Alphonse estava chateado. Se bem que ele não saberia dizer se chateado era a palavra certa, mas ele sentia algo bem desagradável borbulhando na boca do estômago. E não era por causa do leve balanço do barco onde estavam. Na verdade, ele só começou a sentir isso depois de, quando já estava a bordo, saber por Run que Akame e Wave tinham ido para um lugar totalmente diferente de onde eles estavam indo. Na verdade, Run não sabia dizer para onde os dois foram. Apenas soube que os dois haviam saído muito cedo sem dar muitas explicações.

Ele admitia que sentiu um pouco de ciúmes quando soube que Wave e Akame estavam viajando sozinhos para o Império e os encontrou no meio do caminho, mas Wave havia garantido a ele que não tinha nada com Akame. Aliás, ele até falou que tinha um pouco de medo dela. Mas, se você tem medo de alguém, por que toparia sair sozinho com essa pessoa tantas vezes? Chegou a perguntar a Run de onde os dois conheciam Akame e se surpreendeu ao descobrir que ele e Wave faziam parte de um grupo inimigo do grupo de Akame. Então, por que Akame confiaria mais no Wave do que nele? Quanto mais pensava sobre isso, mais desagradável ficava essa sensação no estômago.

A viagem de barco durou pouco mais de três horas. Eles atracaram em um porto bastante movimentado e rapidamente desembarcaram seus suprimentos. Run havia chamado um guia e carregadores para ajudá-los na expedição e partiram assim que conseguiram organizar tudo. Caminharam por mais de uma hora até os limites da cidade portuária e logo se viram no meio de uma floresta com uma imensa variedade de árvores, arbustos e vegetação rasteira.

Run e o guia iam na frente, indicando o caminho. Alphonse, Jelso e Zampano seguiam logo atrás. Fizeram parte do percurso em cavalos, parte a pé quando o terreno ficava muito difícil de transpor. Até chegarem em um local que parecia muito com uma cidade abandonada feita de pedras quase oculta pelas trepadeiras e arbustos que cresciam à sua volta. O guia mostrou o portão de entrada da cidade, quase invisível cercado pelas árvores, e o grupo iniciou a subida da escadaria no portão. Ao chegarem ao topo do muro, começaram a descer para entrar na cidade, se desviando dos galhos retorcidos das árvores. Alphonse ficou maravilhado quando entrou na antiga cidade. Nunca tinha visto nada parecido.

- Essa cidade foi abandonada há uns trezentos anos — Run comentou — Achávamos que estava perdida para sempre.

No meio da cidade, havia um imenso prédio de pedra que era difícil de dizer se era um templo ou um palácio. Grandes esculturas quebradas ou desgastadas pelo tempo de seres mitológicos adornavam a entrada. Eles entraram e encontraram gigantescos labirintos de corredores que, se não fossem pelo guia, nunca saberiam qual era o caminho certo. Tiveram que descer vários níveis até chegarem em uma passagem escondida que estava com sua entrada parcialmente destruída, mas tinham que tomar cuidado porque as únicas luzes eram das lanternas e lamparinas que tinham levado e o local parecia mais úmido quanto mais avançavam.

- A descrição bate com esse local — Run indicou uma câmara escavada na rocha — Aqui encontramos os artefatos. O que puderam carregar, vocês podem ver no acervo da Biblioteca Imperial, mas isso aqui não dava para levar.

Alphonse ergueu a lamparina acima da cabeça e pôde visualizar com clareza um pequeno compartimento com uma espécie de elevação no centro e inscrições meio apagadas nas paredes. Ele foi andando ao longo das paredes, iluminando as inscrições.

- Esse aqui acho que já vi antes — Jelso apontou para um dos desenhos.

- É a Árvore da Vida — Alphonse respondeu.

- Perdão — Run virou uma lanterna na direção dele — Poderia explicar melhor?

- Bom, se for baseado na mitologia e ocultismo ocidental, é o símbolo que representa os caminhos da criação e os aspectos de Deus e do ser humano — Alphonse deu de ombros — Significa o caminho para o conhecimento absoluto. E é uma ponte entre o mundo espiritual e o mundo físico habitado por nós.

- Não sei se teria relação com a Alquimia Ocidental — Run começou — mas talvez seja isso mesmo. Estive pesquisando sobre minha teigu, a Mastema, e achei material do ocidente mencionando Mastema como uma entidade demoníaca e líder dos Nephilim — Run pigarreou e continuou — Nephilim seriam filhos de anjos caídos com mulheres humanas.

- Muito do conhecimento científico foi derivado de superstições — Alphonse ponderou — A Árvore da Vida representa os limites do conhecimento humano. Não acredito que tenha ligações com deuses ou demônios.

- Ouvi dizer que aconteceu um grande evento de natureza sobrenatural em seu país — Run virou-se para ele — Ainda assim não acredita que possa ter sido obra de demônios?

