A Batida do coração 2
10 O Príncipe da Valsa e o Ritmo do Ciúme
O tempo voou em Santa Bárbara, e o outono finalmente deu lugar aos preparativos para um dos eventos mais esperados do ano pelas famílias Laurentis e Telles: o aniversário de 15 anos de Rebekah. Para qualquer garota, a transição para os quinze anos era um marco, mas para a filha de Derick e Letícia, a data vinha acompanhada de um turbilhão de expectativas. O casarão estava em polvorosa com decorações, convites e a escolha do vestido perfeito. No entanto, havia um buraco na partitura daquela festa que estava tirando o sono da debutante: ela não tinha um príncipe, um cavaleiro para dançar a tradicional valsa.
Na tarde de quinta-feira, Rebekah estava sentada no banco do jardim do colégio com a cabeça apoiada nos joelhos, o semblante carregado. Clara Santos balançava as pernas ao lado dela, segurando um copo de suco, observando a angústia da melhor amiga.
— Bekah, você precisa decidir isso logo. A sua mãe disse que o coreógrafo precisa de pelo menos duas semanas para passar os passos da valsa — Clara comentou, a voz mansa e preocupada. — Não dá para você dançar sozinha com o Tio Derick a noite inteira. Tem a valsa dos amigos também.
— Eu sei, Clara... mas quem eu ia chamar? — Rebekah desabafou, erguendo o rosto pálido, os olhos castanhos cheios de uma frustração genuína. — Todos os meninos do nono ano são uns bobos imaturos. E os mais velhos... bem, depois de tudo o que aconteceu, eu não tenho cara de pedir nada para ninguém.
Clara olhou para o horizonte por um segundo, ponderando. O namoro dela com Pedro Lima ia de vento em popa, o que a deixava muito próxima dos veteranos da banda. Uma ideia estalou em sua mente.
— Olha... e se a gente não procurar no nono ano? — Clara sugeriu, um sorriso de canto surgindo em seus lábios. — Os meninos da banda do Jace são super legais. O Pedro é um amor, o Lucas é super educado... e o Caio é um gato e dança super bem, eu vi ele na festa do mês passado. Eu posso conversar com o Pedro e pedir para um deles quebrar esse galho para você. O que você acha? Lucas ou Caio?
Rebekah piscou, o coração dando um solavanco. A simples menção à banda trazia a imagem de Jace à sua mente, mas a necessidade de salvar a sua festa falou mais alto. Ela engoliu o orgulho.
— Você acha que eles aceitariam? — Rebekah perguntou, a voz num fio. — Quer dizer... o Caio. Ele é engraçado. Acho que se ele aceitasse, eu não passaria tanta vergonha.
Clara mexeu os pauzinhos rapidamente. Pedro levou a proposta para o grupo, e para a surpresa e alívio de Rebekah, Caio Souza aceitou prontamente. Caio era o baixista da banda, dono de um carisma leve, um sorriso fácil e uma postura descompromissada que não carregava nenhuma das mágoas do passado. Para ele, era uma honra ajudar a "caçula" da grande família que os acolhera.
O Ensaio na Sala dos Telles
Como o estúdio da piscina dos Drake estava ocupado com equipamentos pesados naquela tarde, o primeiro ensaio da valsa foi transferido para a ampla sala de estar da casa de Gustavo e Anya Telles. O espaço era perfeito: o tapete de couro havia sido arrastado para o canto, deixando o piso de madeira polida livre para os passos de dança.
Letícia Laurentis estava sentada no sofá com um caderno de anotações, atuando como a diretora de cena improvisada, enquanto Clara observava de canto. No centro da sala, Rebekah vestia uma saia rodada simples e uma sapatilha, enquanto Caio Souza exibia sua habitual calça jeans e uma camiseta regata preta, com as mãos na cintura, rindo da situação.
— Muito bem, crianças — Letícia comandou, ajustando os óculos. — Caio, a mão direita vai firme na cintura da Rebekah, sem medo. Rebekah, a sua mão esquerda repousa no ombro dele. Nada de braço duro, por favor. Vamos tentar o passo básico de três tempos.
Caio deu um passo à frente, assumindo a postura com uma elegância que Rebekah não esperava de um baixista de rock. Ele segurou a mão direita dela e espalmou a mão esquerda na cintura da garota com firmeza e respeito.
— Calma, Laurentis. Você está tremendo igual a uma corda de baixo desafinada — Caio brincou, o tom de voz divertido fazendo Rebekah soltar um riso tenso. — Eu não mordo, juro. Só se você pisar no meu pé.
— Eu não vou pisar no seu pé, Caio — Rebekah rebateu, as bochechas corando de leve enquanto se ajustava ao ritmo dele. — É que eu achei que você ia achar uma cafonice aceitar ser meu cavaleiro.
— Que nada! Eu vou ser o príncipe mais estiloso que Santa Bárbara já viu — Caio deu uma piscada piscando o olho esquerdo, começando a guiar os passos dela no clássico um-dois-três, um-dois-três pela madeira da sala. — Além do mais, o Tio Derick prometeu que o buffet da festa vai ter aquela ilha de hambúrguer artesanal. Eu aceitaria dançar até balé por isso.
