Capítulo Sete
Irmãos malcriados.

Com o susto e acontecimento repentino, Tori e Breslin ficaram um bom tempo trancadas no banheiro, onde a funcionária deu a desculpa de que uma privada havia quebrado e vazado fezes para todos os lados, e então ela daria um jeito em toda a bagunça com a ajuda da ex-aluna.

Essa foi a mentira mais boba e nada convincente que Tori ouviu na vida, mas aquilo pareceu surtir efeitos e ninguém as incomodou por um bom tempo. Mais de uma hora, mais precisamente.

— Está se sentindo melhor agora? — Breslin perguntou, após sair para buscar sua bolsa e logo voltar.

— Sim, só com um pouquinho de dor... — Tori respondeu, cabisbaixa.

Ela estava sentada no centro do banheiro, usando um tapete da porta como acento. Percebeu que o contato com o chão frio piorava aquela dor estranha na barriga que jurava ser semelhante a mordida de um barrete-vermelho.

Mordida de um barrete-vermelho em seu útero.

— Esse remédio que eu te dei vai resolver em alguns minutos, não se preocupe. Você teve sorte que sua situação não deixou... rastros. — gesticulou para a calça da menina.

— Ah, é... muita sorte! — ela assentiu e sorriu, concordando com a mulher.

Discretamente, tocou na cintura, onde sua varinha estava guardada, cujo um feitiço de reparo fora usado para fazer da roupa o que era antes.

— É meu horário de café da tarde agora. Vou aproveitar e te levo em casa, ok? Abigail e Harry já foram faz algum tempo, mas ela pediu para não se preocupar, que ela o leva para casa em segurança! — Breslin se aproximou e estendeu uma mão.

— Tudo bem. Obrigada, senhora Breslin. — Tori segurou a mão e se levantou.

— Pode me chamar só de Zoë. — sorriu um pouco.

Aliás, ela sorria até demais. Não parecia a mesma professora sempre irritada de antes. Agora possuía uma leveza que a fazia parecer bem mais jovem, que fazia de sua companhia algo agradável e necessário.

— Tudo bem, Zoë. É meio estranho, mas tudo bem! — retribuiu o sorriso.

— Por quê? — fez uma caretinha e abriu a porta do banheiro para as duas passarem.

— Você era uma professora um tanto... Um tanto "séria". — Tori tentou achar as palavras certas, mas com visível receio.

— Difícil, rígida, antipática. Essas seriam as palavras certas! — a ex-professora pareceu ler a mente dela.

— Mas não era tão ruim assim. Era rígida para que os alunos aprendessem. — deu de ombros — Senh... Zoë, você não pretende voltar a dar aulas? — perguntou enquanto passavam entre as mesas da biblioteca com destino a porta de saída.

— Não. Eu estou bem exatamente onde estou! — respondeu rapidamente, quase como de maneira desesperada.

Disposta a não insistir no assunto, Tori se calou e andou quieta ao lado da mais velha. As duas seguiram até o carro de Breslin, um Opala de tom escuro, entraram e a mulher logo deu a partida.

Seguiram por um bom tempo caladas, até a mais velha parar próxima a uma calçada e puxar o freio de mão.

— Pode falar, que estou disposta a ouvir. — Breslin se ofereceu.

— Do que está falando? — Tori tentou desconversar, mas sabia que seu olhar dizia outra coisa.

— Eu estou aqui como Zoë, não como a professora chata de Matemática. Pode desabafar comigo, pois ser uma boa ouvinte é mais um dos meus dons! — sorriu de leve e tocou a mão da menina, que estava sobre o colo.

Soltando um suspiro pesado, Tori usou a mão livre para tocar o rosto onde, sem perceber, havia começado a receber novas lágrimas. Principalmente porque aquelas palavras e o apoio de Breslin havia lembrado McGonagall, e lembrar da professora de Transfiguração a levava a pensar em Hogwarts e em todos os problemas decorrentes a escola.

— Eu tive um ano meio ruim, Breslin. Eu ganhei amigos que eu nunca tive, mas também me aconteceram coisas muito ruins. E tem o fato que comecei a crescer e não entendo direito todas as novidades que acontecem, porque minha tia não está disposta a passar por isso junto comigo, e não está disposta a pelo menos me preparar. Ela não está disposta a nada e então eu sofro tudo sozinha. Sempre foi assim. Desde a andar de bicicleta à aprender a amarrar os sapatos. Tudo eu fiz sozinha e sempre soube lidar muito bem com isso. Mas... Mas agora eu não estou conseguindo, é coisa demais para minha cabeça! — livrou sua outra mão e a levou ao rosto, onde chorou mais ainda.

