A Batida do Coração 3: O Acorde final

3 Cetim, Flores e o Próximo Destino



​O dia da tão esperada formatura do Ensino Médio do Colégio Central finalmente havia chegado. O clima de despedida misturava-se à ansiedade do futuro no loft da família Lâfrer, que havia se transformado no quartel-general de preparação das meninas.

​Kayla e Candy não tinham pares para o baile, e sinceramente? Elas não se importavam nem um pouco. Haviam decidido, meses atrás, que aquela noite pertencia à amizade delas e à celebração de suas conquistas, sem garotos do colégio para ditar o ritmo da diversão.

​A sala de estar dos Lâfrer era puro caos: sprays de cabelo sobre as mesas, caixas de sapatos abertas e o cheiro doce de perfumes importados no ar. Rebekah Laurentis e Lisa Lâfrer comandavam os celulares e as câmeras digitais, com os olhos brilhando de emoção. Jace Drake e Garret Lâfrer dividiam o sofá com copos de cerveja na mão, rindo alto da empolgação das filhas.

​A Sessão de Fotos e o Brilho dos Vestidos

​— Meninas, pelo amor de Deus, parem de pular por dois segundos ou todas as fotos vão sair borradas! — Lisa pedia, rindo enquanto tentava focar a câmera.

​— Impossível, mãe! Nós sobrevivemos ao terceiro ano! — Candy exclamou, fazendo uma pose dramática.

​Candy usava um vestido curto rodado de cetim rosa-bebê que combinava perfeitamente com seu espírito solar e romântico. Ao lado dela, Kayla Drake reluzia. A designer Rebekah havia feito questão de desenhar o figurino da filha: um vestido longo, minimalista, de seda pura em tom azul-escuro, com uma fenda discreta na perna. Quando Kayla jogou os cabelos negros enormes para o lado e sorriu, seus impressionantes olhos azuis pareceram capturar toda a luz do apartamento.

​— Você está deslumbrante, minha linda — Rebekah sussurrou, aproximando-se da filha para ajustar uma mecha de cabelo atrás de sua orelha, os olhos cheios de lágrimas. — Parece que foi ontem que você estava de cabeça para baixo na mesa do meu ateliê.

​— Puxou à mãe, estilista — Jace Drake interveio do sofá, piscando para a filha. Ele usava um terno escuro elegante, mas mantinha o estilo rock clássico com os cabelos presos. — Mas se algum moleque daquela escola tentar pisar no seu pé no baile, me avisa que eu uso minhas baquetas para ajustar o compasso dele.

​— Deixa de ser ciumento, Jace! — Garret riu, dando um tapinha no ombro do amigo. — As duas mandam naquele colégio.

​Enquanto as mães organizavam as meninas de costas para mostrar os detalhes dos vestidos, uma silhueta alta e imponente travou na entrada do corredor da sala.

​Logan Lâfrer havia acabado de chegar do hospital. Ele ainda vestia calça social preta e uma camisa branca com as mangas dobradas até o antebraço, o estetoscópio espreitando no bolso de sua mochila. Ele parou, com os braços cruzados, observando a algazarra com sua habitual seriedade cirúrgica. Seus olhos escuros varreram a sala, mas demoraram exatamente três segundos a mais fixos na imagem de Kayla no vestido longo de seda. O azul do tecido parecia ter sido feito exclusivamente para acender o olhar dela.

​— Logan! Perfeito na hora certa! — Candy gritou ao ver o irmão, correndo de salto alto e tudo para puxá-lo pelo braço. — Os nossos pais beberam vinho e o Tio Jace e a Tia Bekah vão direto no carro deles com os meus pais para pegar as mesas VIPs. Você pode levar a gente? Por favor, por favor!

​Logan olhou para a irmã caçula e depois para a plateia de pais que o encaravam esperando a resposta. O maxilar dele travou sutilmente quando seu olhar cruzou com o de Kayla, que o media de cima a baixo com uma postura audaciosa, desafiando seu silêncio.

