A Batida do coração 2
25 O Desabar das Paredes e o Som do Luto
O silêncio do quarto de Rebekah na casa de praia era sufocante. A porta estava fechada, isolando-a do resto do mundo, mas o vazio ali dentro era maior do que qualquer distância. Ela estava parada exatamente no centro do cômodo, com os pés descalços sobre o tapete claro. O vestido preto do enterro continuava no corpo, amassado, pesado como uma armadura de chumbo.
A anestesia do choque traumático, que a mantivera no piloto automático durante todo o velório, começou a evaporar conforme o calor da realidade invadia o ambiente. Rebekah olhou para o lado. Na parede à sua esquerda, uma moldura de madeira guardava as fotos antigas da banda: Caio rindo com o baixo no colo na piscina de Santa Bárbara, Jace com as baquetas para o alto, Pedro e Lucas fazendo caretas.
Ela girou o corpo lentamente, como uma assombração, e encarou a cômoda de jacarandá. Ali, o passado e o presente se fundiam em pequenos porta-retratos. Havia a foto desbotada dos dois na sorveteria quando tinham quinze anos; a foto da lareira na noite de formatura; e, bem na frente, a foto polaroid tirada na noite anterior, na mesa de Natal, onde Caio a olhava com os olhos castanhos transbordando aquela devoção madura, o sorriso de quem finalmente havia voltado para o seu porto seguro.
Foi aquela imagem. O sorriso dele na foto foi o estopim. A barreira invisível que protegia a mente de Rebekah ruiu por completo. A ficha não apenas caiu; ela esmagou o peito da designer com a força de um desabamento.
O Grito que Cortou a Casa
Um calafrio violento subiu pela espinha de Rebekah. Seus olhos azuis arregalaram-se, e o peito subiu e desceu num espasmo de dor física puríssima. Ela levou as duas mãos à cabeça, enterrando os dedos nas unhas compridas entre os cabelos negros enormes, e abriu a boca.
— AAAAAAAHHHHHHHHHHHHH! — o grito que escapou de sua garganta não parecia humano. Era um urro de dor, um clamor rasgado, selvagem, o som de uma alma sendo estraçalhada viva.
Suas pernas travaram e ela desabou de joelhos no chão, batendo com as palmas das mãos contra a madeira do piso, o corpo inteiro tremendo em convulsões.
— Caio! Volta! Por favor, volta! — ela berrava, a voz quebrando, o rosto colado ao chão molhado pelas primeiras lágrimas que finalmente jorravam como uma represa rombida. — Não me deixa aqui! Você prometeu! Caio! Volta para mim!
No andar de baixo, a sala de estar estava mergulhada num silêncio fúnebre. Anya, Guga, Letícia, Derick, Lucas e Pedro estavam sentados, com copos de água intocados nas mãos, quando o grito de Rebekah cortou o teto da casa. O som era tão doloroso que Letícia desabou no choro instantaneamente, escondendo o rosto no peito de Derick, que fechou os olhos, apertando os punhos com força. Lucas cobriu as orelhas, incapaz de ouvir o desespero da amiga, enquanto Pedro chorava baixinho.
Jace, que estava em pé perto da varanda olhando o mar, não pensou. Ao ouvir o primeiro eco do grito e o clamor pelo nome de Caio, suas pernas reagiram por puro instinto de proteção. Ele subiu as escadas correndo, pulando de dois em dois degraus, com o coração disparado.
A Tempestade no Quarto
Jace empurrou a porta do quarto com força. Quando entrou, o cenário o assustou. Rebekah já não estava mais de joelhos. O luto havia se transformado em uma fúria cega, desesperada, a reação de quem tenta lutar contra uma realidade que não pode mudar.
Ela havia avançado contra a cômoda. Com um movimento violento dos braços, Rebekah jogou todos os porta-retratos no chão. O vidro das molduras se estilhaçou em mil pedaços, cortando as fotos dos momentos felizes.
