A Batida do coração 2

6 O Som do Silêncio e a Trégua da Febre



​A noite em Angra dos Reis havia silenciado quase todo o casarão. O som constante das ondas quebrando na praia vinha de fora, misturando-se à brisa fresca que entrava pelas frestas das janelas. Rebekah não conseguia dormir. O peito dela parecia carregar um peso físico, uma mistura de isolamento e o eco das gargalhadas do dia que haviam ficado na areia.

​Com sede, ela se levantou da cama e abriu a porta do quarto devagar, caminhando descalça pelo corredor de madeira escura em direção às escadas. No entanto, ao passar em frente à porta do quarto de hóspedes — onde Jace e Lelê estavam hospedados —, Rebekah travou o passo instantaneamente.

​O corredor estava na penumbra, mas o som vindo de trás daquela madeira era nítido. Rebekah escutou os gemidos abafados, sutilmente sufocados contra o travesseiro, o som ritmado e abafado dos corpos se chocando com intensidade na cama e o sussurro sôfrego de Jace dizendo o nome de Lelê. A realidade a atingiu como um soco no estômago. Eles estavam transando. Jace pertencia completamente a outra pessoa, vivendo uma intimidade adulta e real, enquanto ela continuava presa na sua redoma infantil de pirraça e orgulho.

​Uma onda de raiva cega, misturada a um sentimento corrosivo que ela não sabia explicar, subiu pela sua garganta. Rebekah deu meia-volta abruptamente, pisando firme de volta para o seu quarto. Ela bateu a porta sem se importar se alguém ouviria, jogou-se de bruços na cama e afundou o rosto no travesseiro, deixando que o ódio e as lágrimas de frustração queimassem sua pele até a madrugada.

​O Alerta na Arquibancada

​Na segunda-feira, a rotina do Colégio Altas Bordas havia retomado o seu curso. O sol da tarde batia nas arquibancadas de cimento do campo de futebol, onde Jace, Caio e Lucas assistiam ao treino do time da escola após o término das aulas. Jace usava o casaco do uniforme largado nos ombros e conversava distraidamente com Lucas sobre o arranjo da nova música.

​O som de passos rápidos chamou a atenção do grupo. Clara Santos — que agora namorava oficialmente Pedro Lima após o fim de semana cheio de piadas e aproximações na praia — subiu os degraus da arquibancada com a mochila nas costas. Ela se aproximou e deu um selinho rápido em Pedro, que abriu um sorriso gigante. No entanto, o semblante de Clara mudou logo em seguida para uma expressão preocupada.

​— Oi, meninos — Clara cumprimentou, ajeitando a alça da mochila. Ela olhou diretamente para Pedro e depois, de relance, para Jace. — Pedro, eu acabei de falar com a Tia Letícia pelo telefone. A Rebekah não veio hoje porque está muito mal.

​Pedro franziu o cenho. — Mal como, Clarinha? No domingo ela já estava meio quieta.

​— A mãe dela disse que ela acordou queimando em febre, delirando um pouco e não conseguia nem levantar da cama de tanta fraqueza — Clara explicou, soltando um suspiro. — Acho que o estresse dessas últimas semanas e aquele sol todo na praia acabaram com a imunidade dela.

​Jace continuou olhando para o campo de futebol, mantendo a postura indiferente. Ele rodou uma baqueta entre os dedos da mão esquerda, fingindo que a notícia não o afetava. Mas, por dentro, a menção à febre de Rebekah fez o ritmo do seu coração falhar por um milésimo de segundo. A promessa de não se meter na vida dela pesava, mas a ligação de sangue e alma entre as suas famílias era forte demais para ser ignorada no momento da doença.

​A Visita e as Mãos em Rendição

​Após o término do treino, Jace não foi direto para casa. O jipe preto cortou as ruas de Santa Bárbara até parar em frente à residência dos Laurentis. Ele desceu, caminhou até a porta e tocou a campainha. Quem abriu foi Letícia, que usava seu jaleco médico e trazia uma fisionomia cansada de mãe preocupada.

​— Jace? Entre, meu querido — Letícia deu passagem, esboçando um sorriso fraco.

​— Oi, Tia Letícia. A Clara comentou na escola que a Rebekah estava mal. Eu... eu só vim saber como ela está — Jace explicou, deixando a mochila no sofá da sala. Derick apareceu no arco da cozinha, com os braços cruzados, acenando para Jace com um respeito silencioso.

​— Ela está com uma febre emocional muito alta, Jace. O termômetro bateu trinta e nove graus hoje cedo — Letícia explicou, limpando uma lágrima discreta. — Já dei o antitérmico, mas ela se recusa a comer. O orgulho está consumindo ela por dentro. Se você quiser subir e ver se ela precisa de algo, pode ir. O quarto está aberto.

​Jace assentiu, subindo os degraus de madeira com passos calmos. O corredor que há duas semanas fora palco de uma briga destrutiva agora estava imerso em um silêncio pesado. Ele parou diante da porta entreaberta do quarto de Rebekah e bateu de leve com os nós dos dedos.

