Capítulo Vinte
O desesperado reino do amor. | parte 2

Era a primeira vez em semanas que Tori tinha a oportunidade e coragem de direcionar uma palavra ao Diggory. O constrangimento que aconteceu na casa do menino nas férias mantinha uma barreira desconfortável entre os dois que o fazia evitá-la e ela, por assim achar melhor, retribuir.

Mas não podia negar o quanto era imenso o seu esforço em se manter afastada, pois era uma amizade que, com o tempo, tornou-se muito essencial em sua vida. Tentar ser indiferente foi muito difícil para ela.

— O-oi, Tori. — gaguejou e lançou um olhar feio aos amigos, quando esses cuspiram risinhos para ele.

— Podemos conversar? — pediu e desviou o olhar para um amigo do Lufano que simulava um beijo com as duas mãos e até fazia barulhinhos.

— Vamos sair daqui. — assentiu como resposta e praticamente arrastou a menina para fora do Salão, que teve que se esforçar para não tropeçar com os sapatos novos.

Alguns metros de distância da porta e Cedrico a soltou, agora assumindo uma postura séria e visivelmente magoada, a mesma que ele sempre usava quando estavam no mesmo lugar e o olhar de ambos se cruzavam.

— Cedrico, eu... Me perdoe! — Tori se acovardou no primeiro momento, mas depois conseguiu ir direto ao ponto — Por tudo o que aconteceu, por você ter me ajudado e no fim ter se ferrado. Por eu ter fingido algo e ter te feito sentir de verdade. Por não poder te retribuir e, principalmente, por ter demorado tanto para falar com você de novo. Eu só... Me perdoe. Por favor. — suspirou pesado e esperou por sua resposta.

— Tori, eu não posso obrigar ninguém a me retribuir. Eu não tenho esse direito. — desviou o olhar para os pés e assim permaneceu.

— Não me respondeu se me perdoa... — se aproximou de onde ele estava, causando-lhe visível nervosismo, e o encarou tempo o suficiente para incomodar e obrigar a ser retribuída.

— Acha mesmo que eu conseguiria te odiar? — Cedrico perguntou, enquanto erguia os olhos e encarava com a mesma intensidade.

Tori apenas deu de ombros, enquanto se encostava na parede e cruzava os braços. Ela pensou que um silêncio constrangedor se instalaria entre os dois naquele momento, mas se surpreendeu quando um ar mais confiante exalou do menino e ele até sorriu.

— Eu não te procurei mais porque, por mais que eu quisesse isso, eu precisava manter um pouco da minha dignidade. Você me deu um tremendo de um fora e eu fiquei o resto do dia chorando no colo da minha mãe que, a propósito, te odeia por ter magoado o bebê dela! — revirou os olhos com a lembrança e então começou a rir, um riso que derreteu todo o gelo que separava os dois — Por mim, esquecemos tudo isso que aconteceu. — chacoalhou os ombros algumas vezes.

— Jura? — a Evans se afastou da parede e o encarou como se não acreditasse no que estava ouvindo.

Cedrico assentiu em confirmação e sorriu.

Animada demais com a notícia, Tori soltou um gritinho e tentou abraçar gentilmente o outra vez amigo, mas na metade do caminho tropeçou nos próprios pés e teve que se agarrar no pescoço do Lufano para não cair de cara no chão.

Com o tombo que na verdade era para ser um afeto, Cedrico se assustou e em seguida acabou caindo na risada enquanto era estrangulado pelo abraço de urso da menina.

— O que é isso? — ele assentiu para baixo, ainda com lágrimas nos olhos pelo excesso de riso que ainda acontecia.

— Ideia das meninas... — um pouco constrangida pela segunda queda em cima de alguém naquele dia, Tori se recompôs e soltou o amigo — Desculpa. — apoiou uma mão na parede por precaução.

— Seu cabelo está diferente, as poucas sardas sumiram, está mais alta com esses sapatos... Qual o motivo disso tudo? — Cedrico se encostou outra vez e ficou encarando a amiga com curiosidade.

