Notas iniciais
Olá, paciente leitor! Eu disse que postaria amanhã, mas resolvi aparecer antes porque, talvez, amanhã eu não possa. Que pessoa linda que eu sou! Devido a isso, decidi me aplicar um autodescanso e a próxima atualização deve sair dia 19/11 (Sábado. Não esse. O outro sábado). Aviso: o capítulo de hoje é ̶u̶m̶ ̶f̶i̶l̶l̶e̶r̶ ̶e̶ ̶s̶ó̶ ̶s̶e̶r̶v̶e̶ ̶p̶a̶r̶a̶ ̶e̶n̶c̶h̶e̶r̶ ̶l̶i̶n̶g̶u̶i̶ç̶a̶ uma quebra de tempo, ou seja, ele volta um pouco no tempo para explicar melhor algumas coisas. ̶o̶u̶ ̶n̶ã̶o̶ Olha, pode parecer estranho, mas eu sei como a história se desenvolve aqui dentro da minha cabeça, mas é difícil expressar em palavras.

Akame já estava cansada de ficar naquela posição. Estava agachada atrás de uma imensa rocha, tentando fugir dos raios do sol. O calor do deserto naquela hora do dia era insuportável e ela não havia encontrado um lugar adequado para continuar espiando e, ao mesmo tempo, apreciar um vento mais fresco. Do alto de um morro rochoso, ela observava com calma um pequeno acampamento logo abaixo da elevação. Um aroma forte de carne temperada se elevou no ar e atingiu suas narinas. Akame praguejou baixinho. Aqueles malditos precisavam cozinhar uma comida tão cheirosa contra o vento?

Há quase duas semanas que Akame espionava aquele grupo de forasteiros pelas sombras. Certamente, eles nem desconfiavam que estavam sendo observados. Amadores. Ao menos, eles deveriam já ter desconfiado da redução no estoque de comida. Até o momento, Akame não poderia relatar nada de interessante daqueles três estrangeiros. Apenas que eles tinham hábitos estranhos. Mas o que Akame fazia seguindo três forasteiros no deserto?

Certa vez, Akame matou um perigoso serial killer chamado Zank, o Executor. Ele era um louco que matava indivíduos aleatórios apenas para saciar sua sede de sangue. Completamente descontrolado e psicótico. A começar pelo fato dele poder ouvir vozes que ninguém mais ouvia. Depois de lhe aplicar o golpe fatal, Akame recebeu os agradecimentos de Zank porque, finalmente, as vozes tinham parado.

Bem mais difícil do que enfrentar o Zank, foi quando Akame lutou com Esdeath. A sádica generala do Império era uma rival extremamente forte e habilidosa. Raramente, Akame enfrentava um inimigo que a fazia duvidar de ser capaz de completar uma missão. E Akame chegou a pensar seriamente que não conseguiria matar Esdeath. Uma das duas deveria morrer naquela batalha e Akame resolveu apostar alto. Não tinha nada a perder mesmo, além da própria vida, é claro. Ela decidiu por usar o trunfo da Murasame.

E o plano suicida deu certo. Akame ganhou uma vantagem sobre Esdeath e conseguiu derrotá-la. Mas foi por muito pouco. Quase morreu no processo. Se bem que, por causa de sua atitude, ela não estava muito longe disso.

Depois de se cortar com a Murasame e ter o veneno da espada correndo livremente por suas veias, Akame sentiu os efeitos colaterais. Além da superforça e agilidade conseguidas, ela sentiu algo mais estranho. Passou a ouvir vozes. Vozes que ninguém mais ouvia. Estaria enlouquecendo como o Zank? Seria sua vez de sair matando inocentes apenas por puro prazer e sede de sangue?

Poderia até pensar que aquelas vozes eram alucinações de sua cabeça, mas não. Não eram quaisquer vozes. Eram as vozes das pessoas mortas pelo fio da Murasame. Centenas. Milhares. A maioria delas não foi morta por Akame. Eram a herança de sua Teigu.

Foi difícil conviver com elas inicialmente. As almas mortas por Akame naturalmente tinham rancor da garota. Mas ela não se importava com elas porque começou a sentir um frio na barriga desagradável quando entendeu o que estava acontecendo. Por dias, ficou ansiosa com a possibilidade de ouvir outra vez a voz de Kurome. Não sabia se realmente queria ouvi-la. Talvez, não quisesse escutar as acusações de sua irmã sobre sua morte precoce. Porém, infelizmente ou felizmente, Akame nunca ouviu a voz da irmã caçula. Ela estaria realmente ali entre o grupo das pessoas mortas pela Murasame ou era porque Kurome não queria falar com ela? Akame nunca saberia a verdade.

