestade. Ignorando tudo.

-- Pare! Vamos! – minha mãe dizia, enquanto tentava me puxar.

-- NÃO! SOLTE-ME! SOLTE-ME! EU QUERO MINHA FILHA! EU QUERO MINHA FILHA!

E enquanto minha mãe me segurava em um aperto de ferro, eu via a carruagem ficando cada vez mais distante.

-- ME SOLTE!

-- NÃO ESME! Vamos entrar!

-- MINHA FILHA! EU QUERO MINHA FILHA! POR QUE NÃO ME DEIXE IR ATRÁS DELA?

-- PORQUE ELAS IRÃO MATÁ-LA, SE VOCÊ FOR! — minha mãe gritou raivosa — E não me peça, Esme... não OUSE me pedir, para suportar vê-la morta.

E antes que reparasse estava ajoelhada na terra molhada enquanto gritava desesperada, para uma carruagem que eu nem enxergava mais.

-- Vamos Esme – minha mãe disse me pegando e tentando me por em pé, mas eu não conseguia parar em pé.

-- Por quê? Por que mãe? Por que a senhora fez isso? – indaguei com olhos desesperados.

-- Porque eu te amo, Esme. E não suportaria vê-la desgraçada, na rua.

-- Mas era minha filha, mãe. ERA MINHA FILHA!

-- Era uma criança amaldiçoada que iria destruir sua vida! – respondeu com frieza.

-- NÃO! NÃO DIGA ISSO! ELA NÃO ERA AMALDIÇOADA! ELA ERA UM ANJO! MEU ANJO QUE A SENHORA FOI CRUEL O BASTANTE PARA JOGÁ-LA NA MÃO DE MULHERES COM OLHOS VERMELHOS!

Não saberia responder quanto tempo passei gritando em desespero, apenas, que no final, a dor física e mental estava tão insuportável, que senti meus sentidos se evaporarem.



[Fim do Flashback de Esme Cullen]

Bella me encarava com o rosto assustado, e com os olhos indignados.

-- Eu... Eu não acredito que fizeram isso com a Senhora. Não acredito.

Eu ri levemente de sua revolta.

-- É uma coisa horrível, realmente. Mas para aquela época era um comportamento normal, não aceitar o filho de alguém porque era fruto de um amor fora do casamento, ou coisa do tipo.

-- Mas... Mas... É cruel... É... Monstruoso... Quer dizer, foi sua mãe.

-- Sim – respondi, relembrando as cenas. – Exatamente isso, foi minha mãe, por isso não a julgue tão severamente. Ela só estava querendo me salvar, e você não tem idéia, do que uma mãe é capaz de fazer para salvar um filho.

-- E as mulheres? As que levaram sua filha? Eram vampiros?

Concordei com a cabeça, e desviei o olhar.

-- Claro, que eu não sabia o que elas eram. Para mim, eram apenas demônios.

Bella ficou quieta, e quando as próximas palavras saíram de sua boca, saíram incertas.

-- Elas... Elas... Estavam... Hm... Levando sua filha para... Comerem?

Senti meu rosto ficar sério e voltei a encará-la.

-- Não. Embora sangue de crianças seja mais puro do que qualquer outro, ainda assim é pouco.

-- Então para onde estavam a levando?

-- Para um convento. Um lar de crianças sem pais.

Isabella arregalou os olhos e soltou uma exclamação baixa.

-- Um convento? Vampiros em um convento? – indagou surpresa.

-- Sim. Claro, que elas não eram freiras. Eram apenas as mulheres que mandavam ali, sem ninguém saber. Que esperavam as crianças terem sangue o suficiente em seus corpos para matá-las.

-- E ninguém nunca reparou em crianças morrendo?

-- Bella, você não sabe como era naquela época. A medicina não era avançada como é hoje. E a palavra daqueles que tinham dinheiro, era lei. Porém, elas nunca tiveram esse tipo de problema, pois, ninguém – especialmente naquela época – reparava muito em crianças abandonadas.

Bella continuou a me encarar com seus olhos de chocolate. Olhos que eu conhecia tão bem.

-- E... algum dia a senhora voltou a encontrar sua filha?

Sorri levemente.

-- Sim!

-- Como?

