Capítulo Vinte e Um
Velhas cicatrizes.
Com a chegada de outubro, Tori acabou montando um cronograma para se manter ocupada em todo o tempo. Sempre era a primeira a chegar nos treinos de Quadribol e a última a sair. No pós-treino aproveitava para revisar as matérias do dia ou fazer seus deveres e trabalhos. Até mesmo incentivou as amigas a se reunirem mais vezes antes de dormir, para fofocar sobre os últimos acontecimentos de Hogwarts.
Tudo o que ela mais temia era ter tempo livre, ter tempo para pensar em outra coisa que não fosse relacionada a rotina escolar. Não queria pensar em outra coisa por temer ser refém dos próprios pensamentos. Preferia se ocupar e manter a fachada de inabalável.
Mas estava longe de ser isso. Tentava fingir que estava tudo bem, mas outra vez o mês mais marcante — negativamente — de sua ainda curta vida a estava torturando.
Não queria sofrer por algo que não se lembrava de como exatamente aconteceu, mas sofria. Só o fato de ter acontecido e ter causado consequências na história dela, a deixava abalada demais para ter qualquer simpatia pelo mês.
Em certa noite na segunda semana de outubro, Tori foi parcialmente acordada por sacudidas exageradas e acertou o responsável com tapinhas para que se afastasse e pudesse voltar a dormir. Ocupar cada minuto do dia estava surtindo efeitos e ela passou a dormir muito rápido todos os dias, sem sequer espaço para pesadelos.
O incômodo logo voltou, dando a entender que fosse quem fosse, não estava disposto a desistir. O problema era que o sono dela também não parecia disposto a dar uma trégua, então continuou a relutar e acabou usando o travesseiro para esconder a cabeça e proteger os ouvidos de qualquer som que pudesse incomodá-la.
Mas novamente sua paz não conseguiu voltar, pois no momento seguinte um grito feminino aconteceu, o que levou a outro algum tempo depois e então barulhos de almofadas sendo jogadas para se defender de algo.
Tori enfim conseguiu abrir os olhos e afastou o travesseiro, agora podendo notar o que atrapalhava seu sono.
Fred estava parado entre a cama da amiga e a da vizinha, totalmente vermelho e sem conseguir dizer uma palavra.
— Você não podia estar aqui! — reclamou Angelina, enquanto escondia seu pijama ao se cobrir com o edredom até a altura do pescoço.
— A questão é: como, se os dormitórios são enfeitiçados contra invasores do sexo oposto? — Tori perguntou parecendo interessada, o que resultou a olhares irritados em sua direção — Genial! — elogiou e riu.
— Meninas, vocês estão bem? Eu ouvi gritos. — a voz de Carlinhos foi ouvida longe, provavelmente dos limites que nem um Monitor poderia ultrapassar.
Com o susto, Tori encarou as amigas e fez um sinal de silêncio tocando o indicador nos lábios. Novamente recebeu olhares irritados, mas que logo se voltaram ao invasor.
— Tinha um inseto nojento aqui, mas já vamos nos livrar dele. Pode voltar ao seu sono, Carlinhos, e nos desculpa pelo incômodo. — foi Jeniffer quem ousou a mentira, fazendo o "inseto" soltar um suspiro aliviado.
— Se vocês dão conta, vou voltar para meu dormitório. Mas precisando, é só gritar outra vez e eu apareço. Boa noite! — a voz se despediu e o dormitório voltou ao silêncio.
— Explique-se! — Alicia mandou, enquanto também se escondia com uma almofada.
— Primeiramente, me desculpem a invasão de privacidade, damas. Juro que minha intenção nunca foi vir até aqui para ver quem tem o pijama mais feio. — mesmo em apuros, o bom humor de Fred não o abandonou — Eu só queria falar com a Tori e não quis esperar até amanhã, levando em consideração que ela vive ocupada. E enquanto aos meus truques, vocês nunca vão saber! — continuou, agora encarando a amiga e estendendo uma mão.
— Se seu "truque" se repetir, juro que vou azarar um lugar em você que não vai ser muito legal! — Angelina o ameaçou ainda irritada e voltou a se deitar.
— Sim, madame. Não repito mais isso, eu prometo. — o menino prometeu e depois continuou em um sussurro — Só em casos de vida ou morte, como hoje... — riu sozinho e de forma discreta.
Mesmo com sono, a curiosidade de Tori a fez aceitar as mãos do amigo e então acompanha-lo para fora do dormitório. Mas ele a soltou e fez um sinal para que continuasse o caminho sozinha. Só se moveu quando a menina estava em segurança na sala, poupando assim um tombo em dupla quando os degraus desapareceram de repente e ele foi jogado para longe do dormitório que não te pertencia.
— Você é muito espertinho. Seria um gênio, se não fosse tão preguiçoso! — Tori o elogiou e ele fez graça ficando em um pose toda pomposa enquanto se levantava do chão.
Voltando ao foco do que interessava, os dois se acomodaram em frente a lareira, ficando em silêncio durante algum tempo e apenas ouvindo os barulhos involuntários do fogo. Tori até mesmo chegou a pensar que não havia de fato um assunto, que o menino queria apenas companhia.
— O que é tão mais... importante do que meu sono, Frederico? — ela perguntou entre um bocejo, esfregando os olhos sonolentos logo depois.
— Estou com um problema! — foi direto ao ponto, passando a encarar a amiga nos olhos ao continuar — Eu não, na verdade é uma pessoa que é muito importante para mim. Ela tenta parecer bem na maior parte do dia, mas a flagrei sem essa máscara algumas vezes. Já a flagrei chorando no banheiro da Murta, na maior parte do tempo ela parece sobrecarregar a rotina só para não ter tempo de pensar e se chatear com alguma coisa, parece solitária mesmo tendo amigos e eu sendo um deles, parece querer carregar o mundo sozinha nas costas, não parece querer ajuda... — contou.
