A Batida do coração 2

14 O Peso das Escolhas e o Novo Acorde



​A madrugada havia engolido o barulho da festa de quinze anos, deixando para trás apenas o silêncio denso da casa dos Telles. As luzes da garagem se acenderam quando o carro de Gustavo parou. No andar de cima, Anya soltou um suspiro de alívio, caminhando em direção ao closet para se livrar do vestido de gala apertado e dos saltos altos que já castigavam seus pés há horas.

​Guga, no entanto, não foi para o quarto do casal. Ele manteve seus passos firmes e silenciosos pelo corredor, parando em frente à porta de Jace. Uma fresta de luz amarelada cortava a penumbra do chão. Do lado de dentro, não vinha o som ruidoso da bateria, mas sim o dedilhar melancólico, quase inaudível, de um violão acústico. Notas isoladas, perdidas, que pareciam não encontrar um refrão.

​Guga empurrou a porta devagar. Jace estava sentado na beira da cama, ainda vestindo a calça de moletom, com o violão apoiado na coxa. A luz do abajur iluminava o corte em seu supercílio e o lábio partido, mas o que fez o peito de Guga apertar foram as marcas brilhantes no rosto do filho. Jace chorava silenciosamente, as lágrimas caindo sobre a madeira do instrumento enquanto seus dedos falhavam ao tentar fechar um acorde menor.

​Ao ver o pai, o rapaz parou de tocar imediatamente, engolindo em seco e desviando o olhar, tentando limpar o rosto com as costas da mão machucada.

​— O dedilhar está bonito, filho, mas a música parece triste demais — Guga disse com suavidade, fechando a porta atrás de si e caminhando até a cadeira da escrivaninha, sentando-se de frente para o jovem.

​— Não é nada, pai. Só estava... testando uma melodia — Jace mentiu, a voz saindo rouca, embargada.

​Guga cruzou os braços, olhando fixamente para o filho com a sabedoria de quem já conhecia cada batida daquele coração.

— Jace, eu estava lá. Eu vi o anúncio do Caio no microfone. Vi o salão inteiro aplaudir o namoro dele com a Rebekah. E sei que você estava assistindo pela transmissão da Clara. O que está acontecendo aqui dentro? — Guga colocou a mão sobre o próprio peito. — Me explica essa dor.

​Jace largou o violão de lado na cama com uma impaciência dolorosa. Ele enterrou os dedos nos cabelos escuros, apoiando os cotovelos nos joelhos, os ombros sacudindo sutilmente.

​— Eu não sei, pai! Eu juro que não sei! — Jace desabafou, a voz quebrando enquanto as lágrimas voltavam a cair sem controle. — Eu sinto um vazio no peito que está me sufocando. Eu sinto raiva do Caio, sinto raiva dela, sinto ódio de mim mesmo... É como se o meu mundo tivesse saído completamente do compasso e eu estivesse assistindo a tudo da plateia, quebrado, sem conseguir me mexer. Eu não sei explicar o que é isso. É ruim demais.

​Guga suspirou, o olhar cheio de compaixão paterna. Ele estendeu a mão e apertou o ombro do filho.

— O nome disso é o eco das suas próprias escolhas, Jace. Você passou meses empurrando a Rebekah para longe, usando o seu orgulho como escudo e machucando ela com palavras para se proteger. O Caio fez o oposto: ele deu a mão quando ela estava no chão. O que você está sentindo agora não é só o peso de ter perdido o seu melhor amigo ou a banda... é o peso de ver que o mundo seguiu em frente porque você mandou ele seguir.

​Jace ergueu o rosto, os olhos vermelhos e fustigados fixando-se nos do pai. Havia um desespero maduro em sua fisionomia.

​— Eu só quero que este ano acabe, pai — Jace confessou, o tom de voz descendo para uma urgência cortante. — Eu quero que o colégio termine logo, que os meses voem. Eu só quero pegar o meu jipe, colocar as minhas malas no banco de trás e ir embora para sempre daqui, ir para a faculdade em outra cidade. Eu preciso sumir de Santa Bárbara. Eu não aguento mais respirar o mesmo ar que eles.

