A Batida do coração 2

7 Acordes Cruzados e a Frequência do Ciúme



​Os dias que se seguiram àquela tarde de febre trouxeram uma mudança radical na dinâmica dos Laurentis e dos Telles. Com o cessar-fogo assinado no quarto, Rebekah finalmente desceu de seu pedestal de isolamento. A casca de orgulho deu lugar a uma versão muito mais leve, solar e, para o desespero saudável de Jace, extremamente provocativa.

​Agora, Rebekah era presença confirmada na rotina dos veteranos. Ela ia aos ensaios da banda no estúdio da casa da piscina dos Drake, sentada no amplificador desligado, dividindo um pacote de salgadinhos com Clara enquanto observava os meninos tirarem os arranjos. No entanto, por trás das risadas e da descontração, os olhos castanhos de Rebekah travavam sempre que Jace parava de tocar para dar um selinho em Lelê ou quando a namorada limpava o suor do pescoço do baterista com uma toalha. O ciúme ardia por dentro, mas a garota do 9º ano aprendera a mascarar o sentimento com a sua melhor arma: a perturbação.

​Ela passara a infernizar a vida de Jace em todos os cenários possíveis. No Colégio Altas Bordas, ela passava pela mesa dele no refeitório e "esquecia" de propósito uma casca de banana na mochila dele. Na praia, jogava areia molhada nas costas dele enquanto ele tentava bronzear o peito. Em casa, trocava o açúcar do café dele por sal.

​Essa onipresença de Rebekah, contudo, começou a mudar de figura para Lelê. O que antes parecia apenas uma implicância de "irmãos de alma" passou a soar como uma disputa territorial sutil. E a corda, inevitavelmente, começou a esticar.

​O Ensaio e as Linhas de Tensão

​No estúdio, a banda terminava de passar o refrão de uma música nova. Jace ditava o ritmo com as baquetas, o suor fazendo a camisa preta colar no peito. Pedro, Caio e Lucas finalizaram o acorde juntos.

​— Cara, essa virada no final ficou animal, Jace — Lucas comentou, ajeitando a guitarra no suporte.

​Antes que Jace pudesse responder, Rebekah, que assistia a tudo do topo do amplificador de baixo, soltou uma risada nasalada, balançando as pernas calçadas com seus coturnos.

​— Ficou legal, Lucas, mas acho que o Jace errou o tempo no terceiro compasso. Sabe como é, né? A idade vai chegando no terceiro ano, a coordenação motora já não é a mesma de um jovem do nono ano — ela provocou, piscando para Clara, que tentou disfarçar o riso.

​Jace girou uma das baquetas no ar e apontou na direção de Rebekah, fingindo irritação.

— Laurentis, por que você não vai caçar o que fazer? Quem entende de tempo aqui sou eu. Você mal sabe tocar triângulo.

​Nesse momento, Lelê, que estava sentada no sofá do estúdio lendo uma revista, fechou o exemplar com um estalo ruidoso. Ela se levantou, caminhou até Jace e passou os braços pelo pescoço dele, forçando um sorriso excessivamente doce enquanto olhava de relance para Rebekah.

​— Não liga para ela, amor. Você toca perfeitamente bem. E quem precisa entender do seu ritmo sou eu, não é? — Lelê disse, colando os lábios nos de Jace em um beijo estalado e possessivo.

​Rebekah engoliu em seco, o sorriso sumindo por um milésimo de segundo. Ela desceu do amplificador de um pulo, ajeitando a jaqueta.

— Bom, o nível de glicose no estúdio subiu demais para o meu gosto. Vamos, Clara? Preciso de ar puro.

​Assim que as duas saíram, Lelê soltou os braços do pescoço de Jace. O sorriso doce sumiu instantaneamente, substituído por um olhar sério.

— Jace, eu não aguento mais essa garota em cima de você o tempo todo. Tudo é motivo para ela te provocar, para chamar a tua atenção. Isso já passou dos limites.

​— Ih, o tempo fechou. Vamos embora, galera — Caio cochichou para Lucas e Pedro, e os três saíram de fininho do estúdio com seus instrumentos, deixando o casal sozinho.

​— Lelê, é só a Rebekah sendo a Rebekah — Jace suspirou, guardando as baquetas na capa. — Ela é uma pentelha, mas a gente fez as pazes. É o jeito dela de interagir.

​— O jeito dela de interagir é marcar território no meu namorado, Jace! E o pior é que você não vê, ou finge que não vê — Lelê rebateu, de braços cruzados, a voz trêmula de um ciúme que vinha se acumulando há dias.

​A Explosão dos Três Meses

​A panela de pressão finalmente estourou na tarde de sexta-feira. Jace havia acabado de estacionar o jipe no pátio do colégio após o término das aulas. Ele estava cansado, a cabeça cheia com o simulado de matemática que faria no dia seguinte, quando viu Lelê caminhar em sua direção. Ela não usava o semblante leve de sempre; segurava uma sacola de presentes pequena e tinha os olhos marejados de pura mágoa.

​— Oi, Lelê — Jace sorriu, aproximando-se para beijá-la.

​Ela desviou o rosto, deixando o beijo pegar na bochecha.

— Oi, Jace. Eu passei a tarde inteira esperando você me mandar pelo menos uma mensagem. Mas acho que você estava ocupado demais rindo da piada que a Rebekah fez no corredor antes do terceiro tempo, não é?

​Jace franziu o cenho, confuso. — Do que você tá falando, amor? Que mensagem?

​Lelê soltou uma risada amarga, as lágrimas finalmente transbordando e borrando o rímel leve. Ela estendeu a sacola de presentes na direção dele com força.