​— Entra, mãe... — a voz de Rebekah saiu fraca, rouca, quase um sussurro desprovido de qualquer energia.

​Jace empurrou a porta e entrou. O quarto estava na penumbra, com as cortinas semi-fechadas. Rebekah estava encolhida sob um edredom pesado, com os cabelos escuros espalhados pelo travesseiro e o rosto excessivamente pálido, contrastando com as bochechas avermelhadas pela febre.

​Ao erguer os olhos e ver Jace parado ali, vestindo o uniforme da escola, ela tencionou o corpo imediatamente, tentando se cobrir mais, como se quisesse resgatar sua armadura de orgulho.

​— O que você tá fazendo aqui? — ela tentou soar ríspida, mas a voz falhou, resultando em uma tosse seca. — Veio tripudiar? Ver que eu mijei no compasso de novo?

​Jace não rebateu. Com uma calma madura, ele deu dois passos para dentro do quarto e, com um meio sorriso calmo, ergueu as duas mãos abertas na altura dos ombros, em um claro gesto de paz e rendição.

​— Calma, Laurentis. Eu vim em missão de paz — Jace disse, a voz mansa, descendo as mãos e puxando a cadeira da escrivaninha para se sentar a uma distância segura da cama. — Ninguém veio tripudiar. A Clara me contou na escola que você estava queimando em febre e eu vim ver se a teimosa da minha irmã de alma precisava de uma trégua.

​Rebekah piscou, os olhos castanhos brilhando devido à febre, desarmada pela falta de agressividade no tom dele. Ela soltou o ar devagar, relaxando os ombros contra o travesseiro.

​— Eu não preciso de trégua... o meu corpo só resolveu parar de funcionar — ela murmurou, olhando para o teto. — Eu ouvi... eu ouvi você e a Letícia no quarto, na noite de sábado.

​Jace sentiu as bochechas esquentarem de leve, mas manteve a postura firme. Ele olhou para as próprias mãos, onde a cicatriz do soco na parede de Angra ainda estava marcada na pele.

​— A Lelê é minha namorada, Rebekah. Eu estou seguindo a minha vida, assim como meu pai me aconselhou — Jace explicou, olhando para ela com uma seriedade compreensiva. — E você deveria fazer o mesmo com a sua. Essa raiva toda que você guarda... esse ódio que você diz que tem de mim, só está fazendo mal para você mesma. Olha o seu estado.

​Rebekah virou o rosto para o lado oposto, uma lágrima solitária e quente correndo por sua bochecha e sumindo no lençol. A casca de orgulho finalmente havia derretido sob o calor da febre e da solidão.

​— Eu não odeio você, Jace... — ela confessou bem baixinho, a voz trêmula de quem não aguentava mais carregar o peso do isolamento. — Eu só... eu senti tanta raiva porque todo mundo se afastou. A Clara tá com o Pedro, você tá com a Letícia, meus pais estão decepcionados comigo... e eu fiquei presa naquele canto da praia, parecendo um fantasma. Eu agi mal em Angra, eu sei. Eu sou uma idiota mimada, exatamente como você falou.

​Jace ouviu o desabafo em silêncio. Ele levantou-se da cadeira, deu os passos que faltavam e sentou-se na beira do colchão. Com cuidado, ele estendeu a mão esquerda e pousou as costas dos dedos na testa de Rebekah, checando a temperatura. Estava quente, mas parecia estar cedendo.

​— Você é uma idiota teimosa, isso sim — Jace corrigiu com um tom de voz terno, dando um leve peteleco na ponta do nariz dela, fazendo-a olhar de volta para ele. — Mas você não está sozinha. O Tio Derick e a Tia Letícia te amam, a Clara é sua melhor amiga e eu... bem, eu prometi que ia deixar você viver as suas escolhas, mas eu nunca vou deixar você afundar de verdade. A gente é família, Rebekah. O compasso pode quebrar, mas a música não para.

​Rebekah esboçou o primeiro sorriso sincero em semanas, um sorriso fraco, mas cheio de alívio. Ela puxou o edredom até o queixo.

​— Você promete que não vai mais sumir com o jipe daquele jeito? — ela perguntou, os olhos pesados pelo cansaço da doença.

​— Só se você prometer que não vai mais morder o meu braço ou mentir para o Tio Derick — Jace brincou, levantando-se da cama e ajeitando a coberta sobre os ombros dela. — Agora descansa. Toma a sopa que a Tia Letícia fizer e melhora logo. O nono ano precisa da sua líder de volta, e a nossa família precisa de paz.

​— Obrigada, Jace... — ela sussurrou, fechando os olhos enquanto o sono finalmente a vencia.

​Jace caminhou até a porta, apagou a luz do quarto e saiu, deixando a garota descansar. Ao descer as escadas, ele trocou um olhar cúmplice e aliviado com Derick e Letícia. A febre de Rebekah havia trazido a tempestade para o fim; o acordo de gelo havia sido quebrado, e embora cada um continuasse seguindo suas próprias trilhas, o compasso daquela nova geração havia encontrado, finalmente, uma primeira nota de reconciliação em Santa Bárbara.