A Assassina e o Alquimista
15 Desertora
Notas iniciais
O dia nem nascera direito e uma multidão agitada se concentrava em frente à Central de Comando da Cidade Central. Havia se passado mais de um mês desde a notícia da invasão do Reino de Xing e os dois governos se encontravam em um impasse. Ling Yao sofria pressão de alguns nobres de seu país para declarar guerra ao país vizinho. O pedido de retirada de tropas não foi atendido no prazo e uma tensão diplomática se instalou. Ao mesmo tempo, os conselheiros do rei Ling achavam que não era uma boa ideia entrar em um conflito armado no momento, mas a situação estava ficando insustentável.
O governo amestrino também passava por problemas. A maior parte da população desaprovava a intervenção do exército. Os opositores do Führer alegavam gastos exorbitantes com a invasão e acusavam o governo de colocar a vida de soldados e civis amestrinos em risco desnecessário. Os oficiais de alta patente do exército enviaram formalmente uma denúncia de má administração ao Parlamento e os membros da casa se reuniram em várias sessões para debater o afastamento do Führer do cargo de chefe do país. Mas, todo esse vai e vem dentro dos gabinetes do Exército e do Parlamento não eram nada em comparação ao burburinho que surgiu nas ruas. Manifestações populares na frente de prédios públicos contra a guerra e, posteriormente, contra a posição do governo em relação à política externa se tornaram frequentes. Na Cidade Central havia a maior concentração de manifestantes e, muitas vezes, a polícia precisava dispersá-los pelo meio da força. O problema é que, ultimamente, a repressão violenta já não surtia mais tanto efeito. Grumman convocava coletivas de imprensa uma atrás da outra e até mesmo o argumento de grupos terroristas em Xing ameaçando as fronteiras de Amestris já estava perdendo a eficácia.
— Traidores!! Estou cercado deles – o Führer Grumman esmurrava a mesa do seu escritório e gritava para quem quisesse ouvir nos corredores do quartel – Tudo que faço é pensando no futuro de Amestris! Tentar fazer o Parlamento se voltar contra mim é inútil!! Meus aliados na casa são maioria e eu sairei ainda mais forte!!
No dia em que recebeu a notícia de que o Parlamento votaria pela sua permanência ou não no cargo, Grumman apareceu repentinamente na sala onde os membros se reuniam para debater sobre a questão.
— Então – ele disse de forma teatral – é aqui que estão reunidos os conspiradores?
— Führer Grumman – um dos parlamentares se adiantou de maneira pomposa – estamos apenas cuidando dos interesses de Amestris. Ultimamente, suas decisões se mostraram... equivocadas. O povo clama por mudanças! Não queremos ter mais sangue nas mãos.
— Eu é quem sei os interesses de Amestris, Youssef – Grumman aponta para o homem – E você deveria mostrar mais gratidão para quem lhe estendeu a mão. Você só está aqui graças a mim!
— De forma alguma – Youssef rebateu, ofendido – Eu fui escolhido pelo povo!
— Führer Grumman – um homem mais velho interviu – estamos apenas deliberando sobre a questão. O anúncio oficial da nossa decisão só deverá sair no momento apropriado.
— E quem vocês estão pensando em colocar no meu lugar? – Grumman rebate de forma debochada – Não tem ninguém com competência suficiente para ficar no meu lugar!! Quem vocês estão querendo que assuma o posto de Führer nesse momento de turbulência?
Os políticos se afastaram para o lado e Grumman percebeu a presença de uma pessoa que estava mais ao fundo.
— General Mustang? Então, você... – Grumman disse, lentamente – Até tu?
— Como foi dito – Mustang o interrompeu – estamos apenas cuidando dos interesses do país.
— O general Mustang conseguirá conter os ânimos da multidão – um homem corpulento completou – É um herói nacional e muito benquisto pela população. É um dos candidatos mais populares a ocupar o posto.
— O jogo ainda não acabou, Mustang – Grumman usa um tom ameaçador antes de sair, fazendo um gesto solene.
Dias depois, o jogo realmente virou a favor do Führer Grumman. Nesse meio tempo, a divisão da generala Armstrong entrou em contato com a Central umas três ou quatro vezes, sempre com mensagens curtas e breves sobre as dificuldades que estavam enfrentando com os grupos rebeldes de Xing. Mas, a última mensagem surpreendeu até mesmo o Führer devido à rapidez na resposta. Ele solicitou a presença dos jornalistas para fazer um anúncio extraordinário.
