A Batida do coração 2
11 O Compasso Compartilhado e as Notas Omissas
Nas semanas que antecederam o grande baile de debutante, a partitura que regia a rotina de Santa Bárbara sofreu uma inversão completa de notas. O que começou como um favor coreográfico de duas tardes por semana transformou-se rapidamente em uma conexão diária, leve e inevitável entre Rebekah Laurentis e Caio Souza.
Caio, com seu espírito livre e descompromissado, trouxe para a vida de Rebekah exatamente o que ela precisava após meses de isolamento e gelo: leveza. Ele não a julgava pelos erros do passado, não a olhava com a severidade de Derick e, acima de tudo, não a tratava com a indiferença cortante de Jace. Pela primeira vez, Rebekah sentia que podia ser apenas uma garota de quinze anos, sem precisar vestir uma armadura de arrogância para se defender do mundo.
A aproximação dos dois passou a ocupar todos os cenários possíveis, transformando-se no assunto principal dos sussurros pelos corredores do Colégio Altas Bordas.
Tardes de Sol e Baunilha: A Rotina Fora das Linhas
O cotidiano deles ganhou um ritmo próprio. Na saída do colégio, era comum ver o baixista veterano e a debutante caminhando lado a lado em direção à clássica sorveteria da Avenida Central.
Em uma tarde de quinta-feira, o sol poente dourava as mesas de metal na calçada. Rebekah ria abertamente, segurando uma casquinha de sorvete de chiclete que insistia em derreter pelos seus dedos, enquanto Caio, sentado à sua frente com os pés jogados em outra cadeira, devorava uma taça imensa de sundae.
— Caio, limpa o canto da boca, você está parecendo uma criança de cinco anos — Rebekah provocou, entregando um guardanapo de papel para ele, os olhos castanhos brilhando com uma diversão genuína.
— É a tática do baixista, Laurentis. Concentração total no doce, nenhuma distração externa — Caio limpou o rosto, piscando para ela. — Mas me conta, como foi o teste do vestido hoje? Sua mãe não te obrigou a usar aquelas armações de arame dos anos 80, né?
— Quase! — ela jogou as mãos para o alto, dramatizando. — A costureira queria colocar três camadas de filó de armação. Eu parecia um bolo de festa de casamento de cidade pequena. Sorte que a Clara estava lá e me defendeu. Ela disse que se eu usasse aquilo, o meu príncipe ia ter dificuldades para me abraçar na valsa.
Caio inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa, o sorriso mudando para algo sutilmente mais caloroso.
— Bom, a Clara tem um ponto. Conduzir você já é uma missão diplomática, com aquele vestido imenso então... eu ia precisar de treinamento militar.
Rebekah sorriu de canto, baixando o olhar para a casquinha. Sutilmente, o estômago dela deu uma reviravolta que não tinha nada a ver com o sorvete. A presença de Caio estava se tornando confortável demais, um porto seguro que ela não sabia que existia.
A Invasão Territorial: O Casarão Laurentis
Nos dias de chuva, o cenário mudava para a imensa biblioteca ou para a sala de cinema do casarão dos Laurentis. Derick e Letícia observavam a presença constante do rapaz com uma mistura de alívio e surpresa. Ao contrário dos antigos garotos que Rebekah tentava impressionar, Caio entrava na casa, cumprimentava Derick com um aperto de mão firme e passava horas jogando cartas ou dividindo baldes de pipoca com a garota na mais perfeita ordem.
Certa tarde, os dois estavam jogados nos tapetes felpudos da sala de estar de Rebekah, cercados por apostilas escolares. Caio tentava explicar um teorema de física para o simulado do nono ano dela, usando palhetas de guitarra como exemplo.
— Olha só, Rebekah. Pensa que a palheta é o elétron... — Caio começou, posicionando o plástico no chão.
— Caio, isso não faz o menor sentido científico — ela riu, jogando uma almofada pequena na cabeça dele. — Você está inventando física quântica musical para não admitir que também não sabe a fórmula.
— Ei! Respeita o seu professor de gala — ele riu, segurando a almofada e deitando-se de lado, apoiando a cabeça na mão para olhar para ela. — Eu passei nessa matéria ano passado, tá? Com a nota mínima, mas passei. É o charme do artista.
Rebekah recolheu as pernas, abraçando os joelhos e olhando para o rosto dele. A proximidade ali, na segurança de sua casa, era diferente daquela tensão sufocante que vivera com Jace. Com Caio, o ar não faltava; ele fluía de forma doce, calma.
— Obrigada, Caio — ela disse do nada, a voz descendo para um tom suave, sincero. — Por estar vindo aqui. Por me ajudar com os quinze anos... e com o resto também. Eu sei que os meninos da banda devem estar te alfinetando por causa disso.
Caio estendeu a mão e deu um leve puxão em uma das tranças do cabelo dela, o olhar calmo e protetor.
— Não esquenta a cabeça com os caras, Laurentis. Eles fazem barulho, mas no fundo entendem. Salvar a pátria da debutante mais teimosa de Santa Bárbara virou a minha prioridade número um.