— Não é nada não. — a menina abriu um sorrisinho amarelo e não conseguiu manter o olhar.

— Nada que você queira falar. Já entendi. — sorriu de novo, demonstrando estar sem sinal algum de ressentimentos.

— Talvez não ainda, levando em consideração que não deu muito certo. — voltou a erguer os olhos e mexeu os ombros uma vez — Então, amigos outra vez? — estendeu uma mão.

— Acho que nunca deixamos de ser. Só tivemos... umas férias, talvez! — o Diggory juntou sua mão a da menina e eles apertaram uma vez.

— Finalmente. Eu estava me fingindo de indiferente, mas juro que não aguentava mais ser ignorada por você. Sabia que se tornou, em pouco tempo, um dos meus amigos mais queridos? — tagarelou enquanto recolhia sua mão — Mas depois eu falo mais sobre isso. Agora preciso de sua opinião e ajuda com uma coisinha... — e mexeu na gravata do menino de forma distraída para disfarçar sua cara de pau.

— Não acredito que me procurou por interesse! — Cedrico reclamou, voltando a ficar sério como antes.

— E eu não acredito que você não acredita que minhas intenções ao te procurar foram sinceras. Isso me ofendeu! — Tori reprimiu o sorriso e murchou a postura — Esquece tudo isso então! — pediu e se virou de forma dramática para sair dali.

— Tori, espere! — o Lufano a chamou de volta — Eu acredito em sua sinceridade, óbvio que acredito. — confessou, mesmo com um pouco de insegurança na voz.

— Mesmo? — Tori virou o corpo outra vez, encarando de forma desconfiada.

— Sim, acredito em cada palavra, sílaba e letra! — assentiu rapidamente, dessa vez passando mais confiança.

— Então continue confiando. Confie que a ajuda que vou te pedir agora não é por puro interesse todo meu, e sim uma maneira de ajudar a escola inteira. — deixando o teatro de lado, a Grifinória retornou o assunto, mas antes encarou sobre os ombros uma vez e só então voltou a olhar o amigo.

— Tudo bem. — concordou — O que quer de mim? — a esperou continuar, mesmo um pouco inseguro quanto a isso.

— Você se mostrou um romântico talentoso. Então, quero que use seu dom para ajudar um futuro casal apaixonado aqui de Hogwarts! — soltou um suspiro alto e piegas assim que terminou de falar.

— E quem seria o casal? — arqueou as sobrancelhas.

— O Snape e a Eileen. E antes que me olhe como se eu fosse louca, tenho argumentos em minha defesa, tenho motivos que me levaram a essa descoberta. — por estar mais perto, apertou uma mão em frente a boca do amigo para não ser interrompida — Ele pulou no Lago Negro só para salvá-la, eu fui só um detalhe que veio no pacote. E os dois chegaram atrasados hoje no almoço, com o professor meio constrangido como quem acabou de cometer um crime. Ele não costuma se atrasar para nada, mas a professora conseguiu quebrar essa rotina dele. Mas ele não parece do tipo que vá ser romântico e mandar flores e chocolates. Então, eu quero ajuda-lo nessa, quero ajudá-lo a deixar de ser tão amargo, porque acho que ele é assim por ser infeliz. Tenho certeza que ela seria boa para ele. Ela é tudo o que ele não é: sempre feliz e amorosa! — respirou fundo para recuperar o fôlego ao falar entre curtas pausas.

Ouvindo tudo aquilo, Cedrico ficou parcialmente vermelho e parecia que os olhos iam saltar do rosto. Tori pensou ser por conta de seu aperto em frente as lábios do menino e afastou a mão, notando que isso surtiu pouco efeito.

Quando estava prestes a correr para o Salão e pedir ajuda, o menino tossiu uma vez e soltou todo o ar que prendeu.

— Ficou maluca? Ele vai nos matar se tentarmos nos meter na vida pessoal dele. Victória, você é suicida desde quando? — a voz afinou de tanto pavor.

— Não é suicídio. Só quero Snape feliz. Ele feliz ia parar de pegar em nosso pé, não acha? — abriu um sorriso otimista.

