A Batida do Coração 3: O Acorde final
22 O Preço dos Holofotes e o Diagnóstico Noturno
Os três meses de prazo estipulados pela reabilitação médica passaram voando, engolidos pela rotina implacável da indústria fonográfica. Para Kayla Drake, o retorno ao universo da música não foi um processo lento; foi um mergulho de cabeça. O estúdio principal da Som Livre havia sido transformado em um palco de ensaios com marcação de luzes, caixas de retorno potentes e uma equipe de coreógrafos e músicos de apoio que ditavam o ritmo da futura turnê mundial.
Durante o dia, Kayla era a personificação da resiliência dos Drake. Ela passava seis, às vezes sete horas de pé, sustentando o peso da guitarra vermelha na alça de couro, cruzando o palco de um lado para o outro sob os refletores quentes.
No entanto, a sequela motora na musculatura profunda do quadril e da perna esquerda — o aviso cirúrgico de Mariana — cobrava o seu preço a cada acorde. No meio dos ensaios, uma dor aguda, fina e ardente subia pela sua coxa. Kayla travava o maxilar, fingia ajustar o pedestal do microfone e respirava fundo, recusando-se a parar. Ela tomava os analgésicos prescritos e usava os sprays de massagem no camarim, mas seu orgulho inabalável a impedia de demonstrar qualquer fraqueza diante dos produtores. Ela queria o topo, e estrelas não mancam no palco.
O Peso do Silêncio na Cama
A realidade, porém, não usava maquiagem ou luzes de efeito. Passava das duas da madrugada quando o silêncio tomou conta da cobertura na Avenida Lúcio Costa. O som das ondas do mar quebrando na praia da Barra entrava pela janela semiaberta do quarto principal, misturando-se à penumbra iluminada apenas pelos postes da orla.
Deitada de lado na imensa cama de lençóis escuros, Kayla Drake se encolheu. O efeito do último comprimido de corticoide havia evaporado há horas. Uma pontada violenta e contínua parecia cravar um prego em seu quadril esquerdo, irradiando uma queimação pesada por toda a extensão da perna afetada pelo acidente.
— Hum... — um gemido baixo, sôfrego e carregado de sofrimento escapou por entre os lábios de Kayla. Ela apertou o tecido do travesseiro com força, os cabelos negros enormes espalhados pelo colchão, tentando mudar de posição sem fazer barulho para não acordar o namorado.
Ao seu lado, no entanto, o sono de Logan Lâfrer operava no modo de alerta hospitalar desde o dia do trauma. No primeiro sinal de contração muscular de Kayla, os olhos escuros do médico se abriram na escuridão.
Logan sentou-se na cama imediatamente. Ele estendeu a mão longa e tocou as costas nuas de Kayla, sentindo a pele dela fria e coberta por uma camada fina de suor de puro estresse físico.
— Kayla... — Logan chamou, a voz grave saindo absurdamente rouca e pausada pelo despertar abrupto. Ele contornou o corpo dela, posicionando-se de frente para os impressionantes olhos azuis, que agora estavam marejados de dor. — Onde está doendo? É a perna esquerda de novo, não é?
Kayla tentou morder o lábio inferior, virando o rosto de lado para evitar o olhar clínico dele. — Está... está tudo bem, Logan. É só um mau jeito por causa do salto que usei no ensaio fotográfico hoje à tarde. Volta a dormir.
Logan travou a linha do maxilar, uma expressão de seriedade possessiva e madura assumindo suas feições na penumbra. Ele puxou o lençol escuro para o lado, revelando as pernas dela, e deslizou as mãos firmes até a região do quadril esquerdo de Kayla. No segundo em que seus dedos pressionaram sutilmente o feixe muscular perto da cicatriz do asfalto, o corpo dela deu um solavanco e outro gemido de dor cortou o quarto.
— Não mente para mim, Drake — Logan ralhou de forma branda, mas firme, a autoridade de hospital misturada à preocupação do namorado. — A musculatura está rígida como uma pedra. Você passou dos limites no palco da Som Livre hoje, não passou?
O Conflito entre a Arte e o Prontuário
Kayla desabou contra os travesseiros, deixando as lágrimas que prendera o dia inteiro escorrerem livremente pelas bochechas pálidas. A dor física era brutal, mas a frustração de se sentir limitada a machucava ainda mais.
— Eu passei seis horas ensaiando a marcação de palco da música de abertura, Logan! — ela confessou, a voz saindo trêmula, irritada e vulnerável. — O Roberto Albuquerque estava lá. Os patrocinadores estavam lá. Eu não podia simplesmente parar o ensaio, sentar em uma cadeira e dizer que a minha perna dói! Eu tenho dezoito anos, o meu primeiro álbum entra em pré-venda no mês que vem. Se eu demonstrar que essa sequela me trava... eles vão achar que eu não aguento a pressão da estrada!
