A Batida do coração 2
5 O Sol de Angra e o Compasso da Indiferença
O final de semana em Angra dos Reis parecia ter saído de uma propaganda de verão. O céu era um azul impecável, sem nuvens, e o mar de águas esmeraldas quebrava com preguiça na areia clara bem em frente ao casarão dos Laurentis. A praia estava viva, preenchida pelo som de risadas, música alta vinda de uma caixa de som portátil e o barulho da bola de vôlei sendo rebatida no ar.
Jace Telles Drake agora namorava Letícia Miller — que os meninos da banda carinhosamente apelidaram de "Lelê" para não confundir com a Tia Letícia Laurentis. Lelê era uma garota solar, dona de um sorriso fácil, cabelos castanhos claros e uma energia que se encaixava perfeitamente no caos dos músicos. Para aquele final de semana na praia, Jace e os amigos decidiram estender o convite: além de Caio, Lucas e Pedro, a melhor amiga de Rebekah, Clara Santos, também fora convidada, quebrando um pouco o isolamento da garota.
Na beira da água, a diversão corria solta. Caio e Lucas tentavam, sem muito sucesso, pegar jacaré nas ondas baixas, mergulhando de cabeça e saindo da água cuspindo areia, arrancando gargalhadas do resto do grupo.
Perto das esteiras, a dinâmica era diferente e bem mais cômica. Pedro Lima, o tecladista da banda, passara a última meia hora sentado na areia ao lado de Clara Santos. Ele usava um chapéu de palha engraçado e tentava, a todo custo, impressionar a garota com o seu repertório de piadas de gosto duvidoso. Clara, que sempre fora tímida, cobria a boca para rir, achando graça no puro ridículo da situação.
— Clara, me diz uma coisa... — Pedro começou, ajeitando os óculos escuros com um ar falsamente intelectual. — Você sabe por que o livro de matemática foi ao psicólogo?
Clara piscou os olhos, segurando o riso. — Não, Pedro. Por quê?
— Porque ele tinha muitos problemas! — Pedro disparou, abrindo os braços e soltando uma risada alta.
Do outro lado da esteira, Jace, que estava deitado de bruços com a cabeça apoiada no colo de sua namorada, Lelê, soltou um gemido de pura vergonha alheia.
— Pedro, pelo amor de Deus, apaga essa partitura — Jace resmungou, rindo contra o tecido do biquíni de Lelê. — Se você contar mais uma piada dessas, eu vou te afogar no mar.
— Deixa ele, Jace! Eu achei fofa — Lelê defendeu, rindo e passando os dedos cheios de protetor solar pelos cabelos escuros do namorado. Ela se inclinou para baixo, os olhos brilhando de afeto. — Você se estressa muito fácil, Telles. Sabia que você fica lindo quando está bravo?
Jace sorriu, o olhar mudando de descontraído para intenso em um segundo. Ele segurou Lelê pela nuca com uma das mãos, puxando-a para baixo. Os dois se entregaram a um beijo quente, demorado e apaixonado sob o sol, completamente alheios ao resto do mundo, curtindo a leveza de um romance sem amarras ou dramas.
O Olhar dos Bastidores
Afastados na varanda coberta do casarão, sentados em confortáveis poltronas de vime com copos de caipirinha e suco de fruta nas mãos, os adultos observavam a movimentação dos jovens na areia.
Gustavo Telles cruzou os braços, um sorriso de puro orgulho paterno desenhando-se em seu rosto enquanto via Jace rir e interagir com Lelê.
— Olha lá o meu garoto — Guga comentou com Derick, dando um gole em sua bebida. — O Jace finalmente encontrou o compasso dele. A Lelê faz um bem danado para ele. O moleque está focado na faculdade, a banda está ensaiando direitinho... O coração dele está na frequência certa.
— Ele merece, Guga — Derick Laurentis respondeu, a voz grave, mas sincera. Ele olhava para a praia, mas seu foco não estava em Jace.
