A Assassina e o Alquimista
33 A tal da Verdade
Notas iniciais
Os soldados da generala Armstrong foram rápidos na reação e invadiram o estádio logo após o início da confusão. Na verdade, muitos deles já estavam do lado de dentro e apenas sinalizaram para os outros entrarem. Com a ajuda dos alquimistas federais, os aliados de Kalin foram mais uma vez derrotados, no entanto foi um verdadeiro sufoco para os subordinados da generala Armstrong, os guardas reais e os soldados do Império. Principalmente, por causa daqueles bichos estranhos que saíram dos círculos de transmutações espalhados pelo estádio. Parece que Kalin tinha aliados infiltrados entre os empregados do local que desenharam os círculos de transmutações nas últimas noites antes da inauguração e deram um jeito de ocultar os desenhos até a hora certa.
Como o lugar estava cheio, a quantidade de feridos foi alta e muitos precisaram ser atendidos ainda no estádio. Edward Elric era um deles, mas seus ferimentos não eram tão graves. O que estava deixando o ex-alquimista impaciente era o nariz que não parava de sangrar. Winry mandou que ele inclinasse a cabeça para trás e apertou suas narinas por alguns minutos porém, era só ela largar um pouco, para a hemorragia recomeçar.
— Ela não só quebrou o meu nariz – Edward gemia de dor, contrariado – Ela tirou ele do lugar.
May poderia resolver isso rapidamente com Alquimia, mas no momento ela estava muito ocupada com Asami. Ainda choramingando pelo que aconteceu com Alphonse, May despertou de seu estado de prostração quando escutou um gemido baixo e constatou que Asami ainda estava viva, porém gravemente ferida. Ela se apressou logo em tratar os machucados da meia-irmã e, por isso, não viu a discussão entre Akame e Edward. Contudo, ela percebeu um brilho meio suspeito vindo daquela direção.
— Não fique se mexendo muito – Winry aconselhou – Nunca esperaria essa reação dela. Eu nunca vi a Akame-chan daquela maneira...
— Eu admito que, dessa vez, em parte foi minha culpa – Edward continuava apertando o nariz com a cabeça virada para cima – Disse coisas que não devia.
— Você está admitindo que estava errado? – Winry perguntou, admirada.
— Não disse que estava errado – ele abanou uma mão com impaciência – Muito pelo contrário. Eu estava certo. Não ouviu o que ela disse? Ela não é humana. Mas ela não disse o que era. Quando ela voltar, não vou deixá-la escapar. Ela vai ter que explicar direitinho essa história – e deu um longo suspiro – Se ela voltar.
— Como assim? – Winry estava preocupada – Você acha que eles não vão conseguir voltar?
— Não exatamente isso – com a mão livre, Edward coçou a cabeça – É que eu não sei o que ela pretende fazer com o Al...
— Akame-chan prometeu trazer o Al com ela – Winry disse.
— Como se eu acreditasse em uma palavra que ela diz – devolveu com impaciência.
— Mas você concordou que ela fosse buscar o Al... – Winry começou.
— Eu não concordei!! – Edward gritou, mas lembrou-se do nariz e abaixou a voz para não piorar o sangramento – Eu apenas não impedi. Também, você viu o olhar assassino que ela me lançou? Aquele olhar de “não vou te matar, mas vou fazer você implorar pela morte”.
— Você é sempre tão dramático... – Winry revirava os olhos.
— E, também – Edward deu um longo suspiro e recomeçou lentamente como se aquilo fosse muito difícil de dizer – o que ela disse... sobre a irmã dela... Eu fiquei pensando... Sabe, eu vi Kalin lutando com Alphonse e May quando Asami chegou para tentar impedir. Ela tentou persuadi-lo com palavras, mas ele atingiu a própria irmã com a espada. E quando Akame falou que tentou trazer a irmã para o lado dela e não conseguiu, eu pensei “bom, nem todo mundo tem a sorte de ter o Alphonse como irmão mais novo”.
— Pois é – Winry deu um meio sorriso – O Al tem uma personalidade única. Eu diria que é quase impossível achar alguém como ele.
— Mesmo de um jeito meio torto – Edward meneou a cabeça – Akame adotou o mesmo princípio de responsabilidade que eu. Se, de repente, o Al surtasse e começasse a matar pessoas, eu me sentiria tão responsável quanto ele por tudo isso. Mas não sei se eu chegaria ao ponto de matá-lo. Eu não sei se suportaria conviver com a culpa.
— Mas isso nunca iria acontecer – Winry olhou para ele – O Al jamais faria uma coisa dessas.
— Eu sei – Edward coçou a cabeça mais uma vez – Mas e se meu irmão não fosse o Al? Ou se o Al tivesse a mesma personalidade do Kalin ou da irmã da Akame? O que eu deveria fazer? – Winry ficou sem saber o que responder e Edward continuou – Além do mais, o jeito que ela falou de que iria trazer o Al, não sei o porquê, mas eu acreditei nela... Porque esse é o tipo de coisa que se espera de um irmão mais velho.