Logan suspirou profundamente, negando com a cabeça. Ele afastou-se por um instante, caminhou até o banheiro na penumbra e voltou trazendo um tubo de pomada analgésica manipulada e uma bolsa de gel térmico que mantinha no frigobar do quarto.
Ele sentou-se na beira do colchão, espalhou o creme gelado nas palmas das mãos e começou a massagear a coxa e o quadril de Kayla com movimentos lentos, profundos e firmes. A técnica de suas mãos longas e experientes começou a desfazer os nós de tensão do músculo, arrancando suspiros aliviados da guitarrista.
— O seu orgulho Drake ainda vai acabar te mandando de volta para uma mesa de cirurgia, Kayla — Logan disse, a voz descendo para um tom mansa, mas carregado de uma densidade cortante. Ele mantinha os olhos escuros fixos no processo da massagem. — A Mariana foi muito clara no diagnóstico da alta: o seu útero está perfeito, a sua cabeça está ótima, mas a estrutura desse quadril sofreu uma desaceleração de seis metros no asfalto. Remédio e spray de camarim não fazem milagre se você passar seis horas pulando com uma Gibson de cinco quilos pendurada no pescoço.
— E o que você quer que eu faça, Logan? — Kayla rebateu, os olhos azuis faiscando na escuridão, embora seu corpo relaxasse sob o toque das mãos dele. — Que eu cancele os shows? Que eu mude a coreografia para parecer uma apresentação de banquinho e violão? Eu sou filha do Jace Drake! O meu ritmo é pesado, eu preciso me mexer!
Logan parou os movimentos por um segundo. Ele inclinou o corpo para a frente, segurando o rosto de Kayla com uma das mãos, obrigando-a a olhar bem no fundo dos seus olhos escuros.
— Eu não quero que você mude o seu estilo, Estrela. Eu amo o seu barulho, você sabe disso — Logan sussurrou, a voz preenchida por uma ternura protetora que desarmou qualquer resquício de arrogância. — Mas eu sou o homem que te recolheu daquele asfalto com o coração quase parando. Eu passei semanas ouvindo os bipes daquela UTI rezando para você respirar. Eu não vou ficar assistindo você destruir o seu corpo na minha cama por causa de prazos da Som Livre. Amanhã de manhã eu vou com você até a gravadora.
Kayla arregalou os olhos. — Você enlouqueceu? Vai fazer o quê? Dar um plantão na sala do Albuquerque?
— Vou redesenhar o seu cronograma de estrada junto com a equipe de reabilitação — Logan determinou, com aquela segurança inabalável dos Lâfrer. Ele voltou a aplicar a bolsa de gelo na lateral do quadril dela, cobrindo-a com o lençol protetor. — Dois dias de ensaio, um dia de fisioterapia e repouso absoluto. Os shows da turnê vão ter que ter intervalos maiores entre as cidades. O mundo que espere, Kayla. Mas a minha mulher vai subir naquele palco inteira, e vai voltar para os meus braços sem precisar chorar de dor na madrugada.
O Acordo na Penumbra
Kayla Drake olhou para o namorado, observando a seriedade e o foco com que ele cuidava dela, ajustando o gelo e puxando a manta para protegê-la do vento da varanda. O gênio rebelde dela queria lutar contra o controle dele, mas o amor possessivo e maduro de Logan era um porto seguro contra o qual ela não tinha forças — e nem vontade — de brigar.
Ela estendeu a mão esquerda e puxou a gola da camiseta escura dele, trazendo-o para perto. Logan cedeu, colando os lábios nos dela em um beijo mansa, calmo e acolhedor, que trazia o gosto do recomeço.
— Obrigada, Doutor... — ela sussurrou contra a boca dele, o cansaço finalmente vencendo a dor devido ao alívio da massagem. — Mas se você for muito mandão na Som Livre, eu juro que digo pro meu pai te proibir de entrar no estúdio.
Logan deu aquela risada curta e rústica de canto, deitando-se novamente de lado e puxando o corpo de Kayla para colar contra o seu peito largo, envolvendo-a em seu abraço protetor.
— O Jace Drake aprova o meu prontuário de cuidados, Estrela. Dorme agora — Logan sussurrou, deixando um beijo final em seus cabelos negros enormes.
Na penumbra da cobertura na Barra da Tijuca, o monitor invisível do amor deles encontrou o seu equilíbrio perfeito. O palco do rock nacional cobraria os seus limites físicos nos próximos meses, mas nos lençóis escuros daquela noite, Kayla Drake sabia que não importava o tamanho da dor ou a intensidade da estrada: ela sempre teria o compasso seguro das mãos do seu médico para ajustar o seu ritmo e curar as suas cicatrizes.
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