Notas iniciais
Olá. Nessa sexta, eu cheguei um pouco mais tarde do que o horário que eu costumo postar. Preciso confessar uma coisa. Por incrível que pareça, eu sou de exatas. Eu tentei não falar de números na história mas, às vezes, eu tenho necessidade de quantificar as coisas para ter uma noção melhor de algo. Então, vai aparecer alguns números nesse capítulo. Não que eu seja fanática por números, mas é o assunto que eu mais estudo. Bom, chega de papo furado e vamos ao capítulo de hoje.

O Parlamento da República Parlamentarista de Amestris é o corpo legislativo supremo do país. É composto por duas câmaras que, nos tempos do governo autoritário do Führer King Bradley, serviam apenas para gastar dinheiro, como a população civil amestrina gostava de salientar. Com a morte do “amado” líder, ocorreram algumas mudanças na estrutura de governo. A câmara alta ou Casa dos Oficiais era composta por oficiais de alta patente do Exército Amestrino, encabeçados pelo Führer. A câmara baixa ou Casa dos Civis era composta por membros escolhidos diretamente pelo povo, representando proporcionalmente os habitantes de cada uma das cinco regiões do país. Se ainda ocorriam fraudes nas eleições dos representantes na Casa dos Civis, como havia na época de Bradley, ninguém era louco o suficiente para denunciar isso, mas havia uma suspeita pequena – mentira, era grande –por parte da população.

A câmara baixa apresentava uma vantagem em relação à câmara alta. Se a maioria de seus 650 membros estivesse de acordo, eles poderiam vetar decisões da Casa dos Oficiais ou até afastar o Führer do cargo de Chefe de Estado e substituí-lo temporariamente nas funções ou indicar um novo Führer. Mas, se fosse comprovado que o Führer realmente não havia cumprido com as suas obrigações de maneira correta, a decisão final de sua saída ainda cabia à Casa dos Oficiais.

Roy Mustang e seus aliados estavam enfrentando dificuldades para conseguir o apoio dos 360 membros da Casa dos Oficiais, que contava ainda com 2 arcebispos de Liore e 14 sacerdotes ishvalianos como os mais novos integrantes. Apesar disso, ele obteve mais que o mínimo das assinaturas necessárias para enviar a solicitação de afastamento do Führer para a Casa dos Civis. Essa notícia caiu como uma bomba em cima da opinião pública e todo o país ficou em polvorosa. Manifestações de apoio ou contra o governo de Grumman começaram a pipocar em vários lugares. As Áreas do Leste, do Sul e grande parte da Área Central eram onde havia a maior quantidade de opositores do Führer. Os motivos eram vários e, às vezes, absurdos, mas o aumento dos gastos do governo por causa da invasão de Xing e a inflação que disparou logo após esses eventos eram os argumentos mais comuns.

A Câmara dos Oficiais ainda estava relutante em apoiar a saída do Führer e Mustang desconfiava que os homens mais importantes do Exército planejavam se beneficiar com a pesquisa e exploração das Teigus. E, além disso, eles pretendiam se apoderar das riquezas da Xing ocupada pelo exército, sem que os xingueses soubessem. Tudo diplomaticamente, é claro.

Mesmo assim, no embalo da pressão popular, a Casa dos Civis marcou o dia em que eles se reuniriam para votar a decisão de afastamento ou não do Führer. Estavam todos com muita pressa e o povo não podia esperar! Dois dias antes da votação, já havia pessoas acampadas em frente à Central de Comando. Várias unidades do Exército foram chamadas às pressas para a Cidade Central para reforçar a segurança.

A última unidade militar a entrar na Cidade Central foi a do coronel Bashir Panzer. Ele e seus soldados chegaram discretamente na cidade no começo da noite anterior ao dia da votação. Ao invés de se dirigirem à Central de Comando, eles desviaram o caminho para a prisão militar de Amestris. Estavam escoltando um perigoso prisioneiro. Ou melhor, prisioneira.

Com muito cuidado e usando ferramentas semelhantes a alicates, os soldados desarmaram a prisioneira e levaram a Murasame para um andar superior. Panzer e mais outros três soldados conduziram Akame até o subsolo da prisão. A prisioneira estava estranhamente silenciosa desde Briggs. Aliás, ela tinha o olhar perdido e seus gestos soavam automáticos demais como se ela fosse uma marionete. Eles se preocuparam em prender os pulsos e os tornozelos de Akame, apesar dela não ter dado nenhum sinal de que pretendia fugir. O grupo caminhou por um corredor escuro e úmido feito de pedras gigantescas e irregulares, em silêncio. Em cada lado do corredor, havia várias celas. Como estava muito escuro e silencioso, não dava para dizer se as celas estavam ocupadas. Alguém acendeu algumas poucas lâmpadas do corredor e sob a luz fraca delas, eles andaram lentamente através dele. O ruído dos passos e o tilintar das correntes ecoaram por todo o corredor.