— Chamei todos aqui para tratar de um assunto importante – ele falou da tribuna – Há algumas semanas atrás, falei da existência de uma célula terrorista infiltrada no reino de Xing. Alguns dos meus opositores, apenas preocupados com os seus próprios interesses, chegaram a duvidar da veracidade dos fatos. Envenenaram o povo amestrino contra seu Führer e ignoraram, negligentemente, uma ameaça real e extremamente perigosa. Pois, hoje, eu tenho uma prova concreta dessa ameaça. É com satisfação que eu informo a captura de um líder terrorista perigoso nos arredores da Cidade do Rei, em Xing. As informações que temos é que esse rapaz é um ex-oficial da Marinha do Império e portava uma arma poderosa. Felizmente, a coragem de nossos soldados conseguiu neutralizar essa ameaça e o criminoso será transferido para uma das prisões mais bem guardadas de Amestris enquanto aguarda um julgamento.
— O senhor pode informar a identidade desse criminoso? – um dos jornalistas ergueu o braço mais alto em meio à aglomeração em frente ao prédio da Central de Comando.
— Por medida de segurança, essa é uma informação sigilosa – Grumman respondeu – Mas informaremos o dia, o horário e para onde ele será transferido e vocês poderão verificar.
No dia da transferência do suposto terrorista, várias pessoas, incluindo jornalistas e moradores locais, foram mesmo conferir as palavras do Führer. A operação de transporte do criminoso parecia um espetáculo de rua. Carros e mais carros do exército escoltaram o veículo que conduzia o preso com grande alarde. As pessoas se espremiam na calçada e muitos espichavam os pescoços, mas a única coisa que conseguiam ver era o vulto de um homem jovem dentro do carro. Não foi permitido olhar diretamente para o prisioneiro, mas a polícia disponibilizou uma fotografia dele. Era a imagem de um rapaz de olhos azuis, cabelos escuros e curtos e pele bronzeada. Tinha a aparência de uma pessoa que viveu a vida inteira em uma cidade litorânea e não parecia ser perigoso à primeira vista.
— Apresentar esse criminoso vai acalmar os ânimos, por ora – Panzer falava para as costas do Führer – Mas, e depois? Se o Parlamento continuar com essa votação...
— Depois, nada – Grumman respondeu, sem deixar de encarar o grande aquário no escritório do coronel Panzer – O máximo que eles podem conseguir é me tirar do cargo por algumas semanas. Mas, quando eu conseguir o segredo das Teigus, ninguém mais poderá me desafiar – ele vira para encarar seu interlocutor – Minha primeira ação vai ser dissolver o Parlamento – e acrescenta com um tom sombrio – E tirar qualquer um que ficar no meu caminho.
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Quase dois meses no forte de Briggs e Edward ainda não havia acostumado com o frio! Espirrava escandalosamente durante o dia e dormia enrolado em quilos de cobertores durante a noite. Seus companheiros de viagem, inclusive Alphonse, pareciam bem mais acostumados.
Eles foram recebidos pelo Miles e acomodados nos mesmos alojamentos destinados aos soldados. Apesar do pouco espaço, eles se sentiram confortáveis e Miles se preocupou em deixá-los juntos. Akame dividia o quarto com Lan Fan e May enquanto Edward e Alphonse ficaram com um quarto próximo. A relação entre as meninas melhorou muito nesse meio tempo. Akame e Lan Fan descobriram terem muitas coisas em comum. Elas treinavam juntas algumas vezes e tinham a mesma preferência por carne. Aliás, os treinos eram um espetáculo à parte e até mesmo os soldados de Briggs paravam para assistir os golpes acrobáticos das duas. Com May, a aproximação foi mais complicada. Depois de superar as crises de ciúmes, May até que começou a tolerar a presença de Akame.
O forte de Briggs era intensamente protegido pelos soldados bem treinados da general Armstrong. Mestres na arte da camuflagem sob a neve, os soldados vigiavam cada ponto estratégico do forte sem serem notados. Ninguém entrava ou saia dos seus domínios sem que eles não soubessem.
Quer dizer, Akame conseguia achar o rastro deles na neve e sabia dizer quais eram os pontos mais desprotegidos do lugar. Miles ficou muito impressionado com as habilidades da garota e procurou reforçar os locais apontados por Akame.
— Tenho certeza de que a nossa general adoraria conhecê-la, senhorita – Miles ajeitou os óculos.
