A Babá.
5 Capítulo 5
Notas iniciais
POV REGINA
Como proceder com aquela garota cuidando de mim daquela forma? Nem Robin meu marido era assim. Ela teve cuidado, preparou aquele chá horrível e me deu alguns remédios e ainda ficou lá enquanto eu dormir. Sabia disso porque acordei, me assustei e a assustei, porque estava próxima.
Meu erro foi ter insistido em ir trabalhar, quando eu acordei estava bem, pelo menos achei estar. Emma ficou de cara feia e Henry fez manha, mas fui mesmo assim. Pedi para ninguém me incomodar, porém em algumas horas minha cabeça começou a pesar, minha respiração ficou péssima e senti minhas forças se desvairarem. Eu teria ido pra casa, mas não dava para confiar em mim dirigindo naquele estado. A única solução que me passou na cabeça foi ligar para Emma. Notei seu tom de preocupação e a escutei falando firme com a recepcionista que não queria avisar que ela estava lá. Ri fraco e sozinha com o jeito dela.
E mais uma vez ela cuidou de mim e de Henry, estava nitidamente brava, seu semblante sério me deixou sem graça pela teimosia em ter saído. Além de tudo, ainda cuidou de Henry, deu janta para ele, o colocou para dormir. Depois voltou para meu quarto, conferiu minha febre, fez recomendações, me convenceu a ficar em casa no dia seguinte, ela não viria. Mas eu queria que ela viesse. Porém aceitei. Foi embora e depois de alguns minutos, eu fui jantar.
— Emma? – Falei quando ela atendeu ao telefone.
— Aconteceu alguma coisa Sra. Mills, eu posso ir ai. – Ela falou atropelando as palavras.
— Não, calma. Só queria saber se chegou bem..
— Sim, fica tranquila. Aproveite o dia com Henry. Boa noite. – Falou encerrando a ligação.
— Boa noite. – Respondi ouvindo o tututu da ligação. Passei no quarto de Henry, dei um beijo nele e sentei na beirada da cama o olhando. Ele estava crescendo, não conseguia me aproximar dele, era como se existisse uma barreira entre nós. Lembrando-me dele deitado no colo de Emma, pensei que nem lembrava quando ele havia feito isso comigo, ou quando me ouvia e assentia tão calmamente como fez com ela.
Fui para minha cama e deitei, minha cabeça ainda doía, mas eu consegui respirar melhor. Tomei um comprimido para dormir, minha mente estava borbulhando com mil e um pensamentos que sempre começavam em Henry e terminavam na baba. Ela era tão simples, sua casa era tão simples, mas tão cheia de vida. Peguei no sono com tais pensamentos.
— PAPAI! – Ouvi Henry gritando e acordei assustada. Nada de dor, nem cabeça, nem no corpo, em lugar nenhum.
— Ei menino! – Robin disse o pegando, havia até esquecido que ele já voltaria. – A mamãe não foi trabalhar, que milagre é esse?
— Ela está dodói, papai. – Os escutei falando.
— Bom dia, Regina. – Falou entrando no quarto e vindo até mim. – O que você tem?
— Uma gripe, Robin. Só isso, já estou melhor. – Falei me sentando na cama.
— Vocês estão em casa, nós deveríamos fazer alguma coisa. – Henry disse animado. – Só vai faltar a Emma.
— Quem? – Robin disse com um ponto de interrogação na testa.
— Contratei uma baba. – Falei.
— E ela ainda não foi embora? Ela é uma bruxa? – Robin perguntou brincando com Henry.
— Ela é legal papai. – O garoto disse.
— Qual a macumba ela fez? – Perguntou surpreendido, de fato, ela era a única a conquistar Henry dessa maneira.
— Vamos ao parque, papai? – Perguntou puxando a blusa de Robin.
— Vamos querido, Regina vai também, né? – Falou me olhando. Não respondi, mas Henry estava com aqueles olhos pidões. Assenti a contragosto.
