A Batida do coração 2
1 O Ritmo do Perigo
O ar dentro daquele galpão abandonado na periferia de Santa Bárbara era denso, impregnado pelo cheiro forte de fumaça química, suor e o odor pungente de cerveja barata derramada no chão de cimento. As caixas de som de um DJ clandestino faziam as paredes de tijolos aparentes tremerem com uma batida eletrônica ensurdecedora, um ritmo industrial que parecia incomodar os batidos biológicos de quem estivesse sóbrio. E Jace Telles Drake estava perfeitamente sóbrio.
Vestindo uma jaqueta jeans escura sobre uma camiseta preta e com as baquetas saindo parcialmente do bolso traseiro da calça, Jace cruzava a multidão com os olhos semicerrados. Ele conhecia o submundo da noite; afinal, crescera ouvindo as histórias de turnês e sabia muito bem como se defender naquele tipo de ambiente. Caio, Lucas e Pedro haviam ficado para trás, perto da entrada, mas Jace decidira dar uma ronda. Algo em seu estômago dizia que aquela festa não terminaria bem. Copos plásticos com misturas duvidosas passavam de mão em mão, e em alguns cantos escuros, carreiras de pó branco e cigarros artesanais ditavam o comportamento dopado dos frequentadores.
Ele bufou, pronto para dar meia-volta e chamar os meninos da banda para irem embora, quando seu olhar cruzou a pista de dança improvisada. O mundo ao redor de Jace pareceu desacelerar, mas não por um bom motivo. O sangue dele congelou antes de ferver nas veias.
Lá estava ela.
Rebekah Laurentis. Ela devia estar na casa de Clara Santos fazendo um trabalho de geografia, pelo menos foi o que Derick achava. Em vez disso, a garota de quatorze anos usava um cropped preto, shorts jeans e exibia aquela postura rebelde e magnética que herdara do pai. Mas o que fez os punhos de Jace se fecharem com força foi o homem ao lado dela. Um cara nitidamente mais velho, de vinte e poucos anos, com um sorriso predatório nos lábios e os olhos fixos nas curvas da adolescente. O sujeito segurava Rebekah pela cintura enquanto ela dançava, visivelmente alterada pela atmosfera e pela pouca bebida que provavelmente havia consumido.
Jace não pensou. Ele simplesmente marchou pela multidão como um trator, empurrando os ombros de quem estivesse na frente.
— Ei, gatinha, você dança muito bem... — o cara mais velho murmurou, aproximando o rosto do pescoço de Rebekah.
— Larga ela. Agora — a voz de Jace cortou o ar como uma lâmina, fria, cortante e perigosamente calma.
O homem se virou, encarando o rapaz de dezessete anos com desdém.
— Quem é você, moleque? Dá o fora, a conversa aqui é de gente grande.
Rebekah piscou, os olhos castanhos demorando um segundo para focar no intruso.
— Jace? O que você tá... me solta! — ela protestou quando ele deu um passo à frente.
— Eu não vou repetir — Jace ignorou o sujeito completamente. Ele deu um passo rápido, meteu o braço direito entre as pernas de Rebekah e o esquerdo em volta da cintura dela. Com um movimento preciso e bruto, ele a ergueu do chão, jogando-a por cima do ombro direito como se fosse um saco de batatas.
— Cara, você enlouqueceu?! — o homem deu um passo à frente, mas Jace se virou, exibindo uma expressão tão sombria e um olhar tão carreado da fúria fria de Derick Laurentis e da determinação de Guga que o sujeito deu um passo para trás, erguendo as mãos em sinal de trégua.
— Fica na tua se não quiser sair daqui de ambulância — Jace sibilou, virando as costas e marchando em direção à saída do galpão.
A Tempestade no Carro
— ME LARGA! JACE, SEU IDIOTA, ME PÕE NO CHÃO! — Rebekah berrava a plenos pulmões, socando as costas dele com os punhos pequenos. Os cabelos longos balançavam no ritmo dos passos rápidos do rapaz.
Jace só parou quando alcançou seu velho jipe preto, estacionado a duas quadras do galpão. Ele abriu a porta do passageiro, jogou-a no banco sem muita delicadeza e inclinou-se sobre ela para puxar o cinto de segurança, travando-o com um estalo violento.
— Fica aí e cala a boca — ele ordenou, batendo a porta e contornando o carro.
Assim que ele sentou no banco do motorista e deu a partida, a cabine do jipe virou um campo de batalha verbal.