Com o tempo e um pouco de treino, Akame aprendeu a controlar as vozes. Conseguia silenciá-las ou filtrar o que diziam. Conseguia conversar mentalmente com elas e construiu uma relação, se não cordial, ao menos respeitosa, com a maioria deles. E foram eles que lhe disseram.

Esdeath estava certa em uma coisa. Quando Akame se cortou com a Murasame na derradeira batalha que tiveram, ela deixou de ser humana. E, agora, não havia nada mais que Akame quisesse do que recuperar sua humanidade perdida. Estava correndo contra o tempo. Precisava voltar a ser totalmente humana antes que fosse tarde demais.

Para isso, Akame se lançou em uma verdadeira odisseia. Ela havia procurado o local que, segundo as lendas, havia sido o berçário das Teigus, no entanto só encontrou ruínas. O lugar fora destruído por uma guerra há mais de trezentos anos. Os registros sobre as Teigus foram parcialmente destruídos ou roubados. Alguém tentou desesperadamente esconder os segredos de fabricação das Teigus e era perfeitamente compreensível. Se aquelas anotações caíssem em mãos erradas seria uma tragédia. E, ao mesmo tempo, a deixava totalmente sem pistas para resolver seu problema.

Najenda lhe ajudou nessa empreitada. Exigiu que os funcionários do governo responsáveis pelos registros procurassem em cada documento alguma informação relevante. Até que o arquivista com mais tempo de serviço ao Império achou dados sobre a transferência das últimas cópias intactas sobre a fabricação das Teigus para a Biblioteca Nacional de Xing.

Akame embarcou clandestinamente em um navio para poder sair de seu país, um arquipélago afastado do resto do mundo. Atravessou o grande país de Xing e invadiu sua famosa biblioteca real. A biblioteca central de Xing era conhecida em vários países pelo tamanho de seu acervo e a imensa variedade de livros vindos de todos os cantos do globo. Akame conseguiu entrar até mesmo na restrita sessão de livros especiais de Alquimia, mas foi inútil. Ela não sabia Alquimia e levaria séculos para conseguir decodificar todos aqueles pergaminhos e livros velhos. E quem garantia que a resposta de seu problema estaria em um daqueles mais de quatrocentos mil exemplares expostos nas estantes? Não, ela precisava de um especialista.

Foi quando eles se encontraram. Akame não deu muita importância para ele na primeira vez que isso aconteceu. Na verdade, eles nem se viram porque os dois estavam em corredores opostos, mas Alphonse Elric chegou perto o suficiente para a Murasame sentir a sua presença. Akame saiu da biblioteca naquele dia, novamente frustrada e com a esperança reduzida. Estava quase pensando em desistir de procurar respostas por ali e ir para outro lugar. Se as Teigus não tivessem sido construídas há tantos séculos atrás, poderia tentar entrar em contato com o fabricante. Mas, agora, a quem poderia recorrer?

“O problema é que você não entende nada sobre isso”, uma das vozes dizia “é capaz de você passar pela resposta e não a enxergar”.

“Procurar sobre as Teigus é inútil”, outra voz comentava “Você deve procurar alguém que possa interpretar esses ensinamentos”.

— Então, o que vocês sugerem? – Akame, enfim, resolveu perguntar. Já não aguentava mais aquela ladainha nos seus ouvidos.

“Saia dessa cidade e vá para o deserto, para um lugar que lhe mostraremos. Lá você encontrará um poderoso xamã estrangeiro. Ele é a resposta que você está procurando”.

Akame não atendeu ao chamado imediatamente. Adiou por vários dias, mas as vozes não deram trégua nesse período. Porém, precisava reconhecer. Era bem capaz de ela passar pela resposta em algum daqueles livros e não a enxergar.

Suas pernas acabaram a conduzindo para o deserto e ela vagou pelo local indicado. Estava se xingando mentalmente por ter tomado uma atitude tão impulsiva quando viu a pequena caravana se aproximando. Se é que poderia chamar aquilo de caravana. O grupo se reduzia a dois homens e um rapazinho viajando em camelos. Outro fato chamou a atenção de Akame. Os três pareciam serem amestrinos.