Levantei, tomei aquele chá horrível, os remédios que Emma deixou separados e preparei café para os dois. Eles comeram fazendo gracinhas, algo me impedia de fazer isso, me travava. Só observei a maneira com Henry se divertia com o pai. Até de Robin eu era um tanto afastada. Nosso casamento foi fruto de uma longa amizade, curto namoro e interações demais entre as famílias. Estava cedo, nos trocamos e saímos até o parque. O sol estava fraco e ventava um pouco.
Henry foi segurando nossas mãos, andava quase saltitante.
— Emma pode me trazer aqui, mamãe? — Perguntou me olhando. — Por favorzinho.
— Se ela quiser, pode. — Respondi séria. Ele comemorou e foi correndo para os brinquedos.
Sentei no primeiro banco que vi e Robin sentou ao meu lado. Às vezes eu tinha crises, me perguntava se era isso mesmo que queria para minha vida. Minha mãe me colocou na política e aceitei de bom grado, por levar jeito para a coisa. Não era uma prefeita odiada, pelo contrário, as pessoas gostavam de mim. Talvez por não me conhecerem de fato.
— Sabe Regina, você deveria pensar em se aproximar mais dele, você é mãe. — Robin disse. — Vai lá brincar com ele. Fiquei olhando Henry brincar, tão animado, senti que se eu fosse lá, a diversão acabaria, porque eu não sabia fazer aquelas coisas. — Você nem tenta! — Ficou irritado e foi até lá.
Não falei nada, fiquei vendo os dois brincarem. Meu celular tocou me trazendo de volta a terra.
"Melhorou?" Uma mensagem curta e direta.
"Estou melhor. Henry quis vir ao parque." Não tinha necessidade de eu mandar exatamente o que eu estava fazendo.
"Legal. Estou correndo no parque também." Li e me levantei de modo involuntário olhando para os lados. Não demorou e a vi dando correndo numa ponte pequena que havia mais a frente. Os cabelos presos, uma blusa regata, um short soltinho e curto desses que se usa em academia. Fiquei observando-a correr até o momento que parou e se alongou.
"Se alongar faz bem pra saúde." Mandei, meus dedos estavam ganhando vida própria. Ela parou para ver o celular e me procurou.
Logo encontrou e pude ver que estava sorrindo. Vi que ela deu dois passos para ir até mim. Porém, Robin chegou.
— Agora é hora de sorvete! — Falou com Henry e Emma deu meia volta. Poxa.
— Mãe? — Henry me chamou. — É a Emma?
— Sim, filho. — Respondi.
— Emmaaaaa!! — Ele saiu correndo nos deixando pra trás.
— Quero conhecer quem conseguiu domar essa fera. — Robin disse indo até eles.
Emma o viu e ele se jogou em seus braços a abraçando. Quem visse diria que ele é filho dela.
— Oi pequeno. — Ela disse. — Brincou muito? — O desceu e abaixou de modo que ficou de sua altura.
— Sim, olha meu pai. — Apontou pra Robin.
— É um prazer Sr. Mills. — Falei apertando sua mão.
— O prazer é meu. Eu queria mesmo conhecer quem havia conseguido a confiança de Henry, depois de tanto tempo. — Ele disse animado.
— Carinho e atenção e tudo se resolve. — Ela disse dando um sorriso pequeno.
— Viu Regina.. — Ele murmurou e revirei os olhos. Emma percebeu.
— Preciso ir, foi um prazer te conhecer. Até amanhã Sra. Mills, se comporte Henry. — Disse já andando.
— Ei. — Robin disse a fazendo virar. — Pode cuidar de Henry hoje à noite? É que tem uma festa e gostaria que Regina fosse comigo.
— Robin, é folga dela. Ela ficou até tarde em casa ontem.
— Não tem problema, eu iria ficar em casa vendo filme. Vejo filme com ele. — Ela assentiu e confirmou que estaria lá as sete.
— Viu, ela podia numa boa. — Ele disse enquanto voltávamos.