-- Depois daquela noite, nós voltamos para casa. A dor era tão abundante, que eu não falava, não comia... Basicamente não fazia nada. Voltei morta. Um zumbi. Sara que ia nos visitar dia sim, dia não, não estava mais aguentando me ver daquele jeito, e então ela descobriu. Não sei como, ou com quem. Mas ela descobriu onde minha filha estava. E eu desconfio que ela tenha conseguido a informação sutilmente de minha mãe, uma vez que, eu sei, ela estava sentindo minha dor como se fosse dela.

-- E onde ela estava? Digo, sua filha... Em que cidade ela estava?

Suspirei profundamente antes de responder.

-- Em um convento em Londres.

Bella olhou para mim curiosa, e eu continuei.

-- Eu ia fugir no meio da noite, sem qualquer plano na cabeça, mas Sara descobriu. Claro, que ela já sabia o que eu iria fazer, mas não me deixou ir. Não que ela estivesse tentando me impedir de recuperar minha filha. E sim, porque ela queria me ajudar. Ela foi um anjo. Claro, que ela não poderia largar seu marido e ir comigo, mas eu sabia que se ela pudesse, ela iria. Mas conseguiu convencer o marido a me colocar sorrateiramente em um dos seus barcos para Londres.

--“E então, eu fui! Arrumei uma pequena mala, com apenas algumas poucas roupas simples e fui. Apenas com o dinheiro que Sara havia conseguido para mim”

[Flashback de Esme Cullen]


28 de Agosto de 1832.
Londres, Inglaterra

Convento Madre de Deus, Sala de espera.


Eu não podia acreditar que finalmente ia colocar os braços em minha filha.

Porque quando, enfim, havia encontrado a igreja, eu estava com medo. E se algo tivesse acontecido com ela.

Mas logo que passei os olhos pelo berçário, eu a reconheci. E como não a reconheceria? Perfeita do jeito que era? Com os olhos mais doces que já havia visto.

Ela estava bem maior do que lembrava. Quase um aninho já. Mas, ainda era perfeita.

E quando a Madre superiora ouviu o que eu tinha para falar e foi buscá-la, não tinha como me sentir mais feliz.

Infelizmente a felicidade durou pouco. Porque quem voltou, não foi a madre com minha filha, e sim a mulher de cabelos castanhos e olhos vermelhos, mas, ela não estava mais com os olhos vermelhos, e sim de um castanho quase dourado.

-- Ora, ora... O que temos aqui – disse rindo, e sua voz me deu medo. – Vim, apenas para avisá-la que sua filha não sairá daqui, e pedir, educadamente que vá embora, e não volte mais.

Primeiramente fiquei sem reação e com toda a certeza amedrontada. Mas eu não havia sofrido tanto, e feito de tudo para conseguir pegar minha filha nos braços novamente, para permitir essa mulher de me dizer o que fazer.

-- Não vou embora sem minha filha! – respondi decidida.

A mulher riu cruelmente.

-- Sua sorte é que minha alimentação é baseada sempre em jovens. Quanto menores melhor. Senão, lamento informar que já estaria morta.

Encarei a mulher sem entender, e alguma coisa me falava que eu não iria querer entender.

-- Onde está minha filha? – perguntei a ignorando.

-- Sendo bem cuidada, prometo! – respondeu, com seu sorriso maldoso.

-- Eu a quero! E não vou embora sem ela!

A mulher riu novamente.

-- Eu só não entendo o motivo. Você não tem nada. Não tem onde morar, nem o que comer. Não conseguirá se casar sendo desonrada e com uma criança, muito menos poderá voltar para sua família. Você, com toda a certeza, não têm condições de criar uma criança. Porque você não tem nada, no momento você não é nada. E fará de sua filha um nada como você.

E suas palavras fizeram um efeito enorme em mim. Ela tinha razão. Por mais que me doesse admitir, ela tinha razão.

Que tipo de vida eu poderia dar a minha filha? Se eu mesma não tinha nada. NADA!
Uma vida suja, nas ruas, passando fome, como eu mesma estava tendo na ultima semana?

Era essa vida que eu queria dar para minha filha. Não! Não era.

Senti meus olhos se enchendo de água. Porque por mais que eu a amasse com todas as minhas forças, não poderia tê-la comigo.

Levantei-me, sentindo-me acabada, e encarei a mulher com os olhos cheios de água.

