A Assassina e o Alquimista - Livro 2
2 Convidados no chá da tarde
Notas iniciais
- Bom dia, senhor Zampano — Alphonse bateu na porta do quarto do outro, educadamente — Viu a Akame?
Zampano e Jelso arrumavam alguns suprimentos para a expedição ao sítio arqueológico das teigus. Run iria guiá-los e tinha uma previsão que levaria um dia inteiro para ir e voltar.
- Não hoje — Zampano respondeu — Já tomou café da manhã?
- Não. Acabei de acordar — Alphonse apontou para fora — Vou ver se encontro ela na cozinha.
Alphonse não conseguiu encontrar Akame em lugar nenhum. E ela estranhamente não apareceu na hora do café da manhã. Isso estava muito estranho.
- Run disse que ela saiu bem cedo — Jelso voltou para chamá-lo depois de ter saído para ajudar a procurar — Deve ter ido na frente. Aliás, o Run está esperando a gente para irmos para o local das teigus. Vamos, Alphonse?
- Certo — Alphonse pegou suas últimas coisas — Espero que a gente possa encontrar ela lá.
*************************
O incenso nem tinha terminado de queimar quando Wave e Akame terminaram suas orações. Wave até recitou uma sutra. Nada muito elaborado. Um monge faria um trabalho melhor, pensou, mas teria que servir no momento.
Ele e Akame ficaram em silêncio por um tempo, um ao lado do outro. A única companhia dos dois era o vento que passava por eles e esvoaçava suas roupas e seus cabelos.
- Você acha que ela finalmente encontrou a paz? — Wave resolveu quebrar o silêncio.
- Espero que sim — Akame respondeu e se afastou.
Wave hesitou em segui-la. Olhou uma última vez para a pedra fincada no chão, sussurrou um pequeno adeus e se apressou para alcançar Akame.
- Eu gostei do lugar que escolheu para ela — Akame comentou quando Wave conseguiu alcançá-la — É muito bonito.
- Obrigado — Wave respondeu com um pequeno sorriso — Imaginei que ela também gostaria.
Os dois andaram por alguns minutos em total silêncio. Atravessaram um imenso campo de flores e chegaram nas proximidades de uma estrada quando Wave resolveu voltar a falar.
- Então — ele pigarreou — para onde vamos agora?
- Vamos para o porto — Akame apontou o caminho — Lá pegaremos um navio até o nosso destino.
E foi exatamente como Akame disse. Não demoraram muito na caminhada para acharem um porto e lá pegaram um navio a vapor que gastou duas ou três horas de viagem até chegarem em uma das ilhas que faziam parte dos territórios do Império.
Akame e Wave não demoraram no desembarque. Atravessaram o porto, desviando de barris e sacos de mercadoria vindas de terras distantes e se depararam com a visão imponente de uma cidade que parecia ter parado no tempo. Os passos deles ecoavam nos paralelepípedos que pavimentavam as ruas estreitas e sinuosas.
As fachadas das casas adornadas com janelas de madeira e, ora com arcos de pedra cobrindo as portas, ora com letreiros pintados à mão indicando lojas de boticários, alfaiates e livreiros, tinham um aspecto de que foram recém-construídos. Aliás, toda a cidade parecia um imenso canteiro de obras. Contraditório porque a arquitetura parecia ser inspirada em um período que se perdeu nas memórias.
No meio da cidade, erguia-se um castelo com suas inúmeras torres altivas e muros cobertos por trepadeiras. Assim como o restante da cidade, o castelo parecia estar passando por uma grande reforma. Akame dirigiu-se em linha reta para o portão central do castelo com Wave em seus calcanhares. Haviam duas pessoas na portaria usando capas e Akame se dirigiu a um deles.
- Quero falar com o diretor — Akame falou com confiança — Ele sabe que estou aqui.
O homem acenou brevemente com a cabeça antes de sumir em um corredor escuro. Poucos segundos depois, ele retornou e abriu a imensa porta, dando espaço para os dois entrarem.