— Acho que você não deveria pensar muito nessas coisas... – Winry diz – Ei, o que é isso?
— O que é? – Edward quase abaixou a cabeça, esquecendo-se do sangramento no nariz.
— Parece um pingente – Edward ouviu a voz de Winry um pouco mais distante.
— Não toque nisso – Edward fez menção de segurá-la, ainda apertando o nariz com a outra mão – Eu desconfio que isso seja um artefato de uma seita ocultista que eu ouvi falar quando estive em Creta – ele levantou penosamente do chão, pegou o objeto com cuidado e guardou-o no bolso – Eles usam o poder da Terra para fazer transmutações, mas os membros da seita têm medo que alguém queira usar o potencial de poder deles para objetivos nem um pouco nobres e eles estavam certos – ele voltou a sentar ao lado de Winry – Tenho uma ideia até de como ativá-la. Vou guardá-la para mostrar ao doutor Marcoh. Ele saberá o que fazer com ela.
— E o que fazemos enquanto o Al e a Akame não vêm? – Winry suspirou, desanimada.
— Não temos outra escolha, a não ser esperar – e como Edward Eric odiava esperar qualquer coisa, essas palavras saíram com dificuldade. Mesmo resignado com a situação, ele não conseguia parar de pensar o que poderia estar acontecendo com seu irmão.
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Vazio.
Não havia absolutamente nada naquele lugar e Akame olhou ao redor com receio. Uma correção. Havia apenas um único objeto naquele lugar e ele pairava imponente no alto. Akame observou mais atentamente aquele imenso bloco de pedra flutuando sobre sua cabeça. Era semelhante a uma grande porta toda rachada e desgastada. Era tão fragmentada que parecia um imenso mosaico ou aqueles vitrais de igrejas antigas. As rachaduras cobriam o desenho de uma árvore com várias ramificações e círculos, com inscrições em uma língua estranha, representando os frutos da árvore. Eram dez frutos no total e estavam organizados em três colunas, mas os círculos não estavam alinhados. Havia um círculo no meio e mais alto que os outros. Os demais se distribuíam nas três colunas e terminavam em um círculo também posicionado no meio. Porém, os quatro últimos círculos estavam com as inscrições rasuradas como se alguém intencionalmente tivesse apagado o que estava escrito.
— Saudações.
Ela olhou em volta, procurando pelo dono da voz que ecoou no ambiente. Avistou uma figura estranha, sentada no chão a poucos metros de distância dela. Ele era exatamente igual à figura da Verdade descrita por Edward.
— Ora, ora – o homenzinho branco exibiu os dentes alvos – Você não é humana – não era uma pergunta – Parece que vamos ter um dia interessante.
— Alphonse Elric está aqui? – Akame perguntou, sem demonstrar nenhuma emoção.
— Alphonse Elric – o homenzinho branco escancarou ainda mais o sorriso – Ele é um visitante frequente. Eu deveria começar a cobrar pela estadia.
— Eu vim aqui para levá-lo – ela continuou com o mesmo tom de voz.
— Ei, ei. Vamos com calma – o homenzinho suspendeu as mãos em um tom brincalhão – Alphonse Elric não te disse? Como você é nova aqui, vou explicar algumas coisas. Para se obter algo, é preciso oferecer algo de valor equivalente. Troca equivalente. O que você pretende trocar para puxar um humano inteiro dos meus domínios?
— Trouxe o pagamento – Akame estendeu a mão, mas não andou até a estranha criatura. Nem ao menos saiu do lugar – A pedra filosofal.
A criatura dá gargalhadas e cobre a testa com uma das mãos.
— Aprendeu a trapacear na Alquimia também, é, Akame? – a criatura dá uma risadinha – Sim. A pedra filosofal. Pretende usar almas humanas aprisionadas na pedra em troca da alma de Alphonse Elric?
— Não só a alma. O corpo também – Akame completou.
— Sim. Como queira – o homenzinho abriu ainda mais, se é que é possível, o sorriso – Mas, é esse mesmo seu desejo, Akame? Essa é a Verdadeira Vontade de seu coração?
— Eu vim aqui apenas para isso – ela deu de ombros.
— Sim, mas vamos aproveitar sua visita surpresa – o homenzinho continuou – Eu não esperava você aqui tão cedo. Aliás, você sabe que pode entrar livremente aqui se você se desencorpar, não é? – e acrescentou com uma voz insinuante – Mas eu acho que você não quer. Andou aprendendo uns truques de Alquimia com Alphonse Elric?
— Eu quero apenas pegar a minha troca – Akame ignorou a pergunta do homenzinho.
— Dentro de cada pessoa há um Universo e o Universo só existe porque há um precário equilíbrio entre as forças do bem e do mal – o homenzinho sorriu – Mas, no seu caso, esse equilíbrio é quase inexistente. O que existe é uma grande massa negra brigando com seu lado humano. E o que acontecerá quando as trevas se sobrepuserem a luz?
— Quem é você? – ela perguntou, com uma ruga de curiosidade entre os olhos.
