A Batida do coração 2

2 O Atrito das Ondas e os Acordes Rompidos



​O jipe preto de Jace cruzou o arco de pedras que demarcava a entrada da propriedade de veraneio dos Laurentis em Angra dos Reis. O sol da manhã de sábado brilhava forte, refletindo-se nas águas mansas e esmeraldas que quebravam bem na frente do casarão de praia. No banco do carona, Anya Drake olhava a paisagem com admiração, enquanto Gustavo Telles, no banco de trás, terminava de rir de uma piada que Paulinho havia mandado no grupo da banda antes de eles pegarem a estrada.

​Jace mantinha as duas mãos firmes no volante, o semblante calmo, mas seus olhos focaram imediatamente na varanda da casa assim que estacionou. Lá estava o comitê de recepção: Derick e Letícia, radiantes com roupas leves de linho, e, escorada em uma das pilastras com os braços cruzados e uma expressão de absoluto tédio, Rebekah.

​Desde o episódio da festa clandestina, há duas semanas, a garota de quatorze anos vinha cumprindo o castigo rigoroso imposto por Derick. Sem celular e impedida de ver Clara Santos, toda a sua frustração parecia ter sido canalizada em uma única direção: odiar Jace Telles com cada fibra de seu ser.

​— Chegamos, família! — Guga anunciou, abrindo a porta do jipe e descendo com aquela energia contagiante de sempre. Ele correu para abraçar Derick e Letícia. — Que saudade de sentir o cheiro do mar sem o filtro do estúdio.

​— Vocês demoraram, o trânsito estava ruim? — Letícia perguntou, abraçando Anya com carinho e depositando um beijo em sua bochecha.

​— O Jace insiste em dirigir na velocidade da lei, Tia Letícia — Jace brincou, descendo do carro e pegando as malas da mãe no porta-malas. Ele olhou de relance para a varanda. — Bom dia, Rebekah.

​Rebekah nem se mexeu. Apenas soltou um suspiro audível, revirando os olhos castanhos.

— O dia estava bom até cinco minutos atrás — ela murmurou, baixo o suficiente para o pai não ouvir, mas alto o bastante para Jace captar.

​Alfinetadas à Beira-Mar

​O almoço foi servido na imensa mesa de madeira da varanda gourmet, de frente para a praia. O clima entre os adultos era de pura nostalgia e descontração. Guga e Derick relembravam as trapalhadas da primeira turnê, enquanto Letícia e Anya discutiam novas técnicas de pintura. No entanto, na ponta da mesa, a energia era pesada.

​Rebekah cutucava o peixe no prato com o garfo, os olhos fixos em Jace, que comia calmamente ao lado do pai. Ela estava determinada a fazê-lo perder a postura.

​— Sabe, mãe... — Rebekah começou, a voz destilando uma falsa inocência que fez o estômago de Jace revirar. — É uma pena que a Clara não pôde vir. A gente ia aproveitar tanto a praia. Mas, infelizmente, algumas pessoas gostam de agir como fiscais da vida alheia e inventar histórias para estragar o final de semana dos outros.

​A mesa silenciou sutilmente. Anya olhou de relance para o filho, percebendo o maxilar de Jace travar.

​— Rebekah, mude de assunto. Você sabe muito bem por que está de castigo — Derick alertou, o tom de voz caindo para aquele registro grave que costumava encerrar qualquer discussão.

​— Eu só acho engraçado, pai — ela continuou, ignorando o aviso, os olhos cravados em Jace. — Como tem gente que se faz de santo, que tem uma bandinha de quinta categoria, mas adora passar o tempo cuidando da vida de uma menina de quatorze anos. Deve ser falta de ocupação. Ou talvez a faculdade de música seja tão fácil que sobra tempo para ser intrometido.

​Jace largou o garfo sobre o prato. O som do metal batendo na cerâmica ecoou na varanda como o primeiro toque de um bumbo de bateria antes do caos. Ele respirou fundo, tentando lembrar-se dos conselhos de Guga sobre paciência, mas a arrogância no olhar de Rebekah quebrou o último fio de sua resistência.

​— Rebekah, cala a boca — Jace disse, a voz baixa, mas densa de uma fúria contida.

​— Ah, o santinho sabe mandar os outros calarem a boca? — ela debochou, soltando uma risada anasalada, jogando os cabelos escuros para trás. — O que foi, Telles? Vai chorar pro meu pai de novo? Vai inventar mais alguma mentira porque não aguenta ver alguém se divertindo de verdade enquanto você passa os sábados trancado num estúdio ensaiando com aqueles seus amigos esquisitos?

​O Rompimento do Compasso

​Foi o limite. Jace levantou-se da cadeira de forma abrupta, a mesa balançando sutilmente com o impacto de suas mãos espalmadas na madeira. Toda a paciência que ele guardara nas últimas duas semanas evaporou. Ele olhou para Rebekah de cima, os olhos faiscando com uma intensidade que assustou até mesmo Letícia.

​— Já chega! Eu cansei de você e das suas alfinetadas de garota mimada! — Jace explodiu, a voz ecoando alta por toda a varanda, silenciando os adultos por completo. — Você se acha a dona do mundo, não é, Rebekah? Acha que o universo gira em torno do seu umbigo e que todo mundo tem que aguentar o seu mau humor e a sua rebeldia barata!

​— Jace, calma... — Guga tentou intervir, segurando o braço do filho, mas Jace puxou o braço de volta, sem desviar o olhar da garota.