— Não, não acho. Assim como não acho possível mudar o jeito dele. — negou Cedrico, afrouxando sua gravata ainda em visível desconforto.

— Eu sabia que não poderia contar com você. Sabia. — dramática outra vez, Tori se virou de costas bruscamente e então começou a chorar não muito silenciosa.

Ficou assim por alguns segundos, enquanto podia ouvir Cedrico andar de um lado para o outro e soltar alguns resmungos baixinhos, apavorado por ter feito alguém chorar. Logo ele que parecia se importar tanto com todo mundo.

— Tudo bem, eu te ajudo! — Diggory deu-se por vencido — Agora pare de chorar, ok? Eu sempre fico assustado vendo uma menina chorar, pois nunca sei o que fazer para ajudar. — encolheu os ombros.

— Não tenho mais motivos para chorar agora que sei que posso contar com você, que eu não estou sozinha nessa. — a menina parou de chorar instantaneamente e passou as mangas do suéter pelo rosto úmido enquanto se virava para encarar o amigo outra vez.

— Sinto que vou me meter em problemas. E mais uma vez isso vai ter algo a ver com você, Tori Evans! — Cedrico acabou rindo, mesmo se o sorriso no rosto saiu tão estranho.

◾ ◾ ◾

Na manhã seguinte, Tori mais uma vez foi acordada pelas amigas que queriam tentar algo novo para chamar a atenção de Olívio. Mas com o argumento que iria ela mesma tomar a atitude de ir falar com ele em vez de tentar indiretas com sua aparência, acabou se livrando de ser atacada por um grupo de mãos ágeis pelo segundo dia consecutivo.

Ainda com os sapatos altos, com quem começava a se familiarizar mais, a menina apenas vestiu o uniforme e deixou o cabelo ser penteado por Jeniffer, a quem não inventou muito e colocou apenas uma tiara lisa como adereço. Porém, não a soltou enquanto não deu um pouco mais de cor para o rosto, especialmente os olhos.

Estando pronta, Tori pegou sua mochila e deixou as amigas para trás alegando que tinha coisas para fazer antes do dia de aula começar. Todas apenas sorriram de forma desconfiada e não fizeram mais perguntas.

Assim que saiu da sala comunal, encontrou sua ocupação antes das aulas. Cedrico Diggory estava com seu uniforme perfeitamente alinhado, o cabelo bem penteado e um exagero de perfume que Tori teve a certeza que ele possuía o mesmo objetivo que ela em atrair a atenção de alguém, dando também ainda mais certeza que havia escolhido a pessoa certa para ajudá-la no plano cupido.

— Caramba, você está meio acabado hoje, Ced. — mesmo arrumado, ela notou olheiras profundas no amigo. — O que aconteceu? — perguntou, preocupada.

— Metade da noite em claro morrendo de preocupação te parece justificável o suficiente? Tori, eu estou uma pilha de nervos por ter que mexer com a vida pessoal do professor mais terrível de Hogwarts! — o Diggory desabafou, o pânico o obrigando a afrouxar a gravata.

— Mais terrível de Hogwarts? Eu diria... solitário, e por isso sempre tão azedo com todos. A professora McGonagall é muito mais terrível, a diferença é que sabe ser justa. O professor Snape é só falta de oportunidade para ser mais amável. Ou seja, precisa de alguém que o ajude. Nós. — nada abalada pelo pânico alheio, Tori sorriu.

— Como você consegue se manter tão otimista? Aposto que nunca nem o viu abrindo um mísero sorriso. Como acha que ele vai amolecer para essa ideia maluca? — Cedrico permaneceu incomodado, agora diminuindo o volume da voz e desviando olhares desconfiados para algumas direções.

— Como eu disse, é tudo questão de falta de oportunidade. É aí que você entra, onde criará a oportunidade perfeita! — a menina o cutucou com o cotovelo algumas vezes em uma tentativa de fazer graça e ajudá-lo a relaxar.

Não deu certo.

