A Batida do coração 2
8 A Linha Tênue do Controle e a Queda das Máscaras
A tarde de sábado caía silenciosa sobre a casa dos Telles. No andar de cima, o estúdio de ensaio estava vazio, mas na sala de estar do térreo, o único som que preenchia o ambiente era o ronco dos motores virtuais e o clique frenético dos botões. Jace estava jogado no centro do tapete, com as costas escoradas no sofá, completamente concentrado em uma corrida de videogame na televisão. Ele usava apenas uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta de mangas curtas, com a faixa de sua última fratura há muito esquecida, deixando expostos os braços definidos pelos anos de bateria.
A porta da frente se abriu sem cerimônia, e os passos leves de Rebekah Laurentis ecoaram pelo piso de madeira. Ela vestia um short jeans desfiado e uma camiseta larga de uma banda antiga de seu pai, com os cabelos escuros presos em um coque frouxo e alguns fios caindo pelo pescoço pálido.
— Sabe, o Caio me disse que comprou um pedal novo e que vocês vão testar na segunda... — Rebekah começou a falar, a voz jogada no ar enquanto caminhava até o centro da sala. Ela começou a discorrer sobre coisas completamente aleatórias: o calor que fazia na avenida principal, uma música que ouvira no rádio e como o cachorro de Clara havia fugido na véspera.
Jace nem desviou os olhos da tela. — Legal, Laurentis. Mas agora não dá, estou na última volta.
— Deixa eu jogar? — ela pediu, parando bem ao lado dele, olhando para o controle de forma insistente.
— Daqui a pouco. Espera eu terminar essa corrida e te dou o segundo controle.
Rebekah, no entanto, não tinha a paciência como virtude. Em vez de esperar, ela tomou uma atitude que congelou os reflexos do baterista em um milésimo de segundo. Com uma ousadia que misturava a inocência da idade com uma intenção que ela mal conseguia conter, Rebekah deu um passo à frente e se acomodou no vão das pernas dele. Ela sentou-se diretamente no tapete, com as costas apoiadas contra o peito de Jace, e ergueu as mãos, cobrindo as mãos dele que seguravam o controle do videogame.
— Não precisa de outro controle. Eu jogo no seu — ela murmurou, a voz sutilmente mais baixa, fingindo concentração na tela enquanto seus dedos pequenos pressionavam os botões por cima dos dele.
O carro virtual bateu direto no muro da pista de corrida, mas Jace sequer notou. O corpo do rapaz tencionou imediatamente. A proximidade física foi um choque térmico; ele conseguia sentir o calor das costas de Rebekah contra o seu peito, o perfume doce de baunilha que vinha do cabelo dela invadindo seus sentidos e a pressão sutil de seu corpo pequeno encaixado perfeitamente entre suas pernas. O ar na sala pareceu subitamente denso, difícil de inspirar.
— Rebekah... sai daí. Tá ficando maluca? — Jace pediu, a voz saindo mais rouca do que o normal, sua respiração batendo de leve no topo da cabeça dela.
Em vez de se afastar, Rebekah parou de mexer no controle. O videogame continuou rodando ao fundo, mas a sala havia entrado em um universo paralelo. Devagar, com uma lentidão torturante, ela virou o rosto para trás.
A distância sumiu. O rosto de Rebekah ficou a escassos centímetros do dele. Jace conseguia ver as pequenas sardas no nariz dela, a intensidade trêmula em seus olhos castanhos e, principalmente, a boca dela, entreaberta, tão próxima que ele conseguia sentir o calor da respiração dela contra os seus próprios lábios. O ar faltou para ambos. Jace ficou estático, hipnotizado pelo magnetismo perigoso daquele momento, sentindo o coração bater como um bumbo acelerado no peito. O tempo parou. Os lábios deles quase se colaram, a inclinação exata para o primeiro beijo acontecendo...
— Mas que porra é essa?! — a voz de Lelê cortou a sala como um chicote elétrico.
A Ruptura do Acordo
O feitiço quebrou instantaneamente. Jace empurrou o controle para o lado e Rebekah se levantou do meio das pernas dele em um pulo, o rosto corando de uma vez só.
Lelê estava parada no arco da porta que dava para o corredor, com as mãos trêmulas segurando uma sacola e os olhos arregalados de choque, ódio e uma humilhação profunda. Ela vira tudo. Vira a intimidade, a proximidade e o quase beijo.
— Lelê! Não é o que você tá pensando... — Jace levantou-se do chão em um salto, dando dois passos rápidos na direção da namorada, com as mãos estendidas.
— Não o que eu estou pensando, Jace?! — Lelê gritou, as lágrimas de raiva transbordando pelos olhos. — Eu vi! Ela estava no seu colo! Vocês estavam quase se beijando no meio da sala! Eu passei a semana inteira tentando acreditar nas suas desculpas, tentando achar que eu estava louca e que era coisa da minha cabeça, mas você me traiu com a garota que você disse que era uma pirralha!
