A Arte do Caos
42 Eu preferia, com certeza, não saber disso.
Quando chegaram ao território de Altair foram imediatamente recepcionados por um monte de lobos. Eles ficaram ariscos, principalmente após verem a ômega em seus braços, mas nenhum deles teve coragem de confrontar Acnologia.
Quando Altair chegou com sua escolta em frente ao enorme castelo que era o ponto central da matilha, sua primeira reação foi de espanto. Querendo evitar que pensassem que eram os responsáveis por machucar a garota, falou rápido.
—Um dos lobos da matilha de Maximus a estava atacando. Pegamos ela e achamos mais adequado trazê-la até você.
Preocupado com a quantidade de sangue que via manchando as ataduras que tinha colocado na garota, o alfa falou rápido.
—Por favor levem ela para dentro. Dilan, chame Kagura.
O castelo era enorme, mas não teve tempo de admirá-lo ou ver todos os detalhes, pois foram rapidamente arrastados por corredores intermináveis até que chegaram a uma área cheia de quartos amplos e brancos com o cheiro característico de hospital. Eles tinham uma enfermaria.
Acnologia colocou a garota em uma das macas forradas com lençóis brancos e se afastou. Seu nariz se torceu não apenas pelo cheiro desagradável de hospital, mas principalmente por que suas roupas estavam manchadas de sangue da ômega, deixando sua outra parte indignada por causa do cheiro.
—O que aconteceu?
Uma mulher magra e alta, de uns 50 anos, cabelos escuros e olhos arroxeados, usando um vestido verde cumprido e carregando um cajado com uma pedra roxa como seus olhos no cume, entrou bruscamente pela porta.
—A ômega foi encontrada, mas está gravemente ferida. Preciso que a cure.
Supôs que aquela deveria ser Kagura. Sentindo-se deslocados, Acnologia e Lucy se afastaram e foram para o canto do quarto.
A mulher prontamente começou os curativos. Ela pegou vários ingredientes e potes com poções em sua bolsa de couro e começou a desfazer suas ataduras para aplicar as poções. Conseguia sentir que ela manipulava magia, mas não era uma maga. Alquimista, supôs.
Alquimistas podiam manipular magia como os magos, mas sua carência de poder mágico os fazia depender de poções e, as vezes, contratos com espíritos da floresta, isso se algum espírito quisesse formar um contrato.
Altair olhou para a garota e para a curandeira, emanando suplica e ansiedade cada vez que mudava de posição.
—Ela vai ficar bem. – Disse a alquimista sem tirar os olhos de seu trabalho. – Ela foi muito ferida, mas essas ataduras aguentaram bem. Conseguirei curá-la com certeza.
O suspiro de alívio do alfa foi audível.
—Obrigada. – Depois os olhos cansados viraram-se para os dois no fundo do quarto. – Por favor venham comigo.
Dando um último olhar par a garota pálida e ensanguentada, seguiram o alfa da matilha do sol por mais um monte de corredores e escadas intermináveis.
Por fim passaram por uma porta bem adornada de madeira maciça, entrando em um escritório onde tudo era antigo. O carpete parecia ter mais de 200 anos, as cadeiras em madeira estofadas com linho e filamentos de ouro, a mesa enorme de madeira maciça com lobos esculpidos em suas pernas, os quadros de tinta a óleo retratando pessoas, lobos e muito mais espalhados por toda parte. Tudo lá era antigo e bem conservado, polido e cuidado nos últimos detalhes.
—Dilan, traga roupas para os dois por favor, e dois frascos da lua. Eles devem estar desconfortáveis com todo esse sangue. – O homem que mais parecia sua sombra acenou positivamente e saiu em busca do que foi ordenado. Altair sorriu seco para ambos e gesticulou. – Sentem-se por favor. – E ele mesmo se sentou na poltrona enorme atras da mesa feita de couro e veludo.
Obedeceram. Lucy teve o cuidado de tentar não manchar a mobilha, mas Acnologia não deu a mínima. Podiam tirar roupas novas dos anéis, mas não queriam chamar mais atenção do que já chamaram naquele momento.
—Poderiam me contar o que ouve?
O dragão tomou a dianteira e foi seco em sua resposta.
—Senti o cheiro de sangue enquanto estávamos concluindo nossa missão no lago. Quando chegamos lá encontramos a garota nua e um dos lobos da matilha do alfa do norte. O reconheci por que ele veio ao festival. – O ácido em suas palavras não foi disfarçado. Se lembrava bem deles por que os odiou a primeira vista, especialmente após aquele olhar de desejo que ele deu para Lucy. – A garota parecia estar fugindo dele. Achamos que não seria adequado deixa-la com ele e a trouxemos para cá.
