A Batida do coração 2

15 O Último Acorde e a Estação de Partida



​O anfiteatro do Colégio Altas Bordas estava decorado com os tradicionais estandartes em azul-marinho e dourado. O som da marcha de formatura ecoava pelas caixas de som, preenchendo o espaço com uma solenidade que arrepiava os presentes. Nas primeiras fileiras da plateia, os Laurentis e os Telles dividiam o mesmo espaço.

​Rebekah estava sentada entre os pais, usando um vestido leve de linho. Seus olhos castanhos brilhavam de orgulho e suas mãos batiam palmas entusiasmadas toda vez que o nome de um dos meninos da banda era anunciado no microfone. Ela sorria abertamente para Caio, que estava na plateia ao seu lado, segurando sua mão com um carinho público e seguro.

​No palco, os formandos vestiam suas becas escuras. Pedro Lima recebeu seu diploma e apontou o canudo diretamente para Clara Santos na plateia. Clara explodiu em um sorriso radiante, mandando um beijo soprado para o namorado, completamente apaixonada. Logo atrás, Lucas Silva também cruzou o palco, erguendo o diploma em direção a uma garota de cabelos claros sentada na terceira fileira — sua nova namorada, uma jovem do segundo ano que trouxera um novo ritmo para a vida do guitarrista.

​Por fim, o nome de Jace Telles Drake foi chamado. Ele caminhou com a postura ereta e a maturidade que o último ano lhe forçara a construir. O corte no supercílio já era apenas uma linha quase invisível, mas o semblante dele era sério, focado. Ele pegou o diploma, apertou a mão do diretor e olhou para a plateia. Ele viu os pais aplaudindo com os olhos marejados, viu os amigos com suas respectivas parceiras e, inevitavelmente, viu Rebekah. Ela batia palmas para ele, um gesto de respeito e trégua familiar, mas seu corpo estava sutilmente inclinado na direção de Caio. Jace foi o único daquele grupo a descer as escadas do palco completamente só, carregando o canudo de papel como o único troféu de sua jornada.

​A Tradição da Lareira

​No início da noite, a atmosfera mudou para o glamour do baile de formatura. No casarão dos Laurentis, a movimentação era intensa. Rebekah terminava de se arrumar quando o som imponente de uma buzina ecoou na entrada.

​Caio Souza não havia poupado esforços para aquela noite. Ele alugara uma limousine preta clássica para buscar a namorada. Quando a porta da sala se abriu, Caio entrou vestindo um smoking impecável, os cabelos perfeitamente alinhados e um buquê de pequenas rosas brancas nas mãos.

​Rebekah desceu as escadas. Ela usava um vestido de gala longo, num tom de verde-esmeralda que contrastava lindamente com sua pele pálida, com as costas parcialmente abertas e um caimento digno de uma noite inesquecível.

​— Meu Deus, você está maravilhosa, filha! — Letícia Laurentis exclamou, batendo as palmas com os olhos brilhando de felicidade. Ela pegou a câmera digital que estava em cima da mesa de centro. — Caio, por favor, fiquem ali ao lado da lareira de mármore. Eu preciso registrar esse momento antes que vocês saiam.

​Caio sorriu, estendendo o braço para Rebekah, que o enlaçou com naturalidade. Os dois se posicionaram em frente à lareira apagada, onde os detalhes em madeira antiga emolduravam o casal. Letícia tirou a foto, o flash iluminando o sorriso radiante dos dois.

​Antes que pudessem dar o primeiro passo em direção à porta, a figura imponente de Derick Laurentis cortou o caminho. Ele vestia um terno escuro, estava com os braços cruzados e o olhar severo de um pai que vigiava o seu bem mais precioso.

​— Só um minuto, Caio — Derick disse, a voz grave fazendo o baixista endireitar a postura imediatamente. — A limousine é um belo toque, admito. Mas vamos deixar algumas coisas bem claras antes de vocês cruzarem aquela porta. A Rebekah não é apenas a aniversariante da semana passada ou a sua namorada de colégio. Ela é a minha filha. A minha única princesa.

​Caio engoliu em seco, mantendo o olhar firme, demonstrando o respeito que Derick exigia.

​— Eu sei perfeitamente disso, Tio Derick — Caio respondeu, a voz firme.

​— Ótimo — Derick continuou, aproximando-se e arrumando a lapela do smoking de Caio com um toque pesado. — Quero ela de volta em casa exatamente no horário combinado, sem um minuto de atraso. Se o motorista da limousine inventar de correr, você o mande parar. Cuide dela como o homem que você demonstrou ser na semana passada. Se um fio de cabelo da minha filha voltar desalinhado por irresponsabilidade, o nosso próximo arranjo vai ser bem desconfortável. Fui claro?

​— Perfeitamente claro, senhor — Caio assentiu, com um meio sorriso respeitoso.

