A Batida do Coração 3: O Acorde final
1 Acordes Invisíveis e Portas Abertas
O som do metrônomo parecia desnecessário no quarto de Kayla. Seus dedos longos e ágeis deslizavam pelo braço do violão de madeira escura com uma naturalidade assustadora, arrancando um acorde menor que chorava suave na penumbra da manhã. Kayla tinha dezessete anos e a certeza de que o mundo inteiro cabia dentro de uma canção bem escrita. Ela não ligava para os panfletos de vestibulares que os professores da escola insistiam em empilhar em sua mesa; sua faculdade era a estrada, o ateliê de costura da mãe onde buscava texturas para suas composições, e o estúdio de bateria do pai, onde aprendera a não temer o barulho.
— Kayla, meu amor, se você não começar a fechar essa mala, sua amiga vai achar que você desistiu de passar o fim de semana lá embaixo — a voz de Rebekah Laurentis ecoou da porta, trazendo o clássico perfume amadeirado que Kayla conhecia desde bebê.
Rebekah continuava deslumbrante. Os anos apenas haviam lhe conferido uma elegância ainda mais madura. Ela encostou-se no batente da porta, observando a filha com os olhos azuis idênticos aos dela cheios de um orgulho coruja.
Kayla soltou a última corda do violão, deixando o som morrer, e jogou os cabelos negros enormes para trás com o mesmo movimento dramático que a mãe fazia nas passarelas.
— A Candy sabe que eu não me atraso, mãe. Eu só estava terminando o refrão da música de hoje à noite — Kayla sorriu, levantando-se e colocando o violão com cuidado no suporte. — O Senhor Garret e a Lisa disseram que o bar vai estar lotado por causa do fim de semana.
— E você vai brilhar, como sempre — Jace Drake apareceu logo atrás de Rebekah, passando o braço forte pelos ombros da esposa e deixando um beijo carinhoso em sua têmpora antes de piscar para a filha. Jace usava uma camiseta escura e trazia a baqueta prendendo os cabelos compridos. A cicatriz no supercílio continuava ali, a marca de uma história que Kayla aprendera a respeitar. — Já conversou com a sua mãe sobre a decisão da gravadora? Eles ligaram de novo querendo agendar uma audição para as suas composições.
— Eu disse que só vou depois que o ano letivo acabar, pai — Kayla respondeu, fechando o zíper de uma mochila jeans cheia de botons de bandas de rock. — Quero fazer as coisas do meu jeito. Sem pressa.
— E você está certa — Jace assentiu com firmeza. Ele e Rebekah haviam construído um patrimônio sólido, mas a maior riqueza que davam a Kayla era a liberdade. — Nós não vamos nos meter nisso. O seu talento é seu, filha. Se você decidiu que o palco do bar do Garret é o seu ponto de partida, nós estamos na primeira fila.
Rebekah aproximou-se, ajeitando o colar no pescoço da filha e entregando-lhe uma sacola com alguns doces que havia comprado. — Juízo lá embaixo, está bem? O Garret e a Lisa viajaram para o aniversário da tia da Candy, então a casa é de vocês. Não destruam o loft dos Lâfrer.
— Pode deixar, dona Rebekah! — Kayla riu, dando um beijo estalado no rosto do pai e depois no da mãe. Ela pegou a mochila, o violão na capa acolchoada e saiu pela porta do loft, o coração batendo no ritmo animado do fim de semana.
O Baralho da Amizade e o Bar dos Lâfrer
Três anos atrás, o apartamento imediatamente abaixo do clã Laurentis Drake havia sido comprado pela família Lâfrer. Garret, um homem de riso fácil e gosto refinado para o jazz, e Lisa, uma chefe de cozinha de mão cheia, haviam se mudado para o Rio de Janeiro com a filha caçula, Candy. A conexão entre Kayla e Candy fora instantânea, como duas notas que se encaixam no mesmo compasso.
À noite, o pequeno e charmoso bar de jazz que Garret e Lisa mantinham no térreo do bairro era o refúgio delas. Kayla subiu ao pequeno palco de madeira, sob a luz âmbar focal, e dedilhou seu violão. Sua voz, encorpada e suave ao mesmo tempo, preencheu o ambiente. Candy estava sentada na primeira banqueta do balcão, batendo palmas entusiasmada, com os olhos brilhando a cada estrofe. Os poucos clientes remanescentes acompanhavam o ritmo com a cabeça. Era ali que Kayla se sentia viva. Ela não precisava de diplomas acadêmicos; precisava daquela conexão puríssima com a música.
Quando o bar fechou, por volta de uma da manhã, as duas subiram para o loft dos Lâfrer. O apartamento era aconchegante, repleto de discos de vinil e quadros de Nova Orleans. Sem os pais de Candy em casa, o quarto da menina virou uma pista de dança particular.
O Acorde Turbulento da Madrugada
Uma música pop barulhenta saía das caixas de som do quarto de Candy. As duas garotas pulavam em cima da cama de casal, rindo alto, com os cabelos bagunçados e usando escovas de cabelo como microfones imaginários. Kayla dava uma pirueta, os olhos azuis brilhando de pura adrenalina juvenil, enquanto Candy tentava fazer uma coreografia desajeitada.
