A Batida do coração 2

3 Acordes de Vidro e o Vazio da Sala



​A noite caiu sobre Angra dos Reis com um céu carregado de nuvens escuras que engoliam as estrelas, deixando o mar num tom de grafite ameaçador. No quarto de hóspedes do andar superior, Jace estava deitado de costas na cama, com o corpo atravessado no colchão e o violão apoiado no peito. Seus dedos longos beliscavam as cordas de aço sem um rumo definido, tirando notas soltas, graves e melancólicas que ecoavam pelas paredes brancas.

​Ele fechou os olhos. A imagem do almoço voltou com a força de um soco: o deboche de Rebekah, os olhos marejados dela logo em seguida, a humilhação pública. Um sentimento misto de fúria e frustração apertou seu peito. Jace ajeitou o instrumento, sentou-se na beira da cama e começou a dedilhar um ritmo mais agressivo, tenso, em uma tonalidade menor. A letra começou a jorrar de sua mente como um desabafo necessário. Ele começou a cantarolar baixinho, a voz rouca carregada de um rancor jovem:

​— ...E essa sua casca não engana mais ninguém / Brincando com o fogo achando que tá bem / Dá vontade de sumir, de chutar a sua porta / Mas você é tão mimada que nem nota o que importa...

​Ele repetiu o refrão, batendo com a palma da mão na madeira do violão para ditar o compasso tenso. Quando a última nota de aço morreu no ar, o som de palmas lentas e irônicas cortou o silêncio do quarto.

​Jace ergueu os olhos rapidamente. Rebekah estava parada no batente da porta aberta. Seus olhos ainda estavam ligeiramente inchados, mas a postura altiva e o queixo erguido mostravam que o orgulho Laurentis havia sido blindado novamente.

​— Olha só... o grande Jace Telles afinal tem um coração — Rebekah desdenhou, cruzando os braços e dando um passo para dentro do quarto. — Pena que usa o pouco talento que tem para escrever músicas idiotas sobre mim.

​Jace colocou o violão de lado na cama, levantando-se de imediato. A presença dela ali, agindo como se nada tivesse acontecido, foi o estopim.

​— O que você tá fazendo no meu quarto, Rebekah? — ele perguntou, a voz fria como o vento lá fora. — Veio pedir desculpas pelo espetáculo de mais cedo?

​— Pedir desculpas? Você tá brincando, né? — ela soltou uma risada amarga, aproximando-se mais. — Eu vim aqui olhar na tua cara e dizer que eu não preciso de você. Não preciso da sua proteção, não preciso do seu complexo de herói e muito menos dos seus sermões. Cuida da sua vida, Jace! Me deixa em paz de uma vez por todas! some do meu caminho!

​— Eu sumir?! — Jace deu um passo à frente, a diferença de altura fazendo sombra sobre ela. — Eu só me meti porque você se comporta como uma criança estúpida! Você não tem noção do que quase aconteceu com você naquela festa!

​— E se acontecesse, o problema seria MEU! — Rebekah gritou, batendo no próprio peito. — Eu prefiro me quebrar sozinha do que ter você agindo como se fosse o meu dono! Você é só o filho do amigo do meu pai, Jace! Você não é nada meu!

​A discussão escalou em segundos, os gritos ecoando pelo corredor do casarão.

​— Você é uma egoísta, Rebekah! Uma garota vazia que só quer chamar atenção destruindo a própria família! — Jace berrou, a fúria cegando seu julgamento.

​Em um ápice de puro ódio e frustração por não conseguir fazê-la enxergar, Jace virou-se para o lado e desferiu um soco violento contra a parede de alvenaria do quarto. O som do impacto foi seco, estalado. O reboco da parede trincou sutilmente, e os nós dos dedos de Jace se romperam instantaneamente, vertendo sangue vivo que começou a escorrer por sua mão.

