Capítulo Oito
Os dez anos de Harry Potter.
Nos últimos dias de julho, Tori conseguiu parcialmente seu emprego de Entregadora de Jornais de volta. Parcialmente porque todas as bicicletas estavam ocupadas e ela teria que fazer as entregas à pé, e ainda ganhar o mesmo de sempre, sem nem sequer um pequeno aumento. Ela aceitou mesmo assim, conseguindo uns trocados extras para o que pretendia fazer dali alguns dias.
No último dia do mês, Tori voltou apressada após mais um dia cansativo de entregas. Ela chegou com algumas sacolas e correu direto para o quarto, se fechando sozinha lá dentro. Ela havia comprado um cupcake grande na padaria, uma única velinha e muitos tipos de papéis coloridos para improvisar uma decoração simples.
A escrivaninha foi colocada perto da janela e coberta por um papel de cor vermelha. Ela colocou com cuidado o cupcake no centro, ao lado de um porta retrato com uma fotografia dos dois juntos. Conseguiu fazer algumas bandeirinhas coloridas, colocou uns origamis espalhados pela mesa para não ficar vazia e se afastou para olhar melhor seu trabalho.
— Que coisa mais sem graça e cafona! — resmungou — Ele vai odiar muito mais do que me odeia... — pegou o cupcake e deu uma mordida, indo até a cama e se sentando na ponta.
A simplicidade nunca a irritou, até sentir o relacionamento com o irmão abalado por alguém que poderia oferecer mais. Por mais que conhecesse o caráter do irmão, aquilo a estava deixando inquieta. Não queria ser substituída por Abigail, assim como não queria que Abigail a substituísse por Harry.
Irritada, Tori jogou a embalagem vazia do cupcake na porta, segundos antes de alguém bater algumas vezes e esperar. Alarmada, a menina pegou toda a decoração e restos de papéis e empurrou para debaixo da cama.
— Entra! — avisou e tentou parecer descontraída, mesmo sabendo que disfarçava mal.
Quando a porta se abriu, Abigail entrou trajando o uniforme da escola e com a mochila nas costas. Pelo horário, parecia ter cabulado aula. Ela estava um pouco quieta demais, o que não era de seu costume, e foi até a cama onde se sentou perto da dona do quarto.
— Eu não aguento mais! — choramingou — Não aguento mais ficar brigada com você, Tori, então vamos acabar com isso! — pediu quase como súplica.
— Tem razão. — Tori falou, um pouco sem jeito.
— Tenho? — Abigail estranhou.
— Sim, você tem. Não quero mais brigar. Aliás, eu te devo desculpas. — puxou a mão da amiga e a segurou — Eu exagerei. Você não merecia ouvir aquilo, Abie, afinal você só quis ajudar meu irmão quando viu que eu não estava bem. Mesmo ajudando do seu jeito, que me irritou, você tentou e eu não deveria reclamar! — suspirou.
— Tudo bem, Tori. Eu passei por cima da sua autoridade, então mereci. Me desculpa, ok? Não vou mais me meter entre você e o Harry. O que você decidir por ele, eu vou aceitar! — também se explicou.
— Eu fui uma ingrata! — Tori tentou voltar o foco da culpa para si.
— E eu uma teimosa! — Abigail tomou de volta para si.
— Tudo bem, nós duas erramos, cada uma a sua maneira. Mas... Mas preciso contar a minha admiração por sua mudança, Abie. Acho que a menina que eu me despedi quase um ano atrás jamais daria o braço a torcer, insistiria no orgulho para sempre. E você mudou de lá para cá e isso me deixa muito feliz. Então... — fez uma pausa.
— Então? — a visita a incentivou a continuar.
— Então preciso te dizer, mesmo sendo óbvio, que eu superei todas as coisas ruins que você me fez um dia e estou te admitindo como minha melhor amiga! — sorriu Tori.