Akame nunca havia visto um amestrino antes. Apenas ouviu os comentários das pessoas de Xing e não eram nada favoráveis. Ouviu falar que os amestrinos eram cruéis e traiçoeiros. Viviam se metendo em guerras de conquista e quase exterminaram um povo inteiro porque eles não aceitavam a sua dominação. Não dava para confiar em nenhum deles.

E os três tinham uma aparência muito semelhante das descrições. Apenas um dos homens tinha a pele escura, mas o outro homem e o rapaz eram louros de olhos claros. Os três conversavam animadamente em uma língua estranha.

Akame já estava dando meia-volta quando as vozes a chamaram de novo para dizer que quem ela estava procurando estava ali.

— Qual dos dois? – ela perguntou, olhando os dois homens altos.

“O mais novo”, responderam quase em uníssono.

Eles só poderiam estar brincando. Se aquele rapazinho era mais velho que ela era por bem pouco. Como ele poderia saber resolver seu problema?

“Aparência não quer dizer muita coisa. Olhando para você, quem diria que você é uma assassina retalhadora, mestre na espada, super-rápida e que não mostra sinais de emoções em combate?”

Akame deu um longo suspiro e observou os três mais atentamente. Felizmente, o deserto de Xing tinha muitos montes rochosos e não era difícil achar um bom esconderijo para espionar. Passaram-se dias, mas Akame não conseguiu descobrir nada de significativo. Se, ao menos, conseguisse entender aquela língua estranha deles...

Os três forasteiros se prepararam para seguir viagem e Akame se levantou de seu esconderijo. Conseguia acompanhá-los tranquilamente porque os camelos não eram animais conhecidos por sua rapidez e também porque ela os observava do alto, saltando de um morro para o outro.

Mas esses idiotas não sabem andar pelo deserto de Xing mesmo! Se continuassem naquele sentido, eles iriam acabar parando no acampamento de um grupo de salteadores do deserto. Akame conhecia bem aqueles tipos e poderia muito bem ter feito uma pequena “visita” àqueles ladrões, mas até ela estava farta de sangue ultimamente. E também ela estava curtindo aquela paz de estar em um lugar onde ninguém sabia quem era ela. Não queria mais chamar atenção das autoridades locais e dos populares.

Os estrangeiros perceberam o engano tarde demais e tentaram passar despercebidos. Só que eles não eram muito bons nisso. Não demorou muito para o bando notar a presença deles e os perseguir. Akame acompanhou a perseguição do alto. Os amestrinos resolveram se refugiar em um desfiladeiro e isso atrasou seus perseguidores. Pelo menos, eles não eram tão burros. Mas a vantagem duraria pouco. Eles precisavam sair dali.

Quando Akame conseguiu alcançá-los, os bandidos haviam cercado os amestrinos. Os dois homens estrangeiros assumiram formas monstruosas e atacaram seus agressores. Onde foi que ela já tinha visto isso? Lembrou-se das experiências bizarras do governo de seu país de origem. Não deveria ser muito diferente disso.

É sério que aqueles assaltantes de quinta categoria iriam obrigá-la a denunciar sua localização? Não havia muita escolha. Não podia deixar os estrangeiros morrerem. Akame fez um belo estrago no grupo de assaltantes. E os que conseguiram fugir, saíram com o rabo entre as pernas.

Ao final, ela olhou para trás e viu o rapaz louro sentado no chão e com os olhos arregalados. Akame sorriu internamente porque agora ele não parecia tão poderoso sentado ali no chão. Embainhou novamente a espada e já estava voltando para seu habitual posto quando o garoto se refez do susto e tentou alcançá-la. Ele se dirigiu a ela no idioma de Xing, que Akame conhecia bem por ser muito parecido com a língua falada no Império, mas ela decidiu ignorá-lo. Aproveitou uma distração dele para sair sem ser notada.

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— Escute bem, Akame – Gozuki a encarou com uma expressão séria – Matar essas pessoas é de extrema importância para manter a paz no Império – e acrescentou em um tom sombrio – Se você falhar, não poderá mais ser minha filha.

Akame levantou-se de um salto, olhando para tudo em volta. Estava sozinha e no meio do deserto. Quer dizer, não totalmente sozinha porque ainda estava à espreita dos amestrinos. Não se ouvia ruído nenhum vindo do acampamento deles. Devem estar dormindo ainda.

Ela levantou o corpo, respirando com dificuldade. Ainda conseguia ouvir nitidamente a voz do seu “pai” e não era por causa da Murasame. Sentiu calafrios com a lembrança.