Rebekah soltou uma gargalhada alta, a tensão finalmente deixando seu corpo. Ela se deixou guiar por Caio, girando sob o braço dele com leveza. Pela primeira vez em meses, a sala dos Telles não estava cheia de gritos ou silêncios dolorosos; estava preenchida pelo som de passos compassados e uma diversão genuína.
O Príncipe Debutante no Estúdio
Enquanto o ensaio da valsa acontecia na sala principal, o relógio avançava para o final da tarde. Na casa da piscina dos Drake, o estúdio de ensaios estava com as luzes acesas. Jace estava sentado atrás de sua bateria, ajustando a tensão da pele da caixa com uma chave de afinação, o semblante sério e focado. Lucas estava escorado na parede com a guitarra em punho, e Pedro dedilhava algumas notas soltas no teclado.
O ensaio oficial da banda deveria ter começado há quinze minutos, e a ausência do baixista estava começando a irritar o ritmo cirúrgico de Jace.
Ele largou a chave de afinação no prato de condução, gerando um som metálico agudo, e olhou para o relógio de pulso.
— Cara, cadê o Caio? — Jace perguntou, a voz firme e impaciente, passando a mão pelos cabelos escuros. — Ele sabe que a gente precisa fechar o arranjo da música do festival hoje. O cara nunca se atrasa desse jeito sem avisar.
Lucas tirou a palheta da boca, soltando um riso abafado e trocando um olhar cúmplice com Pedro.
— Ih, Jace... acho que o Caio vai demorar um pouco para pegar no baixo hoje — Lucas comentou, ajeitando a alça do instrumento com um sorriso de canto.
Jace franziu o cenho, pegando um par de baquetas. — Por que? Aconteceu alguma coisa? O carro dele quebrou?
Pedro Lima soltou uma risada alta do outro lado do estúdio, girando na banqueta do teclado para encarar o baterista.
— Quebrou nada, Drake! O Caio está ocupado em uma missão oficial de alta diplomacia — Pedro disparou, a voz cheia de deboche divertido. — Ele está lá na sala da sua casa agora mesmo, bancando o príncipe debutante da Rebekah.
O movimento das mãos de Jace travou no ar. Seus olhos se estreitaram instantaneamente, e o cabo de uma das baquetas apertou contra a palma de sua mão com tanta força que os nós dos seus dedos empalideceram. A notícia caiu como uma nota totalmente fora do tom em seus ouvidos.
— O quê? — Jace repetiu, a voz caindo para um registro mais baixo, denso. — O Caio? O que o Caio tem a ver com os quinze anos da Rebekah?
— A Clara me contou que a Rebekah não tinha nenhum cavaleiro para a valsa dos quinze anos — Pedro explicou, dando de ombros com naturalidade. — Ela estava super mal por causa disso. Aí a Clara deu a ideia, o Caio aceitou e agora ele é o príncipe oficial da festa. Eles estão lá embaixo ensaiando os passos com a Tia Letícia. O cara está literalmente aprendendo a dançar valsa para salvar a pátria da Laurentis.
Jace ficou estático no banco da bateria. Uma sensação estranha, quente e corrosiva — um sentimento que ele tentara sufocar durante todos aqueles meses de separação — subiu pelo seu peito como um acorde menor em uma guitarra distorcida. Caio. O seu melhor amigo. Dançando com Rebekah. Segurando a cintura dela na sala de sua própria casa.
Ele tentou manter a máscara de indiferença que construíra com tanto esforço diante dos meninos, mas o tremor sutil na baqueta o traiu.
— É sério isso? — Jace soltou uma risada curta, forçada e sem nenhum pingo de humor real, jogando as baquetas em cima do bumbo com desdém. — O Caio aceitou perder tempo de ensaio da banda para ficar girando em salão com uma garota mimada? Que palhaçada.
— Ah, cara, deixa de ser ranzinza — Lucas defendeu, rindo da cara de Jace. — É o aniversário de quinze anos da menina, mó data importante. E o Caio é parça. Se ele não salvasse a garota, o Tio Derick ia ter que contratar um figurante. Imagina o climão?
Jace não respondeu. Ele levantou-se do banco da bateria de forma abrupta, caminhando até a janela do estúdio que dava para o jardim dos fundos. Dalí, ele conseguia ver, ao longe, as luzes da sala de estar de sua casa acesas. Ele cruzou os braços, o maxilar travado enquanto tentava controlar a irritação que subia por suas veias.
Rebekah havia sumido de sua vida, cumprido a distância e deixado o seu namoro com Lelê terminar em cinzas. Mas agora, ela estava de volta, não para provocá-lo diretamente, mas ocupando o espaço através de seu melhor amigo, no centro de sua própria casa. Jace respirou fundo, sentindo que, por mais que tentasse mudar o andamento daquela música, o aniversário de 15 anos de Rebekah Laurentis prometia puxá-lo de volta para o olho do furacão, e o ritmo da nova geração estava prestes a ficar perigosamente fora de controle.
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