— Quem você pensa que é?! Você estragou a minha noite! A Clara foi embora mais cedo e eu estava só me divertindo! — Rebekah gritava, o rosto vermelho de raiva e a respiração ofegante. — Você não é meu pai, Jace Telles! Você é um intrometido, arrogante e eu te odeio!
— Divertindo, Rebekah?! — Jace gritou de volta, socando o volante enquanto manobrava o carro pelas ruas escuras da periferia. — Aquele lugar estava cheio de droga! Aquele cara tinha idade para ser teu irmão mais velho ou quase teu tio, ele estava te secando com os olhos e você aí, agindo como se tivesse vinte anos! Você tem quatorze, Rebekah! Quatorze! Você tem noção do perigo que estava correndo?
— Eu sei me cuidar! Eu ia dar um fora nele! — ela mentiu, a voz falhando sutilmente pela adrenalina.
— Não parecia! Se eu não estivesse lá, Deus sabe onde você estaria agora.
Em um acesso de fúria cega por se sentir encurralada e infantilizada, Rebekah se soltou sutilmente do cinto, inclinou-se para o lado e cravou os dentes no braço direito de Jace, bem na região do antebraço que segurava o câmbio.
— Ai! Droga, Rebekah! Você enlouqueceu, porra?! — Jace deu um solavanco, segurando o volante com força com a outra mão enquanto ela soltava o braço dele, deixando uma marca vermelha e dolorida na pele. — Você é um bicho, é?
— É para você aprender a não se meter comigo! Eu te odeio! Te odeio! — ela bateu os pés no painel do carro, cruzando os braços e virando o rosto para a janela, deixando lágrimas de frustração e raiva escorrerem por suas bochechas.
Jace não disse mais nenhuma palavra. O maxilar dele estava travado, a respiração pesada, e o silêncio que se instalou no carro era tão denso quanto a fumaça da festa que haviam deixado para trás.
O Altar do Julgamento
Dez minutos depois, o jipe freou bruscamente em frente à imponente casa de Derick e Letícia. As luzes da fachada estavam apagadas, mas Jace sabia que os tios de alma não toleravam atrasos ou mentiras. Ele saiu do carro, abriu a porta do passageiro e agarrou Rebekah pelo pulso.
— Vem. Você vai entrar e vai assumir o que fez — ele disse, puxando-a.
— Me solta, Jace, por favor... não faz isso — ela mudou o tom, a voz saindo num fio infantil e assustado pela primeira vez. O medo de Derick Laurentis era real. — Por favor, diz que me achou na praça...
— Não vou mentir para o teu pai, Rebekah. Acabou o teatrinho.
Ele a arrastou pela calçada até a porta principal. Jace bateu duas vezes com força na madeira escura. Não demorou trinta segundos para que a maçaneta girasse. A porta se abriu, revelando Derick Laurentis vestindo um roupão cinza por cima da calça de pijama, com as feições sérias e o olhar focado. Logo atrás dele, Letícia apareceu, segurando um xale sobre os ombros, com uma expressão de pura preocupação.
O barulho da discussão na varanda fez os dois entrarem em alerta máximo.
— O que está acontecendo aqui? — a voz grave de Derick ecoou pela sala ampla, fazendo Rebekah encolher os ombros instantaneamente.
Jace deu um passo à frente, empurrando Rebekah sutilmente para dentro da casa. Ele estava ofegante, com a marca da mordida ainda pulsando no braço.
— Tio Derick, Tia Letícia... desculpa a hora — Jace começou, a voz firme apesar do cansaço. — Mas eu acabei de tirar a Rebekah de uma festa clandestina no galpão do setor industrial. O lugar estava regado a bebida, drogas e ela estava na pista de dança com um cara de vinte e poucos anos que eu nunca vi na vida. Ela mentiu sobre estar na casa da Clara Santos.
Letícia cobriu a boca com a mão, os olhos arregalados de choque e decepção.
— Rebekah... como você teve coragem? Você me disse que ia estudar!
Derick não gritou. E o silêncio dele era muito pior do que qualquer grito. Ele deu dois passos lentos na direção da filha. Seus olhos escuros pareciam lâminas de gelo fixas no rosto da adolescente, que agora olhava para o chão, chorando de verdade, trêmula.
— Para o seu quarto. Agora — Derick ordenou, a voz saindo num sussurro baixo e mortal.
— Pai, eu... — ela tentou argumentar, a voz embargada.