- Não. Foram homúnculos. Seres humanos artificiais. Eles tentaram acessar o conhecimento absoluto fazendo um grande sacrifício de almas — Alphonse suspirou — Olha, meu irmão e eu entendemos bem as consequências do uso de técnicas proibidas em Alquimia e, em teoria, é possível romper a barreira entre os mundos, mas isso consumiria uma grande quantidade de energia. Foi isso que eles fizeram usando sacrifícios humanos como combustível — e imediatamente ficou sério — Uma coisa inaceitável.

- Ou seja, qualquer um poderia fazer isso se estivesse disposto a fazer alguns sacrifícios? — Run perguntou e Alphonse assentiu — Eu não duvidaria se os governantes desse país não tenham se sentido tentados a fazer o mesmo se tivessem a oportunidade.

- Ei — Zampano gritou, repentinamente — Vejam isso aqui!

Alphonse e Run deram a volta na câmara onde estavam para chegarem onde Zampano estava apontando. Só que ele apontava para baixo e, quando as luzes iluminaram parte do chão de pedra, eles entenderam sua agitação. Símbolos astrológicos e inscrições em uma escrita estranha e antiga cobriam todo o chão da câmara. Estavam meio apagadas e empoeiradas, mas era possível identificar uma semelhança absurda com…

- Um círculo de transmutação humana?! — Zampano perguntou, assustado.

- O quê? Como assim? — Run parecia não entender sobre o que ele falava, mas se alarmou com o tom usado por Zampano.

- Calma — Alphonse usou um tom mais ameno — Não é um círculo de transmutação humana — ele jogou luz em volta para olhar as extensões do desenho — É bem parecido, é verdade, mas tem algumas coisas invertidas e… alguns símbolos a mais que não me lembro se já vi antes…

- Eu não duvido nada que tenham feito o mesmo tipo de abominação que fizeram em Amestris — Jelso usou um tom sério.

- Vamos tirar fotos de tudo — Alphonse disse, indicando as câmeras que eram trazidas pelos carregadores — Tirem o máximo de ângulos que puderem.

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Wave estava quase perdendo a consciência, afundando na escuridão quando sentiu uma mão puxando-o pelo colarinho de uma vez para fora das trevas.

- Wave — era a voz de Akame e, no segundo seguinte, ele viu o rosto dela debruçado sobre ele — Não apague. Você lembra como chegamos aqui?

A cabeça de Wave pendeu para o lado, visivelmente desorientado.

- Eu… eu… — ele gaguejou.

- Você precisa lembrar o que viemos fazer aqui — ela insistiu — Aqui é uma zona vazia. Um lugar criado a partir das lembranças de quem cair aqui. O que você acabou de ver?

- Eu estava… — Wave tomou um grande fôlego antes de continuar — Eu VI Kurome. Para onde ela foi?

- Sinto muito te informar, mas o que você viu foi só sua lembrança dela — Akame adotou um tom mais suave ao ouvir o nome da irmã — Desculpe ter tirado você à força, mas não temos muito tempo. Não sei por quanto tempo Mephisto manterá a passagem aberta…

- Para onde ela foi? — Wave repetiu e se levantou em um rompante — Ela está viva! Eu vi! Vamos levá-la conosco…

- Não. Ela não está — Akame falou em um tom triste — Usuários mortos de teigus não vem para cá.

Wave olhou melhor ao redor e percebeu que estavam em um espaço totalmente branco e vazio. Sem em cima ou embaixo.

- Um humano poderia vagar aqui para sempre e nunca acharia a saída — ela estava agachada no chão e se levantou — Portanto, me siga. Vamos precisar descer. E não vai ser nada agradável para você — Akame já se preparava para continuar andando, mas virou-se novamente para Wave — Acho que seria uma boa ideia se, daqui para adiante, você usasse sua armadura. Pode te ajudar.

- Espera um pouco aí — Wave cobriu o rosto com a mão — Eu vi Kurome agora mesmo! Merda, Akame! Ela era real!. Você não entende?!

- Wave, você lembra o que viemos fazer aqui? — ela perguntou, novamente — Como chegamos aqui?

- Nós chegamos… — Wave parecia se esforçar para lembrar — Tinha um barco com um cara sinistro… Espera… Eu lembro que estávamos conversando com um cara vestido de palhaço esquisito…

- Você concordou em vir até Gehenna comigo para pegar a espada Koma, contrariando minhas recomendações — ela fez bico.

- Ah, sim. Eu lembro disso — ele deu um tapa na própria testa — Mas o que aconteceu a seguir? Já estamos em Gehenna?

- Aqui é o primeiro círculo de Gehenna — ela olhou em volta — Temos que descer até o nono e último.

- Já esteve aqui antes? — ele perguntou quando ela deu as costas.

- Algumas vezes — ela confessou, sem olhar para ele — Mas nunca fui muito além daqui.

- E Kurome? — Akame parou de andar — Tem certeza de que não era ela?

- Tenho certeza — ela voltou a andar, ainda sem olhar para ele — Precisamos correr.

Wave se apressou em acompanhá-la porque não queria perdê-la de vista. Andaram por um bom tempo em silêncio, apesar de Wave ainda se sentir levemente desorientado. Quanto mais eles andavam, mais escuro ficava e parecia que estavam adentrando em uma floresta densa.

