A Batida do coração 2
9 As Linhas Paralelas do Silêncio
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O tempo em Santa Bárbara não parou para consertar os corações quebrados. Os dias frios de outono arrastaram-se lentamente, transformando-se em meses, e o silêncio que se instalou entre Jace e Rebekah tornou-se a nova e dolorosa trilha sonora de suas vidas.
Após a tarde caótica na sala dos Telles, Rebekah Laurentis cumpriu à risca a ordem que recebera. Ela sumiu. Desapareceu por completo do estúdio de ensaios na casa da piscina, não pisou mais no jipe preto e deixou de frequentar as tardes de sol na praia de Angra. A vida da garota havia se resumido a um ciclo monótono e protegido: o trajeto blindado entre o Colégio Altas Bordas e as paredes silenciosas de sua própria casa.
A única ponte que ainda restava entre os dois mundos era o namoro de **Clara Santos** e **Pedro Lima**. A diferença de três anos entre eles, que antes parecia um abismo para a nova geração, havia se tornado irrelevante. Pedro estava genuinamente apaixonado pela timidez doce de Clara, e ela encontrava no tecladista um porto seguro. Pedro não ligava para convenções ou idades; para ele, a música do amor deles funcionava em um compasso perfeito. Mas nem mesmo a felicidade dos amigos conseguia aproximar os antigos "primos de alma".
Jace e Rebekah haviam se tornado especialistas na arte de habitar o mesmo espaço fingindo que o outro era feito de ar. No entanto, o destino adorava testar a resistência daquelas barreiras em pequenas, tensas e cotidianas situações.
### Situação 1: O Corredor dos Armários (Colégio Altas Bordas)
Era uma manhã chuvosa de terça-feira. O corredor principal do colégio estava lotado de alunos trocando livros entre as aulas. Jace, vestindo o casaco azul-marinho do uniforme, estava encostado no seu armário, guardando a apostila de história e conversando distradamente com Lucas sobre o setlist do próximo show da banda.
Do outro lado do corredor, a poucos metros de distância, o clique familiar de um par de coturnos pretos ecoou no piso de cerâmica. Rebekah vinha caminhando ao lado de Clara, segurando um caderno contra o peito. Seus olhos castanhos, por puro reflexo, ergueram-se e cruzaram diretamente com os de Jace.
O impacto visual foi imediato. Jace sentiu o maxilar travar; a lembrança das lágrimas dela e das palavras duras que ele dissera ainda arranhava sua mente. Rebekah empalideceu sutilmente, o ar falhando em seus pulmões ao ver o gelo no olhar do rapaz.
Em vez de manter o passo, Rebekah parou abruptamente. Ela olhou para Clara, forçando uma fisionomia de puro susto.
— Ai, Clara! Que cabeça a minha... — Rebekah disse, a voz deliberadamente alta para que o som cortasse o espaço entre ela e Jace. — Eu esqueci completamente que preciso pegar o livro de biologia que deixei na sala de artes do subsolo antes que o professor tranque a porta. Vai indo para a sala, eu te encontro lá!
Sem dar tempo para Clara responder, Rebekah deu meia-volta no calcanhar e caminhou apressada na direção oposta, os passos rápidos ecoando até sumirem na escadaria.
Lucas olhou de relance para o lado e depois para Jace, que apenas fechou a porta do armário com um estalo seco.
— Cara... ela desandou o ritmo feio quando te viu — Lucas comentou baixo.
— Deixa para lá, Lucas. Vamos para a aula de física — Jace respondeu, ajeitando a mochila no ombro e marchando pelo corredor, fingindo que a fuga dela não havia deixado um eco incômodo em seu peito.
### Situação 2: A Conveniência do Posto de Gasolina
Duas semanas depois, em uma tarde de sábado, Jace parou o jipe preto no posto de conveniência próximo à avenida principal para abastecer e comprar alguns energéticos para a noite de composição. Ele entrou na loja climatizada, o som do sino da porta anunciando sua chegada.
Ele caminhava pelos corredores de bebidas quando, ao dobrar o corredor dos salgadinhos, deu de cara com Letícia Laurentis. E bem ao lado da mãe, segurando uma cesta de doces, estava Rebekah.