Prestando atenção em cada palavra, Tori se sentiu pressionada. Algo apertou em sua garganta e ela teve que desviar os olhos para o tapete, tudo para que o amigo não notasse a umidade repentina ali. Ela os fechou algumas vezes e depois esfregou devagar, ainda forçando um bocejo para fingir estar apenas cansada.
Sentiu-se assim por achar que aquela pessoa se tratava dela. Era sua segunda semana fingindo estar bem, quando na verdade sua mente estava uma loucura. A Murta era sua melhor amiga do além, então quando estava difícil demais ela corria para a moradia dela e choravam juntas. A garota-fantasma sempre se destacava no drama, então Tori podia não se preocupar com o volume do seu choro.
Sobrecarregou tanto a rotina, que para Fred conseguir conversar com ela direito e a sós, teve que invadir o dormitório e se arriscar em perder pontos para a casa ou pegar uma terrível detenção.
Tinha pessoas confiáveis, mas preferiu guardar suas dores apenas para si. Ela própria achava um exagero o motivo de sua angustia, então temia ser julgada da mesma forma por outras pessoas, temia ficar ainda pior depois disso.
— Eu não quero mais ver ela assim. Eu conheci uma menina forte e determinada, que nunca deixou que nada a abalasse por muito tempo, que sempre estava rindo de tudo e pensando no lado positivo das coisas. Agora ela está diferente e não sei o que fazer, não sou bom com essas coisas de consolo. Mas ela é importante e eu preciso ajudar! — Fred jogou na lareira algum farelo mínimo que encontrou no chão, depois voltou a virar o rosto.
— Deixe claro para ela de que você pode ser um porto-seguro. Que mesmo sendo um bobo na maior parte do tempo, também sabe ser maduro e cuidar das pessoas que ama. Deixe ela saber que você sabe, Fred. Vendo que está falhando em continuar a esconder, acho que ela vai desabafar. Seja sincero. — Tori arrumou a postura, agora ficando de frente para o menino — Conte para ela, Frederico. — repetiu e sentiu a voz tremer.
Mesmo se sua postura descontraída começou a falhar, Tori continuou a encarar o Weasley. Mesmo quando uma primeira lágrima escorreu, seguida de uma segunda e terceira, ela não desviou o olhar ou tentou esconder o rosto. Mesmo se queria sobreviver ao mês de outubro sem perguntas, ela acabou desabando.
— Por Merlin! O que você tem, Tori? Falei algo de errado? Você também sabe sobre o comportamento da Aurora? — Fred se assustou com o choro repentino da amiga e segurou os ombros dela, encarando-a com preocupação.
— Espera... Aurora? — entre um soluço e outro a artilheira conseguiu perguntar, sendo a sua vez em ficar confusa.
— A Aurora está com problemas e anda chorando pelos cantos. Você também percebeu e é pior do que imaginamos, não é? Por isso que está chorando agora, é? — subiu as mãos até o rosto da amiga e secou, sem total sucesso, algumas das muitas lágrimas.
— Aurora? — permaneceu confusa — Ah, meu Deus... Aurora! — se levantou em um pulo ao entender a situação.
Era um mal entendido, uma terrível coincidência que colocou em jogo todo o auto-controle que Tori tentou manter em duas difíceis semanas. Um engano que a deixou pior, onde um choro descontrolado aconteceu e ela não conseguiu conte-lo.
— Pode me explicar o que está acontecendo? — o Weasley também se levantou e tentou se aproximar.
— Não. Não se aproxime. — a menina mandou, enquanto recuava para trás feito um bichinho assustado — Não precisa. Não é importante! — balançou a cabeça algumas vezes e avançou para os degraus do dormitório feminino.
— Tori, não sai daqui desse jeito, me deixando sem entender nada. Por favor, por fav... Caramba! — insistiu, mas foi ignorado e se chateou.
A menina já havia corrido escada acima e desaparecido. Estava tarde demais para uma insistência, faltando poucas horas para o início de mais um dia escolar.
◾ ◾ ◾
Depois de provavelmente assustar Fred com sua crise de choro repentina, Tori preferiu sair da comunal bem mais cedo no dia seguinte, pois desconfiava que ele a esperaria na saída do dormitório para questionar. Preferiu adiar aquela conversa o máximo que pudesse, pois quase acabar com seu próprio disfarce havia deixado rachaduras em seu auto-controle. Não sabia se conseguiria continuar a fingir diante de alguém tão importante para ela.
Pegando sua mochila já organizada para as aulas que teria naquele dia, Tori foi se "esconder" na Torre de Astronomia. Ela primeiro optou por observar o dia cada vez tornar-se mais brilhante, com o sol apresentando toda sua majestade e expulsando a escuridão. A paz que o silêncio trazia ali a fez se lembrar de como costumavam ser as suas manhãs em Little Whinging, antes dos seus onze anos, antes de saber que era alguém especial o suficiente para não admitir ser machucada pelos parentes e não revidar.
No armário embaixo da escada tão apertado, costumava acordar assustada com batidas violentas na portinha desferidas por Petúnia, que sempre tinha um péssimo humor matinal. Também se lembrava das dores no corpo por dormir desajeitada e apertada junto com o irmão, onde ambos cresciam cada dia mais. Mas se lembrava também que sempre agradecia mentalmente por aquele bafo em sua cara todas as manhãs, do quanto era bom ter Harry quando os únicos parentes vivos eram os Dursley. Era bom não ser só ela contra o mundo.
Era.
Agora não sabia mais o quanto o sangue não tão igual poderia comprometer o ótimo relacionamento com o irmão. Não sabia como ele iria lidar com a novidade e no momento ainda não tinha coragem de contar a história completa, de contar que para ela existir a mãe teve que ser machucada.
Uma lágrima escorreu pela bochecha da menina e ela tratou de secá-la imediatamente, além de respirar fundo e tentar focar em outros pensamentos. Depois da crise de choro poucas horas antes, temia perder o controle outra vez.
