A Batida do Coração 3: O Acorde final
23 O Acorde de Ruptura e o Peso das Escolhas
A manhã de terça-feira na sede da Som Livre começou com o clima de um tribunal. Na cabeceira da mesa de vidro, Roberto Albuquerque mantinha uma expressão impenetrável, ladeado por dois diretores de marketing e pelo advogado da gravadora. Do outro lado, Kayla Drake estava sentada com a guitarra em um estojo ao lado, mas a grande surpresa para a bancada foi a presença de Logan Lâfrer. Ele não vestia jaleco, mas trazia uma pasta de couro preta e uma postura imponente que exalava a frieza de quem domina um centro cirúrgico.
O Confronto na Gravadora
Logan abriu a pasta e estendeu três vias de um laudo médico detalhado sobre a mesa de mogno, deslizando-as na direção de Albuquerque.
— Senhor Albuquerque, estes são os exames de controle e o parecer da junta de reabilitação ortopédica da UFRJ sobre a Kayla — Logan começou, a voz grave saindo pausada, cortante e firme. — O contrato prevê uma turnê internacional imediata, mas o quadro clínico atual dela exige um remanejamento. Ela tem uma sequela motora profunda no quadril. Seis horas diárias de ensaio em pé e shows em dias consecutivos vão causar uma estafa muscular irreversível. O novo cronograma exige: no máximo três horas de ensaio por dia, fisioterapia obrigatória três vezes por semana e um intervalo mínimo de setenta e duas horas entre cada apresentação nas cidades.
Roberto Albuquerque leu o laudo rapidamente, jogou os papéis de volta na mesa e soltou uma risada rústica, cheia de uma arrogância corporativa. Ele olhou para Logan e depois fixou os olhos em Kayla.
— Com todo o respeito ao seu diploma, Doutor Lâfrer, mas quem dita o ritmo do mercado musical aqui somos nós — Albuquerque disparou, a voz subindo, possessa pela audácia da intromissão. — Nós investimos milhões no adiantamento do álbum, os patrocinadores internacionais já fecharam as cotas de publicidade para os shows consecutivos na Europa. Mudar o cronograma agora é prejuízo de escala global.
— O prejuízo vai ser maior se a artista de vocês desabar no meio do terceiro show por causa de uma crise aguda de dor, senhor — Logan rebateu, inclinando o corpo para a frente, os olhos escuros faiscando com uma linha de proteção possessiva. — Eu estou emitindo um alerta médico. A integridade física dela está acima das cotas de publicidade de vocês.
Albuquerque levantou-se da cadeira, batendo as duas mãos na mesa, completamente descontrolado. Ele apontou o dedo na direção de Kayla.
— Chega! Isso aqui é uma gravadora, não uma ala de hospital! Kayla, nós vamos te dar um ultimato agora. Ou você cumpre o contrato do jeito que foi desenhado, com o cronograma de ensaios e a turnê internacional sem frescuras, ou nós rasgamos esse documento hoje. Você perde o álbum, perde os patrocinadores, perde o salário de exclusividade e enterra a sua carreira antes mesmo do primeiro refrão. É o nosso jeito ou você perde tudo. Escolha.
O quarto mergulhou em um silêncio sufocante. Kayla Drake sentiu o estômago dar uma reviravolta violenta. O ultimato da Som Livre pesava como uma tonelada em seus ombros. Ela olhou para Logan, que mantinha a mandíbula travada esperando a recusa dela, e depois para Albuquerque.
— Eu... eu preciso de um tempo para pensar — Kayla soltou em um fio de voz, levantando-se da mesa abruptamente, pegando o estojo da guitarra e saindo da sala de reuniões antes que qualquer um pudesse impedi-la.
A Explosão na Cozinha
O fim da tarde caiu sobre a cobertura da Avenida Lúcio Costa em um silêncio ensurdecedor. Kayla entrou no apartamento sem dizer uma única palavra. Ela largou a bolsa no sofá e caminhou direto para a cozinha americana. Seus movimentos eram mecânicos, brutos e carregados de uma tensão perigosa. Ela pegou um pano de prato, começou a guardar as louças limpas no armário, depois pegou uma esponja e passou a esfregar a bancada de granito com uma força desnecessária, tentando descontar a frustração do ultimato no silêncio da casa.
Logan entrou no apartamento logo em seguida. Ele jogou as chaves no aparador e caminhou até a cozinha, parando do outro lado da bancada.
— Kayla, nós precisamos conversar sobre o que aquele idiota disse na reunião — Logan tentou falar, a voz mansa, aproximando-se para tocar o ombro dela. — Você não pode ceder à chantagem daquela diretoria. Eles não se importam com a sua saúde.
Kayla se esquivou do toque dele, continuando a esfregar a bancada com ainda mais violência. — Me deixa em paz, Logan.