- Sigam-me — o homem andou através de um corredor escuro e curto. Ao final, eles chegaram em uma sala com paredes de pedra onde havia somente uma pessoa esperando. Era um homem alto que usava roupas extravagantes e coloridas. Ele fez uma imensa reverência, removendo a cartola que trazia na cabeça, quando os dois convidados entraram.
- Saudações — o homem da cartola cumprimentou, alegremente — Eu sou Johann Georg Faust V e sejam muito bem-vindos à sede da Academia Verdadeira Cruz!
Wave olhou em volta e sentiu que a decoração era um pouco antiquada, além de parecer que o lugar estava ligeiramente bagunçado.
- Não sejam tímidos. Venham — Johann Georg Faust V abriu uma imensa porta do outro lado da sala onde estavam e acenou para os dois — Vamos para um lugar mais agradável para podermos conversar mais confortavelmente.
Ele conduziu os dois até uma passagem que dava para um jardim, no mínimo, magnífico. Árvores frondosas erguiam-se imponentes, formando um dossel imenso e majestoso. Pássaros coloridos enfeitavam os topos das árvores. Logo abaixo delas, bem no meio do jardim, havia um pequeno coreto com uma mesa e três cadeiras. No centro da mesa, saía uma fumaça etérea de um bule cercado por três pires com xícaras. Apesar da paisagem quase angelical, Wave sentiu um arrepio na espinha.
- Sentem — o diretor fez um gesto exageradamente floreado — Chegaram bem na hora do chá.
Wave engoliu em seco e resolveu seguir Akame até o coreto. Os dois se acomodaram nas cadeiras indicadas pelo anfitrião.
- Então, acho que podemos pular as formalidades — o diretor tirou as luvas roxas e a cartola ao se sentar — Você… — ele apontou para Wave — Não… um pouco fraco… Já você… — e se virou com um sorriso para Akame — Eu sinto uma presença bem forte. Quer me dizer quem é?
Wave não entendeu a pergunta e olhou do diretor para Akame, procurando por uma pista.
- Fale seu nome primeiro — Akame respondeu.
- Me desculpe pela falta de educação — ele fez uma reverência — Johann Georg Faust V é apenas um pseudônimo. Pode me chamar de Mephisto Pheles, se preferir. E você? — dirigiu-se novamente para Akame — Qual sua graça?
- Akame da Espada Demoníaca — ela respondeu — Mas você já sabe disso, não é?
- Não estrague o clima — Mephisto bebericou o chá — Me desculpe. Sua aura é familiar. Até mesmo um pouco nostálgica. Mas não consigo me lembrar… Qual o nome do seu familiar?
- Murasame — Akame diz, simplesmente.
- O nome verdadeiro — Mephisto enfatiza a última palavra.
- Como assim nome verdadeiro? — Wave olhou de Akame para Mephisto e novamente para Akame, confuso — E como ele sabe de Murasame, Akame?
- Murasame era o nome de um famoso fabricante de espadas — Mephisto explicou — Não à toa a espada mais famosa dele levou seu nome. E também a espada onde foi selado o poder de um demônio poderoso. Eu só não sei qual demônio escolheram para cada uma das armas imperiais…
- Iblis — Akame respondeu de um fôlego só — O nome do demônio é Iblis.
A reação de Mephisto foi inesperada para Wave. O anfitrião jogou a cabeça para trás e deu uma sonora gargalhada. Wave olhou apreensivo para Akame, mas ela não demonstrou nenhuma emoção.
Mephisto gastou alguns minutos para se recompor, enquanto enxugava as lágrimas em seu lenço branco de seda.
- Você está de sacanagem comigo? — foi a primeira coisa que disse, ainda entre risos e dando pequenos socos na mesa, fazendo todo o conjunto de chá trepidar — Iblis? O Rei do Fogo? — seu sorriso foi morrendo aos poucos ao ver a expressão de Akame — Você não está brincando — Mephisto concluiu.
- Akame — Wave chamou, lentamente — Do que ele está falando? Quem é…?
- Me desculpe, jovem — pela primeira vez, Mephisto se dirigiu a Wave — Preciso me apresentar novamente. Chame-me Mephisto, mas meu nome real é Samael, Rei do Tempo e do Espaço.