Ao chegarem à cela destinada a Akame, os soldados removeram as amarras da presa com receio. Ainda estavam morrendo de medo dela. Akame nem olhou para eles. Parecia estar em outra dimensão.

Muito rapidamente, os soldados giraram as chaves nas trancas e saíram quase correndo do subsolo, deixando a prisioneira totalmente sozinha com o silêncio. Akame continuou parada no mesmo lugar que a deixaram por alguns minutos.

Akame não percebeu que, do outro lado do corredor, começou uma pequena movimentação em uma das celas. Aliás, parecia ser a única cela ocupada e o seu prisioneiro colou o corpo na grade para ver melhor a recém-chegada.

— Há quanto tempo – a voz meio enferrujada de um rapaz ecoou naquele corredor vazio e despertou Akame de seu estado de catatonia. Ela olhou por cima do ombro e encarou o rosto sorridente e meio sujo de um moço com cabelos escuros e olhos azuis – Akame.

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Edward sentiu pela falta de seu irmão Alphonse logo após o almoço e procurou por ele em todo forte de Briggs. Sua raiva crescia a cada minuto porque, assim como ele não achava vestígios de Alphonse em lugar nenhum, também não encontrava nenhum sinal de Akame.

— Major Miles – ele controlou-se para poder se dirigir muito respeitosamente ao militar – Não estou encontrando o Alphonse em lugar nenhum. Peço autorização para poder procurar em volta do forte pelo lado de fora.

— Vou mandar alguns homens com você, Edward – Miles concordou com um aceno de cabeça – Desculpe por não acompanhá-lo, mas preciso checar algo urgente fora dos limites de Briggs.

— O que seria? – perguntou, curioso.

— Dois soldados chegaram agora a pouco – Miles fez sinal para segui-lo – procurando por reforços. Disseram ter visto uma confusão de tiros não muito longe daqui. Disseram que parecia uma guerra e, aparentemente, era com soldados da Cidade Central.

— Soldados da Cidade Central? – Edward arregalou os olhos. Estava com um mau pressentimento – Eu posso ir com vocês?

— Não estava procurando seu irmão? – Miles parou e o observou por cima dos óculos.

— Se for o que estou pensando – Edward concordou – é exatamente isso que estou fazendo.

Miles rapidamente providenciou carros adaptados para a neve e eles partiram sem demora para o local indicado pelos dois soldados.

Ao longe, eles avistaram pontos escuros contrastando com a neve. À medida que eles iam se aproximando, esses pontos escuros mostraram ser, na verdade, vários corpos de soldados espalhados pelo chão, envoltos em grandes poças de sangue.

— Minha nossa – Miles cobriu a boca com uma mão – O que houve aqui?

Ele, Edward e os soldados desceram imediatamente dos veículos e verificaram se havia algum sobrevivente, sem sucesso.

— Esse morreu de uma forma muito estranha – Miles agachou-se para checar a pulsação de um soldado com ambos os braços cortados e manchas estranhas pelo corpo.

— Ele foi envenenado – Edward disse, duramente.

— Tem certeza? – Miles virou-se para Edward, mas ele não estava mais ao seu lado. Edward olhava ao redor como se procurasse por algo – Como sabe disso? Heim? Edward?

Edward não respondeu porque ele estava muito concentrado em um monte de panos largado há poucos metros de distância deles. Tentando sufocar um grito em sua garganta, ele correu o máximo que a sua perna mecânica permitia até aquele amontoado abandonado sobre a neve.

— Não. Não. Por favor – Edward repetia para si mesmo – Por favor, não. Tudo, menos isso...

Edward debruçou-se sobre o corpo de Alphonse. As mãos de seu irmão caçula já estavam geladas e ele não conseguiu achar a sua respiração.

— Edward, o que...? – Miles conseguiu alcançá-lo e olhava a cena, espantado – Alphonse? Mas como...? Aqui! – ele voltou-se para seus soldados – Rápido!

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Horas depois de Edward e Miles terem encontrado Alphonse no meio da neve, muito longe dali, Akame olhava sem reação para o rapaz que sorria simpático do outro lado do corredor.