Para a surpresa da menina, a ex-professora a puxou devagar para ela e a abraçou de maneira terna. A proteção que aquele abraço significou fez com que ela chorasse mais ainda.

— Vou começar sendo muito sincera com você, Vicky. A tendência é: quanto mais você cresce, pior fica. Agora suas preocupações são excesso de hormônios, estudos, garotos legais ou garotos idiotas epessoas de sua idade te cobrando para estar dentro dos padrões "maneiros". Isso é a adolescência. Mas a vida adulta é pior, muito pior. Te cobram uma profissão, mas quando você escolhe aquela que te agrada, te criticam ainda mais por não ser uma que todos esperavam. Nisso de cobrança, estranham porque conforme o tempo vai passando você ainda não arrumou um par para se casar, te cobram quando você opta por não ter filhos, te cobram se você quer ter dez seguidos. A vida adulta é cheia de cobranças, mas é na adolescência que você tem que aprender a ser forte e se preparar para tudo o que está por vir. E eu sei que você vai conseguir, afinal, você tem esse nome Victória por algum motivo! — Breslin afastou um pouco o corpo da ex-aluna e a fez encará-la — Me escute: isso vai passar. Eu confio que você vai aprender a lidar e com isso a situação vai parecer bem melhor. Pode confiar em mim! — sorriu.

— Obrigada por me ouvir e falar todas essas coisas para mim, Bres... Zoë. Era disso que eu estava precisando, de alguém que entendesse a situação e fosse franca comigo. Agora sei pelo o que vou passar e acho que vai ser mais fácil... Ou menos difícil. Enfim, obrigada. — passou as mãos pelo rosto e conseguiu sorrir um pouco — Mas... eu tenho ainda uma dúvida. — avisou.

— Pode perguntar o que quiser. — disse a adulta.

— Eu fiquei irritada quando a Abie ficou com graça com meu amigo da escola. Depois conversei com ele e senti um negócio no estômago que me deixou enjoada. São sintomas da TPM, não são? — Tori ergueu o corpo e voltou a se encostar no banco, enquanto encarava a mulher.

— O "enjoo" foi só com ele? Com a Abigail ou Harry você não sentiu nada parecido? — ela analisava a menina como um médico atendendo um paciente.

— Eu só me irritei um pouco com eles. Mas além deles, fiquei irritada com minha casa inteira! — corou um pouco ao se lembrar do shampoo atingindo a cabeça do primo — Mas... Mas o Enjoo foi só com o Olívio. — garantiu.

A resposta fez com que Breslin abrisse um novo sorriso e ficasse encarando a menina de um jeito estranho.

— O que foi? Não é da TPM? Ah, que chato. Eu vou ter que tomar aquele antiácido com gosto horroroso que a tia tem em casa! — reclamou.

— Tori, remédio não adianta. — Breslin balançou a cabeça.

— Não? Ah, meu Deus, então eu estou com alguma doença terminal? Oh, não! — lágrimas inundaram os olhos outra vez.

— Não, Tori, Deus te livre! — ergueu as mãos como se fosse rezar — Eu não tenho certeza, pois não tenho tanta experiência com isso, sempre achei meio bobo, mas... Acho que você gosta desse tal Olívio. Se não, está prestes a gostar. É seu primeiro amor, Tori! — abriu um sorriso bobo.

— Até parece! — Tori negou imediatamente — Ele é como um irmão para mim. Gostar dele seria o mesmo que gostar do Harry. Seria nojento e errado! — argumentou.

— Ele é como se fosse, mas não é de verdade. Então não seria erro algum! — rebateu Breslin.

— Somos só amigos! — foi muito firme — E eu vou provar isso na próxima vez que encontrar com ele, e nas próximas férias eu vou te falar e vou rir da sua cara! — garantiu.

— Eu vou esperar! — ela estendeu a mão, convidando a menina a apertar.

— Pode esperar então! — segurou e deu um leve aperto na mão da mulher.

Depois de afastar as mãos, Breslin voltou a dar partida no carro e prosseguiu o caminho até a Rua dos Alfeneiros. Foram poucos minutos e elas alcançaram o número 4, onde a mulher parou o carro sem estacionar corretamente e tirou o cinto.

