A Batida do Coração 3: O Acorde final
25 A Linha do Horizonte e o Falso Acorde
A busca por Kayla Drake transformou as quarenta e oito horas seguintes em um pesadelo burocrático e desesperado. Logan, Jace e Rebekah rodaram cada hotel boutique da zona sul, bateram na porta de estúdios independentes e confrontaram a recepção da Som Livre com advogados. A resposta da gravadora era sempre uma parede de silêncio jurídico: Kayla era maior de idade, dona de suas escolhas e estava sob cláusula de confidencialidade de imagem.
Sem alternativas oficiais, Jace Drake usou seus contatos do velho mundo do rock e recorreu a uma delegacia especializada. Sabendo como as engrenagens do sistema operavam contra o tempo, ele pagou uma quantia alta para que investigadores particulares fizessem uma varredura imediata no sistema de controle de fronteiras da Polícia Federal e nas listas de passageiros do Aeroporto Internacional do Galeão.
No fim da tarde de quinta-feira, o investigador-chefe entrou na sala reservada onde Jace e Logan aguardavam, jogando uma pasta de couro sobre a mesa.
— O rastreamento foi concluído, Drake — o homem disse, com uma seriedade fria. — Mas vocês chegaram tarde. O passaporte da Kayla deu saída no terminal internacional ontem às onze da noite. Um voo fretado pela própria Som Livre, direto para o aeroporto JFK. A sua filha já não se encontra mais no Brasil.
Logan Lâfrer deu um passo para trás, o peito subindo em um suspiro violento enquanto os olhos escuros fixavam-se na parede. Ela havia cruzado o oceano. Havia fugido para longe de sua órbita, levando o seu orgulho e o seu quadril machucado para o epicentro do mercado mundial.
Os Bastidores de Manhattan
Enquanto o Rio de Janeiro ficava para trás, Nova York operava sob um frio cortante de outono. Dentro de um estúdio de ensaios subterrâneo no Brooklyn, o som da guitarra vermelha de Kayla Drake ecoava alto, mas o ritmo estava ligeiramente quebrado.
Kayla estava de pé sob os refletores de led branco. Suas bochechas estavam mais magras, e os impressionantes olhos azuis carregavam olheiras profundas que a maquiagem pesada tentava esconder. A dor na musculatura profunda do quadril esquerdo havia se tornado um monstro insuportável devido às horas de voo e ao frio da cidade. Sua perna esquerda tremia visivelmente a cada movimento mais brusco, e o suor frio escorria pelo seu pescoço.
Espanando as cordas com raiva, ela errou a nota final do solo e soltou uma praga, apoiando-se no pedestal do microfone para não cair.
— Corta o som! — a voz de Rick Vance, o empresário internacional designado pela gravadora para gerenciar a turnê americana, ecoou pelo estúdio.
Rick, um homem de quarenta anos com terno sob medida e um olhar predatório, caminhou até o palco segurando uma pequena caixinha metálica. Ele avaliou a postura debilitada de Kayla com uma frieza puramente comercial.
— Você está lenta, Drake. O público da Mercury Lounge não pagou para ver uma deusa do rock mancar no palco — Rick disparou, a voz saindo em um tom de cobrança ácida.
— A minha perna... o impacto do acidente está cobrando o preço por causa do frio — Kayla justificou, a voz rouca, os dedos apertando o braço da guitarra. — Eu preciso de um intervalo. Me arruma um analgésico forte, Rick. O Logan disse que se eu forçar sem proteção...
— Esquece o seu médico brasileiro, garota. Ele está a milhares de quilômetros de distância e não bota dinheiro na sua conta — Rick o interrompeu, abrindo a caixinha metálica e revelando um pó branco, fino e cristalino. Ele estendeu um canudo curto na direção dela. — Remédio de farmácia demora duas horas para agir e te deixa dopada, sem energia para o show. Isso aqui é o que as verdadeiras estrelas usam para calar a dor e incendiar o palco. Limpa a mente, desliga o corpo e te dá a voltagem que você precisa em três segundos. É o seu passaporte para o topo, Kayla. Vai recuar agora ou vai ser a estrela que nasceu para ser?