​— Não, pai! Eu não vou ter calma! — Jace apontou o dedo na direção de Rebekah, que agora estava estática na cadeira, o sorriso de deboche sumindo instantaneamente de seu rosto. — Sabe qual é o teu problema, Rebekah? Você é uma criança egocêntrica que não tem a menor noção da realidade! Você mentiu, foi para um lugar perigoso cheio de marginais, estava se expondo para um cara mais velho que podia ter acabado com a sua vida, e em vez de agradecer por estar segura, você passa o dia inteiro agindo como uma criatura insuportável!

​Rebekah piscou, os lábios tremendo sutilmente sob o peso das palavras dele na frente de todos os pais.

​— Você acha que eu me importo com a sua vida? — Jace continuou, a voz cortando o ar como uma navalha, cheia de uma humilhação fria e merecida. — Eu não dou a mínima para o que você faz! Só que o meu pai e a minha mãe amam os teus pais. E eu respeitava a memória do homem que me deu o nome de Jace para deixar a princesa da família ser destruída na minha frente por pura burrice e capricho! Você não passa de uma menina mimada, imatura e patética que precisa crescer antes de tentar falar de igual para igual comigo ou com qualquer pessoa nessa mesa!

​A varanda ficou imersa em um silêncio sepulcral. Rebekah sentiu as lágrimas quentes começarem a transbordar por seus olhos castanhos, o peito subindo e descendo em choque. Ela nunca, em toda a sua vida, havia sido confrontada daquela forma, muito menos na frente de Derick e Anya.

​Jace puxou o ar com força, jogou o guardanapo de tecido em cima da mesa e virou as costas.

— Com licença. Perdi a fome — ele sibilou, descendo os degraus da varanda a passos largos e marchando em direção à faixa de areia da praia, deixando para trás um rastro de tensão insuportável.

​O Reflexo no Espelho

​Rebekah não aguentou o peso dos olhares. Ela empurrou a cadeira para trás, soltando um soluço alto, e correu em direção ao interior da casa, subindo as escadas em direção ao seu quarto antes que qualquer um pudesse impedi-la.

​Na mesa, Anya Drake cobriu o rosto com as mãos, soltando um suspiro pesado, enquanto Letícia olhava para o marido. Derick Laurentis continuava imóvel, com os olhos fixos no prato. Guga levantou-se lentamente, limpando a boca com o guardanapo.

​— Derick... me desculpa pelo Jace. Ele perdeu o controle, eu vou falar com ele — Guga começou, sentindo-se mal pela intensidade do filho.

​Derick levantou o rosto, e para a surpresa de todos, ele não parecia furioso com Jace. Havia uma expressão de profundo cansaço em suas feições maduras.

​— Não vá, Guga. Deixe o Jace respirar — Derick disse, a voz grave e cansada. — O seu filho não disse nenhuma mentira. A Rebekah precisava ouvir isso de alguém que não fosse eu ou a Letícia. A verdade dói, mas o Jace foi o único que teve a coragem de quebrar o escudo de orgulho que ela herdou de mim.

​Letícia colocou a mão sobre a de Derick, confortando-o. — Eu vou conversar com ela, dar um tempo para ela absorver. O Jace agiu como um irmão mais velho que perdeu a paciência, e às vezes, esse é o único remédio que funciona.

​A Areia e o Arrependimento

​Longe dali, onde as ondas quebravam com mais força contra as pedras da encosta, Jace caminhava descalço pela areia úmida. O vento marinho soprava seus cabelos escuros, esfriando a adrenalina que ainda corria em suas veias. Ele chutou uma concha com força, sentindo o peso do próprio surto.

​— Droga... — ele resmungou para si mesmo, cruzando os braços.

​Ele sabia que Rebekah merecia um choque de realidade, mas a imagem do rosto dela — o deboche sumindo para dar lugar àquela expressão de vulnerabilidade infantil e as lágrimas correndo antes de ela fugir — começou a pesar em sua consciência. Ele não queria ter sido tão cruel, mas o medo que sentira por ela naquela festa ainda se traduzia em fúria.

​O som de passos na areia fofa o fez olhar para trás. Anya Drake vinha caminhando devagar, com a barra do vestido longo erguida para não molhar no mar. Ela parou ao lado do filho, olhando para o horizonte dourado do meio-dia.

​— Você tem a força do seu pai quando se irrita, Jace — Anya disse suavemente, a voz mansa servindo como um bálsamo para o peito turbulento do rapaz. — Mas você sabe que pesou a mão, não sabe?

​— Ela me testou o almoço inteiro, mãe — Jace tentou se defender, olhando para os próprios pés. — Ela não para de me alfinetar desde aquela noite. Eu só não queria que ela se enfiasse numa roubada de novo.

​— Eu sei, meu amor. O seu pai me contou tudo — Anya se aproximou, colocando a mão quente e delicada no rosto do filho, forçando-o a olhar para ela. — Você agiu por amor e por proteção, assim como o seu Tio Jace faria. Mas lembre-se de uma coisa: a Rebekah tem quatorze anos. Ela está perdida tentando descobrir quem é, usando essa casca de rebeldia para esconder os próprios medos. O que você disse foi verdade, mas a forma como disse... quebrou algo nela.

​Jace engoliu em seco, sentindo o nó na garganta apertar.

— O que eu faço agora?

​— Dê um tempo para a poeira baixar — Anya sorriu de canto, beijando a bochecha dele. — O ritmo da cura nunca é imediato, Jace. Às vezes, um acorde rompido precisa de silêncio antes de ser afinado de novo.

​Jace assentiu em silêncio, olhando para o casarão ao longe. A tempestade na mesa havia passado, mas o eco das palavras ainda vibrava no ar de Angra dos Reis. O primeiro grande confronto da nova geração havia acontecido, e embora o ódio parecesse reinar no quarto de Rebekah, a batida do coração daqueles dois acabara de entrar em um compasso complexo, perigoso e completamente sem volta.