O esforço em controlar o emocional em junção com a péssima noite de sono, obrigou Tori a lutar com suas próprias necessidades para não voltar ao dormitório e faltar em todas as aulas, usar essa rebeldia para se recuperar o suficiente e ficar um tempo sozinha organizando as ideias. Mas a responsabilidade, uma forte característica sua, a fez alongar o corpo para tentar se livrar do impulso quase irresistível e puxar sua mochila de volta aos ombros.
Mesmo notando que o castelo ainda estava silencioso, a menina desceu da torre de volta aos corredores. Seu passeio foi um tanto cuidadoso, tudo para não esbarrar com Filch e ele insistir que ela estivesse aprontando alguma coisa. Não queria ter que se justificar tão cedo para ninguém, amigo ou inimigo.
Os passos cuidadosos e sem rumo certo guiaram Tori até o quinto andar, onde pôde notar que o silêncio não estava tão presente ali. Apressou um pouco os passos para identificar o barulho e notou se tratar de música. Mais especificamente, alguém tocava piano.
A Evans, curiosa como sempre foi, seguiu a melodia como pegadas, procurando saber de onde vinha exatamente. O som foi aumentando e dando indícios de que estava perto. Uma porta um pouco isolada surgiu e a música se revelou ali, fazendo a menina se aproximar e girar o trinco devagar para não interromper ninguém.
Com a porta aberta, Tori viu o corpo minúsculo de Flitwick sentado diante de um piano, como o esperado, enquanto seus dedos pequenos, mas não menos ágeis, formavam a melodia. Ele pareceu não notar a presença dela e seguiu concentrado no que fazia. Seguiu assim até tocar as últimas notas e entrelaçar os dedos para fazer um alongamento.
— Isso foi muito bonito, professor! — Tori se revelou elogiando, mas se arrependeu quando o minúsculo homem quase caiu de seu banquinho com o susto — Desculpa. Eu deveria ter batido... — reconheceu.
— Sim, você deveria, Evans. Mas não tem problema. Qualquer admirador da música é bem-vindo aqui! — apesar do susto, o rosto de Flitwick não demonstrou qualquer sinal de raiva.
— Que música é essa? É composição sua? Tem letra além da melodia? — aproveitando a deixa, a menina despejou suas curiosidades.
— Música para a abertura do banquete de Dia das Bruxas. Não é composição minha, é de um grupo musical bruxo. Tem letra sim, mas não me arrisco em canta-la. — o professor de Feitiços soltou um risinho — Respondi tudo? — perguntou enquanto pegava algumas partituras e escorregava para o chão, indo em direção a um armário repleto de pastas, provavelmente com outros papéis relacionados a música.
Assentindo de forma positiva para a pergunta, a Evans largou a mochila no chão e caminhou entre cadeiras e instrumentos, tomando cuidado para observar tudo sem bagunçar nada.
— Eu só conheço bandas trouxas. Adoraria ouvir Madonna por aqui, pois seria épico, mesmo se polêmico para alguns alunos. — sorriu com sua própria imaginação e pegou uma das partituras em cima de uma cadeira, olhando as palavras além das notas.
— Prefiro Elvis Presley. — opinou Flitwick, acabando por ganhar um olhar surpreso da aluna — Eu não faço acepção música. Bruxa ou trouxa, se for boa eu aprecio da mesma forma. — sorriu brevemente, antes de voltar aos seus afazeres.
— Isso é bem legal de sua parte, professor. Agora entendi porque o Coral daqui é tão bom. Não é só pelas pessoas talentosas, mas pelo líder bem mente aberta. Parabéns! — abriu um sorriso simpático ao elogiar e voltou para perto de sua mochila, pegando-a outra vez e colocando nas costas.
A sala havia deixado de ecoar tanto, revelando que Hogwarts já havia despertado e provavelmente a maioria dos alunos já se encaminhavam para o café da manhã.
— Gentileza sua, Evans! — agradeceu o professor e virou parte do corpo para a saída — Suponho que também vá para o café agora. — iniciou passos curtos, assim como suas pernas.
— Sim, eu vou. — assentiu e o seguiu.
Dando passagem para a aluna sair primeiro, Flitwick também caminhou para o corredor e logo depois fechou a porta. Em silêncio, os dois iniciaram uma caminhada despreocupada rumo ao Salão Principal.
Silêncio esse que se tornou difícil para Tori quando uma idéia surgiu em sua mente, mas lhe falou coragem para expor. Sabia a resposta e isso a faia se acovardar. Mesmo se tratando do professor de uma de suas matérias preferidas, ela não tinha assuntos com o homem fora da sala de aula, então achava cara de pau de sua parte pedir qualquer coisa.
— Professor... É tarde para entrar no Coral esse ano, não é? — se arriscou Tori, olhando para qualquer lugar menos para o adulto.
— Sim, Evans. Os ensaios já começaram semanas atrás. Tem prazo justamente para não prejudicar um novato, que ficaria um tanto perdido, e muito menos aos veteranos que também ficaria atrasados. — Flitwick respondeu e lançou um olhar curioso para a mais nova — Algum motivo para essa pergunta? — quis saber.
— Ahm... Sim. Eu queria alguma outra coisa para fazer além de estudar e estudar. Fazer algo que eu gosto e me divertir, algo que eu possa ser boa e não me coloque em tanta pressão, porque acho que estou precisando um pouco disso... A música sempre me relaxou muito. — conforme foram se aproximando do térreo, ela tirou a mochila das costas outra vez e deixou pendurada em um dos antebraços.
— Lamento não poder ajuda-la. Quem sabe no próximo ano, sim? Pode me procurar e conversamos. — lamentou o professor, mas se mostrou disposto a ajuda em uma outra ocasião.