— Desisto de tentar resgatar sua sensatez! — suspirou e ficou em uma pose miserável.

— Não seja dramático. Vai ser tarefa difícil, mas não acho que seja impossível. Só relaxa e afaste esse pessimismo daqui! — fez um gesto com as mãos como se pegasse algo invisível e o jogasse para trás — Mas voltando ao que interessa: você conseguiu? — sussurrou em tom misterioso e agarrou um braço dele, obrigando-o a começar a andar.

Ficaram tempo demais parados no mesmo lugar e logo poderiam ser surpreendidos por outros alunos e professores, pois se aproximava o horário do café da manhã. Não deveriam agir como dois suspeitos ou o plano daria errado logo na primeira tentativa.

— Como o combinado, escrevi para o meu pai e acho que a encomenda chega hoje mesmo. Eu meio que pedi urgência. — o menino devolveu o sussurro, ainda infeliz em continuar naquela situação.

— Será que vai dar certo? Não sei se ele reage bem a presentes. Ele nunca me agradeceu ao chocolate que dei para ele no banquete inicial. Tão inteligente e tão sem modos. Talvez isso seja um problema... — Tori se preocupou um pouco pela primeira vez, apesar de confiar no potencial romântico do amigo.

— O fato dele não reagir bem quando ganha presentes pode ser ponto para nós. Se ele não agradece, sinal de que a farsa não vai ser descoberta logo de primeira. — o Diggory argumentou, causando um suspiro aliviado na outra aluna.

— Tem razão. — abriu um pequeno sorriso e depois o aumentou — Ahhh, eu escolhi a pessoa certa para me ajudar! — comemorou e o abraçou rapidamente de lado.

— Não sei o que seria de você sem mim. — Cedrico gabou-se em tom de brincadeira, parecendo que o gesto carinhoso havia sido suficiente para livra-lo de toda tensão.

— Tem razão. É o único que topa as minhas loucuras levando tão a sério. Eu tenho meus amigos, mas ninguém tem espírito de homem de quarenta anos como você tem, meu bem. — a Evans riu e se afastou do abraço.

— Você não esqueceu isso... — um pouco envergonhado com a lembrança, o menino escondeu o rosto com uma mão e ao mesmo tempo também se rendeu ao riso.

— E tem como? Até seus pais debocharam, o que mostra que eles são mais legais do que eu imaginava e que você tem muita sorte por ter eles! — riu mais um pouco e logo depois diminuiu para um sorriso, enquanto puxava a mão do menino para olhar seu rosto — E nem é vergonhoso. Imagine só que fofo você envelhecendo com alguém que ama e chamando de "meu bem". Vai ser apropriado na terceira idade! — trocaram de um lance de escadas para outro enquanto riam juntos daquela imaginação.

Enquanto passavam pelo sexto andar, uma primeiranista Corvina apareceu apressada juntamente com um grupinho de outras meninas da mesma idade. Ela tinha o cabelo muito escuro e usava franja, além de notáveis olhos puxados e curiosos.

— Bom dia, Cedrico. — sorriu para o menino e depois encarou a outra menina — E bom dia, Tori. — o sorriso não foi tão caloroso, mas foi educado o suficiente para não causar estranheza.

— Bom dia, Cho... e meninas. — além de cumprimentar a conhecida, ele cumprimentou as outras.

Todas cochicharam alguma coisa uma com as outras e depois soltaram risinhos em sintonia.

— Bom dia, meninas. — Tori repetiu as mesmas palavras do amigo de propósito, ainda o cutucando discretamente com o cotovelo e por fim apertando um lábio ao outro para não rir.

— Também estão indo para o Salão Principal? — a garota, Cho, perguntou o óbvio aos dois mais velhos, porém encarou apenas o menino.

— Certamente. — Cedrico respondeu e desviou o olhar para a amiga Grifinória quando essa cuspiu um risinho e logo depois fingiu uma tosse para disfarçar e se controlar — Que é? — arqueou uma sobrancelha.

