A Batida do coração 2

26 A Escuridão do Abismo e a Mão no Ponto de Resga



​O luto não era uma linha reta; era um oceano revolto na escuridão, e Rebekah estava se afogando nele um pouco mais a cada noite. Duas semanas haviam se passado desde o enterro de Caio, e a casa de praia em Angra dos Reis, antes um refúgio de sol e risadas, havia se transformado no palco de um pesadelo contínuo.

​As noites eram as piores. O silêncio da madrugada parecia amplificar a ausência. Rebekah dormia por exaustão, mas o sono não lhe trazia paz. Quase todas as noites, por volta das três da manhã, o mesmo grito dilacerante rasgava os corredores. Ela acordava com o peito subindo e descendo, o pijama de seda ensopado de suor frio, chorando desesperadamente, chamando pelo nome de Caio enquanto tateava o lado vazio da cama. E quase instantaneamente, a porta se abria. Jace, que havia se mudado para o quarto em frente apenas para ficar de vigília, entrava com os olhos cansados, mas cheios de uma determinação inabalável, trazendo um copo de água e envolvendo-a em um abraço até que os soluços dela cessassem.

​Mas na terceira semana, a dor atingiu um nível alarmante. A mente de Rebekah, exausta e estraçalhada, encontrou o limite da sanidade.

​A Fuga para o Mar

​Era uma madrugada de terça-feira, particularmente fria e sem lua. O relógio marcava pouco mais de três e meia. No andar de cima, Rebekah não gritou. O choque daquela noite foi silencioso, o que tornou tudo ainda mais perigoso. Ela abriu os olhos azuis, completamente opacos, encarando a escuridão. A dor no seu peito era uma pressão física tão insuportável que ela sentia que, se não fizesse algo, seu coração explodiria.

​Como uma sonâmbula, ela se levantou. Descalça, vestindo apenas uma camisola branca e leve, ela abriu a porta do quarto sem fazer barulho. Passou pela porta de Jace com passos de fantasma, desceu as escadas de madeira e empurrou a porta de vidro que dava para a praia.

​A brisa gelada do mar bateu em seu rosto, mas ela não sentiu o frio. Seus pés afundaram na areia úmida. O som das ondas quebrando na escuridão parecia um chamado. Na mente perturbada de Rebekah, a única forma de parar a queimação em seu peito era se entregar àquela imensidão fria. Ela começou a caminhar em direção à água. O primeiro impacto da onda congelante bateu em seus tornozelos. Depois nos joelhos. Ela continuou avançando, com o olhar fixo no horizonte escuro.

​No andar de cima, Jace acordou em sobressalto. O silêncio prolongado o havia deixado em alerta. Ele se levantou, cruzou o corredor e empurrou a porta do quarto de Rebekah. A cama estava vazia. O lençol, desarrumado.

​— Bekah? — Jace chamou, o estômago congelando instantaneamente.

​Ele correu até a janela e olhou para a praia iluminada apenas pela iluminação fraca do deque. Na beira da água, ele viu um vulto branco avançando contra as ondas.

​— Não... Não, meu Deus, não! — Jace gritou, a voz sumindo na garganta.

​Ele desceu a escada como um raio, arrombando a porta de vidro. Seus pés golpeavam a areia com desespero. Quando ele chegou à beira da água, o mar já batia na cintura de Rebekah. Uma onda mais forte a cobriu por completo, e ela não lutou para voltar à superfície; ela simplesmente se deixou afundar, os cabelos negros enormes espalhando-se como uma mancha escura na água salgada.

​Jace mergulhou de cabeça na água gelada. Ele nadou com braçadas violentas, rasgando a correnteza, o pavor ditando o ritmo de seus músculos. Ele submergiu, tateando a escuridão líquida até que seus dedos tocaram o tecido leve da camisola dela. Com um puxão desesperado, ele a envolveu pela cintura e a puxou para cima, emergindo e tossindo, arrastando o corpo pesado e imóvel de Rebekah em direção à areia.

​O Resgate na Areia

​Jace desabou de joelhos na areia molhada, puxando Rebekah para o seu colo. Ela tossia, expelindo a água salgada, os olhos azuis semiabertos, mas completamente perdidos, fixos no céu escuro. O corpo dela tremia violentamente devido ao início de uma hipotermia.