—Ela estava correndo dele e ele precisou machucá-la para pegá-la. Não iria deixa-la nas mãos dele. Não sabíamos como cuidar de um lobisomem então achei melhor trazer ela pra você, já que sua fama parece ser melhor dentro de Vaneia. – Lucy completou, deixando claro em seu olhar que daria um jeito de tirar a garota dali caso Altair não fosse confiável.
De repente o velho homem suspirou, passando as mãos pelo rosto, parecendo ganhar 30 anos nesse processo. Ele afundou na cadeira e apoiou os braços no descanso.
—Obrigada por ter confiado em nós. Garanto que vamos protege-la. Ela estará segura aqui e ninguém a machucará ou forçará a nada. Quando ela acordar vamos conversar com ela de acordo.
Havia sinceridade em suas palavras. Olhou para Acnologia para confirmar. Ele acenou disfarçadamente dizendo que o velho falava a verdade.
—Desculpe pelo que presenciaram. Tenho me esforçado para que minha espécie seja vista com bons olhos, mas Maximus... – Sua voz endureceu com desgosto. – Ele vem causado problemas pra nós desde que assumiu seu posto há décadas. Eu não quero jogar meus problemas em vocês, mas gostaria que soubessem disso. Maximus acredita e goza da existência de hierarquia em nossa espécie. Ele acredita ser superior e por isso pensa que humanos e outras espécies deveriam servi-lo. Nenhum de nós, os quatro alfas, concorda com ele e já tentamos inibir que seu comportamento narcisista afetasse outros, mas fomos ineficazes. Podemos controla-lo no que se refere a cidade e ao que ele faz com as outras pessoas de outras espécies, mas não podemos interferir em seu território ou matilha, infelizmente. Ninguém quer uma guerra de novo, mesmo que nos doa ver o que ele faz com aqueles que pertencem ao seu próprio bando.
A forma pesarosa, triste e com raiva que Altair falou fez Lucy se simpatizar e sentir pesar.
—Compreendemos. Você não é responsável pelos erros dos outros.
O barulho de alguém batendo na porta interrompeu a conversa. Dilan entrou pedindo licença com um par de roupas dobradas na mão.
—Tive que estimar o tamanho, mas acredito que irão servir. – E ofereceu a ambos.
—Obrigada. – Lucy aceitou. O sangue grudando a roupa em sua pele já estava incomodando.
Altair se levantou e andou até uma pequena porta próxima a sua mesa.
—Por favor, sinta-se livre para usar o toalhete para se trocar. Podemos terminar a conversa depois.
Lucy sorriu e se levantou indo na direção dele.
—Obrigada. – Disse entrando.
Acnologia não teve a mesma cordialidade ou paciência para esperar Lucy sair de lá. Ele se ergueu, tirando a camisa ensopada de sangue e usando a parte não ensopada para limpar o que grudou em sua pele.
Altair ou seu beta não se importavam com isso. Oferecer Lucy um pouco de privacidade foi uma mera cordialidade, uma vez que toda vez que se transformavam os lobos perdiam a roupa. A nudez total ou parcial era algo comum entre eles, mas os olhos do alfa notaram a cicatriz nas costas do dragão. A velha ferida se destacava um pouco junto com suas marcas azuis que rasgavam todo o seu corpo em padrões diferentes. Ela era suave, nem fazia relevo em sua pele, mas também era enorme e assustadora o bastante para ousar perguntar.
—Se não for inconveniente da minha parte, que tipo de batalha de magos deixaria uma cicatriz assim?
Os olhos azuis escuros e perigosos o encararam. Algo neles fez Altair estremecer.
—Contra um Dragão. – As palavras saíram simples, como se ele tivesse ido comprar tomates no mercado, enquanto colocava a blusa nova.
Isso só fez o calafrio em sua espinha aumentar ainda mais. Desde o dia que o encontrou no lago, aquela pressão dominante e estranha não saia de sua mente. Ele não era um lobo, então o que ele era? Seja o que for seus instintos gritavam como nunca antes para jamais desafiá-lo. Sua parte lupina lhe dizia que se o ameaçasse, se pisasse em ovos com ele ou com sua companheira, iria sofrer consequências terríveis.
Foi por isso que acreditou em sua versão da história. Não havia razão para alguém com tanto poder assim mentir.
—Eu ia perguntar como parou um dos lobisomens de Maximus, mas acho que não é mais necessário. – Tentou apaziguar o clima. Pegou os frascos que Dilan tinha entregado discretamente. – Aqui, são poções de cura feitas com a flor da lua. Ajuda o corpo a se recuperar. Achei que poderiam ter se ferido na luta. Mesmo que não tenham se ferido, podem ficar com eles. Pode ser útil um dia.