— Eu tenho uma coisa para você. Mas não tenho sacola, então vou te entregar lá na porta. — Breslin avisou e pegou sua bolsa no banco de trás.

Tori assentiu e as duas saíram do carro, fechando a porta e caminhando devagar até a porta de entrada. A menina viu o carro do tio em frente a porta da garagem, indicando que ele havia chegado em casa do supermercado, e suspirou impaciente sabendo que provavelmente receberia uma bronca por causa de Duda e o shampoo.

A atenção de ambas foi atraída por um barulho breve de sirene, fazendo-as se virarem ao mesmo tempo. Akin saiu de dentro e encarou o carro mal estacionado.

— Eu já vou tirar. Só vim trazer minha aluna em casa. — Breslin se explicou rapidamente e voltou a se virar.

— Sabe que está indo contra as leis de trânsito, mesmo sendo "rapidinho". — o policial rebateu.

Não entendendo onde ele queria chegar com isso, Tori lançou um olhar significativo para ele, que pareceu ignorar.

— Sei também que ninguém vai morrer se eu parar o carro por alguns segundos enquanto levo minha aluna até a porta de casa. Aliás, com essa conversa estamos perdendo mais tempo que o esperado! — ela respondeu, um pouco impaciente.

— Que afrontosa. — Akin falou, sorrindo um pouco divertido para logo depois ficar sério — Eu poderia apreender seu carro enquanto isso, e talvez te prender por discutir o indiscutível! — estufou um pouco o peito para destacar o símbolo de polícia presente em sua farda.

— Eu iria até a delegacia com o maior prazer do mundo. Eu tenho minha consciência tranquila de que não devo para ninguém, muito menos para a justiça! — se virou e estendeu os pulsos, como se esperasse uma algema.

— Chega, vocês dois! — Tori se alterou — Breslin, me dá o que você iria me dar e já pode ir. Não quero problemas para você! — falou com a adulta.

— Posso? — Breslin encarou o policial com visível sarcasmo.

— Por favor. — ele devolveu o mesmo olhar e deu uns passos para trás, se encostando na viatura.

Breslin puxou Tori para as duas se aproximarem logo da porta e então a soltou, agora mexendo na bolsa de maneira nervosa. Não querendo irritar ainda mais a mulher, Tori abriu a porta e esperou para saber o que receberia.

— É para você usar nos próximos dias. Troque em algumas horas e ficará tudo bem. Como é sua primeira vez, vai ser suficiente pelos próximos cinco dias. — entregou um pequeno pacote colorido — E aqui está o remédio que você tomou. Tome quando sentir dor outra vez. — entregou uma caixinha.

— Obrigada, Breslin! — sorriu — E me desculpe por continuar te chamando assim, acho que vai ser difícil me acostumar com Zoë... — riu de leve.

— Tudo bem, Vicky, pode me chamar da maneira que te for mais confortável. Agora preciso ir, pois não quero ser presa. Nem sei o que deu em mim para retrucar com um policial. Acho que cheirar livros está me deixando doida! — riu sem humor e deu um abraço rápido na menina.

Assim que Breslin se afastou e seguiu de volta para seu carro, Tori correu para dentro de casa e guardou suas coisas no armário embaixo da escada, mais precisamente embaixo da cama para que nem mesmo Harry encontrasse. Depois, voltou para fora de casa e fechou a porta, indo para perto do conhecido.

— O que deu em você? Por que confrontou minha ex-professora? Ela só veio me ajudar! — Tori cruzou os braços e bateu o pé de maneira impaciente.

— Faz parte do meu disfarce, Tori. Se ela me visse aqui e eu não reclamasse do carro, seria estranho. Tive que ser profissional! — deu de ombros e abaixou o olhar, parecendo querer falar alguma coisa, mas sem coragem.

— Que é? — a menina cutucou o braço dele algumas vezes.

— Nada, oras! — tentou disfarçar ficando sério.

As batidas do pé de Tori no chão se intensificaram, onde um bico enorme veio piorar o drama.

— Tudo bem, tudo bem... Eu tenho uma pergunta. — suspirou pesado e se abaixou para ficar perto da menina — Quem é essa professora? — arqueou uma sobrancelha.

— Ex-professora. Ela era da minha antiga escola, a escola trouxa. Não era uma das minhas favoritas, mas agora ela se tornou especial para mim. — explicou e desfez a carranca, abrindo um sorriso no lugar.

— Qual o nome dela? Ela vai te visitar mais vezes? — fez outras perguntas, apesar de ter dito ter apenas uma.