​— Por que você me tirou de lá, Jace?! — Rebekah gritou de repente, a voz saindo esganiçada, fraca, cheia de uma agonia pura enquanto ela tentava empurrar o peito dele com as mãos trêmulas. — Me deixa ir! Eu quero o meu Caio! Eu não aguento mais essa dor! Tá queimando, Jace! Tá queimando tudo aqui dentro! Me deixa sumir com ele!

​Jace a apertou contra o peito com tanta força que parecia querer fundir a alma dela à sua para protegê-la. Ele chorava alto, as lágrimas quentes misturando-se à água salgada do mar em seu rosto.

​— Eu não vou te deixar ir, Bekah! Nunca! — Jace berrou de volta, a voz rasgada pelo pavor de quase tê-la perdido. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhar para ele. — Olha para mim! O Caio te queria viva! Ele morreu para que a gente continuasse a tocar a nossa vida! Se você sumir, Rebekah, você leva o resto de mim junto! Eu não vou aguentar perder você também! Aguenta firme, por favor, aguenta firme por ele... por mim!

​A força do desespero de Jace pareceu quebrar o transe de Rebekah. Ela desabou contra o pescoço dele, chorando de forma sôfrega, os dentes batendo pelo frio enquanto a ambulância, que Derick e Guga haviam chamado ao acordarem com os gritos na praia, apontava as luzes vermelhas e azuis na entrada do casarão.

​A Vigília no Quarto Hospitalar

​Horas mais tarde, o cenário havia mudado para a calmaria estéril de um quarto do hospital local. O som do monitor cardíaco bipava em um ritmo lento e constante. Rebekah estava deitada na cama hospitalar, com um acesso de soro no braço esquerdo e coberta por várias mantas térmicas. O rosto dela estava pálido, mas a respiração estava estabilizada. Ela dormia sob o efeito de sedativos leves para acalmar o sistema nervoso.

​Sentado na poltrona de couro ao lado da cama, estava Jace. Ele ainda usava uma muda de roupa emprestada por Derick, os cabelos secos, mas o olhar fixo em Rebekah. Ele não havia pregado o olho. Suas mãos grandes seguravam a mão direita dela, que estava fria, acariciando os nós dos dedos com uma paciência infinita.

​A porta do quarto se abriu devagar. Letícia e Deridade entraram, os rostos envelhecidos pelo sofrimento das últimas horas. Letícia aproximou-se da cama, passando a mão nos cabelos da filha, e olhou para Jace com uma gratidão que as palavras não conseguiam mensurar.

​— Os médicos disseram que ela vai ficar bem, Jace... Fisicamente, o pulmão está limpo — Letícia sussurrou, enxugando uma lágrima. — Você salvou a vida da nossa filha. Se não fosse por você...

​— Eu só fiz o que precisava ser feito, Dona Letícia — Jace respondeu, a voz baixa, sem soltar a mão de Rebekah. — Eu prometi para ela, e prometi para a memória do Caio, que eu seria o porto seguro dela. Eu não vou arredar o pé daqui.

​Derick colocou a mão no ombro de Jace, apertando com força, um gesto de respeito de homem para homem. — Vá para casa descansar um pouco, rapaz. Eu e a Letícia assumimos o turno agora. Você passou a noite inteira molhado, sem dormir.

​Jace olhou para Rebekah. Naquele exato momento, ela soltou um gemido baixo na cama e seus dedos apertaram debilmente os dedos de Jace, mesmo dormindo, como se procurassem por ele na escuridão do subconsciente.

​— Com todo o respeito, Seu Derick... mas eu fico — Jace disse, olhando para o pai de Rebekah com uma firmeza mansa. — Ela precisa sentir que eu estou aqui quando acordar. A dor dela é psicológica, e o Caio me deixou a missão de não deixar a música dela parar. Eu aguento.

​Letícia sorriu, emocionada com a lealdade do baterista, e assentiu. Os pais de Rebekah saíram do quarto para resolver as burocracias da internação, deixando os dois sozinhos novamente.

​Jace inclinou-se para a frente, aproximando o rosto da mão de Rebekah, e depositou um beijo suave ali. — Eu estou aqui, minha linda — ele sussurrou na penumbra do quarto, enquanto o monitor cardíaco ditava o ritmo da sobrevivência dela. — A tempestade vai passar. E eu vou estar segurando a sua mão em cada segundo até o sol voltar a brilhar.