— Nada não. — respirou fundo para manter melhor o controle de sua risada — Bom, eu já vou. Quero evitar que minhas amigas me vejam com você tão cedo, evitar questionários intermináveis. Até mais, parceirinho! — se despediu do amigo.

— Tchau, Tori. — acenou como despedida e ainda ficou com a mão paralisada no ar enquanto a menina se afastava e apressava os passos.

Agora sozinha, Tori resolveu se apressar apenas para manter um pouco de distância do amigo Lufano. Quando achou suficiente, começou a andar em passos mais lentos e sem pressa. Levando em consideração que encontraria o Salão Principal vazio, resolveu relaxar um pouco e organizar os pensamentos, principalmente buscando ideias para fugir de suas amigas e não ter que falar com Olívio.

Provavelmente quem afirmou que a mente domina a matéria nunca foi surpreendido pelas terríveis coincidências da vida. Tori mentalizou que o dia seria tão corrido que nem sequer encontraria o amigo, mas o pensamento falhou quando o encontrou na entrada do Salão, acabando de ficar sozinho ali quando Carlinhos e Faith adentraram o lugar.

Torcendo para não ter sido vista, a menina deu meia volta e pensou em seguir para uma direção oposta, mas congelou no lugar quando ouviu seu atual timbre favorito chamar seu nome.

— Tori? — Olívio pareceu mais próximo, o que piorou o susto da menina.

— Bom dia, Olívio. — com um sorriso amarelo e sentindo o rosto quente, a citada se virou devagar para olhá-lo.

— Bom dia. Estava indo a algum lugar? — apontou para a direção que notou que ela iria seguir.

— Eu ia... lá na... quer dizer, no... na-no no dormitório buscar um negócio que esqueci. É, eu esqueci um negócio. Sou cabeçuda as vezes! — se enrolou toda, o que piorou o calor em seu rosto.

— Está tudo bem, Tori? Você está estranha. Coisas femininas de novo? — preocupou-se e tocou um ombro dela, temendo que ela pudesse cair a qualquer momento.

— Por que está cobrando que eu seja normal tão cedo? Espere após o almoço, poxa! — Tori brincou para tentar se livrar da situação.

Pareceu surtir algum efeito, pois a tensão se afastou aos poucos e Olívio riu, tendo mais confiança em solta-la com a certeza de que não estava mesmo passando mal.

— Desculpe. — o goleiro lamentou e sorriu — Fico feliz que esteja bem, pois hoje tem treino. Parece que o tempo está voando e novembro parece cada vez mais próximo. O início do Campeonato de Quadribol e a sua estréia no time logo acontecerá, então menos ausência possível nos treinos é essencial. — se empolgou ao falar do esporte favorito, como geralmente acontecia.

— Você só sabe falar de Quadribol, Oly? — as palavras escaparam da boca de Tori, juntas com um ar de tédio seguido de um arrependimento por não se conter.

— Desculpe. — lamentou outra vez e coçou a nuca algumas vezes — Eu realmente me empolgo falando sobre Quadribol. Mas é que gosto muito e sonho com o dia que eu erguer a taça pela nossa Casa aqui, para depois erguer também por um time profissional, talvez. E além de que... Ah, estou falando de novo! — riu de si próprio.

— É bonita a forma como seus olhos brilham quando você fala sobre o que gosta. Será que não poderia brilhar também por algo diferente? Talvez... uma garota? — sugeriu enquanto sorria de leve e enrolava uma mecha de seu cabelo na ponta do dedo indicador.

— Quadribol é menos complicado, acredite. — Olívio deu de ombros.

— Um balaço assassino te intimida menos do que uma garota, Olívio? — soltou um riso breve e cruzou os braços em uma pose descontraída.

— Onde quer chegar com esse interrogatório, mocinha? Por acaso alguma garota te pediu para vir falar comigo? — agora foi a vez do mais velho perguntar, fazendo a amiga ficar tensa outra vez — Já entendi, nem adianta negar. Agora me diz: quem é garota? Se não teve coragem de vir até mim, talvez eu vá até ela. — continuou a pressionar.