— Zoë Breslin. Mas por que quer saber tanto? Vai mesmo procurar prender ela? Que coisa feia, Akin, eu não esperava isso de você. Estou muito decepc... Espera. Você não quer prender ela. — concluiu e um sorriso divertido se abriu nos lábios da menina — Você está paquerando minha professora, seu espertinho! — cutucou o braço dele várias vezes outra vez, enquanto ria.

— Eu? Até parece. Eu não paquero ninguém, são elas que me paqueram. Não viu como ela me olhou? — gabou-se, mas logo murchou a postura e riu — Tudo bem. Eu sou um pouco estranho... o afronte dela me interessou. Além de estranho, também estou tempo demais sozinho, ou pelo menos sem alguém definitivo! — explicou.

— Pois eu vou te ajudar nisso, meu amigo. Você é legal, merece alguém legal como a Breslin! — Tori se animou e abriu um sorriso bobo.

— Até parece que ela vai querer. Os trouxas tem um pouco de receio por policiais e com ela vai ser o mesmo. Fora que ameacei prendê-la... — deu de ombros.

— Confie em mim, que eu dou meu jeitinho. — jogou uma mecha do cabelo para trás — Eu amo as voltas que o mundo dá. Minutos atrás ela estava cheia das gracinhas comigo, dizendo que eu estava apaixonada pelo Olívio, que ele era meu primeiro amor e blá, blá, blá. Mas na realidade foi ela quem arrumou alguém! — riu com humor.

— Você e o Olívio? É, bem que reparei seu bicão quando vocês desceram do quarto da Abigail... — relembrou Akin, enquanto mexia no queixo.

— Akin, até você? Poxa vida! — reclamou Tori, enquanto se virava e saía pisando duro de volta para a porta.

— Estou brincando, sua boba. — falou, enquanto se segurava para não rir e falhava.

— Tchau, engraçadinho! — revirou os olhos, acenou e fechou a porta.

Assim que se afastou da porta, Tori caminhou sorrateiramente até o armário e retirou do esconderijo o pacote e remédio que Breslin havia dado. A dor ainda estava ali, porém mais leve, então não sentiu necessidade em tomar o medicamento mais uma vez. Talvez mais tarde.

Ao virar o corpo para sair dali, a menina esbarrou em uma barriga flácida que a fez cambalear para trás.

— Você, menina. — Válter apontou o dedo gordo para ela — Você ousa a machucar o dono da casa onde foi acolhida? — rosnou.

— Tio, eu não fiz nada. — explicou ela, um pouco impaciente.

— Ah, não fez? — perguntou, incrédulo e então a segurou no braço — Então venha ver o que você não fez, sua mentirosa! — e a puxou em direção a porta que dava acesso a cozinha e, logo depois, a sala.

Duda estava sentado no sofá normalmente assistindo algum desenho musical e movendo a cabeça, enfaixada, de forma animada conforme o ritmo da canção. Mas ao ver os dois familiares, ele amoleceu o corpo e começou a gemer.

— Está vendo? Olhe o que você fez ao seu primo! — o adulto ficou vermelho de irritação.

— Sim, estou vendo. — Tori concordou — Estou vendo o que o senhor não está: que Duda está fingindo e te fazendo de pateta! — revelou.

— Calada, sua abusada! — ordenou o tio — Vá agora mesmo para seu quarto e não volte a cruzar meu caminho até o dia de sumir para aquela escola de bizarros! — a soltou de maneira brusca, a fazendo tropeçar alguns passos.

— Vou sim. Vai ser um prazer não olhar para esse seu bigode piolhento! — afrontou, para logo em seguida sair correndo com destino as escadas enquanto soltava risinhos.

Ela subiu rapidamente e foi até o banheiro, onde o encontrou vazio. Também espiou o quarto dos tios e do primo, não encontrando nada.

— Não estava na cozinha também... Onde esse menino se meteu? — refletiu sozinha a respeito do irmão, enquanto observava o único cômodo que não havia vasculhado — Oh, não. Não, não, não! — murmurou enquanto corria para seu quarto.

Ao abrir a porta, tudo o que encontrou foi a mesma bagunça que havia deixado antes de seguir para a biblioteca, sua roupa do dia anterior jogada sobre a cama, seu malão meio aberto e a cama por fazer. Não havia nem sinal de Harry por ali, o que a fez suspirar aliviada.

