A Batida do coração 2

13 O Brilho da Valsa e o Congelamento do Tempo



A noite dos quinze anos de Rebekah Laurentis transformou o salão principal do *Clube de Golfe de Santa Bárbara* em um cenário de conto de fadas moderno. Luzes quentes de LED misturavam-se a arranjos imensos de flores brancas e detalhes em prata. Convidados vestindo trajes de gala preenchiam o espaço, e a mesa de doces parecia uma obra de arte. Derick e Letícia Laurentis desfilavam pelo salão com sorrisos radiantes, recebendo os cumprimentos dos amigos e parceiros de negócios. Entre os presentes, Gustavo e Anya Telles também caminhavam elegantes, embora o semblante de ambos carregasse uma sombra de preocupação pelo que havia ficado em casa.

A quilômetros dali, no isolamento do seu quarto escuro, Jace Telles Drake vivia o avesso daquela festa. O silêncio das paredes era quebrado apenas pelo som abafado que saía da tela do seu celular. Ele estava jogado na cama, com o corpo ainda dolorido e marcado pela briga de dias atrás: o supercílio exibia um corte costurado, o lábio ainda estava sutilmente inchado e manchas arroroxeadas decoravam sua mandíbula.

Jace não fora convidado, e mesmo que fosse, não teria forças para encarar aquela fita métrica de julgamentos. Mas ele não conseguia desligar a tela. Ele assistia a tudo através da transmissão ao vivo que Clara Santos fazia em sua rede social, posicionada estrategicamente perto da pista de dança.

Na tela do celular, o anúncio do cerimonialista ecoou. Rebekah surgiu no topo da escadaria. Ela estava deslumbrante, usando um vestido de debutante clássico, num tom de azul-serenidade que parecia flutuar a cada passo, os cabelos escuros presos em um arranjo delicado com fios soltos moldando seu rosto pálido. Ela sorria, mas era um sorriso maduro, desprovido daquela arrogância de antes.

Logo em seguida, a câmera de Clara girou e focou em Caio Souza. O baixista vestia um terno preto perfeitamente alinhado, os cabelos arrumados e a postura firme de um verdadeiro príncipe. Quando a música da valsa começou a ecoar pelo salão, Caio caminhou até o centro da pista, curvando-se levemente antes de estender a mão para Rebekah.

Jace apertou o celular com tanta força que os nós dos seus dedos doeram. Pela tela, ele assistiu à dança. Viu a precisão dos passos de Caio, a leveza com que ele girava Rebekah pelo salão, mas o que mais machucou o baterista foi o olhar. Caio olhava para Rebekah com uma admiração profunda, um brilho de puro afeto e proteção que não deixava dúvidas sobre os seus sentimentos. E Rebekah correspondia, mantendo os olhos fixos nos dele, rindo de alguma coisa que o rapaz sussurrava entre um compasso e outro. Jace engoliu em seco, sentindo um nó amargo apertar sua garganta enquanto o sangue latejava em seu supercílio machucado.

### A Promessa na Varanda

Mais tarde, após o protocolo da valsa e o corte do bolo, o ritmo da festa mudou para as batidas eletrônicas do DJ. Sentindo-se sutilmente sufocada pela agitação, Rebekah escapou do salão principal e caminhou até a varanda privativa do segundo andar, que dava vista para os imensos campos de golfe iluminados pela lua. Ela apoiou as mãos no parapeito de mármore, olhando para baixo, deixando que o vento fresco da noite batesse em seu rosto e aliviasse o calor do vestido.

O som suave de passos na cerâmica chamou sua atenção. Ela virou o rosto de leve e viu Caio se aproximando. Ele havia afrouxado sutilmente a gravata e trazia um sorriso calmo no rosto, segurando dois copos de coquetel de frutas sem álcool.

— Sabia que a aniversariante não pode fugir do próprio baile? O Tio Derick já está procurando a princesa dele para apresentar aos sócios — Caio brincou, estendendo um dos copos para ela.

Rebekah soltou uma risada fraca, pegando o copo e voltando a olhar para o horizonte.

— Só precisava de cinco minutos de silêncio, Caio. É muita informação para uma noite só.

Caio parou ao lado dela, apoiando as costas no parapeito para poder olhar diretamente para o perfil do rosto dela. O brilho da lua refletia nos detalhes prateados do vestido de Rebekah, deixando-a ainda mais imponente.

— Você está linda, Bekah — Caio disse, a voz descendo para um tom suave, desprovido de qualquer brincadeira. Era uma sinceridade que fez o coração da garota falhar uma batida. — De verdade. Eu já vi muitas festas em Santa Bárbara, mas nenhuma debutante brilhou tanto quanto você hoje. E não é por causa do vestido ou das luzes. É por causa de quem você se tornou esses meses.