Sentindo o pânico pressionar sua garganta, Tori não conseguiu responder ou soltar som algum de sua boca. Ela apenas a abria e voltava a fechar, sentindo o rosto cada vez mais quente e as palmas das mãos molhadas.

— Não seja chato, Jorge! — a voz de Angelina foi ouvida em tom de reclamação.

Em seguida, Jorge surpreendeu Tori abraçando-a por trás e quase a derrubando para fazer graça.

— Bom dia, amigos. — o Weasley cumprimentou, sorridente — Treino hoje? — perguntou e trocou olhares entre os dois.

— S-sim. — Tori enfim encontrou sua voz — Estou morrendo de fome. Vocês não estão? — se livrou dos braços do amigo e passou apressada para dentro do Salão.

Enquanto seguia para o mesmo lugar de sempre, tentava controlar a respiração e a cor do rosto para não levantar suspeitas entre os amigos, pelo menos os que não sabiam da situação ao qual ela estava se envolvendo. Se sentou em um pedaço do banco e secou as mãos no tecido da saia, começando a sentir o rosto um pouco menos quente.

— O Jorge é um inconveniente! — resmungou Angelina, enquanto ocupava o lugar à frente da amiga — Conseguiu? — sussurrou a pergunta.

— Não, e nem pretendo. — negou, ainda tremula — Ele me pressionou achando ser outra pessoa, querendo saber quem queria que ele se interessasse por outra coisa sem ser Quadribol, e eu quase tive um treco. Foi uma sensação horrível e não volto a repetir nunca mais, pois não quero morrer tão nova! — dramatizou enquanto secava as mãos outra vez.

O assunto foi finalizado quando o restante do grupo se juntou às duas, que tentaram agir como se nada tivesse acontecido. Foi mais difícil para Tori, que ainda sentia os efeitos da conversa com Olívio sempre que olhava para o outro lado da mesa e o encontrava, algumas das vezes até a encarando.

Mas conseguiu se distrair pouco antes do fim do café da manhã, quando asas foram ouvidas se aproximando do lugar. Um grupo de corujas adentraram o Salão, cada um com alguma correspondência. Com isso, Tori e Cedrico se encararam com olhares em expectativa, para logo depois desviarem o olhar como se não soubessem de nada.

Quando o som das asas diminuiu, a menina desviou um olhar, como quem não queria nada, para outra direção do lugar. Focou na mesa dos professores e no rosto inexpressivo de Snape, que parecia ainda mais pálido ao ler um pequeno bilhete junto a uma caixinha embrulhada e enfeitada. Um presente.

O olhar do professor de poções foi do bilhete até Eileen, que desfrutava de seu café da manhã de maneira despreocupada, enquanto conversava com Flitwick, que tinha sorrisos maiores do que ele.

Ao receber um olhar de volta da jovem professora e ainda ganhar um sorriso, Snape pegou a embalagem e se levantou, caminhando em passos muito rápidos para a porta enquanto uma expressão azeda surgia e grudava em seu rosto.

Um sorriso de satisfação se abriu no rosto de Tori, que novamente se virou para a mesa da Lufa-Lufa e encontrou o olhar de Cedrico. Ele parecia menos pálido e até aliviado quando sua ideia deu certo e os dois não foram descobertos logo de cara.

— O que tanto você olha para a mesa da Lufa-Lufa? — Jeniffer perguntou como se não soubesse.

— Voltei a falar com Cedrico. E, nossa, ele fez muita falta! — revelou para não levantar qualquer outra suspeita e sorriu outra vez.

— É só isso mesmo? — a menina arqueou uma sobrancelha, desconfiada.

— É sim. — a encarou muito rápido, para logo depois desviar o olhar para seu copo de suco, onde o bebeu em poucos goles.

Jeniffer não mais a interrogou e o final do café da manhã seguiu tranquilo.

◾ ◾ ◾

Depois do almoço, Tori seguiu animada em direção às Estufas. Não animada por ter aula de Herbologia, a matéria que ela mais apanhava, mas animada pela Grifinória estar junto com a Lufa-Lufa durante os dois próximos tempos.