— E não teria nada que me colocasse pelo menos perto do Coral ainda esse ano? Talvez... Distribuir água para os membros durante os ensaios... Ou organizar a sala, cuidar dos sapos... Quem sabe até mesmo limpar a sala de forma manual em vez de usar magia? Qualquer coisa, professor. Só não estou querendo ficar desocupada! — Tori desabafou seu desespero e recebeu um olhar meio desconfiado do homem — Eu fico entediada muito fácil ultimamente... — se justificou e ainda assim sentiu o rosto ficar um pouco quente.
— Tudo o que você falou a magia já consegue fazer, Evans. — disse Flitwick, ainda tom de lamento.
— Qualquer coisa, professor! — a menina insistiu, agora usando uma terrível expressão de cachorrinho querendo muito algo.
Eles pararam em frente a entrada do Salão Principal, com o professor encarando a aluna um pouco pensativo. O silêncio aconteceu e durou mais de um minuto, para o desespero e ansiedade dela.
— Na sexta, após o fim das aulas, naquela mesma sala. Você será minha ajudante. No quê exatamente eu ainda não sei, mas veremos na hora. — ele acabou cedendo.
— Ah, meu Deus. Obrigada, professor. Obrigada! — com a felicidade de conseguir o que queria, Tori acabou se empolgando demais e agarrou o professor pelos braços, obrigando-o a iniciar pulinhos eufóricos junto com ela, até que os óculos dele caíssem no chão — Opa... Acho que me empolguei um pouquinho além da conta. — afastou as mãos, uma expressão de susto em seu rosto enquanto se abaixava para pegar o objeto e devolve-lo ao dono.
— Isso é fato. — Flitwick não pareceu irritado, para a surpresa da menina, e até mesmo soltou um risinho, achando graça na situação.
— Desculpa, professor. Ahm... eu vou indo. Sexta após o fim das aulas eu estarei lá! — apontou com o polegar para entrada do Salão e depois se virou rapidamente para entrar.
Acabou esbarrando em alguém e derrubando sua mochila. Reparar de quem se tratava fez com que a menina sentisse o rosto começar a ficar gelado.
— Frederico! — resolveu abrir um enorme sorriso para começar seu disfarce.
— O que tem sexta? — Fred perguntou, curioso, enquanto pegava a mochila do chão e depois voltava o olhar para a amiga.
— Vou começar a ajudar o professor Flitwick no ensaio do Coral. Não vou cantar, mas vou ajudar de alguma forma. — responder aquela pergunta fez um suspiro involuntário escapar dos lábios da menina, ao mesmo tempo que um sorriso mais natural.
— Ótimo. Mais ocupação no seu dia-a-dia! — reclamou o menino, enquanto revirava os olhos e demonstrava sua chateação.
— Isso é bom. Tem um ditado trouxa Cristão que diz que mente vazia é oficina do diabo. Eu ocupo minha e ninguém tenta ocupar, a não ser eu mesma com as coisas que eu quero e quando quero! — sorriu mais uma vez e agarrou o braço do amigo para andarem logo até a mesa da Grifinória — Tudo bem com você? Dormiu bem? — tentou mudar o assunto.
— Você pensa que vai fugir do assunto, Tori? — perguntou Fred, soltando seu braço e agarrando a menina pela capa para fazê-la parar e ficar no lugar — Eu acho que sou seu melhor amigo. Então mereço saber o que aconteceu para você chorar daquele jeito hoje de madrugada. Eu quero saber, ou não poderei te ajudar. E se eu não te ajudo a ficar bem, me sinto meio inútil... Você é minha melhor amiga, senhorita! — suspirou.
— Eu estou bem, Frederico. Aquilo foi... motivo feminino. Eu não tenho motivos sérios para chorar. Se eu tivesse, sabe que não teria como esconder de você, sabe como sou chorona e não conseguiria me conter. Eu estou bem! — mentiu melhor do que ensaiou em sua cabeça — Eu estou bem! — repetiu e segurou a mão do amigo que segurava sua capa.
— Eu não acredito. Sua boca diz uma coisa, mas seus olhos abatidos dizem outra. Não te conheço dez anos, mas já te conheço bem, conheço seus trejeitos e principalmente quanto está mentindo. Esqueceu que Jorge e eu nascemos no dia que é comemorado o Dia da Mentira no mundo trouxa? — ele soltou a capa e abriu a mão, unindo-a com a da amiga e entrelaçando os dedos — Podemos ir para outro lugar e você me conta tudo. Juro não contar ao Jorge e Lino, se você preferir assim. — sussurrou.
Enquanto encarava as mãos unidas, Tori pensou naquela proposta. De fato se tratava de uma das pessoas que mais confiava, mas ainda assim algo a impedia de desabafar suas aflições. Sabia que não seria julgada, mas também sabia que se começasse a falar também começaria a chorar e demoraria para recuperar o controle outra vez.
— Príncipe, bom dia! — Aurora surpreendeu os dois com sua presença e humor matinal.
Com a surpresa, os dois amigos afastaram as mãos rapidamente e Tori desviou o olhar para outra direção, para longe da visão das duas pessoas, mas principalmente do amigo.
— Bom dia, Tori! — também foi cumprimentada pela Corvina, mas com um humor ainda melhor.
— Bom dia, Aurora! — devolveu a educação — Com licença, pessoas, que eu estou quase desmaiando de fome. Nos vemos na mesa? Sim? Ótimo! — e saiu apressada em direção ao mesmo lugar de sempre.
Ainda nos primeiros passos, sentiu o olhar de Fred em suas costas. Não ousou olhar entre os ombros e seguiu tentando agir naturalmente para perto dos amigos Leões.
◾ ◾ ◾
Naquele mesmo dia, Tori deu um jeito de ocupar ainda mais os seus dias e ainda evitar Fred. Ainda no café da manhã ela terminou mais cedo e seguiu até a mesa da Sonserina, interrompendo a refeição de Silas ao arrastá-lo para sair dali.
O menino não reclamou, exceto quando começou a ser pressionado pela colega sobre um assunto que que deixava desconfortável: sua dificuldade em aulas práticas de magia.