​— Eu levo vocês, Candy — Logan respondeu, a voz grave e pausada ecoando pelo ambiente. — E, na verdade... eu vou acabar ficando um pouco na festa.

​Candy arregalou os olhos. — Você? No baile do colégio? Achei que você odiasse festas de adolescente.

​— Eu preciso relatar a dinâmica social e o comportamento dos jovens para um projeto de saúde pública da minha residência — Logan justificou de forma técnica, o tom profissional impecável, embora seus olhos estivessem fixos na jovem Drake. — Quero ver como funciona a dinâmica do colégio hoje em dia. Nada mais que isso.

​Jace soltou uma risada baixa no sofá, trocando um olhar cúmplice com Rebekah. — O doutor é compenetrado no trabalho, Garret. Gostei de ver.

​Kayla deu um meio sorriso de canto, ajeitando a alça de sua bolsa. "Dinâmica do colégio, sei...", pensou ela, sentindo aquela eletricidade familiar e irritante subir pelo peito.

​O Trajeto no Carro: Notas Tensas no Ar

​O carro de Logan era um sedã escuro, impecavelmente limpo e com cheiro de couro novo e sândalo. Candy foi no banco da frente, mudando as estações de rádio a cada cinco segundos, enquanto Kayla se acomodou no banco de trás, com o vestido de seda espalhado pelo estofado.

​O trânsito do Rio de Janeiro em direção ao salão de festas estava moderado, mas o ambiente dentro do veículo parecia carregar uma pressão atmosférica própria. Pelo espelho retrovisor interno, os olhos escuros de Logan buscavam os azuis de Kayla com uma frequência que não tinha nada de científica.

​— ...e aí eu disse para o professor de história que a Kayla não ia fazer o Exame Nacional porque a carreira dela já estava traçada na música! Ele quase teve um colapso! — Candy falava sem parar, gesticulando.

​— Você devia ter mais respeito com as instituições de ensino, Candy — Logan pontuou, mudando a marcha do carro com precisão. A voz dele era calma, mas firme. — O Exame Nacional garante um plano B. Viver apenas de arte em um mercado instável é um risco estatístico alto. Não é, Kayla?

​A provocação direta fez Kayla inclinar-se ligeiramente para a frente no banco de trás, diminuindo a distância entre ela e o banco do motorista. O perfume de Logan invadiu seus sentidos.

​— Estatísticas servem para quem precisa de mapas para caminhar, Doutor Lâfrer — Kayla rebateu na hora, a voz mansa, mas carregada daquela audácia que herdara do clã Telles. Ela sustentou o olhar dele pelo retrovisor. — O meu pai nunca precisou de um plano B para mudar a história da música desse país, e a minha mãe não precisou de estatísticas para criar um império na moda. O ritmo não segue tabelas de hospital.

​Logan sentiu o maxilar travar. Ele apertou o volante de couro com um pouco mais de força, impressionado com a velocidade com que aquela garota de dezessete anos conseguia desarmar sua postura lógica.

​— O hospital lida com a realidade, Kayla. A vida real exige estrutura — Logan respondeu, a voz descendo um tom, preenchida por uma rigidez que tentava esconder o fato de que a presença dela ali atrás estava acelerando seus batimentos.

​— E a música lida com a alma — ela devolveu, com um sorriso vitorioso e doce nos lábios, recostando-se no banco de trás e olhando para o vidro da janela. — Se o senhor ficar tempo suficiente no baile hoje, talvez aprenda que nem todo coração bate no mesmo compasso do seu monitor cardíaco.

​Candy olhou de um para o outro, sentindo a faísca flutuar pelo painel do carro, e soltou uma risada abafada. — É, irmão... acho que você acabou de levar um diagnóstico.

​Logan não respondeu. Ele apenas acelerou o carro pela avenida Niemeyer, mantendo os olhos fixos na estrada, mas sabendo, lá no fundo de sua mente cirúrgica, que a tal "dinâmica do colégio" que ele viera analisar seria o menor dos seus problemas naquela noite. A batida do coração dele havia acabado de entrar em uma frequência perigosamente irregular.