O Silêncio do Baixo no Estúdio
Enquanto a harmonia crescia entre Caio e Rebekah, o compasso da banda entrava em colapso. Pela terceira vez naquele mês, o amplificador de baixo no estúdio da casa da piscina dos Drake continuava desligado, a luz vermelha apagada refletindo o vazio no canto da sala.
Jace Telles Drake estava sentado atrás da bateria, o par de baquetas batendo ritmadamente contra a borda da caixa em um ritmo rápido, tenso, quase agressivo. Lucas e Pedro ajustavam seus instrumentos em um silêncio desconfortável. O ensaio oficial já deveria ter começado há quarenta minutos.
A porta do estúdio se abriu e Caio entrou, trazendo a capa do baixo nas costas e um sorriso meio sem graça no rosto. Ele usava o casaco do colégio aberto e tinha alguns fios de cabelo bagunçados.
— Fala, galera! Mal por de trânsito na entrada do condomínio, o dia hoje foi corrido — Caio tentou quebrar o gelo, caminhando em direção ao seu amplificador.
O som das baquetas de Jace parou abruptamente. O silêncio que se instalou no estúdio foi denso, carregado daquela mesma fúria fria que o baterista vinha acumulando há semanas.
— Trânsito, Caio? Ou você estava ocupado demais segurando a mão da Laurentis na sorveteria do centro? — Jace disparou, a voz cortante como uma navalha, os olhos escuros fixos no melhor amigo com uma intensidade destrutiva.
Lucas engoliu em seco, recuando um passo com a guitarra, enquanto Pedro focou o olhar rigidamente no teclado.
Caio travou as mãos no zíper da capa do instrumento. Ele respirou fundo, o sorriso sumindo de seu rosto, substituído por uma postura firme que batia de frente com a autoridade do baterista.
— Eu estava ajudando a Rebekah a escolher as músicas da transição do baile, Jace. O evento é na semana que vem e ela precisava de ajuda com os arquivos — Caio respondeu, o tom de voz calmo, mas irredutível. — Eu avisei o Pedro que ia atrasar um pouco.
— Você avisou o Pedro, mas a banda inteira depende do seu tempo para fechar o arranjo do festival! — Jace levantou-se do banco da bateria de forma abrupta, jogando as baquetas em cima do bumbo com um estalo violento que ecoou pelas paredes acústicas. Ele deu dois passos à frente, parando a centímetros de Caio. — É a terceira vez essa semana que você falta ou chega atrasado por causa dela. Você está deixando o nosso futuro de lado para brincar de babá de uma garota mimada que só sabe sugar a energia de todo mundo ao redor!
Caio não recuou. Ele manteve o olhar fixo no de Jace, e pela primeira vez, a habitual leveza do baixista deu lugar a uma seriedade madura e protetora que Jace nunca vira nele.
— Mede as tuas palavras para falar dela, Jace — Caio disse, a voz descendo para um registro grave, pausado. — A Rebekah não é mais a garota de dois meses atrás. Ela errou, pagou o preço, e agora está tentando seguir a vida dela. Eu aceitei ser o cavaleiro dela porque ela estava sozinha, e se eu estou passando o meu tempo com ela, é porque eu quero. Ela tem muito a oferecer para quem tem os olhos abertos o suficiente para enxergar além do próprio orgulho.
Jace sentiu o peito arder, as palavras de Caio atingindo um ponto cego de sua mente. Ver o seu melhor amigo defender Rebek com tanta propriedade, com tanto afeto, causou uma turbulência em suas veias que ele mal conseguia processar. O ciúme, a posse e a fúria familiar misturaram-se em um acorde menor insuportável.
— Você está cego, Caio — Jace desdenhou, soltando uma risada irônica, embora seus punhos estivessem cerrados ao lado do corpo. — Ela está te usando para chamar a minha atenção, exatamente como fez com o jogador de futebol no refeitório, exatamente como faz com todo mundo. Você é só o fantoche da vez no teatrinho dela.
Caio olhou para Jace com um olhar de profunda lamentação, balançando a cabeça negativamente. Ele deu um passo para o lado, pegou o seu baixo ainda na capa e o colocou de volta nos ombros, desistindo de tirar o instrumento para o ensaio.
— Você não sabe de nada, Drake — Caio sibilou, a voz fria. — O único que está preso em um teatrinho aqui é você, fingindo que não se importa enquanto o seu mundo cai ao redor. Eu vou embora. Quando você estiver pronto para tocar música e não para projetar as tuas frustrações no meu baixo, você me liga.
Caio virou as costas e cruzou a porta do estúdio, batendo-a com firmeza.
Jace ficou parado no centro da sala, a respiração descompassada e o olhar fixo no canto vazio do amplificador. Lucas e Pedro continuavam imóveis, sentindo que a nova geração de Santa Bárbara havia cruzado uma linha de não retorno. A valsa de quinze anos de Rebekah Laurentis estava se aproximando, e com Caio assumindo o papel de príncipe, o compasso daquela história estava prestes a quebrar em cima do palco principal, diante dos olhos de todos.
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