Se Akame pudesse ver seu próprio rosto, teria ficado preocupada. Um dos seus olhos estava normal, mas o outro estava com a aparência semelhante de quando ela lutou com Esdeath. Porém, mesmo sem ver, ela sentiu que havia algo errado. Respirou fundo, tentando se controlar. Não poderia perder o controle agora porque sua forma demoníaca tinha uma predileção por assassinatos sanguinolentos e sem sentido. Ela poderia atacar a primeira pessoa que aparecesse na sua frente sem motivo algum. Felizmente, ela sabia muito bem controlá-lo, mas às vezes era bem difícil. Principalmente, quando ela estava com o emocional abalado. E esse último pesadelo não ajudou em nada.

Eu disse sem motivo? Não. Havia um motivo, sim. Ela estava caminhando há semanas naquele deserto e não achou nada de útil. Por que precisava seguir aqueles malditos amestrinos? Para protegê-los dos perigos como se fosse alguma espécie de guarda-costas? Poderia matá-los tão facilmente e ir embora dali. Era exatamente isso que tinha de fazer.

Levantou lentamente com a Murasame nas mãos e deslizou furtivamente até o acampamento. Os três dormiam tranquilamente. O homem louro alto dormia sentado sobre um caixote, abraçado a um rifle. Provavelmente, estava ali para fazer a vigília, mas não aguentou de sono. Akame pensou em começar por ele, porém isso alertaria os outros. Além do mais, ele não era o mais forte entre eles.

Ela caminhou até a barraca mais afastada e encontrou o rapazinho louro dormindo profundamente. Dormia tão tranquilo que parecia até que o mundo era um lugar seguro e aquele deserto era totalmente isento de perigos. Aproximou-se mais com a Murasame em punho. Um corte em sua garganta e ele morreria sem nem saber o que aconteceu.

Já havia matado várias pessoas antes. Era uma assassina experiente. Então, por que estava sendo tão difícil abaixar a mão? Seu alvo estava dormindo. Nunca pegara uma presa tão fácil, mas alguma coisa estava impedindo de matá-lo.

Com um longo suspiro, Akame recolheu a espada e passou a mão no rosto. Havia feito uma promessa para si mesma de que não mataria mais inocentes. E o que estava prestes a fazer? Aqueles três amestrinos poderiam ser terríveis como os xingueses os descreveram, no entanto ela não vira nenhum deles fazer nada de mais. Todos eram inocentes até prova em contrário. E ela não poderia matar inocentes. Lentamente, seus olhos voltaram ao normal.

Depois dessa batalha interna, ela precisava repor as energias. Vasculhou o estoque de carne dos amestrinos e encontrou comida fria. Era melhor que nada.

Sentiu alguém se aproximando e pensou que fosse o vigia adormecido, porém se espantou quando deu de cara com o rapaz. Mal sabia ele que escapou da morte por muito pouco naquela noite. Ele se apressou em dizer que não a machucaria e Akame quase deixou escapar um sorriso. “Gostaria de ver você tentar”, pensou.

Em uma tentativa de fazer amizade, o rapaz estendeu uma manta no chão e colocou duas tigelas de ensopado, convidando Akame a sentar com ele. Ela desconfiou desse gesto de gentileza, lógico. E só concordou com isso depois de vê-lo comer também do ensopado.

— Meu nome é Alphonse Elric – sorriu, simpático.

Alphonse? Que nome mais ridículo.

Se ele estava esperando ela se apresentar, era bom esquecer. Não estava nem um pouco preocupada em ser educada. Depois de comer, iria embora. De volta à antiga relação de seguidora e pessoa sendo seguida.

Enquanto comia, Akame começou a se sentir incomodada porque Alphonse não parava de encará-la. Suspendeu os olhos para encará-lo de volta e ele ficou imediatamente vermelho até as pontas das orelhas. Ela não conseguiu entender essa reação exagerada.

— Quer ver uma coisa? – ele gaguejou, meio inseguro.

Alphonse juntou as mãos uma vez e depois as tocou no chão. Um brilho intenso saiu debaixo de suas mãos e uma ventania repentina agitou seus cabelos e roupas. Akame arregalou os olhos. Então, era verdade que aquele garoto era um poderoso feiticeiro? Não podia ser!

— Pra você – ele ofereceu a pequena escultura de um pássaro após terminar aquele estranho ritual.

Akame girou o passarinho entre os dedos. Realmente, nunca vira nada parecido. E foi tudo tão rápido. O que mais será que aquele garoto era capaz de fazer?

