A Batida do coração 2

4 O Acorde de Gelo e o Preço da Indiferença



​O sol da manhã de segunda-feira iluminava a fachada imponente do Colégio Altas Bordas, a instituição privada mais tradicional de Santa Bárbara. O estacionamento da escola estava movimentado com o vaivém de ônibus escolares e carros de luxo. Entre eles, o jipe preto de Jace Telles Drake manobrou com precisão, parando em uma das vagas destinadas aos alunos do último ano.

​Jace desligou o motor, respirou fundo e saiu do veículo, ajeitando a lapela do blazer. Era o seu último ano ali, e ele vestia o uniforme de gala do colégio com uma elegância natural: calça social azul-marinho, camisa social branca perfeitamente passada, o blazer na mesma tonalidade da calça e a gravata vermelha alinhada no pescoço. Ele carregava a mochila de lona apenas por uma das alças, ostentando uma postura confiante, madura e completamente distante do garoto impulsivo de semanas atrás. Ele estava cumprindo a promessa que fizera ao pai: estava vivendo a sua vida.

​Caminhando em direção ao pátio principal, Jace avistou seus três melhores amigos e companheiros de banda sentados no gramado verde, sob a sombra de um grande carvalho.

​— Olha lá, o homem de negócios chegou — Lucas Silva brincou, ajeitando os óculos enquanto dedilhava um ritmo invisível no joelho.

​— Pensei que ia se atrasar para o primeiro tempo de física, Drake — Caio Souza comentou, abrindo espaço no gramado. Pedro Lima apenas acenou, concentrado em um caderno de partituras.

​Jace sorriu, jogando a mochila no chão e sentando-se de pernas cruzadas ao lado deles.

— O trânsito na avenida principal estava infernal, mas deu tempo. E aí, o que eu perdi?

​— Nada demais, só o Pedro tentando convencer a gente de que um solo de teclado de sete minutos é uma boa ideia para a próxima música — Lucas riu, arrancando um empurrão de Pedro.

​Enquanto os meninos riam, o som de duas vozes femininas se aproximando chamou a atenção do grupo. Rebekah Laurentis cruzava o portão principal do colégio, caminhando lado a lado com sua melhor amiga, Clara Santos. Rebekah usava a saia plissada padrão do 9º ano, mas, fiel à sua personalidade, havia customizado o visual com coturnos pretos e uma jaqueta de couro por cima da blusa social. Seu olhar mudou instantaneamente quando ela percebeu o grupo da banda no gramado. Ela endireitou a postura, fingindo uma indiferença que não possuía, e passou direto por eles, embora seus olhos castanhos tenham demorado um milésimo de segundo a mais fixos em Jace.

​Caio acompanhou a garota com o olhar e cutucou Jace com o cotovelo.

— Cara, a Laurentis passou soltando faísca pelos olhos. Vocês ainda estão naquela guerra fria desde Angra dos Reis? Ela é bonita, bicho, mas parece que vive de mau humor.

​Jace sequer virou o rosto para olhar na direção em que Rebekah seguia. Ele apenas pegou uma folha de grama, despedaçando-a entre os dedos com uma calma cirúrgica.

​— Nem perde teu tempo falando dela, Caio — Jace respondeu, a voz saindo num tom frio, desprovido de qualquer mágoa ou raiva. Era pura indiferença. — Aquilo ali é só uma menina mimada. Uma garota fútil que não tem absolutamente nada de bom para oferecer a ninguém. Esquece isso.

​Os meninos se entreolharam, surpresos com o tom definitivo de Jace, e mudaram de assunto imediatamente, voltando a falar sobre o próximo ensaio.

​O Jogo do Tabuleiro no Refeitório

​O sinal para o intervalo ecoou pelos corredores, e o refeitório do Colégio Altas Bordas transformou-se em um mar de vozes, bandejas de metal e tilintar de talheres. Jace e os meninos da banda ocupavam uma das mesas centrais, o território tradicional dos veteranos. Eles comiam e conversavam quando, a poucas mesas de distância, um movimento chamou a atenção de Jace.

​Rebekah estava de pé diante da mesa dos alunos mais velhos do time de futebol. Ela exibia um sorriso ensaiado enquanto conversava com um veterano do terceiro ano, um rapaz alto que exibia a jaqueta do time com arrogância. O cara dizia algo que fazia Rebekah rir, aproximando-se sutilmente dela.