​Rebekah deu um passo para trás, empalidecendo, os olhos arregalados de choque diante da violência do gesto.

​O barulho do soco e os gritos arrastaram os familiares para o corredor. Derick, Letícia, Guga e Anya apareceram na porta no mesmo segundo, os rostos tomados pelo pavor daquela cena destrutiva.

​Jace ignorou a dor lancinante na mão ensanguentada. Ele olhou para Rebekah com um desprezo profundo, usando palavras ainda mais duras do que as do almoço:

​— Quer saber? Você tem razão. Você é um caso perdido. Uma menina fútil, mimada, que não merece um segundo do meu tempo. Tomara que o mundo te ensine da pior forma possível, já que você é arrogante demais para ouvir quem se importa.

​Jace se virou, agarrou sua mochila de lona em cima da poltrona com a mão esquerda e recolheu as baquetas. Ele caminhou em direção à porta, passando entre os adultos. Ele parou diante de Derick e Letícia, com a voz trêmula de ódio e dor:

​— Tio Derick, Tia Letícia... me perdoem por isso. Mas eu não fico mais um segundo sob o mesmo teto que essa garota.

​Sem esperar resposta, ele desceu as escadas pisando fundo. Segundos depois, o som ruidoso do motor do jipe preto rasgou o silêncio da noite de Angra, os pneus cantando no cascalho enquanto Jace ia embora, rompendo em definitivo com o final de semana.

​O Altar do Desprezo

​Na sala superior, o silêncio que ficou era sufocante. Rebekah continuava estática, olhando para o sangue que Jace havia deixado na parede branca.

​Anya Drake, segurando a própria barriga protetora, não conseguiu se conter. Ela deu um passo à frente, os olhos castanhos fixos na adolescente com uma severidade que Rebekah nunca vira na tia de alma.

​— Você conseguiu o que queria, não é, Rebekah? — Anya disse, a voz trêmula de indignação. — O Jace quase morreu em uma UTI de hospital há alguns anos, e a gente aprendeu o valor de cada batida do coração dele. Vendo você agir assim, com esse egoísmo barato, só me faz ter pena da mulher que você está se tornando. Você quebrou o seu irmão de alma por puro capricho.

​— Anya, chega, vamos para o quarto — Guga interveio suavemente, envolvendo a esposa pelos ombros, percebendo o nervosismo dela. Ele olhou para Rebekah com um olhar de profunda decepção antes de conduzir Anya pelo corredor.

​Sobraram apenas Derick, Letícia e Rebekah no corredor iluminado.

​Rebekah olhou para o pai, esperando o grito, a explosão. Mas Derick Laurentis apenas a encarou. O olhar do empresário estava vazio, desprovido daquela faísca de proteção que ele sempre tivera pela filha. Era o olhar de um pai que havia desistido de lutar contra uma parede de pedra.

​— Eu já tive muitos arrependimentos na vida, Rebekah... — Derick disse, a voz saindo num sussurro baixo, gélido e cortante. — Mas ver o orgulho que eu te ensinei se transformar nessa arrogância destrutiva é, de longe, o meu maior fracasso. Você está sozinha nessa, filha.

​Letícia olhou para a filha com os olhos cheios de lágrimas, balançando a cabeça negativamente. Ela segurou o braço de Derick, e os dois viraram as costas, caminhando em direção ao quarto master e fechando a porta.

​Rebekah ficou sozinha no meio do corredor escuro. O silêncio da casa parecia gritar contra seus ouvidos. Ela abraçou o próprio corpo, sentindo o frio da noite entrar pela janela aberta, o peso da solidão finalmente esmagando sua casca de orgulho.

​O Fundo da Garrafa

​Em Santa Bárbara, o jipe preto estacionou de qualquer jeito na garagem da casa dos Telles. Jace entrou na residência escura como um furacão, a respiração descompassada e a mão direita latejando, o sangue já seco colando seus dedos.