Mesmo com os reforços, Akame ainda conseguia sair e entrar do perímetro patrulhado sem ser notada imediatamente. Ela e Alphonse costumavam dar escapadas durante à tarde para vasculhar a área.
— Não devíamos nos afastar tanto do forte – ela falou, certa tarde, quando saíram para seu habitual passeio. A cada dia, eles iam mais longe do que no dia anterior.
— Eu só queria ficar um tempo sozinho com você – Alphonse sorriu, envergonhado, e puxou algo de dentro da sua capa – Trouxe isso para você.
Alphonse trazia um pequeno e delicado embrulho de um doce nas mãos. Não estava seguindo os conselhos de Havoc de presentear com flores, mas quem disse que só a capitã Hawkeye era um caso especial?
— Não comeu sua sobremesa de novo para trazer para mim? – ela franziu a testa.
— Eu não como muito. Você sabe – Alphonse encolhe os ombros – E, também, eu gosto de ver você comendo.
Akame sorriu brevemente e pegou o embrulho, guardando-o no seu casaco. Depois, ela se aproximou mais de Alphonse, timidamente, e os dois trocaram um beijo meio atrapalhado. Alphonse não estava ainda muito familiarizado com essas coisas. Não sabia controlar os arrepios que sentia. Atrapalhava-se um pouco com as próprias mãos. Aliás, nem sabia onde por as mãos. Não sabia se deveria conduzir Akame ou deixá-la fazer o que quisesse. Por sua vez, Akame não tinha permitido ninguém se aproximar muito dela antes e, apesar de não transparecer nunca, essa nova situação a deixava um pouquinho nervosa. Ainda precisava se acostumar com isso porque sentia o corpo travar. Mas era tão bom estar com Alphonse e ele ficava sorrindo de uma forma tão boba o tempo todo. Parecia também sentir a mesma felicidade que ela sentia quando estavam juntos. Eu disse felicidade?
— Desculpe – ele se apressou em se desculpar. Alphonse segurou a cintura de Akame e acabou esbarrando na Murasame.
— Está tudo bem – ela ajeitou a arma na bainha.
— Lembrei de uma coisa – Alphonse falou de repente – Lembra quando você deixou que eu analisasse a Murasame?
Akame lançou um olhar de incentivo para que ele continuasse a história.
— Doutor Marcoh disse que ninguém no quartel conseguiu pegar na Murasame – Alphonse continuou – E ele acha que eu só consegui pegar porque você deixou. Mas, quando nós fomos te resgatar, você estava desacordada e, mesmo assim, eu consegui pegar na espada. Se a espada avalia possíveis portadores, eu... eu poderia ser...?
— Ela sabe que você não tinha intenção de usá-la – Akame o interrompeu.
— Não é estranho falar da Murasame como se ela fosse uma pessoa? – Alphonse deu um meio sorriso e encarou Akame com uma expressão curiosa, tentando interpretar seus sentimentos – Você também quer perguntar alguma coisa?
— Dizem que a pedra filosofal ressuscita os mortos – Akame abaixou os olhos, receosa – Isso... isso funciona mesmo?
— Bom, eu nunca usei – Alphonse diminuiu o sorriso – Teoricamente, sim. Ela pode ser usada como moeda de troca. Mas por que está perguntando isso?
— Foi só uma curiosidade – ela encolheu os ombros.
— Mas, não se deve mexer nessas coisas, Akame – Alphonse a alertou – Coisas terríveis acontecem com quem tenta alterar a ordem do universo. Falo isso por experiência própria.
— Mas você não tinha uma pedra – Akame respondeu.
— Mesmo assim – Alphonse meneou a cabeça – Mesmo que a pedra possa quebrar a Lei da Troca Equivalente, um alquimista deve evitar fazer duas coisas: transmutações humanas e nem transmutar metais em ouro.
— Metal em ouro?– Akame franziu o cenho, confusa – Isso não é estranho? Quer dizer, você pode fazer prata, diamante, rubi ou até moedas, mas ouro não?
Alphonse jogou a cabeça para trás e deu uma gargalhada.
— Adoro a sua lógica – Alphonse sorriu enviesado e apertou de leve o nariz de Akame, depois de lhe dar um selinho – Quer apostar uma corrida até o lago? Quem perder, carrega o outro nas costas até o forte.