— Nossa... — Abigail se sentou direito e pareceu um pouco emocionada — Tirando a Marie e minha mãe, que tecnicamente não contam, eu nunca tive uma amiga de verdade antes. Eu achava que tinha, mas só estavam me usando. E eu sei que você não faria o mesmo. Afinal, era exatamente por isso que eu implicava tanto com você, porque era a única que não corria atrás de mim, que não lambia o chão se eu mandasse. E pior, ainda assim você me tratava bem. Eu era uma pessoa horrível e mesmo assim você me tratava bem. Então eu te achava esquisita porque não eram atitudes comuns as suas. Me desculpa por tudo, ok? Você nunca foi esquisita, você sempre foi especial! — sorriu e puxou a amiga para um abraço.
As duas se abraçaram e permaneceram assim por um tempo. Até Abigail erguer o pé e tirar algo que estava grudado ali, arrastando várias coisas para fora de debaixo da cama.
— O que isso? — ela se levantou e desgrudou o pé.
— Opa... — abriu um sorrisinho sem graça, para logo depois suspirar e ficar emburrada — Eu tentei fazer uma surpresinha de aniversário para o Harry, mas achei tudo uma porcaria e acabei comendo o cupcake. Ah, e o bolo era um cupcake! — suspirou.
— Espera... Hoje é aniversário do Harry? Por que não me chamou para ajudar na surpresa? Eu sou boa nisso. — Abigail sorriu animada — Mas enfim, como agora eu sei, vou te ajudar. Será que sua tia me empresta o telefone? Vou fazer umas ligações para fornecedores de salgadinhos, lanches e doces, além de ligar para a decoradora ma-ra-vi-lho-sa que sempre decora minhas festas de aniversário e sempre tem a agenda livre para mim. O que falta? Ah, sim, talvez animadores de festa e... Hum, se importa de ser lá em casa? Tem mais espaço para os convidados e está um calor terrível, bom para a piscina... — tagarelou enquanto andava de um lado para o outro.
— Abigail! — Tori a chamou e a fez desacelerar um pouco — Não precisa de tudo isso. Comida é suficiente. Aliás, quais convidados? Harry não tem amigos e ninguém gosta da gente. Então menos, bem menos. Eu te deixo ser incluída nisso, mas sem exageros! — avisou.
— Ai, ok... — revirou os olhos ao ser contrariada — E no que posso ajudar, então? — perguntou.
— Vai usar sua ótima influência para fazer minha tia topar tudo. Ela não nega nada para a princesinha McGregor! — soltou um riso divertido — E temos que combinar o que vamos fazer para deixar Harry longe daqui até que as coisas fiquem prontas. Além de convencer o tio a dar uma passadinha na padaria para buscar um bolo de verdade... — falou.
— É bom saber que meu sobrenome ajuda em alguma coisa. Principalmente se é para infernizar sua família e eles não poderem dizer nada! — ela soltou um risinho malvado.
◾ ◾ ◾
Com influência de Abigail, a festinha de dez anos do Harry começou a ser montada na área externa da casa, onde a mesa da cozinha foi colocada, além de uma bela toalha vermelha que Tori tinha certeza que sem o pedido da McGregor, Petúnia jamais iria ceder.
O aniversariante seria buscado na escola pelo motorista de Abigail, que ficaria dando voltas até tudo estar pronto. A desculpa seria que Abigail combinou de esperá-lo em um lugar, mas acabou indo para outro. Por mais que Harry fosse esperto, a desculpa teria que servir. Talvez por não estar falando com a irmã, a ideia de uma festa surpresa fugiria de sua mente.
Sem que Tori soubesse, um bolo de três andares e detalhes de algum super-herói, também vermelho, chegou juntamente com Marie. A menina encarou a amiga como se cobrasse explicações, mas ela simplesmente disfarçou indo conversar com a madrinha.
Aos poucos, o que era para ser simples tornou-se chamativo, com várias bexigas, o bolo que parecia delicioso, docinhos e salgados de todos os tipos, além de refrescos.
— Não sei como eu fui confiar que você não fosse exagerar. — Tori falou, enquanto se aproximava de Abigail, que a encarou com o olhar de culpa — Mas meu irmão merece tudo isso e eu não vou reclamar se ele estiver feliz! — sorriu.
— Finalmente reconheceu que eu faço tudo certo! — gabou-se.
— Menos... — a menina revirou os olhos.