Para ajudá-lo nisso, a Evans ofereceu aulas particulares para ensinar tudo o que ela sabia sobre Feitiços, Defesas e Transfiguração. Usou argumentos infalíveis, contando com suas falsas lágrimas que geralmente assustavam meninos, e enfim conseguiu convencer o primeiranista. As aulas começariam ainda naquele dia.
Então após duas aulas exaustivas de Poções junto com a turma da Sonserina, onde tipicamente tentou se destacar mais do que Adrian Pucey, Tori saiu apressada da sala carregando uma mochila com alguns pergaminhos com anotações e os braços sobrecarregados por livros que havia pego na biblioteca entre intervalos de aulas. Mas teve a sorte de encontrar seu aluno assim saiu das Masmorras e chegou ao Hall de entrada.
— Que ótimo que você estava mesmo indo para o terceiro andar para me encontrar. — Tori ironizou ao notar o olhar culpado do menino.
— E-eu... Bom, eu só... só... — o Sonserino gaguejou ao tentar se explicar — Ahh, me desculpe! — falou sua típica frase e suspirou pesado.
— Do que é que você tem medo? Até parece que vou ser muito parecida com o Snape em aulas! — perguntou e se livrou de parte do peso dos livros ao passar alguns para o mais novo.
— Não tem nada a ver com você, Tori. Eu só... não sou nada bom nisso. — Silas assentiu para os livros em seus braços.
— Nunca experimentou pensar diferente, eu aposto. Mas hoje eu vou te ajudar! — garantiu e apontou com a cabeça para a escada — Terceiro andar. — avisou.
Sabendo que não adiantaria discutir e que a conhecida era teimosa quando se tratava de ajudar alguém, Silas iniciou passos lentos em direção às escadas. Notou ainda mais isso quando a menina diminuiu também os seus passos para deixá-lo andar na frente.
— Só para garantir que você não vai fugir de mim. — Tori explicou com humor e depois riu.
— Inteligente de sua parte. — ele abriu um pequeno sorriso, antes de se virar para continuar a subir.
Mas no mesmo instante sofreu um esbarrão no ombro e perdeu seus livros, que caíram pelos degraus enquanto ele também caía e levava sua companhia junto.
Por sorte era o começo da escada e não teria como se machucar gravemente, mas ainda assim os dois alunos ficaram algum tempo se recompondo não só do impacto e surpresa disso, mas do possível constrangimento ao levar um tombo com uma pequena platéia observando.
Alguns risinhos foram ouvidos, assim também como algumas pessoas preocupadas se aproximaram para ver se estava tudo bem e ajudar a recolher as coisas. E enquanto aceitava uma mão solidária para se levantar, Tori notou alguém em especial na platéia, alguém totalmente destacado pela local em que estava parado.
— Então foi você! — ela afirmou enquanto encarava o conhecido.
— Pode provar? — Flint respondeu com uma prepotência que irritou a menina.
Antes que ela pudesse dar continuidade na conversa, Silas se aproximou mancando.
— Não faça nada, que depois eu me encarrego de contar ao meu Diretor. — sussurrou temendo ser ouvido e impedido.
— O que está sussurrando aí, ô cara de sapo? — o outro Sonserino aumentou a voz em uma tentativa de intimidar.
E conseguiu.
Silas se encolheu e ficou encarando os próprios pés, sem intenção ou coragem de erguer o rosto outra vez.
— Algum problema aqui? — uma voz feminina se sobressaiu em um nível mais elevado da escada.
Um suspiro impaciente escapou dos lábios de Tori ao reconhecer a voz de Aurora e avistá-la nos degraus. Temia que a Corvina revidasse e aumentasse a confusão.
Mas se surpreendeu quando viu o sorriso irritante de Flint desaparecer e ele enfiar a mão no bolso, provavelmente onde guardava a varinha, parecendo muito intimidado. Se ele não atacasse primeiro, a menina talvez se manteria quieta.
— Nenhum! — respondeu Tori, que recebeu um olhar confuso de Silas.
— Certeza? — Aurora insistiu, enquanto encarava o encrenqueiro de forma desconfiada.
— Sim. Silas e eu apenas estávamos indo estudar, quando nosso querido amigo apareceu e resolveu apenas nos cumprimentar. — Tori não se importou em demonstrar mentira, apenas recolheu suas coisas e chamou o outro aluno.
Agora com Aurora por perto, Flint não tentou nenhuma gracinha quando os dois mais novos recomeçaram a subir os degraus e passaram por ele. Tori ainda lançou um olhar demorado ao encrenqueiro, antes de virar o rosto e seguir seu caminho.
◾ ◾ ◾
Assim que chegaram ao terceiro andar, Tori retirou um pedaço de pergaminho do bolso e leu uma espécie de localização passada por Jorge, de uma sala vazia que encontrou ao explorar o castelo com o Mapa do Maroto.
Com a porta estando trancada, ela passou seus livros para a companhia e logo depois puxou a varinha das vestes.
— Alohomora. — pronunciou e um feitiço bateu contra o trinco, onde a porta se abriu.
Por ser dia, o local estava iluminado por luz natural, o que dava para ver bem o seu interior. Se tratava de uma sala vazia, também espaçosa e com o teto alto. Não parecia o tipo de lugar que alunos ou funcionários habitavam, mas estava tudo limpo e seria perfeito para estudar em paz.
— Vamos, antes que alguém apareça e nos flagre. — Tori pegou de volta parte dos livros e entrou no lugar.
Assim que Silas fez a mesma coisa, ela fechou a porta e depois colocou os livros do chão, ficando apenas com um específico.
— O que será que tem aqui? — o menino perguntou.
Tori virou o rosto para observar o local que ele indicava e notou que o menino estava diante de uma espécie de alçapão, detalhe que era quase imperceptível para quem não prestasse atenção. Isso porque a madeira da portinha era da cor do piso, sendo uma ótima maneira de camuflar.