Akame e Alphonse haviam descoberto um lago congelado há poucos metros de distância dali. Vez ou outra, eles visitavam o lago e fingiam patinar. Fingiam porque nenhum dos dois sabia e ficavam se apoiando um no outro. Quanto ao pagamento da aposta, Alphonse estava só brincando. Mesmo se ganhasse, ele não iria fazer Akame carregá-lo até o forte. Não é?
— Eu acho melhor, não – Akame falou séria e apontou para algo por cima do ombro de Alphonse – O que é aquilo?
O alquimista olhou por um minuto para trás e quando voltou os olhos para a garota não encontrou mais nada.
— Ei, Akame!! – ele saiu correndo e gritando – Sair na frente é trapaça!!
Alphonse chegou ao lago e olhou ao redor, porém não encontrou nenhum vestígio de Akame.
— Onde você est...? – Alphonse não conseguiu terminar a frase porque sentiu algo gelado deslizar por sua nuca. Ele precisou se abaixar e proteger a cabeça para fugir da chuva de bolas de neve que vieram na sua direção.
Akame estava escondida atrás de um monte de neve e Alphonse também precisou se refugiar, entre os galhos de umas árvores. Ele olhou ao redor e viu que o lugar onde Akame estava se conectava com uma espécie de corredor formado por rochas cobertas pela neve. Se ele deslizasse até lá sem fazer barulho, poderia surpreendê-la por trás.
— Akame, sua trapaceira – ele gritou para distraí-la e deu a volta pelo outro lado.
Mas, a surpresa foi de Alphonse. Ele conseguiu atravessar silenciosamente o corredor e não encontrou nada no final.
— A brincadeira agora é esconde-esconde? – Alphonse perguntou para o alto.
Ele vasculhou a área e não achou nenhum vestígio. Nada. Às vezes, Akame era boa demais. Quando estava procurando por alguns sinais entre as árvores pela milésima vez, ele ouviu um barulho vindo de uns arbustos. Na ponta dos pés, Alphonse se aproximou e afastou cuidadosamente alguns galhos para um lado.
— Akame? – chamou, baixinho.
Alphonse ouviu um pequeno estalo e uma voz estranha sussurrar atrás da sua cabeça.
— Alphonse Elric?
Ao invés de responder, a primeira reação de Alphonse foi outra. Como estava de costas, ele não sabia exatamente onde o estranho estava, mas tinha uma noção de sua localização por causa do barulho do estalo e da direção da voz. Alphonse bateu as mãos uma única vez e uma coluna de terra elevou-se do chão, esbarrando no homem estranho. Aliás, o estranho era um soldado da Cidade Central armado com um rifle. O soldado caiu para trás e a arma, como estava carregada, acabou disparando acidentalmente para o alto.
Aquele soldado não estava sozinho. Alarmados pelo tiro, vários outros soldados começaram a aparecer de todos os lados e atacaram Alphonse ao mesmo tempo. Ele se desviou dos ataques com movimentos velozes e usou a Alquimia para contra-atacar, provocando uma confusão ainda maior.
Akame estava há alguns metros de distância da briga e viu o instante em que Alphonse se abaixou para se desviar do soco de um soldado, que acabou acertando o próprio companheiro, e logo depois transmutou uma barreira de terra nas suas costas para evitar o golpe de uma espada. Ela teria ido ajudar o alquimista se uma trilha de gelo não tivesse aparecido repentinamente na sua frente, bloqueando a passagem.
— Não fomos apresentados devidamente, senhorita – disse uma voz atrás dela – Eu sou o coronel Bashir Panzer, também conhecido como o Alquimista dos Mares.
Panzer exibiu seu par de luvas brancas, com o desenho de um círculo de transmutação em cada uma, e com um movimento exagerado transmutou centenas de pedaços afiados de gelo e os jogou na direção de Akame. Com golpes rápidos da Murasame, Akame destruiu todas as pedras de gelo antes delas a atingirem.
— Eu sabia que não demoraria muito para achar seu rastro. Quantas garotas com cabelos negros e olhos vermelhos vocês acham que existem em Amestris? – Panzer continuou jogando pedras afiadas de gelo contra Akame – Gelo é água em estado sólido – ele se gabou – Nesse ambiente, tenho bastante material para atacar.
— Desculpe se não estou muito impressionada – Akame parecia realmente entediada enquanto ela sacudia a Murasame e milhares de pedaços de gelo triturado voavam ao seu redor – Mas já derrotei uma pessoa com um poder parecido com o seu. E ela era, no mínimo, duas vezes mais forte que você.