— Ah, que bom que perguntou – o homenzinho agitou os braços, animado – Eu sou o que você chama de Mundo. Ou talvez o Universo, ou talvez Deus, ou talvez Verdade, ou talvez Tudo, ou talvez Um... E eu também sou Você – ele apontou para a garota – Você não pode esconder nada de mim, Akame. Eu sei tudo sobre você. Quer a prova? Vou responder uma de suas perguntas. E a resposta é sim.
— Sim pelo quê? – ela enrugou a testa.
— Sim é a resposta da sua pergunta mais frequente – o homenzinho falou – A pergunta que você fez quando saiu pela primeira vez em missão. Ou a pergunta que você faz todas as vezes que sai para matar alguém. Ou a mesma pergunta que você faz todas as noites antes de dormir.
— Tolice – Akame cerrou os dentes – Não precisa responder a pergunta. Eu sei que vou morrer.
— Exatamente. Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão – o homenzinho deu um meio sorriso – Mas, apenas morrer é uma opção tranquila demais para você, não é, Akame?
Akame continuou no mesmo lugar, sem falar nada.
— Você quer saber quando vai ser sua hora? – a Verdade perguntou.
— Não – Akame respondeu, secamente.
— Eu sempre achei que os humanos tinham essa curiosidade – o homenzinho coçou o queixo, pensativo – Mas você não é totalmente humana, não é verdade? Quer dizer, você era, contudo suas emoções continuam humanas. Diga, se pudesse voltar no tempo, você teria arriscado sua humanidade para poder derrotar aquela inimiga?
— Eu sabia dos riscos – Akame falou, firme – Eu não poderia deixar aquela mulher viva. Mesmo se me consumisse, eu iria derrotá-la. Custe o que custar.
— Você é uma tola prepotente como qualquer humano – apesar das palavras duras, o homenzinho continuava a sorrir – Pensa que pode salvar todo mundo? Você se sacrificou à toa. Você lutou para tirar um governo corrupto e o outro que o substituirá terá o mesmo fim porque o destino de qualquer sociedade humana é se afundar na própria sordidez.
— Não acho que foi à toa – Akame respondeu, séria – Fiz isso para que as pessoas tivessem esperança de um futuro melhor.
— Mas nem ao menos conseguiu salvar quem você amava – a Verdade apontou novamente para ela – Nem conseguiu salvar sua irmã. Se tivesse chance de fazer tudo diferente, você o faria? Nem que seja para tirar essa culpa de seu coração?
— Nada que eu fizesse mudaria o destino de Kurome – Akame suspirou – Mas eu continuaria tentando sempre.
— Não consegue porque é a sua sina – o homenzinho continuou – Chamam a Murasame de “A Espada Amaldiçoada” não porque o amaldiçoado é quem é cortado por ela. A maldição recai para quem carrega a espada. A espada atrai uma vida recheada de sangue e mortes para seu portador, contudo você já sabe disso.
Akame abaixou a cabeça, com pesar.
— E só piora – o homenzinho desfez o sorriso – quando o portador usa o trunfo. O pacto que você fez com sua espada. Sua humanidade em troca do poder máximo da arma. Muita gente faria qualquer coisa para ter um poder desses. Mas esse poder só te trouxe mais culpa e mortes, não é? Deve ser uma vida muito solitária...
Akame continuou olhando para baixo.
— No entanto – o homenzinho recuperou o sorriso – Você nunca desistiu de achar uma solução, não é? Parece que você está bem perto do que quer...
— O que quer dizer com isso? – Akame levantou uma sobrancelha.
— Você sabe do que estou falando – o homenzinho sorriu novamente – Desde aquele dia no deserto. Aquele encontro não foi casual, não é? Quem procura, acha. E você procurou, buscou, clamou tanto que a solução apareceu. Desde a primeira vez que você viu Alphonse Elric, você sabia que ele era a resposta para o seu problema. A espada te disse isso, não foi? Mas você ainda não sabe como Alphonse Elric pode ser útil para você.
— Pois é – Akame abanou a cabeça e estendeu novamente a pedra filosofal – Por isso, eu preciso levá-lo de volta. Ele é minha única esperança.
— Você não precisa da pedra filosofal para levar Alphonse Elric de volta com você – a Verdade sacudiu as mãos.
— Não? – Akame enrugou a testa.
— Não – o homenzinho levantou-se do chão com os ombros encurvados – Alphonse não fazia parte do acordo. Ele veio para cá por engano. A Verdade pode ser cruel, às vezes, mas é justa – Akame não saberia dizer se o homenzinho estava sério porque não conseguia ver seus olhos, nem o nariz e nem mesmo, agora que ele parara de sorrir, a boca – Se você o achar, ele é seu. Pode fazer o que quiser com ele. Espero que você faça bom proveito.
— E onde ele está? – Akame olhou para os lados.
— Quando ele estava vindo para cá – a Verdade prosseguiu – houve um pequeno desvio e Alphonse Elric acabou caindo em outro lugar.
— Qual lugar? – ela insistiu.
— Em um lugar que você conhece bem – o homenzinho abriu um largo sorriso – Tem uma pessoa querendo muito falar com você.
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