O encontro foi tão próximo que Jace quase esbarrou na garota. Rebekah congelou, os dedos apertando a alça da cesta com tanta força que os nós de suas mãos ficaram brancos. Jace segurou a garrafa de energético com firmeza, sentindo o ambiente se tornar sufocante.
Tia Letícia olhou para os dois, o coração de mãe e médica partindo-se ao meio pela tensão palpável que dividia aqueles dois jovens que ela vira crescer juntos.
— Oi, Jace, meu querido — Letícia cumprimentou com carinho, tentando quebrar o gelo.
— Oi, Tia Letícia. Tudo bem? — Jace respondeu, forçando um tom de voz educado e maduro. Ele olhou de relance para Rebekah, mas seus olhos eram duas pedras de gelo. Não houve um "bom dia", não houve um aceno.
Rebekah sentiu o peito arder. A humilhação daquela tarde na sala dele voltou com força total. Ela não aguentou ficar ali, sob o julgamento daquele silêncio. Virou-se para a mãe com uma pressa quase desesperada.
— Mãe... eu esqueci que o meu pai pediu para eu olhar se tinha aquela marca específica de água tônica na seção dos fundos. Vou lá ver antes que a gente vá para o caixa — Rebekah inventou a desculpa com a voz trêmula, saindo de perto quase correndo, sumindo entre as gôndolas altas da loja.
Letícia soltou um suspiro pesado, olhando para Jace com um olhar cheio de compaixão. — Ela não está bem, Jace. O orgulho está cobrando um preço alto dela.
— Cada um colhe o que planta, Tia Letícia — Jace respondeu, com uma voz mansa, mas irredutível. — Tenham um bom final de semana.
Ele caminhou até o caixa, pagou pelas suas coisas e saiu, o motor do jipe roncando alto enquanto ele deixava o posto, tentando afogar o sentimento de que a vida deles havia se transformado em um labirinto de fugas.
### Situação 3: O Ensaio Interrompido na Casa da Piscina
O teste definitivo aconteceu em uma tarde de sexta-feira, na casa dos Drake. A banda estava reunida no estúdio da piscina para acertar os últimos detalhes de uma apresentação que fariam no festival de inverno da escola. Pedro estava sentado ao teclado, rindo de alguma coisa no celular, quando a porta do estúdio se abriu.
Clara Santos entrou, trazendo uma caixa de rosquinhas que havia comprado para os meninos. E, para a surpresa de Jace, Rebekah estava logo atrás. Ela viera apenas para acompanhar a amiga até a porta, mas ao ver Jace sentado atrás da bateria, com as baquetas nas mãos e o suor brilhando no pescoço, ela travou no primeiro degrau.
Jace, ao erguer os olhos e ver a silhueta dela ali, parou de batucar imediatamente. O clima descontraído do estúdio morreu no mesmo segundo. Caio e Lucas recolheram os instrumentos com os olhos arregalados, sentindo o peso do drama emocional no ar.
Desta vez, Jace não esperou que ela fugisse. Ele decidiu que ele mesmo ditaria o encerramento daquele compasso tortuoso. Ele largou as baquetas em cima da caixa da bateria, levantou-se do banco e pegou a sua garrafa de água.
— Galera, eu preciso dar uma pausa — Jace anunciou, a voz saindo firme, sem olhar na direção da porta. — Meu pai me pediu para ajudar a descarregar umas caixas de equipamento que chegaram na garagem da frente e eu esqueci completamente. Pedro, vai passando a introdução com a Clara. Eu já volto.
Jace caminhou em direção à saída. Ele passou por Rebekah no vão da porta com uma distância milimétrica, o ombro dele quase roçando o dela, mas sem dedicar a ela um único olhar ou uma única palavra. Ele saiu para o sol do quintal, respirando o ar puro com força, tentando expulsar o fantasma da proximidade dela de seus pulmões.
Dentro do estúdio, Rebekah ficou olhando para o banco vazio da bateria. Ela sentou-se no sofá ao lado de Clara, sentindo uma lágrima discreta e fria começar a se formar por trás de seus cílios. Os meses estavam passando, a escola estava terminando para Jace, e a distância entre eles só aumentava. Eles estavam se vendo constantemente, mas a cada encontro, a cada desculpa inventada e a cada fuga, ficava mais claro que a música que um dia os unira havia entrado em um silêncio definitivo, e nenhum dos dois sabia como voltar a tocar juntos.
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