— Nunca fomos apresentados adequadamente – o rapaz encolheu os ombros – Não se lembra de mim, Akame? Sou o Wave. Dos Jaegers.

— Estava me procurando? – a voz de Akame saiu baixa demais.

— De certa forma – ele suspirou e sorriu triste – Mas não pelo que você está pensando. Eu não guardo ressentimentos de você. Apesar de tudo.

Akame não disse nada e olhou mais atentamente para ele. Wave estava com uma aparência bem maltratada. Sujo e com as roupas esfarrapadas. Ele percebeu o olhar de Akame para sua jaqueta azul puída.

— Não estou na minha melhor forma – Wave riu sem humor – Olhe só – e apontou para o final do corredor – Eles pensam que, só porque eu fui marinheiro, eu sei respirar debaixo d’água.

Akame não riu da tentativa infeliz de Wave em fazer piada da sua deplorável situação.

— Você sabe quem são esses cretinos, Akame? – Wave se recompôs – Eles estão me interrogando há dias sobre as outras Teigus, mas eu não sei onde as outras estão!! E, mesmo se eu soubesse, não contaria a eles!! O acordo não era cada um ir para um lado depois da guerra? Sem arrependimentos. Sem perguntas.

— Eu também não sei dos outros – Akame deu as costas para ele – Não sobraram muitos.

Wave sentiu um nó na garganta e ficou pensando no que deveria falar em seguida.

— Olha – ele recomeçou, lentamente – Eu estive pensando muito ultimamente... Quanto mais se tenta esquecer algo, mais se pensa nisso, não é? – e deu um sorriso triste – Sabe, eu... não culpo você pela morte da Kurome.

Akame tornou a olhar para ele, mas não respondeu.

— Você fez exatamente o que ela queria – Wave sorriu fracamente com a lembrança da companheira – Ela era uma garota diferente. Só aceitaria morrer nos próprios termos. Só aceitaria morrer pelas suas mãos.

Não dava para dizer o que Akame estava pensando. Ela encarou os próprios sapatos, sem demonstrar nenhum sentimento.

— Ela amava você – Wave deu um longo suspiro – Você sabia que ela estava morrendo?

— Claro que sim – Akame não olhou para Wave – Eu era sua irmã.

— Uma morte sem sentido. Apenas para cumprir o dever – Wave deixou seus ombros caírem – É esse o destino de marionetes do Império como nós?

— Nós todos deveríamos apenas morrer – Akame sussurrou para si mesmo.

— Ei! O que você está dizendo? – Wave se alertou por um minuto – Por acaso, somos piores que as outras pessoas? Quem no mundo não merece morrer, heim, Akame?

— Conheci uma pessoa que não merecia – Akame deu as costas para Wave e caminhou até o fundo de sua cela, sentando no chão com as pernas cruzadas.

— Sério? E quem é esse santo? – Wave falou, debochado.

— Não importa mais. Ele já morreu – Akame não voltou o rosto para Wave – Agora, preciso pensar um pouco...

Wave achou que Akame estava pedindo, com toda a delicadeza do mundo, para que ele calasse a boca. Ele suspirou, resignado, e esticou o pescoço para espiar o fundo do corredor.

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O forte de Briggs tinha apenas um médico atendendo em sua ala hospitalar. Era um homem de idade avançada e com um profundo conhecimento de Alquimia. Como estava sem a ajuda de enfermeiros, May e Lan Fan o auxiliaram na delicada operação de Alphonse Elric. O rapaz havia sido atingido no fígado e em partes menores do intestino e do estômago, mas não teve uma perda considerável de sangue. Edward supôs que Alphonse usou a técnica da Rentanjutsu para estancar o sangramento. Isso salvou a sua vida.

A Alquimia de Xing é voltada para o uso medicinal. Tanto May quanto Lan Fan sabiam mover o fluxo de energia da própria pessoa e, com isso, conseguiam curar ferimentos leves. Porém, o ferimento de Alphonse foi um pouquinho mais profundo e o médico disse que a pessoa que o golpeou tinha a clara intenção de matá-lo. Como não tinham nenhum material para trocar, eles tiveram de usar as próprias células de outros lugares no corpo de Alphonse para fechar o machucado. A operação só foi terminar à noite e o médico recomendou repouso ao paciente. Logo após a saída do médico, das meninas e de Miles, Edward fechou a porta do quarto do irmão. Precisava conversar sério com ele. Alphonse estava acordado, sentado na cama com uma faixa em volta do tronco. Edward sentou na beirada da cama, suspirando.