As duas voltaram para dentro da casa a tempo de ver os primeiros convidados chegar. A pequena lista contava com os donos da casa — que infelizmente não tinham como serem excluídos —, a vizinha senhora Figg, que chegou muito quieta e assim permaneceu, Akin apareceu fardado para permanecer no disfarce, Marie ajudou a finalizar os últimos detalhes e, pouco antes do horário que Harry já estaria fora da escola, Breslin também apareceu.
Eram poucas pessoas, mas as únicas que não estragariam o aniversário do menino. Ao menos com os McGregor e Akin por ali, os Dursley teriam que se comportar e fingir ser o dia mais feliz de suas vidas.
Se aproximando do horário, Tori subiu para seu quarto em companhia de Abigail para espiar quando o carro apontasse na esquina. Quando o viram, as duas desceram em disparada para o andar inferior e, sendo parte do plano, Abigail foi até a porta para receber o amigo, enquanto Tori correu para o local da festa para pedir silêncio absoluto e preparar todos para a surpresa. Ela se chateou com o fato de não ser ela a recebê-lo, mas era isso ou a surpresa não daria certo, já que o irmão não falava direito com ela faziam mais de sete dias — que ela contou dolorosamente.
A expressão de surpresa e felicidade de Harry quando todos gritaram "surpresa" fez com que Tori caísse no choro imediatamente. Ela se afastou de toda a atenção que o menino recebia e foi para um canto mais afastado, assim como os tios.
— Problemas no paraíso? — Petúnia perguntou de maneira provocativa.
Tori apenas lançou um olhar irritado e saiu caminhando discretamente para dentro da casa. Ela seguiu até a escada para o andar superior e se sentou nos primeiros degraus, enquanto secava as lágrimas.
— Lene. — Harry apareceu, o cabelo mais bagunçado que o normal — Por que está aqui? — perguntou.
Todo o ressentimento dele parecia ter ido embora, o que faz a menina suspirar delicadamente de alívio.
— Vim descansar um pouco. O dia de entregas de hoje foi meio cansativo... — mentiu.
Em silêncio, Harry se sentou ao lado da irmã e quieto permaneceu. O som da música Summer of '69, do Bryan Adams, quebrou o silêncio junto gritinhos empolgados de Abigail, que começou a gritar a letra da música. Ouvindo isso, os dois irmãos riram juntos.
— Olha, Harry... Eu... sinto muito por meu excesso de autoridade com você. Acho que exagerei. Aliás, não acho, eu tenho certeza. As vezes eu esqueço que você está crescendo e não precisa mais que eu decida tudo por você, que já consegue fazer isso sozinho. Talvez eu... Talvez eu só não esteja pronta para te deixar andar com as próprias pernas, por isso eu dou uma de "irmã mais velha chata". — Tori começou a tentar explicar — O que estou tentando dizer é: me desculpa! — abaixou o olhar ao finalizar.
— Tudo bem, Lene. — Harry tocou o joelho da irmã e permaneceu com a mão ali — Eu também te devo desculpas. Sabe... você sempre se esforçou tanto por nós dois. Para que aprendêssemos tudo, para que eu nunca me importasse quando alguém nos olhasse torto, para que não nos sentíssemos sozinhos... E eu fui ingrato gritando que você não é minha mãe, sendo que você sabe disso. Eu fui um bobo e você não merecia isso. Me desculpe, irmã! — e a abraçou.
Ao receber aquilo, Tori se sentiu realizada. Sabia que não havia falhado com o irmão e ele era uma pessoa melhor do que ela imaginava. Estava crescendo e seria um homem para se orgulhar. Seu trabalho estava surtindo os efeitos esperados e isso a enchia de alegria.
Talvez Akin não precisasse mais olhar Harry nos meses que ela ficaria fora de casa estudando. O menino havia crescido. Sabia lidar com suas próprias coisas.
— Só tente não sumir mais com a Abie, ok? Eu não gostei disso. — desapertou o abraço e fez bico.
— Por que não? — ele quis saber.
— Porque você é meu irmão e se tiver que sumir com uma pessoa, tem que ser comigo, assim como nos velhos tempos quando a tia estava brava e nós dois fugíamos de casa para aquela Praça aqui perto. — explicou — É coisa nossa, Tig, e quando te vi fazer com outra pessoa eu não gostei! — cruzou os braços bem apertados.
