A Batida do Coração 3: O Acorde final

21 O Diagnóstico da Alta e o Novo Endereço



​A manhã de quarta-feira trouxe uma atmosfera de renovação para o quarto da ala VIP do Hospital Regional. As malas de Kayla Drake já estavam quase prontas no canto da parede, organizadas por Rebekah e Candy no dia anterior. A expectativa da alta médica preenchia o ar, mas o silêncio confortável do início do dia ainda dominava o ambiente.

​Apoiada nos travesseiros, Kayla observava com um sorriso terno a cena ao lado de sua cama. Logan Lâfrer, que havia passado mais uma noite de vigília ao seu lado após um plantão exaustivo na emergência, estava completamente apagado na pequena cama de solteiro reservada para os acompanhantes. Ele vestia uma calça de moletom cinza e uma camiseta escura amassada. O homem imponente, conhecido por sua postura rígida e impecável pelos corredores do hospital, agora dormia com o rosto enterrado no travesseiro, os cabelos escuros desalinhados e um fio discreto de saliva correndo pelo canto dos lábios.

​A Visita da Faculdade e as Estatísticas do Coração

​Duas batidas leves soaram na porta de madeira, e uma mulher de jaleco branco, estetoscópio no pescoço e cabelos castanhos presos em um coque alinhado entrou no quarto. Era a Doutora Mariana Menezes, chefe da equipe de reabilitação e ortopedia do hospital, e uma das melhores amigas de Logan desde os tempos da faculdade de Medicina na UFRJ.

​Mariana parou na beira da cama, olhou para Logan deitado e depois para Kayla. Uma risada contida e divertida escapou de seus lábios.

​— Eu não acredito no que os meus olhos estão vendo — Mariana sussurrou, aproximando-se de Kayla com um sorriso cúmplice, mantendo o tom de voz baixo. — O grande e inabalável Doutor Lâfrer, o homem que ditava o prontuário do desapego na faculdade, está ali... babando no travesseiro por causa de uma guitarrista.

​Kayla riu baixinho, os impressionantes olhos azuis brilhando. — Ele é sempre tão controlado assim, Doutora?

​— Ah, você não tem noção, Kayla — Mariana comentou, cruzando os braços e olhando para o amigo com carinho. — Desde a época da residência, o Logan saía com algumas médicas, algumas mulheres da zona sul, mas era sempre o mesmo roteiro: dois ou três encontros e ele se afastava, alegando que o ritmo dos plantões era a sua única prioridade. Ele colocava uma armadura cirúrgica e ninguém conseguia entrar. Eu nunca, em quase dez anos de amizade, vi esse homem tão apaixonado e entregue como ele está por você. Você quebrou o prontuário dele por completo.

​Kayla sentiu o peito aquecer, olhando para o namorado adormecido. O amor deles havia custado caro, mas a estrutura agora era inegável.

​Mariana pegou o tablet clínico para revisar os últimos exames de imagem e mudou a postura para o tom profissional.

​— Bem, vamos ao que interessa: a sua alta — Mariana disse, olhando nos olhos azuis de Kayla. — A sua recuperação é excelente. O edema cerebral sumiu e os exames de laboratório estão impecáveis. Em três meses, Kayla, você estará liberada para voltar aos palcos e à rotina de gravação da Som Livre. Mas preciso ser muito clara sobre uma coisa: o impacto contra o asfalto deixou uma pequena sequela motora na musculatura profunda da sua perna esquerda e do quadril. Não compromete os seus movimentos, mas se você se exercitar muito ou passar horas pulando no palco com a guitarra pesada, você vai sentir dores agudas. Você vai precisar de fisioterapia contínua e, acima de tudo, respeito ao tempo do seu corpo. Fora isso, você está perfeita.

​Kayla engoliu em seco, assimilando o limite do seu novo ritmo, mas assentiu com a cabeça. O palco ainda a esperava. No entanto, uma pergunta mais íntima e dolorosa travava em sua garganta desde a noite do acidente. Ela olhou para as próprias mãos sobre o lençol.

​— Doutora... e quanto ao meu útero? — Kayla perguntou, a voz descendo para uma nota mansa e vulnerável. — Por causa da perda do bebê e da cirurgia de emergência... eu vou poder engravidar de novo? Eu vou poder dar um filho para o Logan no futuro?

​Mariana amoleceu a expressão, aproximando-se para segurar a mão de Kayla com profunda empatia.

​— Com toda a certeza, Kayla. A curetagem e a sutura que o próprio Logan conduziu na sala de choque foram impecáveis. O seu útero está totalmente preservado, saudável e sem aderências. Quando o seu corpo estiver recuperado e o trauma psicológico passar, você e o Logan poderão sim ter quantos filhos quiserem. O compasso da maternidade ainda está aberto para você.

​O Despertar do Doutor

​Um som de inspiração profunda veio da cama de solteiro. Logan deu uma reviravolta abrupta, os olhos escuros abrindo-se de supetão ao escutar os termos médicos de Mariana. Ele sentou-se na cama em um reflexo puramente clínico, limpando a baba do canto da boca com as costas da mão, apressado.

​— Mariana? Que horas são? O que houve com os parâmetros? — Logan disparou, a voz absurdamente grave e rouca pelo sono cortado.