— Agora, Rebekah! — o tom dele subiu sutilmente, e ela não ousou piscar. Virou as costas e subiu as escadas correndo, o som de seus passos ecoando até a porta do quarto bater no andar de cima.
Derick soltou o ar lentamente, fechando os olhos por um segundo para conter a fúria e a decepção. Quando os abriu, ele olhou para Jace. Ele notou a marca vermelha dos dentes no antebraço do rapaz e o estado de sua roupa. O empresário deu um passo à frente e colocou a mão grande no ombro do filho de Guga.
— Você está bem, Jace? — Letícia perguntou, aproximando-se e tocando o braço dele com carinho de médica. — Ela te machucou?
— Estou bem, Tia Letícia. Foi só um arranhão, ela ficou revoltada porque eu a tirei de lá — Jace deu um meio sorriso sem graça.
Derick apertou o ombro do rapaz com uma força sincera.
— Rebekah está oficialmente de castigo até o final do ano letivo. Sem celular, sem saídas, sem Clara Santos, sem nada. E quanto a você... obrigado, Jace. Você honrou o nome do homem que carrega. Se você não estivesse lá... eu não quero nem pensar no que eu faria com aquele sujeito ou no que poderia ter acontecido com a minha filha. Obrigado por proteger ela.
— Ela é da família, Tio Derick. Eu faria de novo — Jace assentiu com respeito. — Boa noite para vocês.
O Sofá dos Pensamentos
Meia hora depois, Jace estacionava o jipe na garagem de sua própria casa. Ele entrou no imóvel em silêncio, jogando as chaves na mesa de canto da sala de estar e desabando de costas no grande sofá de couro marrom. O cansaço físico e mental finalmente o alcançara. Ele cobriu os olhos com o antebraço esquerdo, mas a imagem de Rebekah dançando com aquele cara e depois chorando assustada na sala de Derick não saía de sua mente.
O som de passos calmos ecoou pela escada de madeira. Gustavo Telles, vestindo uma camiseta velha e segurando uma caneca de café, entrou na sala. O baterista olhou para o filho jogado no estofado e percebeu a tensão nas linhas do corpo do rapaz. Ele caminhou até ali e sentou-se na poltrona em frente.
— Noite longa no ensaio, campeão? — Guga perguntou, dando um gole no café.
Jace puxou o braço do rosto, soltando um suspiro longo.
— Não foi ensaio, pai. Eu tive que ir até o galpão industrial tirar a Rebekah de uma roubada. Ela mentiu para o Tio Derick, foi para uma festa clandestina cheia de droga e estava com um cara mais velho. Tive que carregar ela no ombro até o carro. Ela até me mordeu no caminho.
Guga arregalou os olhos sutilmente, deixando a caneca na mesa de centro. Ele olhou para a marca no braço do filho e balançou a cabeça, soltando um riso soprado que misturava preocupação e reconhecimento.
— Cara... a Rebekah tem o sangue do Derick e a teimosia da Anya no mesmo corpo. Essa mistura é uma bomba-relógio — Guga comentou, encostando-se na poltrona. — O Derick deve estar querendo derrubar as paredes da casa uma por uma.
— Ele ficou furioso, mas me agradeceu — Jace disse, virando o rosto para olhar para a janela que dava para o jardim. — Aquela garota... ela deve estar me odiando com todas as forças dela agora. Ela gritou no carro que me odeia e que eu estraguei a vida dela.
Guga olhou para o filho com um olhar maduro, aquele mesmo olhar de quem já cruzara muitas estradas difíceis para aprender o que realmente importava. Ele deu um meio sorriso terno.
— Deixa ela odiar, Jace. Às vezes, o preço para manter quem a gente ama em segurança é o ódio temporário deles — Guga disse, a voz mansa e firme. — Você fez a coisa certa. O seu tio Jace estaria orgulhoso de ver que você agiu como o protetor da nossa história.
Jace fechou os olhos, ajeitando-se no sofá enquanto o som do silêncio da madrugada de Santa Bárbara se instalava na sala.
— Eu não tô nem aí se ela me odeia ou não, pai... — Jace sussurrou, a voz sumindo no cansaço, embora seu coração batesse em um ritmo estranhamente acelerado. — Eu só não quero ver a princesa da nossa família correndo perigo. Só isso.
Guga observou o filho pegar no sono ali mesmo no sofá. O baterista sorriu de canto, sabendo que, embora os dois jovens batessem de frente como duas baquetas em um compasso quebrado, a música daquela nova geração estava apenas na introdução, e o ritmo deles ainda reservava muitas surpresas.
Fale com o autor