Ainda querendo evitar o interrogatório dos amigos, resolveu apenas cumprimentar Cedrico de longe, de forma discreta. Então se voltou para seu tipico grupo e tentou agir naturalmente.

— Estufa três hoje. — a professora Sprout pareceu brotar do chão e se apressou até o local indicado.

Os alunos ainda demoraram alguns segundos para assimilar o que ouviram, pois aquela seria a primeira vez que estariam em uma estufa diferente. Não só diferente, como mais avançada. Era lá onde plantas perigosas eram guardadas, o que tornava o lugar mais interessante.

Em fila, o grupo foi entrando no lugar, onde encontraram Sprout atrás de uma mesa no centro ocupada por vários abafadores de ouvidos.

— Agora sim: bom dia, pessoal. — Sprout cumprimentou.

— Bom dia, professora Sprout. — os alunos responderam em um coral totalmente desorganizado.

— Hoje vocês aprenderão a reenvasar Mandrágoras. Antes, alguém saberia me dizer suas propriedades? — a mais velha perguntou e fitou vários rostos.

Tori evitou a troca de olhar e fingiu estar arrancando um fiapo da manga de sua camisa, até se sentir segura para voltar a focar na professora.

— A Mandrágora é um tônico reconstituinte muito forte. É usada para trazer ao seu estado natural pessoas que foram transformadas ou enfeitiçadas. — a voz de Cedrico foi ouvido em meio ao silêncio, o único que se arriscou.

— Muito bom, Diggory. Dez pontos para a Lufa-Lufa. — disse a professora — A Mandrágora é parte essencial na maioria dos antídotos, mas também é muito perigosa. Alguém sabe me dizer o motivo? — voltou a encarar a sala.

De forma extremamente rápida, como se sua vida dependesse daquilo, Angelina ergueu a mão. Quando foi concedida sua permissão para responder, lançou um sorrisinho vitorioso para alguns Lufanos.

— O grito é a parte perigosa da Mandrágora. É tão potente, que é fatal para quem o ouve. — a menina respondeu prontamente.

— Excelente, Johnson. Dez pontos para a Grifinória. — concedeu mais uma vez — As Mandrágoras que temos aqui são novinhas, mas isso não significa que ainda não causem dano. Portanto, peguem um dos abafadores aqui em minha mesa e se certifiquem de que protegeram bem as orelhas. — apontou para a pilha de protetores.

Diferente da organização para entrar, todos se trombaram para chegar primeiro à mesa e pegar o abafador menos feio. Tori ficou para trás de propósito e aproveitou a distração para ir falar com Cedrico.

— Ele recebeu o presente e ainda não foi tirar satisfação. Isso é bom. Então podemos seguir para o próximo passo amanhã mesmo. — sussurrou empolgada, enquanto observava a confusão de alunos — Mas qual o próximo passo mesmo? — fez uma caretinha, sentindo-se ansiosa para continuar se ocupando com aquilo.

— Esperar. — Cedrico respondeu — Se mandarmos todos os dias, vai acabar dando errado e ainda vai soar muito estranho. Vamos demorar uns dias e então repetimos o processo. Ainda é cedo para um passo maior que a perna. — explicou também aos sussurros e avançou na fila que diminuía aos poucos.

— Esperar? Isso é terrível e vai ser super entediante! — a Grifinória reclamou, ficando pálida de repente.

— É isso ou nos ferramos. — o menino deu de ombros.

— Ok, vamos esperar então. — concordou com um suspiro pesado e enfim chegou à mesa, onde apanhou um abafador peludo e amarelo quase fluorescente.

O restante da aula Tori ficou calada e com uma expressão murcha impossível de se controlar. Nem mesmo ligou para disfarçar entre os amigos, nem mesmo em mentir estar bem quando Fred perguntou. Ela preferia ficar quieta e poupar energia para o próximo mês que logo chegaria.

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Notas finais
Esse capítulo tem alguns trechos retirados ou inspirados em Harry Potter e a Câmara Secreta.