— Kayla, olha para mim — ele insistiu, segurando o pulso dela com firmeza, parando o movimento da esponja. — A sua perna estava tremendo no elevador. Você está com dor agora. Conversa comigo.
A barreira do orgulho Drake finalmente estourou. Kayla puxou o braço com força, jogando a esponja contra a pia com um estalo úmido, e virou-se de frente para ele. Seus impressionantes olhos azuis estavam dilatados de pura raiva e desespero, o rosto vermelho pelas lágrimas reprimidas.
— EU NÃO VOU PARAR! — Kayla gritou, a voz ecoando pelas paredes da cobertura vazia. — Você estragou tudo, Logan! Você entrouquela sala com a sua arrogância de médico e fez eles me darem um ultimato! É o meu sonho que está naquela mesa! Eu passei a vida inteira querendo ser a estrela que eu nasci para ser! Eu vou fazer da forma deles! Eu vou cumprir cada hora de ensaio e cada show daquela turnê, mesmo que a minha perna caia no chão!
— Você enlouqueceu? Você vai se destruir por causa de ego de gravadora? — Logan rebateu, a voz subindo de tom, a respiração vinda em jatos curtos.
— Então que eu me destrua! — ela disparou, o veneno puro saindo por suas palavras. — Se você está tão preocupado com o meu prontuário, faz alguma coisa útil como médico: me arruma analgésicos mais fortes! Me arruma infiltrações, morfina, qualquer droga que silencie essa perna! Mas eu não vou perder tudo por causa do seu controle!
Logan recuou um passo, absorvendo o impacto daquelas palavras. Ele respirou fundo, os olhos escuros tornando-se gélidos e preenchidos por uma decepção profunda. Ele cruzou os braços, a postura rígida como uma pedra de hospital.
— Eu sou um médico, Kayla. E sou o homem que te ama — ele disse, a voz descendo para um sussurro pausado e mortalmente sério. — O meu trabalho é salvar vidas, não dopar a minha namorada com morfina para ela se autodestruir em um palco pelo capricho de terceiros. Eu não vou ficar aqui sentado assistindo você rasgar o seu corpo na minha frente. Eu não vou ser cúmplice da sua teimosia.
Kayla engoliu em seco, o orgulho Drake blindando o seu coração contra a dor daquela fala. Ela ergueu o queixo, sustentando uma frieza cortante.
— Tudo bem, Doutor. Então acho que é a minha hora de ir.
A Discussão e as Malas prontas
Kayla deu as costas e caminhou a passos largos em direção ao quarto principal. Ela puxou uma mala grande de lona preta de cima do armário e a jogou sobre a cama de lençóis escuros com violência. Com movimentos bruscos, começou a arrancar suas roupas das gavetas e do cabideiro, jogando-as de qualquer jeito dentro da mala.
Logan parou no batente da porta do quarto, assistindo à cena com os punhos cerrados nos bolsos da calça.
— Você está fugindo de novo, Drake? É esse o seu arranjo de independência? — ele provocou, a voz carregada de uma raiva ácida. — Na primeira dificuldade de adulto, você faz as malas e corre para trás da guitarra do seu pai?
— Eu não estou fugindo, Logan! Eu estou escolhendo a minha vida! — ela gritou, fechando o zíper da mala com tanta força que o metal quase quebrou. Ela pegou o estojo da guitarra vermelha. — Morar com você foi o meu maior erro. Você não quer uma namorada, você quer uma paciente trancada em uma redoma de vidro para você controlar o compasso! Você é um egoísta!
— E você é uma garota mimada que não tem maturidade para entender o que é um limite físico! — Logan disparou, dando um passo para o lado, liberando o corredor com um olhar gélido. — Vai embora, Kayla. Vai lá fazer o seu barulho pelo mundo. Mas quando a dor for maior que os aplausos, não me venha pedir um diagnóstico de acolhimento.
Kayla Drake passou por ele como um furacão, as lágrimas de ódio manchando o seu rosto. Ela bateu a porta da frente da cobertura com um estrondo que ecoou por todo o andar, deixando Logan Lâfrer sozinho com o silêncio e com o vazio daquela sala na Lúcio Costa.
O Refúgio no Sétimo Andar
No condomínio de lofts, a noite já estava instalada quando a porta do sétimo andar se abriu. Jace Drake estava na sala afinando um violão e Rebekah organizava uns croquis na mesa de jantar. Ambos tomaram um susto ao verem Kayla entrar arrastando a mala preta, com o estojo da guitarra nos ombros e o rosto visivelmente destruído pelo choro.
Rebekah levantou-se imediatamente, com o coração de mãe apertado. — Meu amor? O que aconteceu? Você e o Logan...
Kayla parou no meio da sala, estancando os passos. Ela ergueu os olhos azuis, que carregavam uma barreira de gelo intransponível, idêntica ao gênio mais severo de sua linhagem.