— ...Talvez, você nem entenda o que eu falo – Alphonse encolheu os ombros, desanimado.

Em um impulso, Akame acabou falando seu nome. Alphonse arregalou ainda mais os olhos e desembestou a fazer perguntas uma atrás da outra. Como foi solenemente ignorado em todas elas, em certo momento, ele cansou e acabou caindo no sono. Akame o largou dormindo no mesmo lugar e foi embora, não sem antes pegar mais um pouco de comida.

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Se perguntassem para Akame definir Alphonse em uma única palavra, ela responderia sem pensar duas vezes: tagarela. Céus, como aquele garoto falava! Parece que momentos de silêncio o incomodavam demais. Alphonse falava sobre tudo e emendava uma história na outra. Akame não se importava muito porque, enquanto ele falava, ela ia comendo.

Além disso, aprendeu muitas coisas interessantes sobre ele. Sabia que Alphonse havia ido para Xing para estudar medicina e ele tinha acesso aos documentos secretos da Biblioteca de Xing. E, o melhor de tudo, Alphonse conseguia entender aqueles cálculos complicados. Afinal, ele e o irmão dele eram considerados prodígios na Alquimia em sua terra natal.

— Meu irmão Ed é até melhor do que eu – Alphonse sorria. Akame percebeu que Alphonse sempre falava do irmão com respeito e admiração.

Depois de algumas noites, Akame passou a conversar mais com o rapaz. Respondia uma ou outra pergunta e ignorava as demais. Alphonse tinha um jeito meio gentil que a fazia se lembrar de Sheele, combinado com um toque de ingenuidade do Tatsumi. Quem sabe, estivesse um pouco nostálgica nos últimos tempos e estava imaginando essas coisas. No começo, pensou que tudo não passava de fingimento dele, mas depois começou a acreditar que, talvez, ele fosse só bobo mesmo. Bobo, ingênuo, simplório, inocente, bufão, palhaço, caipira e mais uma lista de adjetivos para acrescentar com aquele tagarela lá do início.

— Por que você não vem com a gente? – Alphonse arriscou, com um sorriso esperançoso.

— Eu viajo sozinha – respondeu, simplesmente.

É claro que Alphonse não iria aceitar isso como resposta, porém não custava tentar. Ele insistiu tanto que, em algum momento, ela acabou concordando. Esqueceu-se de mencionar que o bobo sabia convencer qualquer um com palavras. Cruzes, isso soou tão parecido com as técnicas de persuasão da Leone.

No dia seguinte, Akame foi apresentada formalmente aos senhores Jelso e Zampano. Os dois foram muito gentis com ela e rapidamente a incluíram na roda de conversa. O idioma falado entre eles era o de Xing, porém, aos poucos, Akame foi se acostumando com a língua do distante país de Amestris. Quer dizer, a língua mais comum porque a tal nação de Amestris tinha quatro idiomas oficiais, além dos dialetos. Mas Alphonse era um professor paciente e sempre podia também contar com as contribuições de Jelso e Zampano.

Aprender a língua dos amestrinos foi uma vantagem. Akame havia descoberto as anotações de Alphonse e ele costumava escrever em parte no idioma do seu país, outra parte no idioma de Xing. O alfabeto de Xing era muito semelhante ao do Império, afinal os dois países compartilhavam as mesmas origens. Entretanto, o alfabeto de Amestris era uma complicação e ela não conseguia entender metade das coisas escritas. A outra metade era formada por tabelas, símbolos matemáticos, diagramas e gráficos. Ou seja, a maioria de suas anotações estava completamente incompreensível.

Akame também achou um conjunto de papeis totalmente diferente dos demais. Primeiramente, porque os escritos estavam organizados em forma de cartas e todas elas estavam endereçadas a mesma pessoa: Trisha Elric. Akame passou os olhos rapidamente, mas não conseguiu entender muito. Não estava ainda tão acostumada com o idioma de Amestris, mas parecia que Alphonse estava escrevendo poesias para essa tal de Trisha. Nada muito interessante.

— O que você está procurando, Akame?

Akame levantou os olhos e encontrou o rosto inexpressivo de Alphonse. Momento raro. Alphonse costumava estar sempre com aquele sorriso bobo nos lábios. Entretanto, ele agora olhava para as cartas nas mãos de Akame com uma expressão indecifrável.