— Não se preocupe, que tem Harry para todas! — gabou-se Harry, brincalhão, o que fez o bico da irmã piorar — Mas Tigrinho só existe para uma pessoa: minha querida irmã Marlene. — cutucou o braço dela algumas vezes.
Mesmo se segurando muito, Tori acabou sorrindo e desfazendo toda sua carranca.
— Mesmo? Meu lugar é só meu, independente de qualquer coisa? — perguntou Tori, ainda um pouco incomodada.
— Sim, Lene. Não precisa ser ciumenta. — concordou e riu.
— Eu não estou com ciúmes! — se defendeu e levantou.
— Está sim! — o menino insistiu e também se levantou.
— Não estou. E, ahm... Eu vou voltar para a festa e te aconselho a fazer o mesmo, engraçadinho. É meio estranho o aniversariante não estar presente em sua própria festa! — e saiu andando devagar de volta para a festa.
— Estou indo, ciumenta! — Harry continuou a provocar e correu para a área externa da casa.
◾ ◾ ◾
A festa seguiu agradável e conforme o planejado. Harry não precisava dizer nada, pois seu rosto demonstrava toda sua alegria e gratidão por tudo aquilo que nunca teve antes.
Abigail comandava o rádio que trouxe e todas as suas músicas pareciam agradar os convidados, exceto os donos da casa. Petúnia tinha um sorriso forçado congelado no rosto e Válter mexia o bigode de maneira nervosa. Duda, por incrível que pareça, estava calado, mas Tori sabia que não poderia sair coisa boa disso e ficou de olho.
Um tempo depois, reparou Breslin quieta ao lado da senhora Figg. Ela pareceu tentar puxar assunto segundos antes, mas desistiu após fazer uma careta confusa para a resposta da velhota.
Quando Tori viu a ex-professora pegar a bolsa e parecer disposta a ir embora, ela correu até ela e sorriu muito animada.
— Professora, se lembra da história estranha que te contei naquele dia da prova de matemática, que eu disse que uma coruja, de dia, me assustou, além de várias coisas irritantes que me fizeram chegar atrasada? Eu me lembrei que tenho uma pessoa que poderia confirmar a história! — Tori falou, segurando a mulher pelo braço e sorrindo mais ainda.
— Não é preciso, Tori, isso já foi. E eu preciso ir, pois tenho uns trabalhos para fazer em casa, apesar de ser minha folga hoje. — Breslin avisou.
— Não, eu faço questão! — continuou a puxá-la e avistou Akin conversando e sorrindo com Harry — Akin! — acenou para ele se aproximar.
Meio confuso para saber do que se tratava, Akin caminhou até as duas e assentiu como comprimento para a adulta.
— Conte a ela do dia de nos conhecemos. Que eu me arrebentei no chão ao me assustar com uma coruja e depois ainda fui a pé para a escola, mesmo machucada. Ela não acreditou muito quando expliquei essas coisas! — a menina pediu e deu um empurrãozinho para a mulher se aproximar do policial.
— Tori, eu... — Breslin tentou negar.
— Conversem! — pediu e saiu de fininho dali, deixando os dois desconfortáveis.
Enquanto caminhava de volta para a pista de dança improvisada, Tori espiou os dois e acabou esbarrando em Abigail.
— O que é que você está aprontando? — a menina perguntou, um pouco ofegante pelo excesso de movimentos.
— Tentando juntar o Akin e a Breslin. — Tori respondeu como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Pobre coitado. Ela vai fazer dele picadinho igual fazia com a gente! — lamentou.
— Não fale assim, Abie. Ela mudou bastante nos últimos meses! — ela defendeu sua conselheira.
— Duvido muito! — Abigail balançou a cabeça em negativa — Como eu disse: Deixou o pobrezinho falando sozinho! — apontou.
Ao se virar para a direção que a amiga apontou, Tori viu Breslin desaparecer dentro da casa e Akin apenas observando, quieto. A menina correu até lá junto com a McGregor.
— O que aconteceu? — perguntaram ao mesmo tempo.