​Ele foi direto para o bar da sala. Com a mão esquerda trêmula, ele agarrou uma garrafa de uísque escocês que Murilo havia dado a Guga. Jace não pegou copo. Ele arrancou a tampa com os dentes e virou o gargalo na boca, sentindo o líquido queimar sua garganta e seu estômago. Ele queria apagar a dor na mão, o eco das palavras de Rebekah e o sentimento de fracasso. Sentou-se no tapete da sala, escorando as costas no sofá, e continuou bebendo na penumbra até que o mundo ao seu redor perdesse o foco e a escuridão do álcool o levasse por completo.

​O Dia Seguinte: O Conselho do Baterista

​A luz forte do sol de domingo entrava pelas frestas da cortina da sala, batendo direto no rosto de Jace. Ele soltou um gemido de dor, a cabeça parecendo explodir por conta de uma ressaca homérica. Ele estava jogado de mau jeito no tapete, a garrafa de uísque vazia caída ao seu lado.

​Sentiu um toque suave, quente e familiar em seus cabelos. Ele abriu os olhos com dificuldade e viu o rosto preocupado de Anya. Ela estava ajoelhada ao lado dele, alisando seus fios escuros com uma delicadeza extrema.

​— Ah, meu filho... o que você fez com você mesmo? — Anya sussurrou, os olhos marejados de vê-lo naquele estado.

​Passos pesados se aproximaram. Guga entrou na sala, com o semblante sério, mas focado em ajudar o filho. Ele se abaixou, passou o braço esquerdo de Jace pelo seu pescoço e o içou do chão com firmeza.

​— Vamos, Jace. Pro seu quarto. Um banho frio e vamos cuidar dessa mão — Guga comandou, sustentando o peso do rapaz de dezessete anos escada acima.

​No quarto, após Jace ter trocado de roupa e lavado o rosto, ele sentou na cama enquanto Guga, com uma bacia de água morna e antisséptico, limpava os nós dos dedos estourados do filho, aplicando uma faixa branca ao redor da mão direita do rapaz.

​Jace mantinha a cabeça baixa, a vergonha misturando-se à dor física.

​— Eu pesei a mão, pai... com ela, com a bebida, com tudo — Jace confessou, a voz rouca e fraca.

​Guga terminou de prender a faixa, deixou os medicamentos de lado e sentou-se na cadeira em frente ao filho. Ele olhou fixamente nos olhos do rapaz, com a sabedoria de quem já quase perdera a vida para aprender a escolher as batalhas certas.

​— Escuta aqui, Jace — Guga começou, o tom de voz sério e definitivo. — O que aconteceu ontem em Angra foi o limite. Eu e sua mãe conversamos a viagem de volta inteira. Você agiu por proteção, mas a Rebekah escolheu o caminho dela. A partir de hoje, você está proibido de se meter na vida daquela garota.

​Jace olhou para o pai, surpreso com a rigidez do tom.

​— Se ela quiser ir para festas, se ela quiser mentir para o Derick, se ela quiser quebrar a cara... deixe ela se dar mal, Jace — Guga continuou, a voz mansa, mas firme como uma batida de metrô. — Você tem uma faculdade para começar, tem a sua banda com o Caio, o Lucas e o Pedro, tem um futuro brilhante pela frente. Não gaste a sua energia e o seu sangue com quem não quer ser salvo. Deixa a princesa da família viver as escolhas dela, e você vive as suas. O compasso dela não é mais problema teu.

​Jace olhou para a mão enfaixada e depois para o pai. O nó em seu peito ainda estava lá, mas as palavras de Guga trouxeram uma trégua fria para sua mente. Ele assentiu em silêncio. A partir daquele domingo, o ritmo de Jace Telles Drake mudaria em definitivo; ele fecharia a partitura para Rebekah Laurentis, deixando que o silêncio ditasse o rumo daquela história que parecia ter terminado antes mesmo de começar.