A Batida do Coração 3: O Acorde final

41 Capítulo Último: O Prontuário do Tempo e a Melodia Invisível



​O sol de domingo começava a se deitar atrás do Maciço da Tijuca, pintando o céu da Barra com tons de um azul melancólico e dourado. Na cobertura da Avenida Lúcio Costa, o silêncio já não parecia um inimigo, mas um assistente mansa que ajudava o Doutor Logan Lâfrer a organizar os seus próprios pensamentos.

​Dois anos haviam se passado desde o acorde final na Candelária e o impacto daquele DVD vindo de Los Angeles. O Rio de Janeiro continuava no seu compasso vibrante, e a Som Livre, sob a gestão firme e humana de Jace e Rebekah, havia se tornado um santuário para a música real. Logan também havia seguido o seu curso. Ele não havia parado no tempo; afinal, a ala de trauma do Hospital Regional não esperava o luto de ninguém. Ele agora ostentava a maturidade definitiva de um dos cirurgiões mais respeitados do país. Seu jaleco de linho permanecia impecável, sua voz mantinha-se absurdamente grave e gélida quando ditava as regras no centro cirúrgico, mas o seu peito... o seu peito carregava uma cicatriz invisível que nenhuma cirurgia conseguiria fechar.

​Logan caminhou até a varanda, segurando um copo de uísque com duas pedras de gelo. O vento com cheiro de maresia bateu em seu rosto, trazendo de volta, em um milésimo de segundo, a memória sensorial do perfume de sândalo que um dia cortara o ar daquele mesmo lugar.

​O Diálogo com a Âncora

​O som suave da porta de vidro correndo indicou que ele não estava totalmente isolado. Candy Lâfrer entrou na varanda. Ela vestia uma roupa leve e trazia nos braços o seu filho pequeno, um bebê de poucos meses de vida cujo segundo nome, por uma escolha mansa e consensual da família, era Drake.

​Candy aproximou-se do irmão mais velho, encostando-se no parapeito de inox ao lado dele, observando o mar quebrar na orla.

​— Você passou o dia quieto, Log... — Candy comentou, a voz saindo mansa, preenchida por uma doçura de mãe que o tempo havia amadurecido. — Eu vi que você não foi ao almoço no Itanhangá com o Jace e a Rebekah. Fiquei preocupada.

​Logan deu um gole lento no uísque, o som do gelo batendo contra o vidro ecoando na noite que nascia. Ele olhou para o sobrinho adormecido nos braços da irmã e um sorriso mansa, o primeiro do dia, desenhou-se em seus lábios.

​— O Regional teve uma escala pesada na noite de ontem, Candy. Duas reconstruções de artéria — Logan explicou, a voz pausada e profunda. Ele desviou os olhos escuros de volta para a linha do horizonte, onde as luzes dos navios começavam a piscar. — E... hoje faz exatamente dois anos que o advogado de Los Angeles bateu na porta deles. Eu precisei de um plantão comigo mesmo para digerir o tempo.

​Candy suspirou, ajeitando a manta do bebê. — Você ainda pensa nela todos os dias, não é?

​Logan manteve o semblante firme, mas os seus olhos carregavam uma densidade honesta.

​— Não tem como não pensar, Candy. A Kayla não foi apenas uma namorada da juventude; ela foi a minha musa, a trilha sonora de tudo o que eu construí — ele confessou, a voz vibrando em uma nota de aceitação madura. — Eu ando pelos corredores do hospital, dito as regras para os residentes, opero os casos mais complexos de trauma... mas quando eu fecho os olhos antes de entrar no bloco, o laudo de Tóquio e o diagnóstico dela em Los Angeles ainda voltam na minha mente. Foi o diagnóstico mais difícil da minha vida, Candy. Como médico, eu sabia ler cada placa de metal que estava destruindo a biologia dela. E como homem... eu precisei aceitar o silêncio dela como o seu último ato de amor.

​— Ela te poupou porque te amava demais, Log — Candy disse, limpando uma lágrima solitária que subiu de seus olhos castanhos. — No final, depois de engolir a indústria e ficar bilionária, ela só queria que você continuasse de pé. Sem o pânico.

​— Eu sei — Logan respondeu, a linha de seu maxilar rígida assentando a emoção. — E eu estou de pé. A minha vida seguiu o curso exato da realidade. Eu não virei um fantasma, Candy. Eu sinto orgulho do homem que me tornei e da paz que tenho na minha rotina. Mas a Kayla... ela vai ser para sempre a dona do meu coração. O compasso dela ficou gravado na minha estrutura de um jeito que o tempo só faz o som ficar mais nítido.

​A Partitura Eterna

​Candy sorriu, deu um beijo mansa no ombro do irmão e deu as costas, caminhando de volta para o interior da cobertura para colocar o pequeno Drake no berço, deixando Logan sozinho com a imensidão do oceano.

​O Médico-Chefe terminou o seu uísque. Ele colocou o copo vazio sobre a mesa de centro, enfiou as duas mãos nos bolsos da calça escura e olhou para o céu estrelado do Rio de Janeiro.

​Ele sabia que nunca mais haveria outra turnê, outra discussão ruidosa no hall dos elevadores, ou o som da bota com salto 18 batendo contra o granito. Kayla Drake agora pertencia à história, imortalizada nas ações da Som Livre e nas caixas de som de milhões de fãs pelo mundo. Mas ali, no silêncio de sua varanda, Logan não sentia mais a dor do abandono ou o desespero da perda; ele sentia apenas a gratidão por ter sido o porto seguro da guerreira de titânio.

​Ele deu um suspiro profundo, sentindo o ar preencher seus pulmões com total facilidade, livre de qualquer crise. Logan Lâfrer estava seguindo a sua vida, exato, imponente e focado no seu presente. Mas a melodia invisível daquela garota de olhos azuis continuaria sendo o seu arranjo mais bonito, o acorde final que ele guardaria trancado na alma, garantindo que, não importa para onde a sua estrada o levasse, ele continuaria caminhando com a certeza de que a sua história de amor havia sido, para todo o sempre, algo inesquecível, eterno e monumental.