​Rebekah revirou os olhos de forma carinhosa, aproximando-se e dando um beijo na bochecha do pai. — Pai, menos, por favor. O Caio é perfeito.

​Derick suavizou a expressão por um segundo, dando um beijo no topo da cabeça da filha. — Divirtam-se. Mas lembrem-se do que eu disse.

​O Acorde do Descompasso no Baile

​O salão de festas do Hotel Majestic estava decorado com globos de cristal e cascatas de luzes. O som de uma banda de jazz ao vivo preenchia o ambiente com uma melodia lenta e envolvente. Na pista de dança, os casais se moviam lentamente.

​Caio e Rebekah estavam no centro da pista. As mãos de Caio repousavam firmes e seguras na cintura da garota, enquanto os braços de Rebekah envolviam o pescoço do namorado. Eles dançavam no ritmo da música romântica, com as testas quase coladas.

​— Você conseguiu sobreviver ao interrogatório do meu pai — Rebekah sussurrou, rindo baixo contra o ouvido dele.

​— Eu enfrentaria o Tio Derick e todo o conselho de administração da empresa dele de novo só para poder passar essa noite olhando para você nesse vestido — Caio respondeu, o olhar cheio de uma admiração profunda. — Eu te amo, Bekah.

​— Eu também te amo, Caio — ela respondeu, os olhos castanhos brilhando antes de se fecharem quando Caio se inclinou. Os dois se entregaram a um beijo apaixonado, lento e cheio de entrega no meio do salão, completamente alheios ao barulho dos brindes ao redor.

​Afastado na penumbra do bar do hotel, segurando um copo de refrigerante com gelo que ele sequer bebia, Jace assistia a tudo. Ele usava o terno de gala da formatura, mas a roupa parecia pesada demais sobre seus ombros. Ver Rebekah nos braços de Caio, ver a cumplicidade real e o amor que transbordava daquele gesto, fez o seu estômago dar um nó insuportável. A dor da perda não era mais uma fúria cega; era uma melancolia mansa e fria que o paralisava. Ele entendeu que não pertencia mais àquele arranjo. Aquela música era deles, não dele.

​Jace largou o copo no balcão de mármore. Sem avisar a Lucas ou Pedro, ele caminhou discretamente em direção à saída de emergência, cruzando o saguão do hotel e pegando o seu jipe preto no estacionamento. Ele precisava fugir daquele som.

​O Retorno ao Silêncio

​Quando o jipe de Jace estacionou na garagem da casa dos Telles, as luzes da sala ainda estavam acesas. Ele empurrou a porta da frente devagar, carregando o paletó do terno na mão e a gravata já frouxa no pescoço.

​Anya Drake estava sentada no sofá da sala de estar, usando um roupão confortável e lendo um livro. Ao ouvir os passos do filho, ela olhou para o relógio de parede, que marcava pouco mais de onze e meia da noite. Ela franziu o cenho, preocupada.

​— Jace? Meu querido, já de volta? — Anya levantou-se, caminhando na direção dele e tocando o seu braço com carinho de mãe. — O baile mal começou. O Pedro e o Lucas disseram que a festa ia até o amanhecer. Por que chegou tão cedo? Aconteceu alguma coisa?

​Jace parou no primeiro degrau da escada. Ele não olhou diretamente nos olhos da mãe; fixou o olhar em um ponto qualquer da parede de madeira. Seu rosto expressava um cansaço que ia muito além do físico.

​— Não aconteceu nada, mãe — Jace respondeu, a voz saindo baixa, arrastada, desprovida de qualquer energia. — O dia foi muito cheio com a colação de grau hoje cedo... eu só estou exausto. Minha cabeça está estourando. Eu não estava no clima daquela agitação toda. Só quero tomar um banho e dormir.

​Anya guardou o silêncio por um segundo, percebendo a mentira protetora do filho. Ela sabia exatamente quem estava naquele baile e o que a presença daquele novo casal causava no peito de Jace. Ela estendeu a mão e acariciou a bochecha do rapaz.

​— Está bem, meu filho. Sobe lá. Descansa — ela disse com doçura.

​— Boa noite, mãe — Jace murmurou, subindo os degraus lentamente.

​Ele entrou no seu quarto, fechou a porta e não acendeu as luzes. Deixou as roupas de gala jogadas na cadeira da escrivaninha e deitou-se na cama, olhando para o teto escuro enquanto o som distante do motor do jipe parecia ainda ecoar em seus ouvidos. Jace fechou os olhos com força, focando mentalmente nos livros, nas apostilas e na data de sua viagem para a faculdade. O ensino médio havia terminado, a banda havia acabado, e a sua história em Santa Bárbara estava se encerrando em um fade out lento e silencioso, enquanto o resto do mundo continuava a dançar na pista principal.