— Onde esse menino se meteu? — repetiu a pergunta.

◾ ◾ ◾

Logo após arrumar toda a bagunça do quarto, finalizando ao reparar cada livro destruído, Tori deu um jeito de fechar seu malão de maneira que ninguém além dela conseguiria abrir.

Depois, ela desceu devagar para o andar inferior para ver mais uma vez se Harry havia aparecido. Espiou o primo com o mesmo fingimento, a tia o paparicando e o tio com uma carranca no rosto.

Disposta a não cruzar o caminho de Válter conforme ele ordenou, a menina saiu da casa e foi se sentar perto da porta, para esperar. E para sua sorte, mal se acomodou quando o carro de Abigail parou na calçada e Harry desceu todo animado junto com a menina. Em sua mão estavam algumas folhas de sulfite, além de seu caderno escolar.

Entendendo do que se tratava, Tori se levantou e cruzou os braços, tendo certeza absoluta de que sua expressão estava pior do que ela imaginava, pois foi suficiente para congelar e reprimir o sorrisinho do irmão.

— Eu levei o Harry até a minha casa rapidinho para terminarmos de pesquisar o trabalho. Aquelas velharias não são tão diretas e ia demorar o dia inteiro. Então fomos para o mais prático! — Abigail explicou.

— Isso depois que eu te disse que ele não podia, e que iria pesquisar na biblioteca? Caramba, você sabe lidar bem com regras! — ironizou Tori.

— Me desculpa. Eu pensei que você fosse demorar e daria tempo de trazer o Harry de volta. Eu não queria problemas para ele... — a menina continuou a tentar explicar.

— Ainda por cima iria mentir para mim! — soltou um riso inconformado e deu uns passos para frente — Quando eu pedir que o Harry não faça uma coisa, você não tem que se meter com seu "achismo" e fazer o que você acha melhor. A questão não é o que você acha, e sim o que é melhor para ele. Eu sei o que é melhor para o meu irmão, você não sabe. Vai saber e poder decidir no dia que tiver um. Enquanto isso, não se meta com o irmão dos outros! — foi firme.

— Me desculpa... — foi a única coisa que Abigail falou antes de voltar para o carro visivelmente chateada.

— Ora, essa! — Tori resmungou se virou para a porta.

— O que você acha que está fazendo? — Harry se irritou com a irmã — Não pode mandar meus amigos embora só porque está toda irritadinha! — protestou.

— Não fiz isso por estar irritada a toa. Você me desobedeceu, Tiago! — explicou o tratando pelo segundo nome, que costumava usar quando estava irritada.

— Eu não tenho que te obedecer, Marlene! — rebateu o menino.

— Quem disse que não? Eu sou sua irmã mais velha, sei muito mais do que você e sei o que é melhor! — argumentou Tori em sua defesa.

— Sim, você é minha irmã mais velha. — concordou Harry — MAS NÃO É A MINHA MÃE! — se exaltou e entrou correndo para dentro de casa.

Em outras discussões que teve com o irmão, Tori sempre terminava gritando de volta o quanto o achava um "moleque birrento". Mas naquela vez não conseguiu dizer nada, pois se lembrou que o grau de parentesco entre os dois havia diminuído. Ela já não tinha a mesma autoridade de antes, mesmo o menino não tendo ideia disso. Quando soubesse, provavelmente só tornaria mais fácil perdê-lo para alguém que tem muito mais a oferecer, como Abigail e toda sua riqueza. Fora que se revelou uma garota bem mais legal, humorada, madura e talentosa. Era um pacote perfeito que Tori não se achava chegar nem na metade do nível.

Assim que se recompôs e entrou em casa, Tori se deparou com a tia parada próxima a porta do armário embaixo da escada.

— Se sair daí hoje, te arrasto de volta pelas orelhas, moleque malcriado! — gritou e deu um soquinho na porta, quando reparou na sobrinha parada ali perto — Aliás, irmãos malcriados! — corrigiu e fuzilou a menina com o olhar.

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Notas finais
❝| As cenas doa Breslin com a Tori eu tive que pensar: o que eu diria pra um adolescente que está com problemas de lidar com a fase? E saiu isso aí. Eu sempre fui péssima com conselhos, mas as palavras saíram com sinceridade: vai piorar. Não é querer assustar a pessoa, é só preparar pro que realmente está por vir. Espero ter servido pra alguém. kkk Obs: Tori não voltou a ser aquela que chora por tudo, ela só tá de TPM. |❞