​— Calma, Doutor Alerta — Mariana riu alto, divertindo-se com a desorientação do amigo. — Bom dia para você também. Eu acabei de passar o diagnóstico da alta para a sua namorada.

​Logan levantou-se rapidamente, ajeitando a camiseta amassada, e caminhou até o lado de Kayla, deixando um beijo carinhoso no topo da cabeça dela antes de se voltar para a médica, recuperando sua postura focada.

​— Como está o laudo da ressonância de controle? A cicatrização interna do miométrio apresentou alguma fibrose residual? E o clearance de creatinina após os medicamentos? — Logan despejou as perguntas em um tom puramente clínico, os olhos fixos na amiga de faculdade.

​Mariana soltou um suspiro fingido de tédio. — Logan, a involução uterina está em parâmetros fisiológicos ideais, o hematoma retroperitoneal foi completamente reabsorvido e a função renal está com taxa de filtração glomerular acima de noventa. Em suma: pare de falar como se estivesse em um congresso de ginecologia. A sua namorada está ótima e está de alta.

​Kayla Drake olhava de um para o outro, balançando a cabeça, completamente perdida naquele emaranhado de termos técnicos e estatísticas de hospital. — É oficial. Vocês dois falando parece que estão cantando uma música em alemão. Alguém pode me traduzir em formato de rock, por favor?

​— Significa que você está livre desse quarto, minha Estrela — Logan sorriu de canto, os olhos escuros brilhando de um alívio puro.

​— Exatamente. Cuidem-se, casal cabeçudo — Mariana piscou para Kayla, assinou o documento físico na prancheta e saiu do quarto, deixando a porta de correr deslizar.

​No segundo em que ficaram a sós, Logan inclinou-se sobre a cama e capturou os lábios de Kayla em um beijo profundo, mansa e preenchido por uma saudade que parecia curar as feridas do asfalto. Suas mãos longas seguraram o pescoço dela com firmeza e doçura.

​— Eu vou pegar o carro — ele sussurrou contra a boca dela, tirando o celular do bolso da calça. — Vou avisar a sua mãe e a Candy que nós estamos saindo. O nosso apartamento está esperando por você.

​As Boas-Vindas na Lúcio Costa

​Duas horas depois, o carro de Logan estacionou na garagem subterrânea da cobertura na Avenida Lúcio Costa. Kayla Drake desceu com passos vagarosos, apoiando-se levemente no braço forte de Logan por causa da sensibilidade na perna esquerda, mas seu queixo estava erguido. Ela não trazia amarras; aquela era uma escolha inteiramente sua. Ela queria construir o seu futuro ao lado dele.

​Ao subirem pelo elevador privativo e a porta de inox se abrir diretamente na sala da cobertura, o som de um estouro de confetes cortou o ar.

​— BEM-VINDA AO SEU NOVO LAR, ESTRELA! — Candy berrou, pulando com os braços para cima, enquanto balões coloridos subiam até o teto de gesso.

​A sala ampla e ensolarada, com vista para o mar azul da Barra da Tijuca, estava completamente lotada pelo clã Laurentis Drake e pelos Lâfrer. Jace Drake estava perto do balcão da cozinha com um sorriso de puro orgulho ancestral, enquanto Rebekah corria com os olhos cheios de lágrimas para abraçar a filha, tomando um cuidado extremo com a perna dela. Os tios Derick e Letícia, junto com Anya e Guga, batiam palmas, e Garret e Lisa organizavam uma mesa farta de café da manhã com bolos e frutas.

​— A nossa casa está completa agora, minha linda — Rebekah sussurrou, beijando o rosto de Kayla, olhando para a filha que agora assumia a sua independência de forma definitiva.

​Jace caminhou até a filha e o genro, colocando as mãos calejadas nos ombros de ambos. — O palco está montado, Kayla. Você escolheu o seu parceiro de arranjo, e a banda inteira aprova o novo ritmo de vocês. Juízo nessa cobertura.

​Kayla olhou ao redor, vendo os rostos das pessoas que haviam passado semanas orando por ela na UTI. Depois, ela ergueu os impressionantes olhos azuis para encarar Logan, que mantinha o braço firme ao redor de sua cintura, exalando uma linha de proteção possessiva e madura.

​— Obrigada, gente — Kayla Drake disse, a voz saindo firme e cheia de emoção, o sorriso de canto voltando de forma definitiva aos seus lábios. — O acidente levou uma parte do nosso coração... mas trouxe a verdade do que a gente sente. Eu estou pronta para o próximo show.

​Enquanto a família conversava ruidosamente pela sala e Candy arrastava Lucas para mostrar a vista da varanda, Kayla e Logan trocaram um olhar cúmplice na penumbra do hall de entrada. A turnê mundial com a Som Livre começaria em alguns meses e as dores na perna seriam um desafio físico bruto, mas ali, dentro daquele apartamento que um dia fora palco de uma briga orgulhosa, Kayla Drake sabia que havia assinado o contrato mais definitivo de sua vida. Ela não era mais uma garota fugindo do elevador; ela era a mulher que escolhera morar nos braços do seu doutor, ditando, juntas, a melodia mais bonita de todo o seu futuro.