— Eu não quero falar sobre isso — Kayla sibilou, a voz rouca, pausada e fria. — E não admito que ninguém se meta na minha vida. Nem você, mãe, e nem você, pai.
Sem dar espaço para qualquer resposta, ela caminhou até o seu antigo quarto, entrou e bateu a porta, girando a chave na fechadura com um estalo seco e definitivo.
Jace e Rebekah se olharam na sala, o silêncio da casa sendo preenchido pelo som abafado dos soluços de Kayla vindo de trás da madeira trancada.
A Reunião no Hospital
Na manhã de quarta-feira, Jace e Rebekah não aguentaram o impasse. Eles pegaram o carro e foram direto para o Hospital Regional da Barra. Eles sabiam que Logan estava saindo de um plantão médico.
Eles encontraram o jovem médico sentado em uma mesa de canto da lanchonete dos médicos, no subsolo. Logan usava uma camiseta escura, tinha olheiras profundas e segurava uma xícara de café preta com as duas mãos, olhando para o vazio. A imponência habitual estava lá, mas o semblante era de pura exaustão psicológica.
Jace e Rebekah sentaram-se nas cadeiras de plástico à frente dele. Logan ergueu os olhos escuros, sem surpresa ao ver os sogros.
— Obrigado por virem — Logan disse, a voz saindo absurdamente grave e cansada.
— O que aconteceu na Som Livre, Logan? A Kayla chegou em casa destruída, trancou-se no quarto e não deixa ninguém entrar — Rebekah pediu, a voz trêmula de preocupação. — Nós conhecemos o gênio dela, mas aquilo parecia uma parede de concreto.
Logan soltou um suspiro profundo, largando a xícara de café. Ele passou a mão pelo rosto, tentando organizar as ideias clínicas e pessoais.
— A diretoria da Som Livre deu um ultimato nela, Tia Rebekah — Logan explicou, a voz pausada e séria. — Eu fui à reunião e apresentei o laudo da reabilitação da UFRJ. O quadril dela não vai aguentar a sequência de shows internacionais sem um intervalo de setenta e duas horas. O Roberto Albuquerque foi um canalha. Ele disse que ou ela faz a turnê do jeito deles, consecutiva e exaustiva, ou eles rasgam o contrato e ela perde tudo. Perde o álbum, o salário, a carreira.
Jace Drake travou o maxilar, os olhos escuros brilhando de raiva da indústria fonográfica. — E o que a Kayla disse?
— Ela pediu tempo para pensar... mas quando chegamos em casa, ela explodiu — Logan confessou, os olhos marejados de uma dor latente. Ele olhou bem nos olhos de Jace. — Ela disse que vai fazer do jeito deles. Disse que não vai parar por causa de limite médico nenhum e... ela me pediu para arrumar analgésicos fortes. Pediu morfina, infiltração, qualquer droga para calar a dor da perna durante os ensaios.
Rebekah soltou um suspiro de choque, levando a mão ao peito. — Meu Deus... a teimosia dela vai acabar matando o corpo dela.
— Eu disse que não ia fazer isso, Tio Jace — Logan continuou, a voz firme na sua ética de proteção. — Eu disse que sou o homem que ama ela e o médico que tirou ela daquele asfalto. Eu não vou ser cúmplice da autodestruição da Kayla para satisfazer o ego de uma gravadora. Eu bati de frente. E a resposta dela foi fazer as malas e dizer que morar comigo foi o maior erro da vida dela.
Jace Drake inclinou-se para a frente, colocando a mão forte sobre o braço de Logan. O velho baterista conhecia aquela linha de frente melhor do que ninguém; ele já vira muitos artistas se destruírem na estrada por causa de prazos corporativos.
— Você fez o certo, Logan — Jace determinou, a voz grave e cheia de um respeito profundo pelo genro. — O gênio da Kayla é um perigo quando se mistura com o orgulho dos Drake. Ela acha que é indestrutível porque tem dezoito anos e o mundo está chamando o nome dela. Mas a estrada não tem compaixão.
— Eu não sei mais o que fazer, Tio Jace — Logan confessou, a voz quebrando pela primeira vez, revelando a ferida da perda do bebê combinada ao afastamento da namorada. — Eu não posso ceder e dar os remédios que ela quer. Mas se eu me afastar... aquela gravadora vai moer a estrutura dela até não sobrar nada do ritmo que a gente tanto ama.
Rebekah segurou a mão de Logan com doçura. — Nós estamos com você, Logan. Deixa a Kayla no quarto hoje. O orgulho dela vai ter que bater de frente com a realidade da dor nas próximas semanas, e quando a armadura dela rachar... nós estaremos lá para ajudar você a recolher os pedaços. Você é o compasso que ela precisa, mesmo que a nossa estrela seja teimosa demais para admitir agora.
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