— Não é justo! Não é justo! — ela gritava coisas desconexas, a respiração cortada, o rosto vermelho e banhado de lágrimas. Ela puxou as cortinas da janela com tanta força que o varão de metal cedeu, vindo abaixo com um estrondo. — Por que ele, Jace?! Por que tiraram o meu príncipe de mim?! Eu odeio esse mundo! Eu odeio essa música!
Jace deu um passo à frente, tentando se aproximar da tempestade. — Bekah, para! Por favor, olha para mim! Você vai se machucar!
Mas ela estava cega pela dor. Rebekah avançou para a parede e começou a arrancar os pôsteres e as fotos da banda com as unhas, rasgando o papel, destruindo as memórias porque olhar para elas doía mais do que a própria morte. Estilhaços de vidro dos porta-retratos cortaram de leve a sola de seus pés descalços, deixando pequenos pingos de sangue no tapete, mas ela não sentia nada. A dor da alma era anestésica para o corpo.
— Me solta! Me deixa sumir também! — ela gritava quando Jace finalmente conseguiu cercá-la perto da cama. Ela começou a esmurrar o peito do baterista com os punhos fechados, sem força real, mas com o desespero de quem precisava descarregar a agonia. — Ele se foi, Jace... O Caio morreu... O meu Caio morreu!
O Abraço da Redenção e o Choro Profundo
Jace não recuou diante dos golpes dela. Ele aceitou cada soco em seu peito, mantendo os olhos escuros fixos nos azuis dela, transbordando uma compaixão e uma lealdade que transcendiam o tempo. Quando os braços de Rebekah fraquejaram pelo cansaço e pela falta de ar, Jace deu o passo definitivo. Ele a puxou para o seu peito com uma força descomunal, envolvendo-a completamente com seus braços largos, prendendo o corpo trêmulo dela contra o seu.
Rebekah tentou se debater por mais alguns segundos, gritando o nome de Caio contra a camisa escura de Jace, mas o baterista a apertou ainda mais forte, enterrando a mão nos cabelos negros enormes dela, colando o queixo no topo de sua cabeça.
— Eu estou aqui, Bekah... Eu estou aqui, minha linda. Eu não vou te soltar — Jace começou a falar, a voz grave saindo trêmula, mas firme, lutando contra o seu próprio choro para conseguir ser o apoio dela. — Põe tudo para fora. Chora. Grita. Quebra o que precisar, mas não passa por isso sozinha. Eu sei que dói... Deus do céu, eu sei que a dor parece que vai te matar, mas eu estou aqui. O Caio... o Caio amava o teu sorriso, Bekah. Ele se foi protegendo o que vocês tinham de mais lindo. Eu prometo pela minha vida, pela memória do meu irmão, que eu nunca vou deixar você sozinha na escuridão. Nunca.
Ao ouvir as palavras de Jace, ao sentir o calor daquele abraço que não pedia nada em troca a não ser carregar um pedaço do seu fardo, a fúria de Rebekah evaporou. As defesas da designer caíram por completo.
Seu corpo relaxou e ela desabou nos braços do baterista, os dedos cravando-se no terno dele como se Jace fosse a única corda de salvamento em um oceano de destruição. E então, veio o choro. Não era mais o grito de raiva ou as frases desconexas; era um choro profundo, sôfrego, um pranto que vinha das entranhas de sua alma, denso e pesado. Suas lágrimas molhavam o ombro de Jace, e os ombros dela sacudiam em soluços que pareciam quebrar suas costelas.
Jace fechou os olhos, deixando que suas próprias lágrimas finalmente rolassem, caindo sobre os cabelos dela. Ele começou a balançar o corpo de Rebekah de um lado para o outro de forma lenta, um ninar silencioso em meio ao quarto destruído, enquanto o som do choro profundo dela ecoava pelos corredores da casa de praia. No andar de baixo, as famílias ouviam o pranto e choravam junto, sabendo que a tempestade do luto havia chegado com toda a sua força implacável, mas sabendo também que, na escuridão daquele quarto, o compasso de Jace estava ali para garantir que Rebekah Laurentis não caísse sozinha.
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