A Batida do Coração 3: O Acorde final

2 O Ritmo do Coração e o Diagnóstico do Olhar



​O domingo amanheceu preguiçoso no Rio de Janeiro, mas a mente de Kayla Drake já estava em alta rotação. Sentada na ponta da cama de seu quarto, no loft do andar de cima, ela segurava uma xícara de chá intocada enquanto olhava fixamente para a parede cheia de pôsteres de festivais antigos.

​Pela primeira vez em dezessete anos, ela não conseguia se concentrar na letra que tentava escrever no bloco de notas. A imagem daquela madrugada insistia em invadir seus pensamentos: os olhos escuros, analíticos e profundamente arrogantes de Logan Lâfrer. Ela lembrava da forma como a camisa preta dele estava desalinhada, do perfume amadeirado caro que havia tomado conta do corredor e daquela voz grave que parecia dar ordens até quando dizia apenas "bom dia".

​— Que droga, Kayla... — ela resmungou para si mesma, largando a xícara na mesa de cabeceira e passando as mãos pelo rosto, bagunçando os cabelos negros enormes. — O cara é médico. Tem vinte e cinco anos, é o irmão mais velho e careta da sua melhor amiga e provavelmente acha que o mundo gira em torno do estetoscópio dele. É uma péssima ideia. Uma ideia horrível. Esquece isso.

​Ela pegou o violão, forçando os dedos a ditar um acorde maior e barulhento para espantar o fantasma do doutor de sua cabeça. Ela precisava focar na noite de hoje. O bar estaria lotado, e o palco era o único lugar onde ela mandava nas próprias batidas.

​O Palco Âmbar e a Plateia de Elite

​Quando a noite caiu, o pequeno bar de jazz e rock da família Lâfrer estava com a sua capacidade máxima. O cheiro de petiscos coloniais, cerveja artesanal e o murmúrio alegre das conversas preenchiam o ambiente rústico iluminado por luminárias decorativas de filamento.

​Nas mesas centrais, a realeza da música de Santa Bárbara marcava presença. Jace Drake e Rebekah Laurentis lideravam a mesa, orgulhosos. Ao lado deles, os eternos tios de consideração de Kayla: Lucas Silva, bebericando uma dose de uísque com o mesmo espírito irreverente de sempre, e Pedro, batendo os dedos de leve no balcão acompanhando o som ambiente. Até mesmo o avô Guga e a avó Anya haviam descido para prestigiar a neta.

​No canto oposto do balcão, longe da algazarra dos músicos, Logan Lâfrer estava sentado em uma banqueta alta. Ele usava uma camisa polo escura, com os braços fortes cruzados sobre o peito, mantendo aquela postura séria de quem estava prestes a entrar em um centro cirúrgico. Lisa e Garret, seus pais, limpavam alguns copos atrás do balcão, radiantes por terem o filho de volta na cidade.

​— Ela vai tocar aquela que compôs semana passada, Jace? — Lucas perguntou, inclinando-se na mesa e dando uma cutucada no ombro do baterista.

​— Vai sim, Lucas. A menina passou a tarde afinando a guitarra — Jace respondeu, os olhos escuros brilhando de orgulho enquanto ajustava a postura na cadeira. — O talento de composição dela está deixando até a gravadora maluca.

​Microfone chiando de leve.

​As luzes do bar se reduziram a um tom âmbar e azulado, focando exclusivamente no pequeno palco de madeira. Kayla subiu os degraus. Ela usava uma jaqueta de couro preta estilizada pela mãe sobre um cropped, shorts jeans e trazia sua fiel guitarra vermelha pendurada no ombro. Quando ela jogou os cabelos negros enormes para trás e encarou a plateia, seus impressionantes olhos azuis capturaram a luz do ambiente.

