A Batida do Coração 3: O Acorde final

26 O Reverso da Medalha e as Fileiras de Vidro



​A confirmação visual da TV foi o estopim. Em menos de três horas, Jace Drake e Logan Lâfrer já cruzavam os portões de embarque do Galeão em direção a Nova York, movidos por um misto de urgência cega e desespero. O voo de nove horas pareceu durar uma eternidade para os dois homens. Na poltrona da aeronave, Logan não abriu os olhos; sua mente de médico calculava o tempo de meia-vida da substância no organismo de Kayla e o tamanho do estrago que o impacto contínuo causaria naquele quadril sem o aviso biológico da dor. Jace, ao seu lado, mantinha os punhos cerrados, o silêncio do velho lobo do rock sendo mais assustador do que qualquer explosão.

​A Invasão no Hotel de Manhattan

​Passava das onze da manhã quando eles estacionaram o táxi amarelo em frente ao The Standard, um hotel de luxo no Meatpacking District, onde os artistas da gravadora costumavam se hospedar. A segurança na portaria era rígida, mas Jace Drake conhecia os bastidores daquele mundo. Eles deram a volta pelos fundos, acessando o corredor de serviço.

​No 12º andar, Logan interceptou um carrinho de serviço de quarto. Com uma nota alta de cem dólares e uma postura imponente que não dava margem para questionamentos, ele afastou o funcionário e assumiu o controle do carrinho de inox, avançando com Jace até a porta da suíte master.

​Logan bateu firme na madeira escura. — Room service — anunciou, forçando uma voz mansa e pausada em inglês.

​A fechadura eletrônica deu um estalo e a porta se abriu. Kayla Drake apareceu no vão. Ela usava um roupão de seda branca do hotel, os cabelos negros enormes totalmente desgrenhados e os impressionantes olhos azuis dilatados, amendoados pelo cansaço e pelo efeito residual do estimulante.

​Ao focar nos rostos de Logan e de seu pai, o choque foi imediato. Ela recuou dois passos, empurrando a porta para tentar fechá-la. — O que... o que vocês estão fazendo aqui?!

​Logan empurrou a folha de madeira com o corpo, entrando na suíte como um furacão, a raiva possessiva e o pânico acumulados explodindo em sua voz grave, que ecoou pelas paredes do quarto luxuoso.

​— VOCÊ ENLOUQUECEU, KAYLA?! — Logan gritou, os olhos escuros faiscando de puro ódio e desespero clínico. — Você cruzou o oceano para se transformar nisso?! Para virar um fantoche dopado na mão de um empresário canalha?! Olha para o seu estado! Você mal consegue parar em pé sem tremer!

​— Não grita comigo no meu quarto! — Kayla rebateu, a voz saindo rouca, estridente e alterada, o gênio Drake blindado pela substância química que ainda corria em suas veias. — Eu sou a estrela do show! Eu fiz o palco tremer ontem à noite! Vocês vieram aqui para me amarrar? Para me dar um laudo de invalidez?!

​Enquanto os dois batiam de frente, Jace Drake caminhou em silêncio absoluto até a mesa de vidro perto da janela, que tinha uma vista limpa para o rio Hudson. O baterista experiente parou diante do móvel. Seus olhos escuros focaram no que estava ali: um espelho de moldura dourada e, sobre o vidro, três fileiras perfeitas e alinhadas de pó branco, junto com um cartão de crédito da gravadora.

​O peito de Jace subiu em um suspiro violento, uma decepção brutal moldando as rugas de seu rosto. Ele virou-se devagar, apontando para a mesa.

​— Então o seu ritmo novo é esse aqui, Kayla? — Jace perguntou, a voz rústica descendo para uma nota perigosamente mansa, mas carregada de uma autoridade que fez o quarto silenciar por um segundo. Ele caminhou até a filha. — Eu passei trinta anos nessa estrada. Eu vi os maiores gênios da minha geração morrerem engasgados no próprio vômito em quartos de hotel exatamente iguais a esse por causa dessa merda. Eu achei que tinha criado uma Drake. Achei que você tinha o meu sangue e o respeito pela música. Mas você virou só mais uma clichê de bastidor. Uma viciada que precisa de canudo para conseguir solar uma guitarra.

​O impacto das palavras do pai bateu na mente de Kayla, mas a droga era quem ditava o compasso de suas respostas naquele momento, distorcendo sua percepção e injetando um veneno defensivo em suas palavras.

​— VOCÊ NÃO SABE DE NADA, PAI! — ela berrou, apontando o dedo na direção de Jace, as lágrimas de pura paranoia escorrendo por suas bochechas pálidas. — Você está velho! O seu tempo já passou! Você quer que eu seja uma fracassada como você, que vive de tocar em bar de esquina na Barra da Tijuca?! A Som Livre me colocou no topo do mundo! Se para ficar lá eu preciso disso, eu vou usar! Eu não preciso de um pai controlador e nem de um médico possessivo ditando as minhas batidas! Vão embora! Sumam do meu mapa!

​Jace Drake deu um passo para trás, como se tivesse levado um soco físico no estômago. Ele olhou para a própria filha — a menina com quem dividia os palcos e os solos de bateria — e não a reconheceu mais ali. A armadura dela havia virado uma barreira de degradação.

​— Você tem razão, Kayla. O meu tempo de tentar te salvar acabou — Jace disse, a voz saindo oca, preenchida por uma tristeza ancestral. Ele deu as costas para a cama. — A minha estrela morreu naquele asfalto. O que sobrou aqui foi só o bagaço de uma gravadora.

