A Batida do Coração 3: O Acorde final

4 O Ritmo do Ciúme e a Advertência do Baterista



​O salão do Copacabana Palace estava transformado. Globos de espelhos gigantescos giravam no teto, jogando feixes de luz prata e azul sobre os centenas de formandos que celebravam o fim de uma era. O som das caixas de som profissionais vibrava nas paredes, ditando uma atmosfera de pura euforia juvenil.

​Na área das mesas VIPs, a união das duas famílias se mantinha firme. Garret e Lisa Lâfrer dividiam uma garrafa de espumante com Jace Drake e Rebekah Laurentis. Sentado entre eles, Logan Lâfrer mantinha os olhos escuros fixos na pista de dança. Ele havia tirado o paletó, permanecendo apenas com a camisa branca e os primeiros botões abertos. Sua postura continuava rígida, mas a verdade é que, desde que cruzara os portões do salão, sua atenção estava completamente sequestrada por uma única silhueta na pista.

​Kayla e Candy estavam no centro do fervo. A cumplicidade delas era nítida. O vestido azul-escuro de seda de Kayla se movia conforme ela girava, a fenda revelando suas pernas de forma sutil, enquanto seus cabelos negros enormes balançavam no ritmo da noite.

​A Pista de Dança em Transe

​De repente, as batidas eletrônicas mudaram drasticamente. O DJ soltou o clássico remix de Jennifer Lopez e Pitbull. A batida forte, sensual e acelerada fez a pista de dança inteira gritar em coro.

​— Ah, não! Essa é a nossa música! — Candy gritou, puxando Kayla pelo braço para o centro do círculo.

​Kayla soltou uma risada livre, aquela risada que carregava o gênio brincalhão de Guga, e se entregou por completo ao ritmo. As duas amigas começaram a dançar de verdade. Kayla ergueu as mãos para o alto, fechando os olhos azuis sob as luzes estroboscópicas, e começou a rebolar até o chão com uma desenvoltura magnética, seguindo cada batida da percussão. A seda azul do vestido acompanhava as curvas do seu corpo de forma hipnotizante.

​Na mesa, Logan estancou com o copo de uísque a milímetros dos lábios. Seus olhos escuros dilataram. O ar sumiu de seus pulmões por um segundo. A imagem daquela garota, tão intensamente viva, livre e sensual na pista, causou um curto-circuito em sua mente lógica. Ele sentiu o maxilar travar ao ponto de doer.

​Nesse momento, o cenário na pista mudou. Dois rapazes, nitidamente irmãos pela semelhança física — altos, de cabelos castanhos claros e usando ternos alinhados de formatura —, se aproximaram delas. Eram Murilo e Otávio Vasconcelos, os gêmeos do terceiro ano B.

​Murilo aproximou-se de Candy com um sorriso audacioso, enquanto Otávio parou bem diante de Kayla, estendendo as mãos e entrando no ritmo da dança. Kayla abriu um sorriso charmoso e, sem hesitar, aceitou o convite, continuando a dançar e rebolar, agora de frente para Otávio, que tentava acompanhar o gingado dela.

​Logan respirou fundo, um som pesado e audível. Ele largou o copo na mesa com força excessiva, fazendo o gelo tilintar contra o vidro. O ciúme, um sentimento que ele julgava não possuir por ser racional demais, subiu por sua garganta como um diagnóstico inevitável.

​A Advertência no Balcão

​Jace Drake observava tudo. O baterista experiente, que passara a vida lendo o comportamento das pessoas nos bastidores dos palcos, não perdera um único movimento de Logan. Jace viu o foco cirúrgico do jovem médico na filha, viu a tensão em seus ombros e a forma como o maxilar dele havia travado ao ver Otávio se aproximar de Kayla.

​Com movimentos calmos, Jace se levantou da mesa, segurando sua bebida, e caminhou até a lateral da cadeira de Logan. Em vez de se sentar, o baterista abaixou-se ao lado dele, apoiando o cotovelo no braço da poltrona de Logan, aproximando-se para falar por causa do som alto.

​— O ritmo dela é forte, não é, Doutor? — Jace quebrou o silêncio, a voz grave e calma saindo perto do ouvido de Logan.

​Logan deu um leve sobressalto, virando o rosto para encarar o pai de Kayla. Seus olhos escuros estavam ligeiramente perdidos, desarmados pela presença do sogro em potencial.

​— O que disse, Jace? — Logan tentou disfarçar, pigarreando.

​Jace deu um gole em sua bebida, olhando de volta para a pista de dança, onde Kayla dava uma risada alta após uma brincadeira de Otávio. Jace passou a mão de leve na clássica cicatriz de seu próprio supercílio, o sorriso terno mas carregado de uma sabedoria antiga.

​— Eu conheço esse olhar, Logan. Eu já tive esse mesmo olhar anos atrás, quando olhava para a Rebekah nas pistas de Santa Bárbara — Jace explicou, a voz descendo um tom, preenchida por uma seriedade protetora. — A Kayla... ela herdou o pior e o melhor de nós. Ela é um espírito livre, cara. Ela se move pela música, não pelas regras do mundo. Ela não é uma garota que você consegue prender num prontuário ou num horário de hospital.

​Logan engoliu em seco, sentindo o peso das palavras do homem que já fora o centro das atenções do rock nacional.

​— Eu não estou... eu só estou observando a dinâmica, como eu disse — Logan tentou a sua última defesa lógica.

​Jace soltou uma risada baixa, batendo de leve no ombro de Logan. — Não tenta dar um diagnóstico científico para o que está na sua cara, garoto. Só estou te dando um conselho de irmão mais velho: toma cuidado com o seu coração. Espíritos livres como o da Kayla têm uma facilidade tremenda de destruir corações estruturados como o seu se você não souber jogar o jogo deles. Não se machuque tentando controlar um compasso que não é seu.

​A Fuga da Penumbra

​Logan olhou para Jace, as palavras do baterista ecoando em sua mente como um eco doloroso. Ele entendeu perfeitamente o que Jace estava fazendo. Não era uma ameaça de pai ciumento; era o aviso de um homem que sabia exatamente o tamanho do estrago que uma mulher daquela linhagem podia fazer na vida de alguém.

​— Obrigado pelo conselho, Jace — Logan respondeu, a voz saindo mais rouca do que o normal.

​Ele se levantou da mesa abruptamente. A visão de Otávio tocando de leve na cintura de Kayla para girá-la na pista foi o limite de sua resistência. Logan precisava sair dali. Se ficasse mais um minuto olhando para aquela cena, ele sabia que perderia a postura profissional que passara anos construindo.

​Ele girou o corpo e caminhou com passos largos e firmes em direção às portas de vidro que davam para o terraço externo do hotel. Ao sair para o ar livre, a brisa fria da noite de Copacabana atingiu seu rosto, misturando-se ao som distante das ondas do mar.

​Logan apoiou as duas mãos no parapeito de mármore, olhando para a escuridão do oceano, tentando acalmar os batimentos cardíacos que continuavam desordenados. Ele achava que tinha controle sobre a vida e sobre a ciência, mas ali, no silêncio da varanda, ele teve que admitir para si mesmo: Kayla Drake havia acabado de quebrar todas as suas defesas com um único acorde de sutileza e rebeldia. E o pior de tudo era saber que Jace estava coberto de razão.