Acnologia aceitou, pegando os frascos pequenos de cerâmica e os colocando no bolso. Lobos raramente davam aquilo para alguém. Era difícil de fazer e precioso, e tê-los em mãos era ótimo.
“Dragão...?“ Seu beta sussurrou em sua mente através da conexão mística que tinham.
Ele sentia a pressão vinda do homem, mas não parecia totalmente convencido.
“Ele fala a verdade.”
Pode sentir a surpresa de Dilan e seu desconforto. Ele confiava em sua palavra e se dizia que o homem a sua frente enfrentou um Dragão é por que era verdade. Seu desconforto vinha de estar diante a alguém que, caso decidisse atacar, não seria capaz de defender seu alfa.
Lucy saiu do banheiro com a nova blusa azul escuro. Estava um pouco larga, mas era melhor do que a sua antiga ensopada.
Dilan recolheu ambas as roupas manchadas e as jogou no lixo na lateral da mesa. Não tinham recuperação de qualquer maneira e ele não sairia do lado de seu alfa com outro alfa na sala. Altair retomou a conversa rapidamente.
—Maximus ficará sabendo disso. Ele não pode fazer nada dentro de Vaneia e vou alertar as outras matilhas que estamos com a ômega. Devemos prover um pouco mais de segurança na cidade, mas gostaria de alertá-los.
—Vamos embora amanhã. Nossa missão já concluída. – Informou Acnologia.
Não tinha intenção alguma de ficar ali, especialmente com a bruma em seu ápice e a situação podendo pegar fogo a qualquer instante.
—Que pena.
Apesar de suas palavras, pode sentir o alívio em sua voz. Ele não sabia o que era, mas sabia que era perigoso e o queria longe de sua matilha. Sábio.
—E quanto a garota? – Lucy perguntou preocupada.
—Ela ficará bem. Vamos cuidar dela, principalmente por causa da bruma. Ela ficará segura e vamos impedir que qualquer um tente se aproveitar disso. – Ele fez uma pausa. – Venha vê-la. A matilha sempre da uma festa na noite de Lua cheia. Te garanto que ela estará bem.
Antes que Lucy pudesse falar algo mais Acnologia passou o braço por seus ombros e falou:
—Aceitamos o convite. Voltaremos mais tarde. Até breve.
E a arrastou pela porta, puxando-a para fora do castelo.
—O que você... – Ele a interrompeu, colocando um dedo entre seus lábios.
Lucy o encarou, irritada. Apontou para os próprios ouvidos em uma indicação clara que havia alguém escutando. Consternada ela cruzou os braços e fechou a expressão de forma inconformada.
Quando estavam longe o bastante da propriedade e julgou seguro falar sem ter ninguém para espiar, explicou.
—A ômega vai ficar bem. Ela ficaria em pânico e morreria de medo se eu estivesse lá por que ômegas podem sentir Alfas e perigo com muita facilidade, e eu sou os dois. Eu não te deixaria lá no meio de lobisomens sozinha nem que me ordenasse e não importa o quanto eu tentasse suprimir minha outra parte, existe um limite pro quanto consigo fazer isso e não seria o bastante. Ela precisa ficar entre os dela pra se recuperar e se sentir segura. Além disso Altair já estava ficando desconfortável comigo lá dentro.
Lucy descruzou os braços e suspirou, abandonando a irritação após entender e se recostando na lateral de seu corpo enquanto andavam.
—Entendi. Espero que ela fique bem.
—Altair estava dizendo a verdade. Eles não querem ferir a ômega. Provavelmente muitos da matilha dele vão tentar cativá-la a serem seus companheiros, mas é só isso. Elas são raras e preciosas demais para que sejam tratadas dessa forma. Maximus e sua matilha representam bem o pior lado deles, mas não todos eles.
Apertando os lábios e estreitando os olhos Lucy jogou pra fora seus pensamentos.
—Ainda não entendo direito como essa coisa de hierarquia funciona. Quer dizer, eu tenho que adivinhar o que esta acontecendo com base na reação de vocês, mas pra mim nada disso faz sentido. O que torna ela tão desejada por ser ômega? Além de sua raridade. O que é uma ômega no fim das contas? Eu entendo um Alfa, ele e líder e tal, um beta que ajuda o líder, e tem o resto do grupo. E só. Que diabos de categorias são essas? – Sua voz saiu indignada.
Riu de sua indignação e confusão. Era interessante ver o quanto era complicado e obscuro para alguém que não tinha sentidos afiados ou lados animalescos. Tentou explicar o melhor que pode.