​Sem olhar para trás, Jace Drake caminhou até a porta e saiu da suíte, deixando o corredor vazio com o som de seus passos pesados.

​O Último Diagnóstico

​No quarto, o silêncio que se instalou entre Logan e Kayla foi sepulcral. Kayla respirava curto, os ombros subindo e descendo, os olhos azuis desafiando o namorado na penumbra do hotel.

​Logan caminhou devagar até ela. Ele parou a poucos centímetros do rosto de Kayla, mas não estendeu a mão para tocá-la. Não havia mais a raiva do início ali; seus olhos escuros agora carregavam apenas a frieza gélida e definitiva de um médico que assina um atestado de óbito.

​— O seu útero estava limpo, Kayla... e a sua cabeça estava perfeita — Logan começou, a voz saindo mansa, pausada, cada palavra cortando o ar como um bisturi. — Eu bati de frente com a Som Livre porque eu queria proteger o seu direito de ser mãe de novo no futuro. Eu queria proteger a mulher que eu amo do limite físico de uma sequela. Mas você preferiu o canudo. Você preferiu dopar o seu cérebro para conseguir aplausos de um bando de americanos que não sabem o seu nome.

​Ele inclinou o corpo, o rosto colado ao dela por uma última vez, o hálito quente vindo curto.

​— Parabéns pelo show de ontem, Estrela — Logan sussurrou, o veneno e a dor misturados em seu tom de voz. — Mas o meu prontuário com você acabou de ser arquivado. Eu gastei a minha última oração na UTI daquele hospital Regional. Não me procure quando a sua perna parar de responder de verdade e o pó não fizer mais efeito. Você está por sua conta.

​Logan Lâfrer deu as costas, pegou a sua pasta de couro sobre o carrinho de serviço e cruzou o batente da porta sem olhar para trás, fechando a suíte master com um estalo seco que decretou a ruptura final do arranjo deles.

​O Retorno ao Vazio

​Na manhã de sexta-feira, o voo de volta ao Rio de Janeiro foi um deserto de palavras. Jace e Rebekah se encontraram na sala do loft do sétimo andar assim que o baterista cruzou a porta. O semblante de Jace estava envelhecido em dez anos.

​Rebekah correu até o marido, olhando para trás dele, esperando ver a filha. — Jace... cadê ela? Vocês conversaram? Ela veio com vocês?

​Jace Drake desabou no sofá de couro, cobrindo o rosto com as duas mãos fortes, os ombros largos tremendo sutilmente enquanto ele soltava a verdade mais dolorosa de sua vida.

​— A nossa menina está perdida, Rebekah... — Jace confessou, a voz falhando, o choro rústico e contido de um pai que assistiu à ruína do próprio sangue. — A Som Livre acabou com a alma da Kayla. O quarto dela estava cheio de pó, Rebekah. Ela gritou na minha cara que o meu tempo passou. A droga assumiu o controle da nossa estrela... Não tem mais como trazer ela de volta agora.

​Rebekah caiu de joelhos no tapete da sala, unindo-se ao marido em um pranto desesperado, o bilhete de Kayla de dias atrás parecendo agora uma profecia maldita.

​O Desespero na Lúcio Costa

​Enquanto isso, na cobertura da Avenida Lúcio Costa, o cenário era de puro abandono. Logan entrou no apartamento e não tirou o casaco escura. Ele caminhou até o quarto principal, parando diante da imensa cama de lençóis escuros, onde semanas atrás ele massageava o quadril dela e prometia que o mundo esperaria o laudo de reabilitação.

​O silêncio do apartamento era ensurdecedor. A ausência do perfume de sândalo e o vazio das gavetas dela batiam como ondas de choque em seu peito.

​Logan desabou no chão, encostando as costas na lateral da cama. O homem controlado, o cirurgião chefe que nunca permitia que as emoções borrassem o foco de suas mãos, enterrou o rosto nos joelhos e começou a chorar. Era um choro alto, desesperado, sôfrego, carregado de toda a culpa pelo bebê que perderam e pela mulher que ele não conseguira salvar da ganância do mercado. Seu peito subia e descia em jatos violentos de ar na penumbra do quarto.

​Vlap.

​A porta da frente foi aberta com a chave reserva. Candy Lâfrer entrou correndo no quarto, alarmada pelo som do pranto do irmão que ecoava pelo hall. Ao ver o irmão mais velho naquele estado de vulnerabilidade total, Candy sentiu o coração quebrar.

​She correu até ele, jogando-se no chão de taco e envolvendo o corpo largo de Logan em um abraço protetor e apertado. Ela colou o rosto no ombro dele, deixando suas próprias lágrimas caírem.

​— Ah, Log... meu Deus, Logan... eu estou aqui — Candy sussurrou, a voz chorosa, apertando os braços ao redor do pescoço do irmão mais velho, tentando servir de âncora contra aquela tempestade. — Chora tudo, meu irmão. Não guarda isso. A Kayla errou feio, mas você fez tudo o que podia fazer como homem e como médico. Você não tem culpa do orgulho dela.

​Logan agarrou o tecido da blusa de Candy, apertando a irmã contra si enquanto o choro descontrolado continuava a rasgar a sua garganta no silêncio da cobertura.

​O diagnóstico de seu relacionamento com Kayla Drake havia sido o mais doloroso de sua carreira: eles haviam sobrevivido ao trauma do asfalto e à dor da perda de Kyara, mas o orgulho inabalável da jovem guitarrista e as fileiras de vidro de Manhattan haviam quebrado, de forma definitiva, o último compasso daquela melodia.