À medida que Mephisto falava o lugar onde eles estavam mudou subitamente. Wave sentiu como se a natureza em volta tivesse ficado repentinamente silenciosa e o tempo foi parando lentamente. Inesperadamente, tudo ficou escuro e sombras fantasmagóricas se projetaram sobre eles.
Wave voltou os olhos para Mephisto e se arrependeu amargamente. A postura brincalhona do diretor foi substituída por uma aura imponente e macabra. Seus olhos pareciam emanar fogo e sua presença deixava claro que ele era alguém que jamais deveria ser subestimado.
Akame parecia não se abalar com a mudança súbita do ambiente. Permaneceu encarando Mephisto que voltou a sorrir amigavelmente para ela e, lentamente, as luzes voltaram. A natureza voltou a ter vida e os pássaros voltaram a cantar.
- A propósito, sou um dos Oito Reis Demônios — Mephisto sorriu, simpático — Assim como minha irmãzinha Iblis.
- Reis… Reis Demônios??? — Wave correu os olhos de um para o outro, atônito.
- Então, sabe o que quero — Akame foi direta — Estou oferecendo todo o poder de Murasame em troca de voltar a ser humana e cortar os laços das teigus com seus usuários.
- Espera um pouco aí, Akame — Wave pediu, alarmado — É esse o seu plano??? Cortar o acordo com um demônio… fazendo acordo com um outro demônio??? E, puta merda — ele começou a puxar os próprios cabelos com tanta força que seria estranho se ele não começasse a ficar calvo antes dos trinta anos — ele é um Rei Demônio — Wave se levantou da cadeira e apontou para Mephisto — Você é um Rei Demônio — apontou com a outra mão para Akame — Que merda está acontecendo???
- Seu amigo precisa se acalmar — Mephisto rebateu, tranquilamente.
- Mephisto e Murasame têm objetivos diferentes — Akame explicou, esfregando as têmporas — Murasame despreza totalmente os humanos. Acha que somos seres inferiores. Mephisto é mais favorável a nós.
- Perdoem o preconceito tolo de minha irmã — Mephisto sorriu, mostrando os dentes — Eu acho os humanos fascinantes. É fantástico observar seus próximos passos e vocês sempre me surpreendem! E, sim, sei o que quer. Confesso que sua proposta soa muito tentadora para mim, mas sou apenas um pobre diabo cujos poderes estão bastante limitados nesse plano.
- Lágrimas de crocodilo não me comovem — Akame respondeu.
- Calma aí. Você sabe que não estou mentindo — Mephisto abanou as mãos em rendição.
- Não mentiu, mas pode ter ocultado informações — Akame concluiu.
- Mas nesse ponto não é exagero. Meus poderes estão limitados aqui.
- Então, foi uma perda de tempo — Akame deu um longo suspiro antes de se apoiar na mesa e levantar da cadeira — Apesar de que você tem todo o tempo do mundo.
- Esperem aí — Mephisto deu um sorrisinho de canto de boca — Disse que meus poderes estão limitados aqui, mas não disse que não poderia ajudá-los.
- O que você sugere, então? — Akame respondeu, ainda em pé.
- Um ritual de purificação — Mephisto se levantou da cadeira e ergueu os braços de forma teatral — Mas não é qualquer ritual de purificação. Para um Rei Demônio, precisamos ir mais alto e além, combinando várias técnicas e tradições religiosas. Deixa eu ver, inicialmente, vou precisar de água benta, terços, velas, alguns exorcistas para recitar os versos fatais, escrituras sagradas, a espada Kurikara e um pacote de mochi com recheio de pasta de feijão.
- Para quê o pacote de mochi? — Wave perguntou, intrigado.
- É para mim. Eu adoro esse — Mephisto abanou as mãos — A maioria dessas coisas posso providenciar. Inclusive, consigo um exorcista de alto nível para conduzir todo o ritual. Só temos um pequeno impasse: a espada Kurikara — ele dá um longo suspiro e olha em volta — Infelizmente para nós, ela está em Gehenna.