— Lelê, foi culpa minha! O Jace não fez nada, eu que... — Rebekah tentou intervir, dando um passo à frente, a voz trêmula de pavor pelo estrago que causara.
— Cala a boca, sua garota insuportável! — Lelê berrou na direção de Rebekah, apontando o dedo com uma fúria legítima. — Você passou semanas cercando o meu namorado, infernizando a nossa vida, e você conseguiu! Parabéns!
Lelê voltou o olhar para Jace, um olhar cheio de desprezo e desgosto que cortou o baterista por dentro.
— Acabou, Jace. Não me procura mais. Fica com a sua irmã de alma, fica com quem você quiser, mas me esquece para sempre!
Ela jogou a sacola que carregava no chão com força, virou as costas e saiu correndo pela porta da frente, batendo-a com uma violência que fez os vidros da janela tremerem.
A Declaração e o Gelo da Realidade
O silêncio que se instalou na sala era cortante. O barulho do videogame na televisão parecia uma piada de mau gosto. Jace ficou parado no meio do cômodo, olhando para a porta fechada, com os punhos cerrados e a respiração pesada de uma fúria que começou a se voltar inteiramente para dentro de casa.
Rebekah deu um passo tímido na direção dele, esticando a mão direita, com os olhos cheios de lágrimas de arrependimento.
— Jace... me desculpa. Eu não queria que ela... eu posso falar com ela, posso explicar que eu que sentei ali e...
Jace virou-se para ela de forma abrupta. Seu semblante não tinha a calma da febre ou a brincadeira do ensaio. Era o mesmo olhar gélido e destrutivo da noite de Angra dos Reis.
— Explicar o quê, Rebekah? — Jace sibilou, a voz saindo baixa, mas carregada de um veneno frio que fez a garota recuar um passo. — O que você vai explicar para ela? Que você é uma egoísta que não consegue ver ninguém feliz? O que você quer de mim, porra?! Por que você não me deixa em paz?!
Rebekah engoliu o choro, o peito subindo e descendo. O limite de suas mentiras e de suas provocações havia chegado ao fim. Ela olhou fixamente nos olhos dele, deixando que toda a verdade que ela guardara e que a fizera queimar em febre semanas atrás jorrasse de sua boca.
— Eu quero você, Jace! — ela gritou, as lágrimas correndo livremente pelo rosto pálido. — Eu quero a sua atenção! Eu não aguento mais ver você beijando outra garota, não aguento mais ver você seguindo a sua vida como se eu não existisse! Eu me apaixonei por você, seu idiota! Desde o dia em que você me tirou daquela festa, eu só consigo pensar em você! É isso que eu quero!
Jace escutou as palavras dela. O mundo poderia ter desabado naquele momento, mas a reação do rapaz de dezessete anos não foi o acolhimento, a surpresa ou o carinho.
Jace soltou uma risada curta, seca e cruel. Um riso de puro escárnio que ecoou pela sala como um acorde totalmente desafinado. Ele balançou a cabeça negativamente, olhando para ela de cima, desprovido de qualquer pingo de romance ou compaixão.
— Você se apaixonou por mim? — Jace repetiu, o tom de voz destilando um desprezo profundo. — Rebekah, olha para você. Você é uma criança. Uma menina de quatorze anos que confunde um instinto de proteção familiar com uma historinha de amor de livro barato. Você acabou de destruir o meu namoro com a garota que eu gostava por causa de um capricho infantil!
— Não é capricho, Jace! Eu sinto de verdade... — ela soluçou, tentando dar um passo à frente, mas o olhar dele a barrou como uma parede de concreto.
— Eu jamais teria algo com você, Rebekah — Jace disparou as palavras com uma precisão cirúrgica, quebrando a última linha de dignidade que restava na garota. — Você é imatura, egoísta e só traz caos por onde passa. Eu não sinto absolutamente nada por você além da obrigação de não deixar a filha do amigo do meu pai se dar mal na rua. O que aconteceu aqui foi um erro ridículo que você causou.
Ele caminhou até a porta lateral que dava para o quintal e a abriu, apontando para fora sem olhar na cara dela.
— Sai da minha casa, Rebekah. Sai da minha frente e some da minha vida de verdade agora. Eu não quero olhar para a tua cara nunca mais.
Rebekah Laurentis olhou para Jace uma última vez. O garoto que ela amava em segredo a encarava com um gelo que nenhuma febre seria capaz de derreter. Ela cobriu a boca com as mãos para abafar o choro convulsivo, virou as costas e correu em direção à saída, cruzando o portão da propriedade sob o peso da humilhação mais profunda de sua vida.
Jace bateu a porta, jogou-se de volta no sofá e cobriu o rosto com as duas mãos, sentindo o silêncio da sala de Santa Bárbara esmagar o resto de paz que ele tentara construir. O compasso daquela geração havia entrado, definitivamente, em sua fase mais sombria e destrutiva.
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