—Eu não sou um deles, mas sei entender a hierarquia por que tenho sentidos aprimorados e não sou exatamente humano. Apesar de me chamarem de Rei, eu não dou a mínima pra hierarquia. Ela só me é conveniente as vezes.
Apesar de ter aceitado seus poderes de Alfa que vinha com o titulo de Rei dos Dragões, a hierarquia e a idéia de bando nunca foram tão descartáveis para Acnologia. Ele era um lobo solitário e não gostava da ideia de ser líder, fora que a hierarquia dos dragões era algo muito mais sutil. Havia um respeito aos mais fortes, mas eles não viviam em bando para terem uma organização tão profunda de comando. Claro, isso não o impedia de se divertir ao dar ordens a Natsu quando ele o irritava.
—O que posso fazer é tentar explicar. Lobos são extremamente dependentes de sua hierarquia de comando, caso contrário não conseguiriam sobreviver. Eles são sociáveis, ao contrario de mim ou dos dragões, dependem uns dos outros. São raros os que sobrevivem sozinhos. Os ômegas são os lobos mais fracos em termos de força física e outros atributos, mas eles possuem uma característica que os faz serem almejados: a capacidade de unir os laços sentimentais da matilha.
Fez uma pausa, pensando em como explicar melhor essa parte.
—Alfas mantem a matilha unida através do poder puro e simples. Ômegas mantem a matilha sentimentalmente unida. Essa é outra razão para alfas almejarem tanto um. O equilíbrio fica muito mais estável assim, e uma matilha estável é mais forte. E ainda tem a questão dos descendentes que se tornam mais fortes.
—Faz sentido. – Lucy comentou. – Os ômegas nascem com o poder de manipular sentimentos então?
Riu, seco e seus lábios se retorceram em um sorriso por imaginar a reação dela.
—Não. É raro ômegas terem dons. Eles fazem isso por que seus corpos produzem hormônios que apaziguam e estimulam coisas positivas na matilha, além de seduzir os que não tem companheiras a toma-los. Isso fica ainda mais intenso já que a matilha possui um laço místico em que o alfa pode sentir as necessidades deles e eles a dele, como mentes e almas conectadas. A ômega tem algo semelhante. O que ela sente é intensificado pra toda matilha que ela escolher se conectar.
A expressão dela se retorceu em uma completamente consternada e esquisita. Gargalhou ao ver as bochechas coradas e constrangidas ao mesmo tempo em que sua testa vincava, tentando absorver a informação.
—Ela é uma maquina de anabolizantes?! – Sua voz saiu quase um grito incrédulo.
—Por que acha que eu queria sair de lá o mais rápido possível? Não sou da espécie dela, mas posso sentir o cheiro. Isso me faz querer matá-la, não protegê-la.
Não ficou surpresa quando ouviu isso. Já sabia que, desde que ele a tomou como companheira, coisas ou pessoas que tentavam seduzi-lo mesmo com uso de drogas ou hormônios provocavam o efeito oposto, despertando um lado violento e bastante sanguinário.
—Essa foi a coisa mais estranha que já ouvi de lobos. Cruzes. Coitada da garota.
Ia omitir a informação, pois quando descobriu a séculos atrás ficou traumatizado, mas a vontade de ver a cara dela ao saber falou muito mais alto.
—Isso é por que você não viu um ômega homem. Ai sim a coisa fica esquisita.
Ela revirou os olhos.
—Deixa eu adivinhar: Ele seduz todas as mulheres. – Cuspiu rancorosa.
—E homens. – Acrescentou. – Mas a parte esquisita é a quando eles encontram um companheiro homem e tem filhos.
Lucy travou, parando de andar, sua cara ficou pálida e seus olhos arregalados de horror. Pode ver exatamente quando a cena passou por sua mente, sendo refletida no pânico de seus olhos castanhos. Começou a gargalhar, jogando a cabeça pra traz e colocando as mãos na barriga. Ela estava em choque.
—Um homem GRÁVIDO? – Ela praticamente gritou com uma voz estridente.
Sua risada aumentou ainda mais.
—Não, não, não! – Exclamou eloquente, colocando ambas as mãos nos ouvidos e começando a andar rapidamente. – Eu não quero saber. Eu não ouvi isso.
A seguiu, aumentando as passadas.
—Você perguntou.
—Não perguntei não! Argh! Eu não consigo parar de imaginar agora, seu imbecil!
Gargalhou mais, ao ponto das lagrimas se acumularem em seus olhos. Ela viu e começou a estapeá-lo.
—Idiota! Idiota, idiota, Imbecil! – Ela ralhava com cada vez mais eloquência.
Continuou rindo enquanto tentava desviar de suas agressões pelo caminho.
"Salve uma vida e salvará o mundo."
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