- Akame — a curiosidade acabou vencendo o medo porque ele já tinha perdido a noção de quanto tempo andaram — Você disse que precisávamos descer, mas estamos andando em linha reta sei lá quanto tempo.

- E estamos descendo — ela respondeu, olhando brevemente por cima do ombro.

- Não estamos, não — Wave encarou Akame como se ela tivesse fazendo uma brincadeira boba — Estamos indo reto.

- E você por acaso sabe onde é em cima ou embaixo aqui? — ela parou de repente e, só depois de uns segundos, Wave entendeu o porquê. Tinha um portão gigantesco bem na frente deles. Mas Wave poderia jurar que aquele portão não estava ali dois segundos atrás. O portão estava aberto, mas não dava para ver seu interior. Haviam figuras esculpidas ao redor do portão e Wave notou uma placa no alto com algo escrito em uma língua estranha. Surpreendentemente, ele entendeu o que estava escrito. Algo como “Abandone toda esperança vós que entrais”. Wave engoliu em seco — A partir daqui, acho que é melhor você usar sua armadura. Fique perto de mim que os outros demônios não vão ousar te atacar. E lembre-se de nunca demonstrar medo. Eles farejam medo.

Wave resolveu seguir o conselho dela e invocou sua armadura. Quando ele emergiu da fumaça da transformação com a Grand Chariot, reparou que Akame estava com a aparência diferente. Várias tatuagens se espalhavam pelo seu corpo e seus olhos estavam injetados. Era sua forma demoníaca que ele já tinha visto antes, mas não importava quantas vezes ele visse que sempre seria assustador de ver.

Na verdade, não só isso mudou. Uma neblina inesperada apareceu e escureceu todo o lugar. A recomendação de Akame de não demonstrar medo pareceu mais difícil de seguir para Wave porque a atmosfera do lugar era opressora. Nunca tinha visto um lugar como aquele que parecia instável e sombrio ao mesmo tempo. Além disso, sentiu o vento ficar mais forte a cada passo que davam, até que caíram no que pareceu uma tempestade de areia, como ele já viu muitas vezes no deserto. Akame continuava a marchar na frente, sem se abalar com os fortes ventos.

- Akame — ele gritou para que ela pudesse ouví-lo — Precisamos de um abrigo para esperar essa ventania passar.

- Não vai passar — ela não gritou, mas mesmo assim ele conseguiu ouvir — E não temos tempo. Vamos logo para sair daqui.

Pareceu que eles levaram horas para atravessar aquela tempestade e, quando finalmente parou de ventar, não foi muito melhor porque tiveram que atravessar uma espécie de pântano imenso debaixo de uma chuva suja e fria. Ainda tinha a desgraça de um cachorro gigante de três cabeças que quase partiu Wave ao meio com uma dentada de uma de suas cabeçorras. Depois disso, ele tentou andar o mais próximo possível de Akame, apesar de que ela estava andando em um ritmo muito rápido.

Depois de um caminho bem tortuoso e íngreme através de um vale rochoso, eles chegaram ao que parecia um rio e uma cidade murada próxima a ele. As torres da muralha erguiam-se sombrias contra um céu nublado, escurecido pela fumaça e pelas sombras que se espalhavam de uma forma não natural. Wave teve a atenção atraída por uma massa disforme no horizonte e ele não precisou de muito tempo para identificar o que era: uma horda de soldados marchava na direção deles com fúria. O chão tremia sob o avanço deles e o som das armaduras e lanças tilintavam no ar misturado aos gritos dos soldados que não tinham aparência humana. Wave não percebeu imediatamente, mas depois viu que eram criaturas de formas variadas. Ora, eram gigantes musculosos carregando espadas imensas, ou criaturas rastejantes se esgueirando como sombras. Muitos deles se contorciam de forma antinatural, olhos brilhavam em cores incomuns entre os capacetes, alguns deles montados em bestas esqueléticas, outros marchavam como se não tocassem no chão, deslizando como cobras. Wave sentiu uma mistura de enxofre, sangue e algo podre no ar invadir seu olfato. Ele já esteve em guerras antes, mas essa sensação era totalmente nova para ele. Wave olhou em volta, desesperado. Não havia como escapar.

Ele olhou para Akame e se surpreendeu ao vê-la em posição de ataque, empunhando a espada. Parecia que ela estava mirando um ataque em uma das criaturas aladas, semelhante a uma gárgula viva, que sobrevoava um pouco próximo de onde eles estavam.

- Vamos pela direita — ela instruiu, esticando a espada na frente do corpo — Lembre-se. Não demonstre medo e tente ficar o mais próximo possível de mim. Vou abrir caminho.

Notas finais
Nota de rodapé: Alphonse fala sobre a Árvore da Vida. Ela é um símbolo esotérico que aparece em diversas tradições religiosas e filosóficas, mas em Fullmetal Alchemist ela é principalmente inspirada na versão da Cabala Judaica, chamada de Árvore das Sephiroth.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.