— Ela foi ao banheiro. — Akin respondeu e encarou desconfiado as duas meninas — Isso, por acaso, é algum plano? — cruzou os braços.
— Foi a Tori. — Abigail acusou — Foi ela e somente ela. Eu sou só uma ouvinte das loucuras dela! — fez expressão angelical.
— Abigail! — Tori reclamou.
— Desculpa, mas não vou ser presa por sua causa, por mais que eu goste de você, Torizinha! — deu de ombros.
— Ele não vai prender ninguém, sua boba! — riu.
— Não? — Akin perguntou, divertido.
— Falando de prender as pessoas de novo, Thompson? — Breslin estava de volta.
— Imagine... — ele sorriu sem graça.
— Essa música é ótima. Vai dançar comigo, Tori! — Abigail arrastou a amiga pelo braço.
A música YMCA, do Village People, começou a tocar no rádio e Abigail começou uma coreografia engraçada. Tori viu a tia ficar pálida e Válter puxar um punhado de seu bigode, ficando tão vermelho quanto a toalha de mesa.
Vendo isso, Tori começou a imitar a coreografia da amiga e também puxou Harry para acompanhá-las. Os três dançaram o refrão em sincronia, caindo na risada a todo momento.
◾ ◾ ◾
Na hora do parabéns, os donos da casa pareciam menos nervosos. Todos se aproximaram da mesa, com Harry em um lado e todos os outros do outro. Eles cantaram o Parabéns para Você sem sincronia alguma, mas valeu a intenção.
Tori viu o primo roubar brigadeiros durante toda a música e pensou em fazê-lo ter uma diarréia, mas mudou de ideia quase que instantaneamente. Nem tudo em sua vida deveria resolver com magia.
— Faz um pedido! — Tori falou para o irmão.
Assentindo uma vez, o menino fechou os olhos e ficou alguns segundos em silêncio. Quando voltou a abrir, ele aproximou o rosto das velinhas acesas e se preparou para assoprar.
Duda foi mais rápido e apagou todas as dez, soltando um risinho alto e travesso que recebeu um olhar irritado de Breslin.
Notando a expressão decepcionada do irmão, Tori moveu a mão até o elástico de sua saia, onde sua varinha estava guardada. Se esqueceu por um momento de seu pensamento que nem tudo poderia ser resolvido por magia e estava disposta a usá-la.
Mas antes mesmo de conseguir segurar o instrumento mágico, as velinhas voltaram a se acender, cada uma delas. Harry voltou a sorrir e assoprou todas, antes que o primo pudesse fazer.
Confusa, Tori olhou para o lado e viu Akin observando o bolo fixamente, acabando por piscar algumas vezes logo depois que o menino fez sua parte. E ela entendeu que havia sido ele quem fez aquilo.
"Obrigada." Ela moveu os lábios silenciosamente assim que o Auror a observou.
Akin sorriu para aquilo.
A festa continuou.
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Assim que a festa acabou e tudo foi organizado outra vez, Tori chamou Abigail para agradecer por todo seu exagero, que aquilo havia deixado Harry radiante e, com isso, a deixado feliz também. Também aproveitou para contar a última novidade.
— E é isso, eu tive uns problemas de notas, problemas para acompanhar o nível de ensino do Colégio, que é meio puxado. Então estou de reforço para não ter problemas em mais um ano! — explicou Tori, enquanto ela e a menina recolhiam os últimos sinais de lixo antes de levar tudo para a lixeira ao lado de fora da casa.
— Você sempre foi meio lerda na escola daqui, mas eu pensei que era porque você trabalhava. Agora sem trabalho, você continua sendo ruim na escola? Você é burrinha, hein! — brincou Abigail, enquanto pegava um saco de lixo e seguia para a porta.
— Acho que eu perdi o costume de estudar tanto, é só isso. E eu não sou burra não, sua chata! — resmungou e também pegou um saco de lixo antes de acompanhar a amiga.
— Você tem mesmo que ir? Poxa, eu poderia te ajudar a estudar aqui. Não precisava ir até a escola nas férias! — Abigail sugeriu logo após abrir a porta — Esse cara sempre está por perto? Que coisa estranha! — comentou ao notar a presença da Akin em sua viatura próxima a calçada.