— Ou fez isso porque é a primeira vez que te viu e ficaria chato dizer não. — Falei dando de ombros.
O dia passou voando, Robin matou a saudade de Henry e eu fiquei inquieta em casa. Ainda havia sinais da gripe, uma tosse seca, dor de cabeça, nariz coçando.
Escutei a campainha e julguei ser Emma. Robin estava terminando de se arrumar e foi lá.
— Olá, Henry está na sala. Obrigada por vir. É difícil conseguir carregar Regina pra qualquer lugar além do serviço. — O escutei dizer.
— Aproveitem. — Ela respondeu.
Eu terminei de me arrumar, estava com o vestido vermelho, salto, uma maquiagem leve. Nada mal.
— Minha vontade é tirar sua roupa.. – Robin me abraçou por trás beijando meu pescoço.
— Vai ficar querendo, querido. – Falei me desvencilhando dele.
— Hoje a noite você não escapa. Estou com saudades.
— Se ficasse mais em casa, não teria saudades. – Retruquei, ele é representante de vendas e sempre trabalha muito.
— Regina... – Falou com a voz mansa, respirando fundo.
Sai do quarto e passei para me despedir de Henry. Emma colou os olhos em mim, senti seu olhar me queimando e minhas bochechas corarem. Quando me aproximei mais, ela se virou bruscamente olhando a TV.
— Desculpa estragar sua folga. Temos um quarto de hóspedes. – Falei apertando seu ombro levemente.
— Não tem problema, eu ficaria sozinha em casa mesmo. – Ela disse me olhando.
— Comportem-se. – Robin disse me pegando pelo braço. Vi Emma arqueando levemente a sobrancelha ao ver isso.
Fomos a bendita festa, estava animada, vi alguns conhecidos, bebi algumas doses, nada exagerado, porque eu nem poderia estar bebendo na verdade. Robin bebeu mais, se soltou, dançou, pagou mico.
— Olha quem saiu da toca. – Escutei uma voz e me virei. Era Ingrid uma antiga amiga.
— A prefeitura é quase minha casa. – Falei dando um beijo em seu rosto.
— Eu sei, você esquece-se do mundo quando está lá. Como está Henry? Conseguiu alguém para olhá-lo?
— Crescendo. E não, contratei uma baba. – Respondi.
— Ele ainda não tentou mata-la? – Perguntou, a fama de Henry era extensa.
— Ele a ama. É uma moça nova, nunca nem tinha visto na cidade. – Expliquei.
— Bonita? – Pude ver o interesse em seu olhar.
— Fica longe da minha baba. – Respondi revirando os olhos.
— “Minha baba”, Regina Regina, ela não é seu filho ou seus funcionários da prefeitura que você pode controlar. Lembre-se disso. – Ela disse e dei de ombros.
Robin me puxou para dançar, estava indisposta, fiquei cinco minutos e sentei de novo. Pude o ver olhando descaradamente as outras moças e me irritei.
— Vamos, deu por hoje. – Falei o pegando pelo braço.
— Mas já? – Falou pigarreando e ignorei indo pra fora.
Entrei no carro e esperei uns dez minutos, minha vontade era deixa-lo para trás, mas respirei fundo e esperei, esperei, esperei.
— Está cedo. – Falou entrando.
— Já bebeu demais querido. – Respondi saindo. Ele estava animado, cantando alto com a musica.
Estacionei e fui direto para o quarto me trocar, estava tudo apagado, presumi que Emma e Henry estivessem dormindo. Quando estava tirando o vestido Robin chegou fazendo graça, aquele cheiro de bebida me dava náuseas. Ele deslizou as mãos por meu corpo, me dando beijos nos ombros.
— Hoje não. – Falei dando um passo a frente.
— Porque não? Vamos matar a saudade.. – Falou ainda tentando, tomando meus lábios.
— Não, você está alterado. – Falei calmamente me soltando.
Tirei aquela roupa e coloquei um hobby. Fui a cozinha pegar um remédio para dor de cabeça, bebi água e respirei ar puro, fiquei cerca de meia hora sentada na mesa com o copo a minha frente, buscando sono e coragem para ir para o quarto.