​Guga olhou para o filho em silêncio por um longo tempo. Ele sabia que fugir não curava as feridas, mas entendeu que, naquele momento, o isolamento era o único curativo que a alma de Jace conseguia suportar.

​— Se é isso que você precisa para se organizar por dentro, Jace... foca nos teus estudos. Termina o teu último ano. Mas lembra: para onde quer que você vá, o seu coração vai junto. Resolve isso aí dentro primeiro — Guga aconselhou, levantando-se e dando um beijo na testa do filho antes de sair, deixando o rapaz sozinho com o silêncio do seu quarto.

​O Contorno dos Sonhos

​Em outro ponto da cidade, o quarto de Rebekah ainda guardava o perfume das flores do baile. O vestido azul-serenidade estava cuidadosamente pendurado na porta do armário, mas a mente da garota estava longe dos tecidos ou das luzes.

​Rebekah estava deitada de costas em sua cama, olhando para o teto, com os dedos da mão direita tocando de leve os próprios lábios. Ela lembrava de cada detalhe da varanda: o toque suave das mãos de Caio, a firmeza de suas palavras e, principalmente, o beijo.

​Era tudo tão diferente agora. Durante anos, a mente de Rebekah estivera obcecada pela figura intensa, protetora e muitas vezes agressiva de Jace; um sentimento que a machucava, que gerava brigas, febres e lágrimas. Com Caio, o ritmo era outro. Não havia a urgência do caos, não havia o medo do julgamento. Havia uma paz doce, um riso frouxo que preenchia os espaços vazios de sua alma.

​Rebekah fechou os olhos, sentindo o peito aquecer, e um sorriso involuntário desenhou-se em seu rosto na penumbra. Ela entendeu, finalmente, que a dor que sentira no passado havia sido apenas o prelúdio. Ela estava se apaixonando por Caio Souza, de verdade, e dessa vez, a música não doía.

​O Novo Ritmo no Estacionamento

​Na manhã seguinte, o sol de Santa Bárbara iluminava o pátio do Colégio Altas Bordas com a energia típica de uma terça-feira. O estacionamento estava movimentado, repleto de alunos comentando os detalhes da festa da véspera.

​O som característico e ruidoso de uma moto ecoou na entrada do colégio. Caio estacionou sua máquina com precisão na vaga de sempre. Ele desceu primeiro, tirando o capacete e ajeitando os cabelos bagunçados. Logo em seguida, ajudou Rebekah a descer da garupa. Ela usava o uniforme padrão, mas trazia uma leveza no olhar que mudava completamente sua presença. Caio segurou a mão dela com firmeza, entrelaçando os dedos aos dela à vista de todos, assumindo o compromisso diante do mundo.

​O efeito no pátio foi imediato. Dezenas de olhares se voltaram para o novo casal. Cochichos e sorrisos cúmplices surgiram entre os alunos do nono e do segundo ano. Eles caminhavam com calma, dividindo a mesma frequência de felicidade.

​Sentados na arquibancada de cimento do pátio principal, Jace, Pedro e Lucas assistiam à cena. Jace estava com os braços cruzados sobre o casaco azul-marinho do uniforme, a fratura no supercílio bem visível sob a luz do sol.

​Ao ver Caio e Rebekah cruzarem o portão de mãos dadas, Jace revirou os olhos de forma ríspida, seu maxilar travando com tanta força que os músculos de seu pescoço saltaram. Um brilho de pura fúria e ressentimento emanou de seus olhos escuros fixos no antigo melhor amigo.

​Pedro Lima percebeu a tensão e soltou um suspiro baixo, ajeitando os óculos, enquanto Lucas mudou o foco para o celular, tentando evitar o desastre iminente. No entanto, o estrago já estava feito na mente do baterista. Caio, o cara com quem ele compartilhara palcos, segredos e infância, agora caminhava de mãos dadas com ela. Rebekah Laurentis. A garota que Jace um dia tirara da lama, a garota que chorara em sua sala, a sua princesa de alma... agora pertencia ao compasso de outro homem. E Jace, isolado em sua própria arquibancada de orgulho, só conseguia assistir ao início daquele novo e doloroso capítulo.