- Espada Kurikara? — Wave volta o olhar para Akame.
- É a espada Koma que te falei — Akame respondeu e virou-se para Mephisto — Mas como assim ela está em Gehenna? Achei que estivesse com você.
- Não está mais — Mephisto encolheu os ombros — Sinto muito.
- É realmente necessário? — Akame perguntou, lançando um olhar de desconfiança para Mephisto.
- Infelizmente, ela é a peça central do ritual. Sem ela, não tem ritual — Mephisto mostrou as palmas da mãos como se dissesse que não poderia fazer nada — A espada Kurikara é o símbolo do poder máximo de Satã. Só ela conseguiria cortar qualquer laço de qualquer demônio.
- Está bem. Iremos nós dois até o nível mais baixo — Akame apontou para Mephisto — para pegarmos a espada. Eu vou vigiar você porque não confio nas suas boas intenções.
- Espera aí — Mephisto falou rápido — Eu não posso. Estou cuidando dos meus negócios por aqui. Vocês viram lá na frente e não posso simplesmente voltar para Gehenna agora.
- Esquece. Já era de se esperar vindo de você — Akame comentou, com desdém.
- Assim você me ofende — Mephisto fez uma falsa expressão de surpresa — Mesmo à distância, posso guiar vocês através de Gehenna, sabe?
- Espera um pouco — Wave chamou, nervoso — Do que vocês estão falando?
- Só tem um problema — Mephisto ignorou a pergunta de Wave — Essa espada na mão de qualquer Rei Demônio é um perigo. Quem garante que, depois de se apossar dela, você não se volte contra mim?
- A pessoa menos digna de confiança aqui é você — Akame rebateu.
- Não acredita nas minhas boas intenções? — Mephisto não parecia ofendido. Ele exibia um sorriso discreto de canto de boca — Olhe em volta. Estou construindo uma academia de exorcistas de alto nível. E para quê? Porque eu acredito que os mundos devem ser mantidos em equilíbrio. Quem é humano deve permanecer humano. Eu dou a César o que é de César — ele se debruçou sobre a mesa — Iblis te deixou com uma má impressão de que todos nós almejamos caos e desordem. Não é sempre assim — e acrescentou, fazendo o sinal de pinça com a mão — Às vezes, um pouquinho.
- Ei, vocês dois me escutem — Wave chamou — Expliquem o que pretendem.
- Estamos organizando a ida de vocês dois à Gehenna — Mephisto explicou, simplesmente.
- Que dois? — Wave perguntou, alarmado.
- Vocês dois, oras — Mephisto apontou para ele e Akame — Quem mais?
- Não. Wave é humano — Akame disse — Mesmo que tenha uma arma demoníaca, vai ser duro para ele.
- Ele vai ser o guardião da espada — Mephisto completou — Afinal, concordamos que eu não confio em você e você não confia em mim. Estamos empatados. Ele vai servir como peça neutra aqui e vai ficar como responsável da espada — e se virou para Wave — Aceita, garoto?
- Ainda não falou sobre o ritual com as demais teigus — Akame lembrou — Não pode jogar uma responsabilidade tão grande nele sem oferecer nada em troca.
- Uma coisa de cada vez — Mephisto pareceu um pouco mais sério — Acho que é melhor fazer o ritual das demais teigus depois que fizermos o seu. Se o ritual de Iblis não funcionar, é melhor que tenhamos todo o poder disponível. Eu aconselho que esteja com seu poder ao máximo, garoto — apontou para Wave e deu uma risadinha — E vamos torcer para que não tenha o poder de mais nenhum Rei Demônio selado nas outras teigus.
- Eu topo — Wave diz, com confiança.
- Excelente! Isso é muito empolgante! — Mephisto vibrou com a resposta, enquanto Akame acenava negativamente para Wave — Akame consegue entrar sozinha em Gehenna, mas você não. Não se preocupe porque eu abrirei uma das minhas passagens de emergência para que vocês entrem juntos. Você, meu rapaz — Mephisto levanta e aponta para Wave — vou te dar o meu sinal para que seja mais fácil a descida.
Fale com o autor