— Ed? – Alphonse chamou com a voz vacilante – O que aconteceu?

— Eu quem pergunto, Alphonse – ele suspirou de novo, sem encará-lo.

Alphonse olhou em volta do cômodo.

— Cadê a Akame? – perguntou e, como se tivesse acabado de se lembrar, fez menção de levantar da cama – Ed! Precisamos salvá-la! Eles a levaram...

— Calma aí – Edward o empurrou de volta para cama – Você não vai a lugar nenhum.

— Do que está falando? – Alphonse lançou um olhar confuso para o irmão.

— Você não vai a lugar nenhum – Edward repetiu – Amanhã de manhã bem cedo, eu, Lan Fan, May e alguns soldados de Briggs iremos de carro até a Cidade Central. Você vai ficar aqui até se recuperar totalmente.

— Eu não preciso me recuperar. Eu estou bem!

— Preciso lembrar-lhe que, há exatamente seis horas, você estava caído quase morto no meio do nada com as tripas para fora? – Edward falou, agressivamente – Aliás, o que diabos você e a assassina faziam fora dos limites de Briggs?

Alphonse respirou fundo e amarrou a cara.

— Todo mundo aqui está arriscando a vida, Alphonse – Edward continuou com as acusações – Estamos fazendo o possível para evitar uma nova guerra. Você acha que nós estamos aqui de férias?! Você acha que a gente veio para cá para você ficar passeando e namorando?!

— Eu sei muito bem, Ed – Alphonse fechou os olhos, tentando se controlar – Eu sei muito bem do esforço de todo mundo. E sou muito grato por tudo que todos estão fazendo.

— Não parece – Edward levantou da cama e ficou andando nervoso de um lado para o outro – O que está acontecendo com você? Você nunca foi irresponsável dessa forma!! Parece até que... que acabou de entrar na adolescência...

Edward parou de repente de andar. Aquela ideia fazia algum sentido. Afinal, Alphonse perdeu seu corpo quando tinha uns dez anos e só foi recuperá-lo quando estava com uns quinze, dezesseis anos. Será que seu corpo entrou em um estado de suspensão do desenvolvimento quando ele estava com a Verdade?

— O que foi? – Alphonse perguntou e isso despertou Edward.

— Nada – abanou a cabeça – Como eu ia dizendo, você vai ficar aqui e nós vamos tentar reverter a situação. Já liguei para aquele imbecil do Mustang e expliquei tudo...

— Você não pode decidir por mim – Alphonse rebateu, indignado – Eu não sou mais criança! Você não pode continuar me tratando como se eu fosse um moleque!

— Então, pare de se comportar como um moleque. Eu tenho que decidir porque sou o irmão mais velho – Edward devolveu – Estou escolhendo o melhor para mim e para você!

— O melhor para você, você quer dizer – Alphonse gritou – Tudo tem que ser feito do seu jeito sempre!! Nunca posso fazer nada por conta própria! Tudo tem que ser da forma que você quer!

— Quando foi que eu fiz algo pensando só em mim?! – Edward berrou mais alto que o irmão – Eu sempre pensei em nós dois. Minto. Eu sempre pensei primeiro no que era melhor para você!!

— Pelo que eu saiba – Alphonse exaltou-se – quando nós tentamos reviver a mamãe, fui eu quem perdeu o corpo todo!! Você sabe o que é viver sendo uma armadura vazia?! Você nunca vai saber o que é isso!! Fui eu quem levou a pior, Ed!! Por que exatamente eu, de nós dois, foi quem perdeu o corpo inteiro?! Por que eu, e não você, heim?!

Esse tiro foi certeiro. Alphonse evitava conversar sobre isso com o irmão porque era um assunto delicado. Edward se culparia até o fim de sua vida pelo que aconteceu com Alphonse. E, só depois da última palavra ter saído de sua boca, para Alphonse perceber a besteira que fez.

— Ed – ele chamou, em voz baixa, ao ver a expressão no rosto do irmão mudar – Desculpa. Eu não queria dizer isso...

— Faz o que você quiser – Edward disse, rispidamente, e andou na direção da porta, sem olhar para Alphonse – Se você quiser ir amanhã, eu não vou impedir. Você já é adulto para decidir, não é mesmo? Depois não venha choramingar – e saiu, batendo exageradamente a porta.