​Seu olhar varreu o bar. Ela sorriu para os pais e para os tios, mas seu coração deu um solavanco involuntário quando, no canto do balcão, seus olhos cruzaram diretamente com os de Logan. Ele não desviou. Continuou encarando-a com aquela seriedade cirúrgica.

​Kayla respirou fundo, ajustou o microfone e começou a dedilhar.

​A Frequência Cardíaca Interrompida

​A melodia que Kayla arrancou da guitarra vermelha era intensa, um rock moderno misturado com a melancolia que ela parecia ter herdado das velhas histórias da família. Quando sua voz ecoou pelas caixas de som — encorpada, potente e cheia de uma atitude puríssima —, o bar inteiro silenciou.

​No palco, Kayla se transformava. Ela fechava os olhos, sentindo cada nota, e a determinação de sua postura comandava o ambiente. Candy, na lateral do palco, pulava de leve e batia palmas, sendo a fã número um de sempre.

​Na mesa da banda, Lucas soltou um assobio baixo. — Rapaz... o sangue dos Telles e o corte da Laurentis. Essa menina vai engolir os palcos do mundo, Jace.

​— Ela é gigante, Lucas — Rebekah sussurrou, limpando uma lágrima discreta de orgulho, enquanto Jace apertava a sua mão por cima da mesa, sentindo que o legado estava seguro.

​No balcão, a reação foi diferente. Logan Lâfrer permaneceu estático, mas seus braços lentamente se descruzaram. Conforme a voz de Kayla atingia o refrão mais alto e passional, Logan sentiu uma pressão estranha e desconhecida no centro do peito. Ele, que passara os últimos anos estudando a anatomia humana, os batimentos cardíacos e as reações clínicas, não conseguiu encontrar um diagnóstico para o que estava sentindo naquele exato momento. A garota de dezessete anos que ele julgava ser apenas uma adolescente barulhenta estava, literalmente, dominando o ar do recinto.

​Logan soltou o ar que segurava pelos lábios em um suspiro longo e pesado. O maxilar dele travou ainda mais.

​"O que é isso?", ele pensou, sentindo os próprios batimentos acelerarem contra a sua vontade de médico focado. Ele desviou o olhar por um segundo, fixando-o no copo de gelo à sua frente, antes de voltar a encarar a figura magnética de Kayla no palco. "Não... ela é uma criança. É a melhor amiga da minha irmã caçula, acabou de sair da escola. Ela é só uma menina e você tem uma residência médica para assumir amanhã, Logan. Mantém a distância."

​O Fim do Acorde

​A música terminou com um acorde vibrante e prolongado da guitarra vermelha. O bar do Garret explodiu em aplausos, gritos e batidas de copos nas mesas. Lucas e Jace depararam-se de pé, aplaudindo alto, enquanto Guga gritava o nome da neta no fundo do salão.

​Kayla sorriu, agradecendo ao público com uma reverência charmosa. Ao descer as escadas do palco, Candy correu para abraçá-la.

​— Amiga, você foi perfeita! Você viu a cara de todo mundo?! — Candy exclamou, eufórica.

​— Obrigada, Candy — Kayla sorriu, mas seus olhos azuis buscaram automaticamente o balcão.

​Logan Lâfrer estava de pé. Ele deu dois nós de aplausos contidos, trocou uma palavra rápida com o pai, Garret, e girou o corpo em direção à porta de saída que dava para o hall dos elevadores do prédio, retirando-se antes que a multidão o cercasse. Ele caminhava com os ombros rígidos, fugindo de uma frequência cardíaca que ele não conseguia controlar.

​Kayla observou a silhueta dele sumir pela porta de vidro. Um sorriso audacioso e sutil de canto surgiu nos lábios da jovem Drake. O doutor achava que mandava no hospital, mas ali, no terreno da música, Kayla Drake sabia exatamente como desalinhar o prontuário de Logan Lâfrer. A distância que ambos prometeram manter estava prestes a se tornar a linha mais difícil de não cruzar.