Os olhos de Derick, assim como os de Anya e da Letícia mais velha, estavam fixos em uma silhueta mais afastada. Bem longe do círculo de vôlei e das esteiras da banda, Rebekah estava sentada sozinha sob um guarda-sol menor, escorada em uma cadeira de praia. Ela usava óculos escuros grandes e um boné, mantendo os braços cruzados sobre os joelhos recolhidos. Ela parecia acuada, uma espectadora solitária da própria juventude, assistindo à melhor amiga se divertir com Pedro e, principalmente, vendo Jace trocar beijos com outra garota sem sequer olhar na sua direção.
Anya Drake suspirou, deixando sua caneca de chá de lado, o coração de mãe apertado pela cena.
— É difícil ver a Bekah assim... tão isolada — Anya comentou baixinho com Letícia, ajeitando o xale nos ombros. — Ela parece um passarinho na gaiola que ela mesma construiu. Dá para ver de longe que ela queria estar ali no meio, rindo com a Clara e jogando bola.
Letícia Laurentis assentiu, o semblante carregado de uma preocupação madura.
— Eu tentei conversar com ela hoje cedo, Anya. Mas o orgulho dela é uma muralha. Ela vê a Clara se soltando com os meninos e o Jace seguindo a vida dele com a Lelê, e isso corrói ela por dentro. Mas ela prefere morrer sufocada no próprio silêncio a dar o braço a torcer e pedir desculpas.
Derick mudou a postura na poltrona, cortando a complacência com a sua habitual lucidez corporativa. O olhar dele sobre a filha era firme, desprovido de pena.
— Deixem ela, Letícia. Anya, não se culpe — Derick disse, o tom definitivo. — A Rebekah procurou exatamente isso. Ela quis cavar o próprio abismo quando humilhou o Jace e achou que o mundo ia passar a mão na cabeça dela para sempre. Ela precisa sentir o peso da solidão para entender que as atitudes dela têm consequências no mundo real. O Jace deu o sangue por ela e recebeu ingratidão; agora, ele tem todo o direito de ser feliz bem longe da nossa filha. Ela que lide com o silêncio que escolheu.
O Ritmo da Praia
Na areia, a bola de vôlei caiu perto do guarda-sol de Rebekah após um corte mal calculado de Lucas.
— Opa! Minha culpa! — Lucas gritou da quadra improvisada. — Clara, pega aí para a gente?
Clara, que estava rindo de mais uma piada de Pedro sobre estrelas-do-mar, levantou-se correndo e pegou a bola. Antes de voltar, ela olhou para Rebekah, estendendo a mão livre.
— Vem jogar com a gente, Bekah! O Caio é horrível no saque, a gente precisa de ajuda — Clara chamou, os olhos brilhando, tentando puxar a amiga para o grupo.
Rebekah olhou de relance para a quadra. Jace e Lelê haviam acabado de sentar na areia, com Lelê limpando a testa de Jace com uma toalha enquanto ele ria de algo que Caio falara. Jace nem sequer olhou para o lado para ver se Rebekah aceitaria o convite. A presença dela ali era o equivalente a uma nota fantasma em uma partitura: existia, mas não mudava a música.
Rebekah engoliu o nó na garganta, ajeitou os óculos escuros para esconder os olhos que começavam a marejar e forçou um sorriso amarelo para a amiga.
— Não, Clarinha... vai lá. O sol está muito forte, eu prefiro ficar aqui lendo — Rebekah mentiu, a voz saindo um pouco travada.
— Tem certeza? — Clara insistiu, mas Pedro já a chamava de volta com um aceno espalhafatoso. — Tá bem, qualquer coisa vem!
Clara correu de volta para o grupo. Rebekah recostou a cabeça na cadeira de praia, sentindo o calor do sol de Angra queimar sua pele, mas por dentro, o frio da indiferença de Jace era a única coisa que ela conseguia sentir. O verão estava vibrante, cheio de música, beijos quentes e gargalhadas, mas para a princesa dos Laurentis, o preço de sua rebeldia estava sendo cobrado em parcelas bem dolorosas na areia da praia.
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