Sem dizer nenhuma palavra, Alphonse parou na frente de Akame, pegou as cartas nas mãos da garota e analisou-as uma por uma como se fosse a primeira vez que as estivesse vendo. Akame esperou Alphonse dizer alguma coisa, mas dessa vez ele não falou nada por um bom tempo.

— Isso me lembra – Alphonse deu um sorriso triste, ainda olhando para as cartas – de uma história que ouvi certa vez quando estava viajando para Xing – e suspendeu os olhos para Akame – Quer ouvir?

Os dois sentaram perto de uma pequena fogueira no centro do acampamento. A noite estava estrelada e o vento frio do deserto assoviava longe.

— Ouvi uma história curiosa de um viajante quando estávamos perto das fronteiras de Xing – Alphonse cutucou os restos da fogueira com uma vareta – Em um país muito distante, vivia um matemático que tinha uma única filha. Quando ela nasceu, ele consultou as estrelas e elas disseram que ela jamais se casaria. O pai não se conformou com o destino da filha e recorreu aos astrólogos mais famosos daquele tempo.

Akame não entendia onde Alphonse queria chegar com essa conversa, porém resolveu escutar com muita paciência.

— Então, um dos astrólogos falou que a filha dele só poderia se casar em um dia e hora específicos – Alphonse deu um leve sorriso para Akame – Certo dia, a filha do matemático foi pedida em casamento por um jovem bom, rico e trabalhador. E eles marcaram o casamento no tal dia e hora específicos. O problema é que, nesse país, se media o tempo com um primitivo relógio de água. À medida que a água entrava por um pequeno orifício em um vaso, um cilindro submergia aos poucos até ficar totalmente submerso em uma hora determinada. Era nessa hora que seria realizada a cerimônia. No entanto, a noiva se debruçou para observar a subida da água e uma das pérolas do seu vestido se soltou e caiu dentro do vaso. Por uma infelicidade do destino, a pérola obstruiu a pequena abertura onde a água entrava. Os convidados e o noivo esperaram em vão pela hora certa. Quando perceberam a pérola tapando a abertura, a hora adequada passou e o noivo, pensando ser um mau presságio, preferiu marcar a data do casamento para outro dia. Semanas depois, o noivo desapareceu e a filha do matemático ficou para sempre solteira.

Akame estava prestando mais atenção do que o costume quando Alphonse falava. Sentiu um estranho tom triste nas suas palavras.

— O matemático reconheceu que era inútil lutar contra o destino e disse à sua filha – Alphonse encarou as cartas em seu colo – “Escreverei um livro que perpetuará sua memória e ficará na lembrança das pessoas por mais tempo do que viveriam os filhos que viessem a nascer do seu fracassado casamento”. Ele escreveu um livro de matemática com o nome dela e que ficou famoso por séculos. O que chamava mais atenção é que as questões do livro eram quase poéticas, como se o matemático estivesse conversando com a filha.

Akame percebeu Alphonse alisar as cartas com certa ternura.

— Devo confessar, Akame – Alphonse sorriu triste, encarando as cartas – Nós, alquimistas, somos uma raça desgraçada. Achamos que somos muito poderosos, mas sequer podemos lutar contra nosso próprio destino.

Pela primeira vez, Akame sentiu uma sensação estranha dentro de si com as palavras de Alphonse. Ela entendia perfeitamente o que Alphonse estava falando e sentindo. Principalmente, porque ela sentia a mesma coisa. Culpa.

— Ninguém consegue satisfazer completamente todos os seus desejos – Akame diz, com a voz contida – mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa redenção.

Alphonse olhou espantado para Akame, piscou duas vezes e sorriu discretamente.

— Você fala pouco – ele sorriu de lado – Mas sempre fala o suficiente.

Pela primeira vez, Akame devolveu o sorriso de Alphonse. Apesar de bobo, até que era simpático seu novo amigo.

Notas finais
Vi em algum lugar que o Gozuki era o pai adotivo da Akame. Foi ele quem treinou Akame para ser uma assassina. Não faço a mínima ideia com o que aconteceu com ele, mas ele era o antigo dono da Murasame. Sério, eu preciso urgentemente de alguém para me ajudar a escrever. Que troço difícil, sô! Uma última coisa, essa história que o Alphonse conta é a lenda de Lilavati, a filha de Bhaskara (aquele mesmo da fórmula de Bhaskara). É um conto sobre a inevitabilidade do destino e eu li sobre ele a primeira vez quando era criança no livro O Homem Que Calculava. Até quem não gosta de matemática, gosta desse livro quando o lê.