— Não sei. Do jeito que Hogwarts é, talvez seja uma monstro aí dentro. Eu não duvido de mais nada! — a Grifinória respondeu de forma distraída enquanto voltava a atenção ao livro em suas mãos.
Imediatamente o mais novo se afastou aos tropeços e voltou para perto de sua professora. Ele se sentou e ficou a observando ler o conteúdo de um livro, depois puxar a varinha que estava guardada na meia.
— Lumos é um dos feitiços mais básicos, mas não muito simples. Aliás, acredito que nenhum seja simples, todos tem alguma concentração para acontecer, outros mais e outros de forma razoável. Mas nenhum acontece de forma aleatória e desleixada. — Tori explicou enquanto os olhos receosos de Silas a encaravam por trás dos óculos de lentes grossas — Ahm... Acho que não existe um movimento específico, basta ter concentração e pronunciar corretamente. Então repete comigo: Lumos. — pediu.
— Lhumos. — Silas obedeceu, mas errou.
— Lu-mos. Lumos. — a professora-aluna insistiu, enquanto lançava um olhar compreensivo ao mais novo.
— Lumos. — enfim conseguiu, ganhando um sorriso em troca.
— É muito importante pronunciar corretamente o nome de um feitiço, pois um errinho pode causar um efeito contrário. Não quer atear fogo em si próprio, quer? — brincou e riu sozinha, logo se arrependendo ao causar uma expressão de susto alheio — Relaxa. Agora levanta daí, que agora vou te ajudar a praticar. — deixou o livro de lado e segurou a varinha direito.
— Mas eu ainda estou inseguro para começar... — murmurou o menino, mas ainda assim obedecendo e levantando, também puxando sua varinha.
— Só segura a varinha e pronuncie o feitiço até algo acontecer. Assim: Lumos. — como o esperado, a ponta da varinha de Tori acendeu imediatamente.
— Você faz parecer simples, Tori. — o Sonserino confessou, mas manteve a expressão receosa — Mas comigo a situação é outra, você sabe... — o seu tique de fungar estava de volta, juntamente com a mania de encarar os pés.
— Mas dá para mudar isso, Sil. Você tem sorte que eu sou menos crítica do que um professor de verdade, fora que sou sua amiga, então não vou te julgar se você falhar. — a menina sorriu — Nox. — abaixou o varinha assim que a mesma se apagou.
— Você disse... disse que é minha amiga? É minha a-amiga, Tori? — a tensão se afastou de Silas por um momento e um sorriso surgiu no lugar.
— Sim, se você não se importar em ser da casa Serpente e ter uma amiga da casa Leão, é claro. — Tori mexeu os ombros uma vez e retribuiu o sorriso.
— Eu não me importo não. — negou, ainda sorrindo — Você é... é bem legal, Tori. Vai ser bom te ter como amigo, muito bom mesmo. — novamente fungou, mas dessa vez passou a manga do suéter pelo rosto que havia ficado úmido de repente.
— Está tudo bem, Silas? — o sorriso diminuiu e uma expressão preocupada apareceu no rosto da mais velha.
— Sim, está. Podemos continuar a aula? Acho... Talvez, não sei bem... que eu gostaria de tentar agora. — Silas desconversou e se recompôs novamente.
— Isso é ótimo. Já vemos avanço por aqui, acho que sua autoestima melhorou com esse papo! — a aluna-professora bateu palminhas algumas vezes e depois fez um gesto para que o menino continuasse.
Com um movimento de cabeça em concordância, Silas segurou a varinha direito e esticou o braço de forma exagerada, como se temesse que o objeto mágico criasse vida e o atacasse. Mas por se tratar de alguém tão peculiar, Tori preferiu não estranhar aquela atitude, permaneceu o encarando com expectativa.
Alguns segundos de espera logo tornaram-se minutos. Não poucos minutos, mas tempo o suficiente para fazer o braço do Sonserino fraquejar e começar a tremer.
— Silas? — Tori o chamou.
Parecendo que a voz livrou o menino de um transe, ele abaixou o braço e soltou um suspiro alto e trêmulo.
— Eu não consigo... — reconheceu Silas, os ombros estando murchos e a pose um tanto miserável.
— Consegue sim, eu estou te ajudando. Esqueceu que não sou alguém que vá criticar seu erro? — perguntou e logo depois tocou o pulso do braço que sustentava a varinha, notando que este estava tremendo — Vamos, eu te ajudo. — o incentivou.
— Estou com medo. — confessou enquanto livrava o braço e se sentava encolhido no chão, a varinha de lado e as mãos tremulas entre as mechas escuras do cabelo — Um erro pode machucar alguém. E-eu não quero machucar ninguém, não quero m-mesmo, Tori! — afastou as mãos e as guiou até os joelhos, onde os tremores continuaram.
O encarando de forma compreensível, Tori guardou sua varinha outra vez e também se abaixou, mas de joelhos. Foi para perto do recente amigo e o abraçou de lado de forma firme, porém sem exageros. O achava tão frágil as vezes, que temia que qualquer movimento brusco pudesse quebra-lo em pedaços.
— É normal ter medo. Você só não pode ter medo de se arriscar e parar sua vida por isso, Sil, porque aí sim estaria machucando alguém: você mesmo! — aconselhou enquanto guiava uma mão até o cabelo bagunçado do menino e tentava colocar no lugar, assim como costumava fazer com o irmão.
— Podemos ficar só na teoria? Assim não perdemos mais tempo comigo... — Silas pediu, secando o rosto úmido com o tecido da roupa.
— Temos tempo o suficiente para enrolar bastante. Leve o tempo que quiser. Então, quando se sentir pronto, tentamos de novo. — sorriu de leve e se afastou, sentando-se direito no chão e trazendo para perto de si os livros que trouxeram.
— Talvez eu não fique pronto nunca! — o menino se levantou de forma desajeitada e foi para um lado oposto da sala, parecendo um pouco agitado.
