A Batida do coração 2

24 O Silêncio do Último Acorde



​O teto de gesso da capela principal do cemitério de Santa Bárbara parecia esmagar o ambiente. O cheiro adocicado e denso das coroas de flores — enviadas por gravadoras, fã-clubes e amigos de todo o mundo — misturava-se ao ar frio do ar-condicionado. No centro da sala, sobre um pedestal de madeira escura, o caixão lacrado de madeira nobre guardava o corpo de Caio Souza. Em cima do verniz brilhante, repousava o seu primeiro contrabaixo elétrico, aquele com os adesivos descascados dos tempos de ensaio na garagem.

​Ao redor, o cenário era de uma dor ruidosa. Dona Eleonor precisou ser amparada por médicos duas vezes, segurando um lenço encharcado de lágrimas enquanto o Senhor Paulo, com os olhos vermelhos e a postura outrora imponente agora curvada, mantinha a mão estendida sobre a madeira do caixão, num adeus silencioso. Pedro e Lucas choravam abraçados a Clara, os rostos escondidos pelas mãos, incapazes de aceitar que o coração da banda havia parado de bater.

​E no meio do turbilhão, estava Rebekah.

​Ela usava um vestido de alfaiataria preto, fechado até o pescoço, e os cabelos negros enormes caíam estáticos pelos ombros. Suas mãos estavam cruzadas à frente do corpo. Mas o que mais assustava os presentes não era o seu traje, e sim o seu rosto. Rebekah Laurentis estava operando no piloto automático. Seus impressionantes olhos azuis, que sempre transbordaram paixão ou altivez, agora pareciam duas pedras de gelo focadas em um ponto invisível no chão. Ela não piscava. Não se movia. Não derramava uma única lágrima. O choque traumático havia erguido uma muralha invisível ao redor de sua mente, deixando-a completamente anestesiada, perdida em um deserto onde a dor era grande demais para ser traduzida em choro.

​O Sentinela e a Boneca de Porcelana

​Letícia e Derick tentavam se aproximar da filha a cada cinco minutos, mas recuavam. Era como tentar tocar uma estátua de vidro que poderia se quebrar ao menor contato. Quem assumiu a guarda ao lado dela foi Jace.

​O baterista vestia um terno preto. Seus olhos escuros estavam inchados e o maxilar travado, mas ele permaneceu em pé, exatamente um passo atrás de Rebekah, como um escudo humano contra os fotógrafos que se aglomeravam na entrada do cemitério.

​Em determinado momento, Jace deu um passo à frente e tocou de leve no ombro de Rebekah. Os dedos dele sentiram o corpo dela rígido, tenso como uma corda de instrumento prestes a arrebentar.

​— Bekah... — Jace chamou, a voz saindo em um sussurro rouco e quebrado. — O cortejo vai começar agora. Eles vão levar o Caio. Você quer... quer caminhar lá na frente com a Dona Eleonor?

​Rebekah demorou alguns segundos para responder, como se a voz de Jace estivesse viajando por quilômetros até alcançá-la. Ela girou o pescoço lentamente, o olhar vazio cruzando com o dele. Suas bochechas estavam pálidas, sem cor.

​— Eu estou bem, Jace — ela respondeu. A voz não tinha emoção. Não tinha choro, não tinha raiva. Era uma linha reta, robótica, desprovida de qualquer calor humano. — Eu só preciso ficar aqui. O Caio está demorando para acordar, não acha? Ele prometeu que a gente ia jantar hoje.

​Jace sentiu uma facada no peito ao ouvir aquela frase. O choque dela era tão profundo que a mente de Rebekah se recusava a processar a realidade do caixão à sua frente.

​— Bekah, meu amor... — Letícia aproximou-se pelo outro lado, com os olhos marejados, segurando a mão fria da filha. — Vamos lá para fora com a mamãe. O ar aqui dentro está muito pesado. Venha.

​Rebekah apenas assentiu com a cabeça, soltando-se do toque da mãe com um movimento mecânico e voltando a caminhar em direção à porta, dando passos calculados, como se estivesse contando os azulejos do chão para não desabar.

​O Cortejo sob a Chuva de Pétalas

​A caminhada em direção ao jazigo da família Souza cortou as alamedas arborizadas do cemitério. O dia estava cinzento, com uma névoa baixa que vinha do mar de Santa Bárbara. Centenas de fãs e moradores da cidade formavam um corredor humano nas laterais das calçadas de paralelepípedo, segurando cartazes com trechos das músicas da banda e flores brancas.

​O caixão de Caio era carregado nos ombros por Jace, Lucas, Pedro e três técnicos antigos da equipe de estrada. O peso do corpo do amigo parecia esmagar os ombros dos músicos. Lucas soluçava alto a cada passo, e Pedro precisou ser amparado por Ricardo Puerto em determinado momento para não cair.

​Rebekah caminhava logo atrás, ladeada por seus pais. Enquanto todos ao seu redor olhavam para o caixão ou choravam alto, ela mantinha os olhos fixos na linha do horizonte. As pessoas estendiam as mãos para tocá-la, oferecendo pêsames, mas ela não reagia. Ela não apertava as mãos de volta, não agradecia. Era uma boneca de porcelana sendo conduzida pelo piloto automático de um trauma avassalador. Ela via os flashs, ouvia os gritos de dor dos fãs, mas tudo parecia um filme mudo assistido de trás de uma vidraça embaçada.

​O Silêncio Final da Terra

​Ao chegarem ao jazigo, debaixo de uma imensa árvore antiga, o silêncio se fez de forma brutal. O pastor proferiu as últimas palavras, destacando a bondade, a luz e a arte que Caio havia deixado no mundo.

​Quando as cordas começaram a descer o caixão para a sepultura, o choro de Dona Eleonor virou um grito de desespero que ecoou por todo o cemitério. — Meu filho! Não leva o meu menino! Caio!

​Lucas e Pedro desabaram de joelhos na grama, cobrindo os rostos. Jace permaneceu de pé na borda do túmulo, com os punhos cerrados ao lado do corpo, as lágrimas escorrendo livremente pelo seu rosto maduro. Ele olhou para Rebekah.

​Ela estava parada na primeira fila. O vento da praia balançava os seus cabelos negros enormes, mas sua postura continuava intacta. Ela olhava para o buraco na terra onde o amor de sua vida estava sendo depositado. Sem ação. Sem lágrimas. O olhar completamente desprovido de brilho, uma imensidão azul vazia. A dor havia congelado o seu sistema.

​O coveiro entregou uma rosa branca para Rebekah, para que ela jogasse sobre o caixão, seguindo a tradição. Ela pegou a flor com os dedos trêmulos, olhou para as pétalas por um instante e depois a soltou no vão escuro. A rosa caiu exatamente em cima do escudo do contrabaixo de Caio.

​— Acabou a música, Caio — Rebekah sussurrou, a voz saindo tão baixa que apenas Jace, ao seu lado, conseguiu ouvir. Não havia choro na voz dela, apenas uma constatação fria e assustadora. — O concerto terminou.

​Derick Laurentis deu um passo à frente, envolvendo a filha pelos ombros com o seu casaco pesado e puxando-a contra o peito. Rebekah aceitou o abraço do pai, mas seus braços continuaram caídos ao lado do corpo. Ela não retribuiu o aperto. Ela continuou ali, de pé na terra molhada, uma mulher de vinte e cinco anos que havia conquistado o mundo da moda, mas cujo coração havia sido enterrado naquele mesmo segundo, sob as palmas tristes de Santa Bárbara e o silêncio eterno do seu príncipe.