​Jace sentiu o estômago dar um nó leve, o instinto de proteção arranhando as paredes de sua mente por um segundo. Mas a voz de Guga ecoou em sua memória: "Não gaste o seu sangue com quem não quer ser salvo." Jace respirou fundo, soltou o ar devagar e forçou um sorriso, desviando o olhar. Ele não ia cair naquele jogo de provocações.

​Nesse mesmo instante, Letícia Miller, uma das garotas mais populares do segundo ano e fã declarada da banda de Jace, passou ao lado da mesa deles carregando uma lata de suco. Ela olhou para Jace com um sorriso tímido, os olhos brilhando.

​Jace viu ali a oportunidade perfeita de cravar o acorde final daquela partitura.

​— Ei, Lelê — Jace chamou, a voz alta o suficiente para se destacar no ambiente.

​A garota parou, surpresa. — Oi, Jace.

​Com um movimento rápido e seguro, Jace segurou Letícia Miller pela cintura e a puxou com facilidade para o seu colo. A garota soltou um pequeno suspiro de surpresa, as bochechas corando imediatamente. Jace não deu tempo para explicações; ele segurou o rosto dela com uma das mãos, inclinou-se e lascou um beijo cinematográfico, intenso e demorado nos lábios da menina, bem ali, no meio do refeitório cheio.

​A mesa da banda explodiu em gritos e batidas de palmas. Em segundos, metade do refeitório estava aplaudindo e assobiando diante da atitude ousada do baterista. Letícia, ao terminar o beijo, escondeu o rosto no pescoço de Jace, rindo, completamente desarmada.

​Do outro lado do salão, o efeito foi imediato. Rebekah Laurentis congelou no meio da frase com o jogador de futebol. O sorriso sumiu de seu rosto, substituído por uma expressão de absoluto choque e desconforto. Ela sentiu as bochechas arderem de vergonha e humilhação ao perceber que todos assistiam àquela cena. Jace a ignorara por completo, mostrando que ela não tinha mais qualquer poder sobre as reações dele. Ele estava livre. Estava vivendo de verdade.

​O Pedido no Estacionamento

​No final da tarde, o sinal de saída encerrou as atividades do dia. O estacionamento voltou a ficar movimentado. Jace caminhou calmamente até o seu jipe preto, jogou a mochila no banco de trás e abriu a porta do motorista. Antes que pudesse subir, uma silhueta cortou seu caminho, parando entre ele e a porta do carro.

​Era Rebekah. Ela estava sozinha, sem Clara, e segurava as alças da mochila com força. O orgulho que ela ostentara no almoço parecia ter sido trincado. Ela olhou para o chão por um segundo antes de erguer os olhos castanhos para Jace, a voz saindo sem a costumeira arrogância:

​— Jace... a Clara teve que ir embora com a mãe dela para o médico. E o motorista do meu pai vai atrasar quase uma hora por causa de uma reunião na empresa. Eu... eu queria saber se você pode me dar uma carona até em casa.

​Jace apoiou o braço no topo da porta do jipe, olhando para ela de cima. Não havia raiva em seus olhos, apenas um divertimento frio e irônico. Ele soltou uma risada curta, balançando a cabeça negativamente.

​— Uma carona, Rebekah? — Jace repetiu, o tom de voz calmo e cortante. — Desculpa, mas o meu jipe é muito pequeno para carregar o tamanho do teu ego. Além do mais, você sabe se cuidar sozinha, não sabe? Foi o que você gritou em Angra. Aproveita o tempo de espera para pensar em como o mundo real funciona.

​Sem dar tempo para qualquer resposta, Jace subiu no jipe, bateu a porta e deu a partida no motor ruidoso. Ele engatou a marcha e pisou fundo no acelerador, saindo da vaga e cantando pneus no asfalto do estacionamento, deixando Rebekah Laurentis para trás, envolta na poeira e no silêncio de sua própria solidão.

​Ela ficou parada ali, olhando o jipe preto desaparecer na curva da avenida, sentindo pela primeira vez que o preço da sua rebeldia havia sido o afastamento definitivo do único garoto que um dia dera o sangue para protegê-la.