Notando tal comportamento, Tori colocou os livros de lado outra vez e se levantou devagar. Mas não se aproximou. Não precisou, pois a inquietação do novo amigo era visível de longe.
— Tem alguém te ameaçando! — Tori arfou de susto com a própria observação.
— O quê? — o outro aluno também se assustou, aumentando os olhos em espanto.
— Alguém te ameaçando para que evite usar magia e se prejudique, talvez até mesmo seja expulso. Esse é o seu medo e não da magia de fato. Você não é puro-sangue e provavelmente não foi recebido aos beijos e abraços em sua Casa. — desabafou suas teorias enquanto se aproximava rapidamente, parando perto de braços cruzados — Você está recebendo ameaças! — repetiu.
— Expulso? — os olhos de Silas aumentaram ainda mais, agora em companhia de uma respiração começando a se agitar.
— Silas, eu quero te dizer que eu te entendo. Então não precisa esconder nada de mim. — ignorando a lerdeza do menino, Tori tocou o ombro dele e lançou um olhar dócil e compreensivo.
— Entende o que? — ele continuou a encara-la confuso, logo depois fazendo um esforço em engolir algo que parecia parado em sua garganta.
— Eu odeio tocar nesse assunto de novo, mas... — agora foi a vez da menina em ficar tensa — Ano passado eu fui machucada mais de uma vez por causa de coisas que um jornal medíocre distorceu sobre mim e sobre o que eu penso sobre a Sonserina, especificamente. Só parou quando deixei claro que, por ser filha de um doido que preferiu ser explodido do que se render, eu posso ser tão doida quanto. Surtiu algum efeito até. Só o Flint que ainda é bem inconveniente, mas com ele já aprendi a lidar e superar! — desabafou, tendo que respirar fundo quando sentiu uma certa umidade nos olhos.
— Quem machucaria alguém como você? — o assunto pareceu acalmar parcialmente o primeiranista.
— Alguém como eu? — Tori ergueu uma sobrancelha e conseguiu sorrir.
— Alguém como você. — Silas tornou a repetir, empurrando o óculos para ainda mais perto do rosto — Altruísta, corajosa e sincera. — abaixou o olhar para os pés ao terminar de falar.
— Obrigada pelos elogios, mas... Notei que está tentando mudar o assunto, e outro detalhe sobre mim é que também posso ser bem esperta enquanto finjo ser bobinha! — soltou um risinho breve e então tornou o rosto sério — Me conta, Sil. Tem alguém te ameaçando, não tem? — insistiu.
O menino preferiu o silêncio e permitiu que os ombros ficassem caídos, como se aquele assunto pesasse em seu corpo a ponto de deixá-lo exausto. Mas o silêncio deixou espaço para qualquer interpretação, então a expressão de Tori tornou-se muito triste e ela automaticamente abraçou o menino outra vez, agora um abraço acolhedor e de lamento.
— Quero tentar o exercício de novo. — apesar de nervoso, Silas tentou se recompor e fingir uma postura mais tranquila.
Era notável a ansiedade em mudar de assunto.
— Tem certeza? Podemos marcar outro dia, quando nós dois estivermos bem. — a Evans se afastou do abraço e encarou o rosto do mais novo.
— Eu estou bem! — garantiu o Sonserino, agora se soltando e indo recolher sua varinha.
Feito isso, Silas permaneceu naquele mesmo lugar e voltou a postura de uso de varinha, a mesma posição estranha. Tori apenas cruzou os braços e ficou observando. Preferiu ficar no mesmo lugar e em silêncio para não atrapalhar qualquer concentração.
— Lumos. — ele pronunciou, não conseguindo o que queria — Lumos. — insistiu, agora com uma voz mais alta.
Automaticamente os dedos de Tori se cruzaram, enquanto ela torcia em silêncio pelo sucesso do primeiranista.
— Lumos. LUMOS. — gritou ainda mais alto e o corpo sofreu um tremor, com a varinha acabando por cair no chão.
E antes que a menina pudesse se aproximar e avisar que a aula estava finalizada, Silas caiu para trás e ficou imóvel.
— Silas! — Tori arfou de susto e correu para perto do menino desacordado — Por favor, não esteja morto. Por favor... — usando uma força mínima por se tratar de alguém tão magro e frágil, ela o deitou de lado por precaução.
Depois se levantou e abriu a porta, correndo corredor à fora gritando por ajuda.
Mal acreditou em sua sorte quando esbarrou com Eileen ao virar em direção a um corredor vizinho. Mas seu próprio corpo e psicológico a prejudicaram, pois o choro e o desespero a impediu de ir direto ao ponto. Ela não parava de chorar e tinha dificuldades para respirar, além de não conseguir parar no mesmo lugar. Então a professora a segurou pelos ombros, a contendo para entender o que havia acontecido.
— Respire fundo e me conte o que aconteceu. — a professora de DCAT pediu, guiando uma mão até o queixo da aluna e notando o excesso de lágrimas no rosto.
— O Silas. Eu não sei... ele caiu... A senhora precisa ajuda-lo... A Pomfrey... Pelo amor de Deus! — aos gritos e lágrimas, a menina se explicou e gesticulou desesperava para a direção ao qual veio.
Ao ser solta, novamente Tori se agitou, mas resolveu usar tanta energia para correr para o mesmo lugar de sempre. Ela foi seguida por Eileen e as duas logo chegaram até a sala onde Silas havia ficado. Mas a menina não teve coragem de entrar novamente, suas pernas travaram no lugar. A mais velha não esperou e entrou de uma vez no lugar, não demorando a voltar levitando o corpo inerte do aluno.
— O que vocês estavam fazendo sozinhos nessa sala esquisita? — a doçura sempre presente na voz da mulher sumiu e algo mais irritado e seco surgiu.
— Eu fui tentar ajudar e atrapalhei tudo! — foi a única coisa que Tori conseguiu dizer, antes de iniciar uma nova crise de choro.