De repente, a porta do quarto, que estava apenas encostada, foi empurrada com uma força controlada.
A música continuou tocando, mas o movimento fez as duas pararem no topo do colchão, os peitos subindo e descendo pela falta de ar. Parado exatamente no vão da porta, com uma mala de viagem de couro escuro ao lado dos pés, estava um homem.
Ele usava uma calça de alfaiataria cinza e uma camisa social preta com os primeiros botões abertos, revelando uma postura imponente e absurdamente séria. O rosto tinha traços marcantes, o maxilar travado e olhos escuros que pareciam analisar o caos do quarto com uma frieza cirúrgica. Ele tinha vinte e cinco anos e exalava a autoridade silenciosa de quem acabara de passar anos dentro de salas de cirurgia e hospitais universitários.
— Nossa... que barulho — ele disse, a voz saindo em um tom grave, limpo e cortante, sem esboçar um único sorriso.
Candy arregalou os olhos castanhos, soltou a escova de cabelo no colchão e soltou um grito que quase ensurdeceu Kayla:
— IRMÃO!
Num impulso, Candy correu pela cama, saltou para o chão e se jogou com tudo no colo do homem, envolvendo o pescoço dele com os braços em um abraço apertado e desesperado. Logan Lâfrer cambaleou um passo para trás com o impacto, mas seus braços fortes seguraram a irmã caçula automaticamente. Um vinco suave na testa dele relaxou por apenas um segundo ao sentir o carinho de Candy.
— Você não disse que vinha só na semana que vem! — Candy berrava contra o ombro dele. — Meu Deus, Logan! Você se formou! Você é médico de verdade agora!
— Eu consegui adiantar a documentação da residência no hospital da cidade, Candy — Logan respondeu, a voz mantendo aquela cadência firme e profissional enquanto ele a colocava de volta no chão, ajeitando as mangas da própria camisa. — Queria fazer uma surpresa. Mas pelo visto, cheguei no meio de um festival de rock.
Enquanto os dois conversavam na porta, Kayla Drake continuava de pé em cima da cama. Suas mãos estavam presas nos bolsos do shorts jeans e seus olhos azuis observavam a cena com uma atenção redobrada.
Ela conhecia Logan Lâfrer. Ou melhor, achava que conhecia. Nos últimos três anos, Candy havia lhe mostrado dezenas de fotos do irmão mais velho que morava em outra cidade por causa da renomada faculdade de medicina: fotos dele recebendo prêmios acadêmicos, fotos sérias em jantares de gala ou imagens analógicas antigas de infância. Nas fotos, Kayla sempre o achara bonito, mas ali, ao vivo, sob a luz fraca do corredor do loft, a realidade era muito mais impactante. Logan era alto, possuía uma beleza rústica e uma presença tão densa que parecia roubar todo o ar do quarto.
No entanto, o tom mandão e a arrogância implícita na forma como ele olhara para a diversão delas fez o sangue de Kayla — aquele mesmo sangue rebelde dos Telles — subir quente pelas bochechas.
Logan desviou o olhar da irmã e mirou diretamente em Kayla. Seus olhos escuros e analíticos cruzaram com os azuis gélidos da designer e musicista. Houve um segundo de silêncio absoluto no quarto, quebrado apenas pelo chiado da música que Candy finalmente correu para desligar no celular.
Kayla não desceu da cama. Ela sustentou o olhar dele, erguendo o queixo com aquela determinação altiva que assustava os professores do colégio. Ela percebeu o olhar dele descer rapidamente pelo seu violão encostado na parede antes de voltar para o seu rosto.
"Lindo", Kayla pensou, sentindo o seu coração dar uma batida irritada e desconhecida no peito. "Lindo e completamente insuportável. Eu vou manter distância desse cara."
— Logan, essa é a Kayla! A filha do Jace e da Rebekah do andar de cima, que eu te falei por telefone! — Candy explicou, animada, quebrando o gelo que ameaçava congelar o quarto.
Logan apenas inclinou a cabeça sutilmente em um cumprimento formal, sem desfaçatez. — Prazer, Kayla. Já ouvi falar muito de você e da sua... música.
— O prazer é meu, Doutor Lâfrer — Kayla respondeu, a voz saindo firme, carregada de uma ironia mansa que fez Logan erguer uma sobrancelha. Ela desceu da cama com passos calmos, pegando sua manta na poltrona. — Candy, acho melhor a gente ir deitar. O seu irmão parece ter tido um longo plantão de viagem.
Logan não respondeu. Ele apenas pegou sua mala de couro, girou o corpo e caminhou em direção ao quarto de hóspedes no fim do corredor, deixando para trás um rastro de perfume amadeirado e uma eletricidade nova que o loft dos Lâfrer nunca experimentara. Kayla olhou para a porta vazia, sentindo que o compasso daquele fim de semana havia mudado por completo. A residência médica de Logan estava apenas começando, mas a música de Kayla Drake acabara de ganhar o seu acorde mais perigoso.
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