A Babá.
26 Capítulo 26
POV EMMA
Henry é uma criança especial e eu sabia que ia machucá-lo quando contasse sobre Robin. Eu não queria que ele morresse e doeu. Pois quando vi o carro, eu poderia ter entrado na frente, poderia dar ao garoto a chance de viver, mesmo que separado, com o pai e a mãe. Porque eu não tive isso. Ele havia errado e fui incapaz de entender seus motivos, mas pessoas erram. Minha mãe me diz tal coisa com frequência.
Nós o cercamos na cama e contamos. Talvez tivesse um modo mais sutil, mas nada diminuiria a dor. Os olhos se encolheram e envermelharam. Fui jogada para trás, com ele se jogando em meu colo. Regina abaixou a cabeça, eu vi as lágrimas brilharem em seu rosto, Henry me apertava, minha blusa molhou-se lentamente. Minha mãe seguiu até seu rosto, afagando. Os dois tinham um ao outro naquele momento, e a mim.
— Ele ainda vai me ver? – Henry perguntou, afastando a cabeça do meu corpo.
— Claro.. Em algum lugar, ele vai estar olhando para o filhão dele. – Sussurrei, passando o polegar em seu rosto. – Ele te salvou, Henry. É essa imagem que você deve guardar de seu pai, independente do que houve, ele salvou você.
— Vu guardar. – Disse, pulando para o colo de Regina. Suas mãos pequenas pousaram no rosto dela, onde ela virou e depositou um beijo em cada. – Eu não queria.. – A voz falhou e sai do quarto.
Foi demais vê-lo daquela forma. Vê-los daquela forma. Passei as mãos no rosto, na varanda da casa, buscando ar, tentando conter as lágrimas involuntárias que desciam. Eu não deveria estar tão abalada. Mas estava me senti perdida. Nunca lidei bem com as minhas dores, quando Regina me apresentou as delas, ainda assim, admito que não abracei por completo e agora os dois estavam ali. Henry principalmente, nós o desmontou por completo.
— Emma. – A voz de Regina fez-me suspirar.
— Porque eu sinto que você está mais abalada que eu? – Perguntou, colocando-se ao meu lado.
— Talvez eu não saiba lidar com a morte. Ou com essa dor, especificamente.
— Você não precisa lidar com isso, Emma. Só de ter você aqui.. é suficiente. – Ela levantou a cabeça, sabia que estava buscando ar.
— Não existe outro lugar para eu estar. Tem que ser aqui. Com vocês. Mesmo sem saber ao certo o que fazer. – Sussurrei, depositando um beijo entre seus cabelos.
— Henry foi tomar banho, ele quer ir. – Ela disse, encostando-se à parede, me olhando. Parecia perdida.
— Vai ficar tudo bem, não é? –Alcancei sua mão, fazendo carinho.
— Vai, sempre fica. – Suas mãos me chamaram, abrindo e fechando. A abracei e respirei fundo, permitindo-me relaxar.
— Você quer ir ao enterro? – Perguntei, sem soltá-la em nenhum momento.
— Eu vou, tivemos uma história, Emma. – Respondi baixo, com a mão deslizando sobre minhas costas.
— Tudo bem. – Selei seus lábios levemente. – Isso vai passar e vamos ser feliz, eu, você e Henry. – Sussurrei, soltando seus lábios com uma mordidinha. Ela riu, isso foi acalentador.
Henry a gritou, estava no banho. Me encarreguei de arrumá-lo para ela tomar seu banho. Ele mesmo escolheu uma roupa que o pai havia dado, estava tão quieto, tão imerso em seus pensamentos. Arrumei a gola de sua blusa e passei o pente em seus cabelos lisinhos e escuros.
— E agora? Você vai ficar aqui com a gente? – Perguntou, sentado em minha perna, na cama.
— Eu vou estar bem ali, do lado. – Respondi, contornando sua cintura pequena.
— Vou poder dormir lá? – Brincava com meus dedos, como se estivesse contando algo.
— Sempre. E vamos ver filme, chupar sorvete, ir ao parque..
— Eu gosto de lá. – Respondeu, se virando, aconchegando-se em meu colo.
Por longos minutos ficamos ali, sem falar nada. Ele olhava o teto, olhava meus olhos, enchia a boca de ar e soltava. Regina chegou e saímos. Nunca achei certo levar criança a cemitérios, o lugar é tão carregado. Mas ele quis e também nunca apoiei não dar ouvido a certas vontades de crianças. Havia muitas pessoas, me senti deslocada, porém Henry segurava minha mão, a apertava. Não olhava para nada além do caixão fechado.
Marian estava do outro lado com o filho, vi nos olhar a acenar. Regina ignorou e arqueei a sobrancelhas como modo de resposta. Muitas pessoas falaram muitas coisas. Até mesmo a amante. “Robin foi uma luz em minha vida, meu ladrão”, disse jogando uma flor. Henry abraçou a cintura de Regina, lágrimas desciam de seu rosto, muitas delas. “Vá em paz”, pensei vendo o caixão descer, seguido da terra por cima.
Um a um, todos iam se dispersando silenciosamente. Alcancei as mãos de Henry e Regina, um convite à saída, à outra fase da vida de ambos. Os dedos finos de Regina e pequenos de Henry se entrelaçaram aos meus. Sentia que ambos eram minha família, de verdade, junto com minha mãe.
Meu primeiro esforço foi juntá-los e naquele momento outro objetivo havia sido traçado: fazer ambos felizes. Não um pouquinho felizes, mas muito felizes. Trazer um sorriso a cada manha. Uma surpresa a cada dia. Ir ao serviço da Regina para dar um simples Oi. Ou buscar Henry na escola, quando ele estiver esperando que fosse Regina, para vermos filme. Roubar os dois no meio da semana para fazer algo diferente. Não importa o que fosse, eu os faria viver algo novo, que no fim também seria novo para mim.
— Sabe o que minha mãe me dizia para fazer quando estava triste? – Perguntei a Henry, sentada no banco de trás, enquanto Regina dirigia.
— O que? Chorar? – Me olhou curioso.
— Cantar. Quem canta seus males espanta, ela sempre dizia. O que você quer cantar? – Regina deu uma olhada rápida para mim, com um sorriso se formando.
— Eu não sei. Só consigo lembrar das músicas da mamãe. – Disse, olhando para cima, acredito que buscando em sua mente. – Ela ouve Beatles e Queen.
— Oh, isso é bom! Vamos rapaz, cante.
— Blackbird singing in the dead of night.. – Ele começou bem baixinho, encostei-me ao banco o ouvindo. – Emma você tem que cantar também!
— Take these broken wings and learn to fly.. – Sussurrei, mexendo sua mão para os lados.
— All your life.. You were only waiting for this moment to arise.. – Cantamos juntamos, até Regina sussurrava a canção na frente do carro. Henry se mexeu no carro até deitar em meu colo e cantar alto, desafinado, sem se preocupar com coisa alguma.
— You were only waiting for this moment to arise… — Sussurrei, quando ele aparentemente esqueceu a letra, finalizando nossa cantoria e encostando em casa.
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