-- Cuide bem dela. – pedi suplicante, mesmo sabendo que havia algo de errado com essa mulher. – E, por favor, diga que eu a amo, que eu sempre a amei e sempre vou amá-la... Pelo menos quando ela já puder entender...

A mulher nada disse, apenas me observou sair.

Perguntei-me se devia vê-la uma última vez, mas não consegui. Sabia que se visse seus olhos, ia ser egoísta o bastante para querê-la comigo sem me importar que futuramente ela fosse sofrer.

Corri por entre as ruas de Londres, ignorando o começo do frio, e as pessoas que me olhavam curiosas.

Eu me sentia acabada, com uma dor tão angustiante dentro de mim, que só queria morrer. E eu devia morrer. Devia morrer porque eu não tinha mais nada. NADA!

Queria apenas tirar a angústia de dentro de mim, acabar com a minha vida. E então me escondi, me escondi até anoitecer, até as ruas se esvaziarem. Até ser tarde demais para famílias honradas saírem. E me dirigi para ponte. A enorme ponte de Londres, a ponte que eu sabia, se me tacasse iria morrer com o impacto. Ou, senão, morreria afogada.

E quando já estava lá em cima, pendurada. Vi um homem se aproximando.

-- Ei, o que você está fazendo?- e a ultima coisa que eu vi foram seus cabelos loiros e seus olhos azuis, antes de me jogar de vez na água.

Senti o vento frio me cortando durante a queda, e a batida forte com a água fria. Muito fria.

O impacto foi o suficiente para me deixar sem fôlego, e o frio o suficiente para me deixar sem movimentos, o restante a água faria. E muito rapidamente, senti meu corpo afundando, e fechei completamente os olhos, deixando uma única imagem em minha cabeça.

A de Minha Filha!

Eu sabia que estava morrendo, minha cabeça já latejava por falta de oxigênio. E com toda a certeza eu não faria nada para evitar.

E quanto estava sentindo meus sentidos se evaporarem, senti uma mão forte pegando meu pulso, e depois disso, não senti mais nada.



[Fim do Flashback de Esme Cullen]

-- Eu não acredito que a senhora tentou se matar! – Bella exclamou sem acreditar.

-- Você também iria, Bella. Se estivesse sentindo a dor que eu estava. Transpassava dor física. Era insuportável. Como se eu já estivesse morta por dentro. E o pior de tudo, era a sensação de impotência. Porque eu não podia criar minha filha. Eu não tinha as mínimas condições para isso. Eu era um verdadeiro nada.

-- Oh, Esme... Não é verdade...

Sorri para ela, claro, que ela estava tentando ser gentil. E eu amava isso nela.

-- O pior que era sim. Você não sabe o que é para uma mãe não poder criar seu filho, porque não tem condições. E acho que mais difícil que ver seu filho sendo arrancado de você, é você ter que deixá-lo.

Bella me olhou e pareceu não encontrar palavras.

-- Esme... — chamou baixinho e eu a encarei – Se você foi transformada na mesma noite que o restante de sua família, e mesmo assim tentou suicídio, como você se salvou?

Sorri com essas lembranças, ao mesmo tempo em que elas me angustiavam.

-- Foi nesse dia que conheci não apenas o homem que salvou minha vida. Mas, também, o que salvou minha alma.

[Flashback de Esme Cullen]



30 de Agosto de 1832. Londres, Inglaterra
Casa de Carlisle, Quarto de hospedes.


Dolorido. Era assim que sentia meu corpo, como se houvessem passado uma carruagem por cima de mim.

E percebi, tarde demais, que doía muito abrir os olhos. Mas, quando os abri, me deparei com um ambiente claro, e o sol entrando pela janela.

E tentei me lembrar do que havia acontecido.

Minha filha. Ponte. Água.

E tudo entrou em minha mente como um raio, mas havia algo de errado.

Eu não parecia morta, eu não me sentia morta.

-- Ah, você acordou! – uma voz grossa e bonita me tirou de meus devaneios.

Girei o pescoço para olhar de onde vinha a voz, e senti uma dor imensa por ter feito isso.

-- Calma, calma. Sem movimentos bruscos.

-- Quem é você? – perguntei e percebi que estava quase sem voz.

-- Sou Carlisle Cullen. E você?