— Ele é amigo meu e do Harry, gosta da gente. — explicou Tori, antes de voltar a atenção para a menina — E não tenho como ficar, Abie. Eu preciso mesmo ir, a escola que exigiu! — abaixou o olhar enquanto as duas jogavam os sacos dentro da lata de lixo
— Que chato! — resmungou e cruzou os braços — Aliás, você nunca me disse qual o nome dessa escola. Se é por perto, talvez eu convencesse meus pais de me deixar estudar lá também! — o rosto da menina se iluminou com a ideia repentina.
— Não! — Tori negou rapidamente — É que... Não é por aqui a escola, é bem longe. É lá... Lá pelas bandas da Suécia ou além. — caminhou até a porta e se sentou ali perto.
— Suécia? Caramba, Tori, para quê estudar tão longe? Não dava para ter boa educação por aqui? — reclamou e também se sentou.
— É a escola dos meus pais... — a menina relembrou.
— Eles eram um pouco sem noção, não é? Deixar a filha tão nova ir para uma escola interna e cheia de estranhos, só porque eles também estudaram lá. Caramba, você não é eles! — Abigail se irritou, mas logo percebeu que aquelas palavras chatearam a amiga — Desculpa... — suspirou.
Ao observar melhor a amiga, Tori notou mais carência do que maldade nas palavras. Abigail estava chateada por ter de ficar mais meses sozinha, sem amigos.
— Não se preocupe. Dessa vez eu vou te enviar cartas, ok? Você me conta tudo e eu te conto tudo, então vai ser quase a mesma coisa que estarmos juntas! — Tori se sentou ao lado da amiga e passou um braço atrás dela — Tente fazer amigos. Na escola eu tenho certeza que deve ter alguém que seja legal, e eu percebi que você tem vizinhos, então tente interagir. Eu só não quero você sozinha... — pediu.
— Eu sei me virar muito bem. Então vai para seus estudos, que nos vemos daqui uns meses. — dito isso, Abigail se levantou e saiu andando para longe da casa.
— Abigail! — gritou Tori, mas sendo ignorada — Ótimo. Vou deixar coisas não resolvidas antes de ir embora! — resmungou sozinha.
Irritada, Tori seguiu até a viatura e se apoiou na porta, disposta a brincar com o amigo adulto e tentar esquecer seus problemas com Abigail.
— E então, como foi com a Breslin? — Tori sorriu de leve ao perguntar.
— Ela é até que legal, no fim das contas, mas... — Akin fez uma caretinha e pausou a frase.
— Mas...? — o incentivou a continuar, pois estava curiosa como sempre foi.
— É complicado. Você não deve saber, mas é perigoso se envolver com um trouxa. Não para nós, mas para eles. Talvez ao saber de tudo Zoë não entenderia ou a informação poderia colocá-la em risco... — explicou, meio chateado.
— Qual risco? O Ministério se intromete até na vida pessoal das pessoas? — a menina revirou os olhos.
— Não é isso, são outros riscos. — mexeu os ombros, fazendo a menina franzir as sobrancelhas.
— Espero que não esteja sendo preconceituoso! — reclamou e se afastou da janela do veículo.
— Claro que não! — Akin tratou logo de se defender se inclinou no banco para observar a menina — Tori, esqueceu que sou nascido-trouxa? — arqueou as duas sobrancelhas.
— Voldemort era mestiço e olha só tudo o que ele causou por preconceitos dele... — deu de ombros algumas vezes.
— Eu não sou preconceituoso, Tori, é só que não sei se as coisas vão sempre estar calmas para nós, bruxos. E eu não quero me envolver com a maior vítima disso justamente para poupa-la! — enfim conseguiu explicar o que tanto o deixava inquieto.
Tori notou sinceridade naquelas palavras e se sentiu uma boba por desconfiar daquele adulto que mais mostrou ser confiável nos últimos meses.
— Desculpa, Akin. Às vezes eu não penso antes de falar... — voltou a se encostar na janela e suspirou — Você acredita mesmo que ele vai voltar, não é? — a expressão tornou-se séria.