Soltando um suspiro impaciente e preocupado, a mais velha apressou os passos e a aluna teve que se esforçar mais para manter o mesmo ritmo.
Não demorou tanto e elas logo estavam diante da porta da Ala Hospitalar. Eileen entrou junto com Silas e levitou o corpo até pousa-lo em uma cama vazia. Tori apenas viu a Curandeira se aproximar para o exame, então foi afastada para longe da sala.
— Não, eu quero ficar! — reclamou e tentou se livrar dos braços que tornaram-se mais firmes — Eu preciso saber... Não quero deixá-lo sozinho... É culpa minha... Ele não pode morrer... Mês maldito! — passou a chorar mais alto e mesmo assim não foi liberta.
— Shh... Ele não vai morrer. Tori, olhe para mim. — Eileen pediu enquanto ainda usava força, depois retirou um frasco semelhante ao de um perfume e deu uma borrifada no rosto da aluna.
O corpo agitado de Tori foi se acalmando aos poucos, os movimentos parando e a voz alta se calando. Um estranha sensação de calmaria a atingiu, um sentimento de esperança e fé, algo como se o amigo fosse ficar bem no fim das contas. Restaram apenas lágrimas silenciosas.
— Acho que agora é uma boa hora para aquele nosso café da tarde com biscoitos de chocolate e suco de maracujá, certo? — a professora voltou a guardar o frasco e soltou a mais nova, agora passando um braço por cima dos ombros e depositando um beijo fofo no topo da cabeça — Eu cuido de você. — falou.
A Evans não se opôs a ideia e então foi guiada para longe da Ala Hospitalar.
◾ ◾ ◾
O escritório de Eileen combinava perfeitamente com a personalidade sempre tão alegre dela. O lugar era bem iluminado, com cortinas totalmente abertas para a luz diurna adentrar, e a cor que prevalecia era o amarelo. As estantes que guardavam diversos livros, a mesinha de centro, um mesa de escritório próxima a janela maior, tudo era marfim. Mas as partes com tecido era de um amarelo chamativo. O sofá e duas poltronas, as cadeiras fofas frente e atrás da mesa de escritório, as corinas, um tapete todo peludo... Tudo possuía um tom de amarelo que não passava a despercebido.
— Beba, que vai te deixar melhor. — Eileen se aproximou da visitante com um cálice com um líquido gelado e amarelo.
Em silêncio, Tori o aceitou e deu alguns goles de sua bebida favorita. Se deliciou com o sabor e a calmaria que a fruta de fato trouxe para seu corpo e mente, mas desconfiou que houvesse alguma poção calmante misturada ali. Mas não se importou, pois sabia que estava mesmo precisando.
— Obrigada, professora. — agradeceu e apoiou as mãos com o cálice no colo — Muito bonito seu escritório. — aproveitou para comentar.
— Gentileza sua, meu anjo! — a mulher sorriu e também ingeriu sua bebida — Se sente melhor? — voltou a demonstrar preocupação.
— Sim. Mas... Se importa de não comentar o ocorrido com ninguém? Sabe... todo o meu desespero, lágrimas e gritos. Vou pedir o mesmo para a Madame Pomfrey, pois não quero ninguém se preocupando comigo sem necessidade. É Silas quem ficou doente, não eu. — Tori pediu e inclinou o corpo para pegar alguns biscoitos de chocolate em um prato na mesinha de centro — Por favor! — intensificou o pedido e deu uma mordida no doce.
— Tudo bem, eu serei sua confidente! — animou-se Eileen, abrindo um enorme sorriso animado no belo resto — Mas pode me explicar o motivo de tanto desespero? Foi você quem machucou o Silas? — ficou séria outra vez.
— Não. — negou a menina — Quer dizer... Não exatamente. Eu meio que sinto parte da culpa, pois o convenci de estudar de modo prático comigo, eu disse que o ajudaria a perder o medo de lançar feitiços, eu o forcei. Eu. — o cálice começou a se agitar em sua mão trêmula.
— Beba mais, querida. — a incentivou.
Obedecendo a mais velha, Tori bebeu mais alguns goles do suco e as mãos pararam de tremer de imediato. Um suspiro aliviado saiu de sua boca.
— Talvez ele já estivesse passando mal antes do encontro de vocês. Não notou algo diferente nele? — Eileen perguntou, colocando seu cálice vazio sobre a mesa.
— Ele meio que tentou fugir de mim indo para a Comunal dele, mas eu estava na aula de Poções e o peguei na metade do camin... Oh, ele não estava fugindo, fugindo. — com uma mão livre deu um tapinha na própria testa — Como sou ignorante! — reclamou.
— Não tinha como você saber, não é uma Curandeira, é só uma aluna do segundo ano. Pare de se cobrar tanto, Tori! — se levantou da poltrona que estava para se sentar mais perto da visitante no sofá, e na metade do caminho deixou um arroto escapar — Desculpa! — escondeu a boca com as mãos e soltou um risinho.
Surpresa pela atitude inesperada de uma pessoa tão perfeita em tudo, Tori arqueou uma sobrancelha e ficou encarando. Depois, um riso escapou de seus lábios obrigando-a a deixar o cálice em cima da mesinha para não derruba-lo, e em pouco tempo transformou-se em um ataque de risos. Nada envergonhada, a professora se juntou a aluna e as duas ficaram rindo juntas, algo tão incontrolável que uma teve que se encostar na outra.
— É bom saber que a professora perfeita é uma farsa! — Tori comentou enquanto segurava a barriga dolorida pelo excesso de risos e respirava fundo algumas vezes.
— Guardo seu segredo, desde que guarde o meu! — chantageou, começando a tentar se recompor outra vez.
— Feito. — ergueu a mão direita para selar uma promessa.
— Ei, Tori, o que você quis dizer com "mês maldito"? Tem algo a ver com o que eu imagino que seja? — Eileen arrumou a postura e se sentou direito, agora tornando o rosto menos risonho outra vez.
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