Rebekah virou o rosto para encará-lo, tocada pelas palavras.

— Eu só consegui passar por tudo isso porque você estava do meu lado, Caio. Se não fosse por você, eu ainda estaria trancada naquele quarto com febre.

Caio deixou o seu copo de lado no parapeito e deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Ele segurou a mão direita de Rebekah com delicadeza, sentindo os dedos dela trêmulos. Os olhos do rapaz de dezessete anos fixaram-se nos dela com uma intensidade madura.

— Eu estive do seu lado porque eu quis, Bekah. Porque desde o primeiro dia de ensaio na sala do Jace, quando eu segurei a sua cintura pela primeira vez, eu entendi que o meu ritmo não funcionava mais sem o seu — Caio se declarou, a voz mansa e firme. — Eu me apaixonei por você, Rebekah Laurentis. Pela garota teimosa, pela garota que chora, pela garota que sorri comigo na sorveteria. E eu não quero ser só o seu príncipe de uma noite.

Rebekah arregalou os olhos sutilmente, o peito subindo e descendo com rapidez, as lágrimas de felicidade ameaçando surgir.

— Caio... — ela sussurrou.

— Rebekah, você aceita namorar comigo? De verdade, sem esconder de ninguém, deixando eu cuidar de você todos os dias? — ele pediu, o olhar cheio de expectativa.

Rebekah não precisou pensar. A leveza, o carinho e o respeito que Caio dera a ela nas últimas semanas haviam curado as feridas que o orgulho de Jace abrira. Ela abriu um sorriso radiante, o maior daquela noite.

— Sim, Caio! É claro que eu aceito — ela respondeu.

Caio sorriu, o alívio lavando seu rosto. Ele aproximou-se, colocou a mão esquerda na nuca de Rebekah e inclinou-se, selando os lábios deles em um beijo calmo, profundo e apaixonado na varanda do salão. Era o primeiro beijo deles, um pacto de amor que encerrava definitivamente o passado de dor da garota.

### O Congelamento do Mundo

Dentro do salão, Clara Santos continuava transmitindo ao vivo para os poucos amigos que acompanhavam de longe. Ela viu quando Caio e Rebekah voltaram da varanda de mãos dadas, os rostos radiantes e alinhados.

Caio caminhou com passos firmes em direção ao palco onde o DJ operava. Ele fez um sinal para o profissional, que diminuiu o volume da música eletrônica sutilmente. Caio pegou o microfone com fio do pedestal, chamando a atenção de todos os convidados no salão. Derick e Letícia pararam de conversar, olhando para o palco com surpresa.

— Boa noite a todos! Desculpa interromper a pista de dança — Caio começou, a voz ecoando potente e firme pelas caixas de som do clube. Ele olhou diretamente para Rebekah, que estava parada perto da pista com as bochechas coradas. — Eu só queria fazer um anúncio rápido. A nossa linda aniversariante, a Rebekah... ela acabou de aceitar o meu pedido. Nós estamos namorando oficialmente a partir de hoje!

O salão explodiu em uma salva de palmas, gritos dos adolescentes e assobios. Derick Laurentis ergueu as sobrancelhas, surpreso, mas trocou um olhar cúmplice com Guga Telles na mesa ao lado e começou a aplaudir, aprovando o caráter do rapaz que salvara a alegria de sua filha.

No quarto escuro em Santa Bárbara, o som do microfone saiu limpo pelos alto-falantes do celular de Jace.

*"Nós estamos namorando oficialmente a partir de hoje!"*

A frase de Caio ecoou nas paredes do quarto como um trovão. Na tela, Jace viu a imagem focar em Rebekah correndo para os braços de Caio, os dois se abraçando no meio da pista sob os aplausos de seus próprios pais, Gustavo e Anya.

O mundo de Jace Telles Drake simplesmente congelou.

Seus olhos fixaram-se na imagem do abraço, mas sua mente parou de processar os sons ao redor. Uma sensação de frio anestesiante subiu pelas suas pernas, atingindo o seu peito com a força de um iceberg. A realidade desabou sobre sua cabeça com o peso de uma tonelada: ele havia perdido tudo. Perdera a banda, perdera o seu melhor amigo de infância e, agora, vendo o sorriso de pura felicidade no rosto de Rebekah nos braços de outro, ele entendeu que a garota que um dia chorara por ele havia seguido em frente de verdade.

O celular escorregou dos dedos trêmulos de Jace, caindo com a tela virada para baixo no lençol da cama, ainda emitindo o som distantes das palmas da festa. Jace deitou de costas no colchão, olhando para o teto escuro, sentindo que o silêncio da noite era a única nota que lhe restara no compasso que ele mesmo escolhera quebrar.