— Você ainda não viu nada – Panzer replicou, ofendido, e criou um imenso martelo feito de gelo. Com ele, Panzer atacou Akame e os dois trocaram golpes. A cada pancada da Murasame no martelo, flocos de gelo voavam e caiam em volta dos dois.
— Não posso perder tempo com você – Akame parou um ataque de Panzer com a Murasame e aproveitou sua distração para chutá-lo na barriga. Ele dobrou o corpo em reação e ela o derrubou longe com outro chute, dessa vez no rosto.
— Volte aqui, Akame – Panzer gritou, caído no chão e limpando o sangue da boca, quando ela lhe deu as costas e preparava-se para quebrar a barreira de gelo com a Murasame – A pena para a deserção do exército é a prisão!!
— Parada aí, garota – no mínimo, uns seis soldados pararam na frente de Akame e bloquearam sua passagem.
— Saiam do meu caminho – Akame disse de um jeito sombrio – Ou eu terei de eliminá-los.
Os três soldados da frente ignoraram o aviso e correram aos berros na direção da garota. Akame fez apenas um único movimento com a Murasame e os três caíram no chão com os uniformes encharcados no próprio sangue. Os dois da frente haviam sido atingidos no pescoço e no peito e o de trás, inexplicavelmente, teve os dois braços decepados. Como ela conseguiu cortar os braços do soldado com um só golpe, nem ele saberia dizer. E nem teve tempo para falar porque o veneno imediatamente começou a subir pelo resto dos seus braços em tumefações vermelho-brilhante.
— Vocês me fizeram desperdiçar comida – Akame tirou o embrulho que ganhou de Alphonse de dentro do casaco e uma massa esfarelada desmanchou-se entre seus dedos – Agora, vocês me irritaram – disse com uma voz baixa, empunhando novamente a Murasame.
— O que está fazendo?! – um dos soldados que sobrara gritou para o companheiro ao vê-lo engatilhar o rifle – As ordens são para levar a garota viva!!
— Para o inferno com as ordens!! – o soldado mirou na direção de Akame que corria a toda velocidade até eles – É eu ou ela!!
Os tiros foram inúteis porque Akame conseguiu desviar deles com extrema facilidade e sem reduzir o passo. Ela passou correndo entre eles, deixando uma trilha de sangue e corpos. Nesse exato momento, um grupo de soldados estava vindo para ajudar a deter Akame e viram toda a ação. Esquecendo completamente da missão, os soldados começaram a correr para todos os lados, tentando fugir da lâmina da Murasame, sem muito sucesso.
— Akame!! – Akame ouviu a voz de Panzer por cima dos gritos de dor e desespero dos soldados – Já chega!!
Akame voltou os olhos para Panzer e o viu próximo a uma massa de soldados amontoados um por cima dos outros.
— Estava procurando por isso? – Panzer tinha um sorriso de satisfação estampado no rosto enquanto segurava uma lâmina feita de gelo e bem afiada encostada na bochecha de Alphonse que estava ajoelhado no chão. Uns oito ou dez soldados estavam pendurados nos braços do jovem alquimista, forçando-o a ficar com os braços abertos e o impedindo de usar Alquimia. Alphonse estava com um pequeno inchaço embaixo do olho esquerdo, mas seus captores estavam em um estado pior. Com os uniformes em farrapos, muitos deles ostentavam olhos roxos e escoriações pelos rostos e braços.
— Vá embora, Akame – Alphonse fazia um esforço para falar por causa da pressão do gelo em seu rosto – Não ligue para mim.
— Vai deixar Alphonse Elric morrer, Akame? – Panzer provocou – Como você sempre faz?
Akame apertou o punho da Murasame com mais força.
— Eu sei tudo sobre você, Akame – Panzer continuou – Sei sobre todos os seus amigos assassinos. Todos mortos, não é? Isso não é irônico? – ele riu rapidamente – Você tem tanto poder, mas é incapaz de salvar qualquer um dos seus. Essa é a sina do portador da Murasame, é? Você só traz morte onde passa...
— Cala a boca, seu cretino de uma figa – Alphonse se sacudiu, tentando fugir.
— Você é incapaz de salvar alguém, Akame – Panzer apontou para ela, às gargalhadas – Não salvou seus amigos e nem vai salvar Alphonse Elric agora. Nem pôde salvar sua pobre irmãzinha, não é? Como era mesmo o nome dela? Ah, acho que era Kurome...