-- Esme... Esme Russeau. Bom, creio, que ainda é Russeau. Se minha família já não me baniu completamente.

Carlisle riu, e seu sorriso era completamente encantador. Para dizer a verdade, ele era completamente encantador. O homem mais lindo que eu já havia visto.

-- E porque te baniriam? – perguntou sorrindo.

-- Porque eu desonrei a família, e fugi para Londres. – respondi me sentindo acabada.

Pelo menos, havia algo de bom nisso tudo, estava treinando o que havia aprendido em minhas aulas de inglês.

-- Bom, tenho certeza que eles irão te perdoar – comentou com a voz animadora, enquanto me olhava nos olhos.

Alguma coisa naquele olhar fez meu coração disparar.

-- Duvido muito. Já que não pretendo voltar.

Ele nada disse, apenas ficou me olhando.

-- Foi por isso?

-- Isso o que? – perguntei sem entender.

-- Foi por isso que você se jogou da ponte?

O encarei brevemente, e percebi que estava ficando emburrada.

Havia sido ele. Ele que tinha me salvado.

-- Foi você! – exclamei acusatória. – Foi você quem me salvou!

Ele sorriu calmo.

-- Sim.

Bufei irritada.

-- Você não tinha o direito de fazer isso. Não deveria ser tão intrometido, e metido a herói.

Carlisle fechou a cara e cruzou os braços no peito.

-- Eu salvei sua vida, e ainda cuidei de você, poderia ser mais grata, não é?

-- Não vou agradecer por algo que, com toda a certeza, não me sinto agradecida.

Ele me olhou obstinado e se aproximou da cama.

-- Eu salvei sua vida...

-- E quem disse que eu queria ser salva? – o interrompi irritada.

Carlisle me olhou sério, e depois sua expressão se suavizou.

-- Qual é sua história Esme Russeau? – perguntou calmamente, e eu não tenho nem idéia do porque comecei a contar. Tudo, desde o início.

Não demorei muito para melhorar, com os cuidados de Carlisle. Ele morava sozinho em uma casinha pequena perto da faculdade, e havia me contado que seu pai era pastor, e que ele havia deixado sua casa no norte da Inglaterra, para estudar medicina em Londres.

Ele havia arrumado roupas e outras coisas para mim, já que eu me encontrava sem absolutamente nada, além da roupa que estava no corpo. E a pequena mala que havia feito? Sumiu logo que cheguei aqui.

Ele era lindo, educado, divertido, carinhoso, cavalheiro. Ele era perfeito. E era exatamente por isso, que a cada minuto queria ir embora.

Eu não podia. Não podia me apaixonar. Não podia me envolver. Não queria mais isso para mim. Queria apenas minha filha, e como não poderia tê-la, também não teria mais nada.

Mas toda vez que ia dizer adeus para ele, não conseguia.

Então, fugi. De madrugada. Enquanto ele dormia em seu quarto.

Corri pelas ruas de Londres, sem saber para onde estava indo, e quando dei por mim, estava novamente na frente do convento.

Não era minha intenção voltar ali, mas minhas pernas me levaram para lá involuntariamente. E quando olhei pela janela que dava a rua, vi algo que me assustou e me encorajou.

Uma das mulheres que havia visto naquela noite, estava segurando um menino ruivo de no máximo seis anos pelos cabelos, enquanto virava o pescoço da criança e enfiava os dentes em sua jugular, enquanto a criança berrava.

Meu desespero cresceu. Então era isso. Era isso que elas faziam com as crianças. Por isso esperavam elas crescerem. E era isso... Era isso que fariam com minha filha.

E eu não permitiria.

Não saberia explicar como consegui entrar no convento sem ninguém me ver, mas eu estava cega de medo por minha filha.

E quando cheguei na parte do berçário, e olhei por entre os berços, minha dor cresceu. Porque todas aquelas crianças teriam aquele mesmo fim do menino ruivo. E eu nada poderia fazer, além de salvar minha filha.

Poderia contar a alguém. Mas iria parecer louca, quer dizer, criaturas com caninos? Quem acreditaria? Ainda mais dentro de um convento.

Achei minha filha em um dos berços mais distantes e sorri aliviada quando a vi. Enfim, poderia pegá-la. E quando a peguei em meus braços, e ela se aconchegou em mim, ainda dormindo em sono profundo, meu mundo pareceu se suavizar.