Kayla olhou para o pó na caixinha. O aviso clínico de Logan ecoou em sua mente como um eco distante: "Você está trocando o resto da vida dela sobre as duas pernas por um capricho". Mas o ultimato da Som Livre, o orgulho ferido e o medo do fracasso falaram mais alto. Ela não ia perder tudo.
Com os dedos trêmulos, Kayla Drake pegou o canudo, inclinou o corpo sobre a caixinha e cheirou a substância pela primeira vez na vida.
O impacto foi imediato e devastador. Uma onda de calor químico subiu pelo seu sistema nervoso central, fazendo suas pupilas dilatarem ao máximo. A dor no quadril esquerdo desapareceu instantaneamente, anestesiada por uma euforia artificial e violenta. Seu coração disparou, operando em uma frequência cardíaca perigosa. Kayla ergueu o queixo, soltando uma risada limpa, audaciosa e completamente desconectada da realidade.
— É disso que eu estou falando — Kayla sibilou, os olhos azuis brilhando com uma intensidade maníaca enquanto ela batia no corpo da guitarra vermelha. — Vamos pro show.
O Alerta na TV do Sétimo Andar
Na mesma noite, na sala do loft do sétimo andar na Barra da Tijuca, o clima era de vigília. Jace e Rebekah estavam sentados no sofá com semblantes exaustos. Logan estava de pé perto da varanda, os braços cruzados, os olhos escuros fixos no vazio da orla.
A porta do loft abriu-se abruptamente e Candy Lâfrer entrou correndo, com o celular na mão e o rosto pálido de puro choque.
— LIGA A TV! AGORA! — Candy berrou, a voz trêmula de desespero. — Uma página de música de Nova York acabou de abrir uma transmissão ao vivo. A Kayla está no palco da Mercury Lounge agora!
Jace pegou o controle remoto e ligou a imensa tela de TV na parede. A imagem digital, transmitida diretamente de Manhattan, invadiu a sala com o som ensurdecedor de uma plateia americana gritando.
Lá estava ela. Kayla Drake no centro do palco, sob luzes estroboscópicas vermelhas e azuis. Ela tocava a guitarra com uma velocidade impressionante, quase sobre-humana, mas seus movimentos eram desconexos, bruscos e frenéticos. Os cabelos negros enormes voavam enquanto ela pulava e forçava a perna esquerda no chão sem hesitação, rindo de forma descontrolada para a câmera.
Rebekah levou as mãos à boca, os olhos cheios de lágrimas. — Meu Deus... ela está conseguindo tocar! A dor sumiu?
Logan Lâfrer deu dois passos rápidos em direção à tela, estreitando os olhos escuros. Como médico experiente e como o homem que conhecia cada milímetro da reatividade dela, seu diagnóstico foi instantâneo e terrível. Ele não viu arte ali; viu um colapso clínico em andamento.
— Ela não está normal, Tia Rebekah... — Logan disse, a voz descendo para um tom mansa, gélida e pausada pelo horror. Ele apontou para o visor da TV. — Olhem para as pupilas dela. Olhem para o reflexo das luzes nos olhos dela... estão totalmente dilatadas, mesmo sob o foco direto dos refletores. O ritmo dos movimentos dela está acelerado demais, a sudorese no pescoço está em nível de choque térmico e ela está forçando a articulação do quadril de um jeito que a anatomia dela não permitiria sem um bloqueador químico pesado no cérebro.
Jace Drake olhou para o genro, a linha do maxilar rígida. — O que quer dizer com isso, Logan? Infiltração?
— Não é infiltração, Tio Jace... — Logan respondeu, os punhos cerrados nos bolsos da calça com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos, as lágrimas de pura raiva e pânico brilhando em seus olhos escuros. — Aquilo ali é estimulante de alta potência. A Som Livre drogou a Kayla para ela conseguir cumprir o show. Ela está cheirando, Tio Jace. O Albuquerque colocou a minha menina na rota da overdose só para não perder os patrocinadores da turnê.
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