— Tomei banho, estou menos alterado, cheiroso.. Qual a desculpa agora? – Robin chegou segurando em meus ombros.
— Está pronto pra dormir. – Murmurei. – Não estou afim, Robin.
— Quando você está afim Regina? A única coisa que te interessa é seu serviço. – Ele falou se afastando, passando as mãos no cabelo demonstrando seu nervoso.
— Fala baixo, Henry está dormindo. – Sussurrei me levantando. – Vai dormir, amanha nós conversamos.
— NÃO! Você sempre adia nossas conversas, amanha ou depois, estou cansado. Faz meses que não temos relações! – Estava falando alto.
— Porque faz meses que você fica nesse vai e volta do seu serviço! – Respondi no mesmo tom. – Você vem, fica uns dias e acha que eu tenho que estar disposta a fazer qualquer coisa só quando você quer, ou está disponível? Não querido, não é assim que as coisas funcionam.
— NÓS SOMOS CASADOS! O desejo deveria existir sempre! – Ele falou gesticulando com as mãos. – SEMPRE. Eu tenho uma mulher e às vezes nem lembro mais como é o corpo dela.
— Porque você nunca está presente!
— Quando estou você não aproveita!
— Aproveitar? – Ri alto. – Sério? Eu deveria aproveitar? Quer que eu te implore por mais dias aqui para suprir minhas carências também? Quer que eu mendigue a droga de um toque, nos dias que você não está aqui? Eu me sinto só Robin, merda, eu me sinto sozinha em todas as noites naquela cama enorme. E você fica tão pouco, que quando está aqui é como se não estivesse. – Terminei de falar nervosa e vi Emma na porta nos olhando assustada.
— Henry, volta pro quarto. – Sussurrou e o vi escondido atrás de suas pernas. – Desculpa, ele acordou assustado e veio correndo. – Falou sem jeito e ele veio até mim.
— Vocês estão brigando, mamãe? – Perguntou coçando os olhos.
— Estamos conversando Henry, vai lá com a tia Emma. – Falei apontando pra ela. Fiquei sem graça, ela deve ter ouvido tudo que eu disse. Robin havia se jogado no sofá. Henry pegou a mão de Emma e voltaram para o quarto.
— Desculpa.. – Robin falou indo para o quarto.
— Amanha. – Falei sem o olhar e escutei bater a porta.
Permaneci na cozinha pensando no rumo que teria a conversa no dia seguinte com Robin, dissemos verdades e é sempre difícil encará-las. Pensei em beber whisky, mas havia tomado remédio.
— Você deveria dormir, já são quase quatro. – Escutei a voz de Emma sussurrando. Ela estava indo tomar água.
— Desculpa pelo showzinho e acordar vocês.. – Falei sentindo minhas bochechas corarem.
— Eu estava acordada, mas Henry ficou assustado. Tudo bem entre vocês? – Perguntou escolhendo as palavras. Estava encostada na pia, tomando a água.
— Bem não é a palavra certa. – Respondi contornando a boca do copo com o dedo.
— Desculpa me intrometer. Sei como é se sentir sozinha, sabe? – Ela disse e a olhei. – Conversem, sem brigar, sem gritar, só conversem. Pela manha vou levar Henry para caminhar comigo, aproveitem esse tempo. – Ela disse depositando o copo ali e saindo.
Levantei e fui atrás dela, não sabia o que dizer, mas não queria ficar ali sozinha novamente. Alcancei seu pulso e ela se virou, ficamos próximas demais, seu olhar me analisava e sua expressão era serena.
— Obrigada. – Falei escorregando a mão de seu pulso, tocando a sua.
— Pode conversar comigo quando quiser, não sei se quer uma amiga, mas posso ser uma boa ouvinte. Dorme ai com Henry, é melhor. – Falou e saiu da minha frente. – Boa noite, Sra. Mills.
— Boa noite, Emma.
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