-- Estou falando que ouvi um barulho – uma voz disse no corredor.

-- Você deve ter sonhado.

-- Eu não sonho, esqueceu? Nem durmo, aliás.

E quando ouvi os passos mais próximos, fiz o que qualquer pessoa faria, abri a grande janela de madeira e pulei para fora com minha filha.

Infelizmente, elas me viram saindo, porque pude as ouvir gritando.

-- MALDIÇÃO!

Mas já estava correndo a toda velocidade para o mais longe que podia, com minha filha firmemente segura em meus braços. Enquanto ela ainda dormia profundamente, como se não soubesse o que estava se passando.

E então senti vultos atrás de mim. Vultos rápidos. E rosnados ferozes.

Meu medo começou a crescer, enquanto eu corria.

Só então senti alguém me puxando para cima de um cavalo. E quando eu ia pensar em gritar, percebi que era Carlisle.

-- Fique Quieta! – murmurou, enquanto cavalgava cada vez mais rápido.

Eu ainda conseguia ouvir rosnados em volta de nós. Mas me sentia segura. Ou quase. Já que os vultos estavam pertos.

Percebi um pulando em cima de nós, e quando pensei em gritar, Carlisle virou o cavalo em outra direção.

Estávamos mortos, completamente mortos.

Mas, então, algo surpreendente aconteceu. Os vultos pararam de nos seguir. Olhei para o céu em alivio, e notei o sol nascendo.

-- Claro que não iriam querer se expor ao sol, não com toda a Londres acordando para vê-los como realmente são! – Carlisle murmurou consigo mesmo.

E quando ele parou na frente de sua casa, perto da faculdade, e me ajudou a descer junto com minha filha que ainda estava em meus braços, embora não estivesse mais dormindo, e sim chorando.

-- Ela tem os seus olhos! – comentou, enquanto me encarava com um sorriso.

-- O que eram aquelas coisas? – perguntei, enfim, para matar minha curiosidade.

-- Demônios do inferno – respondeu calmamente. – Vampiros.

Ia dizer que era impossível, mas não me importava. A única coisa que me importava era que tinha minha filha em meus braços, novamente.

E quando já estávamos dentro de sua casa, e eu me sentei na cadeira da pequena cozinha ninando minha filha, Carlisle disse:

-- Se você ia resgatar sua filha no meio da madrugada, poderia ter me contado, eu iria ajudá-la. Ainda mais se soubesse que ela estava na proteção de vampiros.

Olhei para ele tristemente, e percebi sua expressão deprimindo.

-- Você estava indo embora. Você não ia voltar! – e não era uma pergunta.

Abaixei a cabeça para minha filha novamente, e logo depois senti algo pegando minha mão e parando ajoelhado em minha frente.

-- Eu não vou deixá-la sozinha, se é esse o medo que você tem. Eu não vou te abandonar. E mesmo que eu quisesse, não conseguiria. Porque estou completamente apaixonado por você.

E então ele me beijou. E foi como se o mundo tivesse parado. E nada mais importasse. Infelizmente, foi rápido, muito mais rápido do que eu queria.

-- Nós temos que ir embora! – disse se afastando de mim.

O encarei sem entender.

-- Eles viram atrás de nós. Precisamos sumir.

-- Mas para onde? – perguntei surpresa.

-- Não sei. América, quem sabe.

-- América? – Perguntei abismada. – Estados Unidos?

-- Sim, tem barcos de imigrantes saindo quase todos os dias, e conheço alguém que pode nos colocar na lista, o mais breve possível. E, então, estaremos longe o suficiente.

-- Mas... E a sua faculdade... E a sua vida...

Ele fez um aceno indiferente com a mão.

-- Estou quase me formando na faculdade, e posso terminá-la em qualquer outra.

E no mesmo instante ele passou rapidamente por mim e chegou à porta.

-- Fique aqui e não saia de maneira nenhuma. Volto em uma hora. – e quando estava fechando a porta atrás de si, parou, e me encarou. – Vá fazendo as malas.



[Fim do Flashback de Esme Cullen]

Notas finais
Estou postando uma nova história no meu blog: http://ficsdebgimenez.blogspot.com/