Akame rangeu os dentes.
— Não se atreva a falar dela com essa sua boca imunda!! – Alphonse esperneou mais e os soldados intensificaram o aperto em seus braços.
— E então, Akame? – Panzer insistiu – Se você demorar em responder, eu vou matá-lo. Digo que Alphonse Elric foi mais uma vítima da mesma assassina que chacinou meus soldados.
— Não escute ele, Akame – Alphonse gritou – Ele não vai me matar. Se ele fizer isso, ele sabe que você não deixaria nenhum deles escapar vivos.
— Não seja tão presunçoso, Alphonse Elric – Panzer segurou Alphonse pelos cabelos – Isso é função do seu irmão.
Sem dar nenhum aviso, Panzer cravou a lâmina de gelo na perna esquerda de Alphonse.
— Posso também fazer a morte dele ser longa e dolorosa – Panzer sorriu, sádico, enquanto Alphonse gemia de dor – Quanto será que Alphonse Elric aguenta? Será que ele é mesmo um rapaz forte como aparenta?
— Não vou te dar essa satisfação... – Alphonse rangeu os dentes, tentando segurar os próprios gemidos. Mas ele não conseguiu disfarçar a dor quando Panzer puxou a lâmina para fora da sua perna sem nenhum cuidado.
— Deixem ele em paz – Akame guardou a Murasame na bainha – Eu vou com vocês.
— Não, Akame... – Alphonse começou a gaguejar.
— O problema de vocês é comigo – ela continuou – Deixem ele ir. Ele não tem culpa de nada.
— Tomou a decisão mais sensata, garota – Panzer fez um aceno para seus soldados e dois deles foram, meio assustados, até Akame e prenderam os pulsos dela em uma algema de madeira que ligaram aos tornozelos da garota.
— Akame! – Alphonse tentou levantar, mas foi impedido pelos soldados – O que você está fazendo?! Não faça isso!!
— Vamos logo – Panzer puxou Akame pelas algemas, sem nenhuma cerimônia – Temos uma longa viagem até a Cidade Central.
— Agora, podem soltá-lo – Akame se endireitou e falou em um tom autoritário.
— Tem razão – Panzer virou-se para Alphonse e, em um gesto rápido, atravessou a barriga do jovem alquimista com a lâmina de gelo.
Akame projetou o corpo para frente, mas foi segurada pelos braços por dois soldados.
— Não disse como o deixaria aqui – Panzer disse de forma cínica enquanto reduzia a lâmina de gelo em pequenos flocos – Não quebrei a promessa. Talvez, ele morra de hipotermia antes que seja pela hemorragia – ele olhou os corpos espalhados pelo chão e falou para si mesmo – Talvez, todo esse sangue acabe atraindo um urso.
Alphonse deslizou para o chão e caiu de barriga para cima, agonizando. Uma mancha de sangue crescia rapidamente em cima do seu colete, sujando também a camisa e o casaco. Ele fazia um esforço exagerado para respirar e olhava para um ponto fixo no céu.
Akame parecia paralisada com a cena de Alphonse caído no chão. Não era uma cena nova para ela. Vira muitos dos seus amigos morrerem em missões em situações ainda mais críticas. Porém, seus amigos sabiam que podiam morrer mais cedo ou mais tarde. Mas, Alphonse... Alphonse não deve morrer. Ele não pode morrer. Ela ainda precisava da ajuda dele. E se não fosse feito algo rápido, ele morreria ali certamente. Ele estava morrendo. Na verdade, com o tamanho daquele ferimento, ela já poderia considerá-lo morto. Contudo, mesmo assim, ela ainda poderia fazer algo.
— Vamos embora – Panzer chamou e dois soldados empurraram Akame, forçando-a a segui-los – Não acha estranho – ele comentava com outro soldado, totalmente insensível ao sofrimento de suas vítimas – eu ter recebido a alcunha de o Alquimista dos Mares? Amestris não é banhada por nenhum mar...
Alphonse ouviu os passos e as falas de Panzer se afastarem e respirou fundo para se acalmar. Quando sentiu que os outros já estavam longe, ele juntou as mãos e depois as colocou sobre a ferida. Precisava se concentrar um pouco para conseguir estancar o sangramento usando a técnica da Rentanjutsu. Ele suspirou ao pensar na possibilidade de não conseguir terminar o procedimento antes de perder os sentidos.
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