A Batida do Coração 3: O Acorde final
5 O Eco do Rádio e a Linha do Equador
O relógio do painel do carro marcava quatro e meia da manhã quando o sedã escuro de Logan cortou a Avenida das Américas em direção à Barra da Tijuca. O silêncio da madrugada carioca era estilhaçado pela euforia que vinha do banco de trás e do carona. Se a ida para o baile havia sido tensa, a volta parecia o camarim de um show de pop rock.
Candy e Kayla estavam com os saltos altos nas mãos, os pés descalços e os cabelos bagunçados pelo suor da pista de dança, mas a energia delas continuava no topo.
Planos no Cinema e o Limite do Doutor
— Eu estou falando, Kayla! O Murilo é muito engraçado! — Candy dizia, virando-se para o banco de trás, com as bochechas coradas. — Ele passou metade da música do Pitbull tentando me convencer de que o irmão dele, o Otávio, era o gêmeo malvado da história.
Kayla soltou uma risada clara, recostando a cabeça no estofado enquanto a seda azul de seu vestido brilhava sob os postes de luz da avenida. Seus impressionantes olhos azuis carregavam o brilho da vitória daquela noite.
— O Otávio não tem nada de malvado, Candy. Ele só é abusado — Kayla comentou, com um sorriso de canto, lembrando-se da audácia do rapaz na pista. — Mas eu gostei que eles chamaram a gente para ver aquele filme de terror no New York City Center na terça-feira. Vai ser perfeito. O shopping da Barra vai estar tranquilo à tarde.
— Nós vamos com certeza! — Candy comemorou, batendo palmas. — Duas formadas no cinema com os gêmeos Vasconcelos. O que você acha, Logan?
No banco do motorista, as mãos de Logan apertaram o volante de couro com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. O maxilar dele estava tão travado que uma linha rígida se desenhava em sua bochecha. Ouvir Kayla planejar um encontro com aquele garoto do terno alinhado fez o seu sangue queimar de uma forma que nenhum livro de patologia conseguia explicar.
Em vez de responder à irmã, Logan estendeu a mão direita abruptamente e girou o botão do rádio do carro, aumentando o volume de forma violenta para abafar a conversa.
VUUUM—
As caixas de som do veículo foram inundadas pelas notas pesadas, encorpadas e inconfundíveis de um contrabaixo elétrico, seguidas pela batida compassada e brutal de uma bateria que Kayla conhecia antes mesmo de nascer. Era "November Way", o maior clássico da banda de Jace e Caio Souza.
— Ah! Não acredito! — Kayla exclamou, inclinando-se para a frente instantaneamente, esquecendo a provocação dos gêmeos ao ouvir o som do pai.
Em um segundo, a irritação de Logan virou combustível para as duas. Kayla e Candy começaram a cantar o refrão juntas, batendo os pés no chão do carro e usando os saltos altos como microfones. A voz de Kayla subia limpa, afinada e cheia de potência, preenchendo o cubículo do automóvel com a rebeldia pura dos Drake. Logan apenas fixou os olhos na estrada, engolindo o orgulho e respirando fundo, percebendo que tentar calar Kayla Drake com música era o equivalente a apagar fogo com gasolina.
O Silêncio da Garagem e o Gelo entre Dois Mundos
Quando o carro finalmente estacionou na vaga subterrânea do edifício de lofts, o som do motor morreu e o silêncio pesado da madrugada voltou a reinar.
Candy, exausta e ansiosa para usar o banheiro, abriu a porta do carona antes mesmo que Logan destravasse o porta-malas.
— Vou correndo segurar o elevador antes que o condomínio resolva desligar os motores da madrugada! Não demorem! — Candy gritou, largando a bolsa e andando apressada na frente, os passos descalços ecoando pelo cimento queimado da garagem.
A porta do carro se fechou, deixando apenas Kayla e Logan na penumbra da garagem, iluminada pelas lâmpadas fluorescentes amareladas.
Kayla desceu devagar. Ela ajeitou a fenda do vestido de seda azul, pegou sua mochila jeans e colocou a alça sobre o ombro, movendo-se com aquela elegância natural que herdara de Rebekah. Logan deu a volta pelo veículo, fechando a porta do motorista com um estalo seco. Ele caminhou logo atrás dela, os passos firmes e imponentes diminuindo a distância entre os dois conforme se aproximavam da entrada dos elevadores.
— Você devia focar em coisas mais produtivas na terça-feira, Kayla — Logan quebrou o silêncio. A sua voz saiu fria, calculada e profissional, como se estivesse dando um aviso preventivo a um paciente teimoso.
Kayla parou de caminhar a poucos metros da porta de vidro do hall. Ela girou o corpo lentamente, ficando de frente para ele. A luz amarela de cima focava diretamente em seus olhos azuis, que pareciam duas pedras de gelo afiadas contra a postura séria do médico.
— O que você disse, Doutor Lâfrer? — ela perguntou, a voz mansa, mas perigosamente calma.
Logan parou a dois passos dela. Ele era consideravelmente mais alto, obrigando-a a erguer o queixo. Ele cruzou os braços, mantendo o tom distante e superior.
— Estou dizendo que rapazes como aqueles gêmeos Vasconcelos são uma perda de tempo estatística. Eles estão focados em festas, carros e futilidades do colégio. Você diz que quer construir uma carreira séria na música, mas aceita sair com garotos que mudam de acorde a cada segundo. É uma incoerência clínica.
Kayla escutou tudo sem piscar. O gênio brincalhão de Guga sumiu de suas feições, dando lugar à determinação implacável de Anya e à altivez de Rebekah. Ela deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre eles até que o perfume amadeirado dele se misturasse ao cheiro de noite dela.
— Sabe qual é o seu problema, Logan? — Kayla respondeu, a resposta saindo ácida, precisa e cortante como um bisturi. — Você passou tantos anos estudando corpos dentro de uma sala de aula que esqueceu como funciona um coração de verdade. O meu pai me avisou hoje no baile sobre caras como você: engomados, cheios de regras e com medo de qualquer batida que saia do prontuário.
Logan sentiu o impacto das palavras. Seu olhar escuro vacilou por um milésimo de segundo.
— Eu não tenho medo de nada, Kayla — ele rebateu, a voz descendo um tom, preenchida por uma tensão latente.
— Tem sim. Você tem pavor do barulho — Kayla deu o golpe final, com um sorriso de canto que era puro veneno e charme. — Se o filme de terça-feira vai ser bom ou não, o problema é meu. Mas não se preocupa, Doutor... eu prometo não fazer muito barulho quando chegar em casa para não atrapalhar o seu sono de beleza.
Antes que Logan pudesse formular qualquer defesa ou resposta lógica, Kayla girou o corpo de forma magnífica, os cabelos negros enormes voando pelo ar, e caminhou em direção ao hall onde o elevador já apitava com Candy esperando.
Logan Lâfrer permaneceu exatamente no mesmo lugar, sozinho na penumbra da garagem subterrânea, com o som dos passos dela desaparecendo no corredor. Ele soltou o ar pelos lábios, o peito subindo e descendo com uma força desordenada. A residência no hospital começaria em poucas horas, mas o jovem médico acabara de perceber que a maior e mais perigosa cirurgia de sua vida seria tentar arrancar Kayla Drake de seus próprios pensamentos.
Fale com o autor