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Era o dia da votação e a Cidade Central estava agitada como nunca. Desde cedo, havia aglomerações reunidas em frente ao prédio da Central de Comando, da Praça Central e arredores. Tanta gente junta e com tantas opiniões conflitantes, obviamente, iria dar merda. Os mais esquentadinhos brigavam na mão com os opositores e confrontavam a polícia. Houve até um mais abusado que atirou três ovos podres na janela do gabinete do Führer na Central de Comando, sob gritos de abaixo o governo. Como o agressor sabia que aquela especificamente era a janela do Führer, ninguém sabia dizer. E quem se atreveria a dizer?

A agitação era tanta que até mesmo no subsolo da prisão militar era possível ouvir. Wave apurou os ouvidos e tentou entender o que estava se passando do lado de fora.

— Ei, Akame – ele cochichou para a garota do outro lado – O que será que está acontecendo?

Akame não respondeu. Aliás, Wave já estava ficando preocupado. Ele reparou que Akame ainda estava na mesma posição de ontem quando se falaram pela última vez. Sentada no fundo da cela, de costas para a porta, semioculta pelas sombras. Wave não a ouviu falar nem uma única palavra desde ontem à noite. Não tinha nem certeza se ela havia dormido.

— Ô, Akame – ele chamou de novo, batendo na grade – O que há? Você passou a noite toda nessa posição?

— Estava pensando – ela respondeu, vagamente, ainda de costas.

— Precisou da noite toda para pensar tanto assim? – Wave perguntou, incrédulo – O que foi? Descobriu qual o sentido da vida? A verdade suprema do universo?

— Tanto faz viver ou morrer – Akame comentou para si mesmo, sem sair do lugar – A vida é insignificante e sem propósito. Sem sentido e vazia.

— Que conclusão extremamente pessimista é essa, Akame? – Wave a repreendeu.

Ela não disse nada. E Wave teria tentado fazê-la falar mais, se o carcereiro não tivesse aparecido arrastando um carrinho pelo corredor. Já era hora do almoço.

O carcereiro resmungou algo incompreensível, antes de jogar o prato de Wave para dentro de sua cela. Ele parou na frente da cela de Akame e emburrou a cara quando viu o prato, que havia colocado mais cedo ali, completamente intocado.

— Ei, garota – o carcereiro bateu na grade com violência – Não vai comer, não? Você acha que nós temos dinheiro sobrando para ficar jogando comida fora?

Akame nem se mexeu. O carcereiro ficou ainda mais irritado.

— Eu estou falando com você – ele bateu uma colher com mais violência na grade, mas acabou derrubando-a no chão.

Quando o carcereiro se abaixou para pegar o talher, sentiu a garra de uma fera selvagem atravessar a grade e pegar em cheio a sua garganta. Espera um pouco, de onde veio esse animal? Passada a confusão inicial, ele percebeu que não era a garra de um animal, e sim, a mão de Akame esmagando a sua garganta, não com menos força.

— Vocês acham mesmo que eu preciso da Murasame para matar? – ela sussurrou próximo ao ouvido do carcereiro, antes de quebrar-lhe o pescoço com um único puxão.

Wave assistiu toda a cena de queixo caído. Nunca viu alguém matar com tanta facilidade. Ou melhor, já sim. Aquela realmente era a irmã mais velha de Kurome. Mas, ela estava um pouco diferente de como estava ontem. Seus olhos estavam diferentes. Diabólicos, ele diria. E várias tatuagens cobriam sua pele, marcando sua bochecha, envolvendo seus braços, descendo pelas pernas. Uma aura sinistra pairava sobre ela e Wave sentiu medo. Apenas despertou dos seus pensamentos depois de Akame vasculhar os bolsos do carcereiro morto, pegar um molho de chaves e abrir a porta da cela.

— Ei! Ei, Akame – chamou quando ela já saía pelo corredor – Não vai me deixar aqui, né?

— Está indo para o mesmo lado que eu? – ela perguntou com uma voz mais fria do que o normal.

— Se está falando em recuperar nossas Teigus – Wave fez um sinal positivo – pode ter certeza que sim!

Akame abriu a cela de Wave e ele alongou os braços, alegremente, ao sair para a liberdade.

— Vamos pegar nossas armas e ir embora daqui. Esse lugar não é para nós – ele sorriu, satisfeito.

— Sim. Vamos pegar nossas armas – Akame seguiu rápido pelo corredor – mas, antes de ir, tenho um assunto pessoal para resolver – virou-se para Wave – E você, não fique no meu caminho.

Wave sentiu um calafrio com as últimas palavras de Akame.

Notas finais
Se por acaso omiti alguma coisa mais ou menos oportuna ou necessária, peço perdão, pois não existe ninguém que não cometa erros e seja prudente em todos os assuntos. Até a próxima atualização.