— Sim. A forma como tudo acabou foi insegura demais. Ainda acho que vai acontecer tudo de novo e vamos ter a chance de acabar de vez. Só espero termos sorte outra vez. — Akin se encostou no banco e apertou as mãos no volante.
— Tudo bem, pode ser que ele volte, pode ser que não... — Tori tentou mudar aquele assunto que tanto a incomodava — Mas você vai parar sua vida por causa dessas dúvidas? Vai viver em uma bolha então! — o encarou, séria.
Mas tudo o que Akin fez foi começar a rir enquanto a encarava, causando uma expressão de dúvida na menina.
— O que foi? — quis saber.
— Eu gosto quando você fala como se fosse a adulta daqui. É bem fofo e ao mesmo tempo engraçado. — o auror sorriu divertido.
— Mas eu sou adulta! — gabou-se Tori — Pense no que eu te falei: vale mesmo a pena parar sua vida por causa de um idiota? — o fez refletir outra vez.
— Não. Mas você não entenderia... É jovem demais para entender sacrifícios. — ele suspirou e desviou o olhar para as mãos firmes no volante — Vou indo, ok? Amanhã eu te busco para levá-la aos Wood. — voltou a encarar a menina e girou a chave para ligar o veículo.
— Tudo bem. Obrigada, Akin. — deu alguns passos para trás — E agora vou fazer a parte pior: contar ao Harry que vou embora amanhã. Espero me sair melhor do que com a Abie, que ficou super chateada... — suspirou.
— Ele vai entender, assim como sei que, no fim das contas, Abigail vai acabar entendendo também! — Akin falou e acenou antes de movimentar a viatura e sair dali.
Assim que o amigo adulto partiu, Tori voltou apressada para a casa e seguiu direto para a área externa da casa.
Harry estava sentado em um cantinho, maravilhado com os presentes que havia ganhado de aniversário. No momento, ele lia um dos gibis de personagem favorito que Breslin havia lhe dado. Estava tão entretido, que nem percebeu quando a irmã se aproximou.
— Tig, posso falar com você? — perguntou e se sentou ao lado dele.
— Não pode ser mais tarde? Estou meio ocupado, Lene. — ergueu os olhos rapidamente da página, para logo depois voltar para sua leitura.
— Precisa ser agora, para que você tenha mais tempo de assimilar as coisas... — explicou, mas não recebendo atenção do irmão — Volto para a escola amanhã! — revelou, enfim recebendo atenção.
— O quê? Mas... mas você acabou de chegar, poxa! — reclamou Harry, agora colocando a revistinha de lado.
— Eu sei, mas eu tive um ano ruim, tive dificuldade de acompanhar o ritmo de estudo da escola. Por isso estou de reforço e vou ter que voltar mais cedo para estudar. Além de que já era de se espe... Ah, não. Não faz essa cara, que eu vou ficar arrasada! — suplicou ao perceber o irmão cada vez mais murcho — Pense pelo lado positivo: é a última vez que você vai me ver partir. Ano que vem você vai junto comigo! — tocou os joelhos dele e deu alguns tapinhas animados.
— Vou mesmo? Quem é que te garante? — ele duvidou.
— Puff. Você é o Harry Potter, o menino que sobr... — havia se esquecido que o irmão ainda não sabia de tudo.
— Harry Potter? O que tem? — Harry percebeu e encarou a menina de maneira intrigada.
— Eu tive vaga por causa da mamãe... E do papai, é, dele também. Enfim, você também vai ter. Só tenha um pouquinho de paciência e confie em mim! — Tori abriu um sorriso meio nervoso.
— E se eu não quiser ir? — ponderou o menino, cruzando os braços.
— Aí continuará aqui o ano todo sendo chacota em casa, servindo como saco de pancadas do Duda, sendo sozinho... — começou a citar cada um dos motivos enquanto erguia o dedo para representar a quantidade.
— Credo! — fez uma caretinha engraçada e a irmã riu — Mas é claro que eu vou, sem nem pestanejar! — sorriu.
— Vou esperar ansiosamente por isso! — disse Tori, enquanto puxava o irmão para um abraço.
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