​— Hoje é dia 16, Jace! Três meses de namoro! Eu passei a semana inteira preparando essa caixa com as fotos dos nossos shows, comprei aquela palheta de prata que você queria... e você simplesmente esqueceu! Você não lembrou!

​O estômago de Jace despencou até o chão. O sangue sumiu do seu rosto. Ele olhou para a sacola e depois para o painel do jipe, onde o relógio digital confirmava a data. Ele havia esquecido completamente. A pressão da faculdade, os ensaios e, sim, as distrações causadas pelas provocações constantes de Rebekah haviam feito a data passar batida por sua mente.

​— Lelê... meu Deus, me desculpa — Jace deu um passo à frente, tentando segurar as mãos dela, mas ela deu um passo para trás, limpando o rosto com raiva.

​— Não, Jace! Chega! Eu cansei de ser a segunda opção na sua cabeça — Lelê desabafou, a voz embargada pelo drama emocional. — Eu sinto que estou namorando você, mas a sua atenção, a sua energia, a sua irritação e o seu riso estão sempre focados na Rebekah! Se você quer ficar com uma menina mimada de quatorze anos que não sabe o que quer da vida, fica com ela! Mas não me faz de palhaça!

​A Reversão no Limite do Compasso

​Jace viu o abismo bem na sua frente. Ele sabia que, se deixasse Lelê entrar no carro das amigas e ir embora naquele estado, o namoro estaria acabado. Ele respirou fundo, ativando aquele mesmo foco rápido que usava quando uma corda do baixo quebrava no meio de um show e ele precisava improvisar na bateria para preencher o vazio.

​Ele deu um passo firme, ignorando a resistência dela, e segurou Lelê pela cintura com as duas mãos, colando o corpo dela ao seu.

​— Letícia Miller, olha para mim — Jace ordenou, a voz grave, firme e cheia de uma urgência sincera que fez a garota parar de tentar se soltar. — Olha nos meus olhos.

​Lelê o encarou, o peito subindo e descendo pelos soluços.

​— Eu fui um idiota completo por ter deixado a data passar em branco, e não tenho desculpa para isso. O simulado de amanhã fritou os meus neurônios, mas isso não justifica — Jace começou, olhando fixamente nos olhos dela, derretendo qualquer barreira com a sua honestidade. — Mas nunca mais repita que você é a segunda opção. A Rebekah é uma pirralha que eu conheço desde que ela usava fraldas. Ela me irrita porque é o único jeito que ela conhece de pedir atenção depois que todo mundo brigou com ela. Mas você... você é a garota que eu escolhi. É você que eu puxo pro colo no refeitório, é você que eu beijo na praia, e é com você que eu quero estar.

​Ele puxou a sacola das mãos dela com cuidado, deixando-a no capô do jipe. Em seguida, enfiou a mão no bolso do blazer do uniforme e retirou dali um pequeno objeto de metal que estava guardando para o final de semana: uma correntinha de prata com um pingente em formato de uma pequena nota musical.

​— Eu ia te dar isso amanhã, na praia — Jace mentiu sutilmente para salvar a própria pele, mas o presente era real, ele o comprara dias atrás. — Para comemorar os nossos três meses. Eu posso ter esquecido de falar hoje cedo, Lelê, mas eu não esqueci de você. Nem por um segundo.

​Lelê olhou para o colar na mão dele, depois para a expressão desesperada e sincera de Jace. A mágoa nos olhos dela começou a ceder, substituída pelo alívio. Ela soltou um suspiro longo, batendo de leve no peito dele com o punho.

​— Você é um canalha retórico, Telles... sabia? — ela murmurou, a voz ainda chorosa, mas já amolecida.

​— Eu sou um namorado que te ama e que estava prestes a ter um infarto aqui no estacionamento — Jace sorriu de canto, aliviado, puxando-a para um abraço apertado e afundando o rosto nos cabelos dela. Eles se selaram em um beijo calmo, reconciliador, que colocou o ritmo do namoro de volta nos eixos.

​O Alerta no Retrovisor

​Minutos depois, com a poeira assentada, Lelê entrou no jipe sorrindo, já usando o colar de prata no pescoço. Jace deu a partida no motor, suspirando de alívio por ter conseguido reverter a situação no último segundo.

​No entanto, ao engatar a marcha e olhar pelo espelho retrovisor lateral para manobrar para fora do estacionamento, Jace travou o olhar.

​Afastada perto da árvore do pátio, Rebekah estava parada ao lado de Clara. Ela havia assistido a toda a cena: a briga, o choro de Lelê, o desespero de Jace e, finalmente, a reconciliação calorosa com o presente. O rosto de Rebekah não tinha mais nenhuma das expressões divertidas ou provocativas que ela usara ao longo da semana. Ela parecia pequena, com os braços cruzados apertados contra o corpo, o olhar fixo no jipe com uma melancolia profunda e silenciosa. Ela vira o tamanho do esforço que Jace fizera para não perder Lelê.

​Jace engoliu em seco, desviando o olhar para o para-brisa e acelerando o carro em direção à avenida. Enquanto o jipe se afastava, o baterista sentiu um arrepio na espinha. Ele havia conseguido salvar o seu namoro e colocar ordem no seu compasso atual, mas a imagem de Rebekah no retrovisor deixou um aviso silencioso em sua mente: ele estava oficialmente ferrado. O jogo de gato e rato daquela nova geração estava saindo do controle, e a linha entre a provocação infantil e o drama dos sentimentos reais estava prestes a se romper sob o céu de Santa Bárbara.