A Arte do Caos
22 Cap 22:Toc, Toc. A insanidade está a porta.
–O que? – Os olhos azuis lhe encaravam incrédulos e quase furiosos. Mordeu os lábios. Não era essa a reação que esperava.
Já fazia duas semanas desde sua reconciliação incomum e prazerosa com o Rei Dragão. Há duas semanas ele não tinha pesadelos, seu humor tinha melhorado consideravelmente. Não tinha certeza se isso devia-se ao fato de terem repetido a dose durante vários dias desse meio mês que se passou, mas o importante era que ele tinha deixado o passado para trás. Ou ao menos foi o que achou.
–Quero ir a Magnólia ver a Fairy Tail. – repetiu, dessa vez em um tom mais baixo, entretanto não menos decidido.
Estava mais que na hora de fazer uma visita a seus amigos. Devia satisfações a eles, e também precisava urgentemente confirmar suas suspeitas com Levy; a grande maioria dos sintomas tinha regredido, contudo não significa que ele estava curado. É como um câncer que se esconde e depois volta com tudo (se suas suposições estivessem certas, é claro).
–Não!- exclamou puxando os cabelos. Sua cabeça já estava começando a latejar, algo que não fazia há muito tempo.
–Acnologia, eu devo muito a eles, e lhes devo uma satis...
–Não importa!- exclamou de novo. Dessa vez sua dor estava ainda pior.
A Heartphilia travou os pés no chão com o desaforo do namorado. Suas veias queimaram e, não importava como, iria para Magnólia, mesmo que precisasse ir andando. Irritada, levantou o tom também.
–Eu vou ir vê-los, Acnologia, não importa como!
As pupilas contraídas rapidamente se voltaram para si com uma feição amedrontadora.
–Não vai! – a voz reptiliana a fez dar um pulo de susto.
Os olhos castanhos arderam. Lucy piscou várias vezes tentando impedir as lágrimas de cair, porém seus olhos ficaram visivelmente marejados. Ele nunca a tinha tratado assim. Vendo a burrada que fez, retirou as mãos dos cabelos que tanto puxava e as estendeu em direção à maga; ela recuou, e, quando a primeira lagrima caiu, se virou rapidamente e entrou no quarto, batendo a porta e fechando a trinca.
Correu até a divisória dos cômodos e começou a bater insistentemente na madeira.
–Lucy. – chamou, a voz pingando em arrependimento. – Me desculpe... Abra a porta, por favor? – implorou. Continuou a bater durante um tempo, e, sem receber a resposta, ficou impaciente. – Lucy, abra a porta ou vou arrombá-la. – Ameaçou.
Nada.
Girou a maçaneta e empurrou a porta com seu ombro, ouvindo o estalo da trinca e da madeira. Entrou em um instante, vendo a garota ir em direção ao banheiro, entretanto agarrou seu pulso fino antes que alcançasse o cômodo. Segurou-a pelos ombros e a girou, agora sendo capaz de ver mais algumas lágrimas caindo. Seu peito latejou e queimou; quis se dar um soco por cada lagrima que a fez derramar.
–Lucy... me desculpe, eu... eu não queria dizer isso. – Os olhos azulados derreteram como mel e ele afagou os braços magros.
–Mas você disse!- exclamou tomada pela raiva. Mais lágrimas caíram. Acnologia recuou, sentindo-se atingido pelas palavras. — Eles são minha família! – hesitou, reformulando. – Quer dizer... eu nem sei mais se eles são minha família. – confessou amargurada, sem saber a que ponto sua traição com eles era perdoável. – Mesmo que eles me odeiem, eu devo isso a eles. Devo no mínimo uma explicação. – Dessa vez abaixou a cabeça, com os olhos tristes focados em seu pequeno tesouro cor-de-rosa gravado em sua mão. Sua visão era borrada pelas lágrimas.
O Dragão suspirou.
–Eu sei. – murmurou, pegando as pequenas mãos entre as suas. – Eu... só... – hesitou. – não consigo mais saber se tenho poder o bastante para te proteger. Não consigo olhar para mim e enxergar que sou capaz disso... – Sua fala morreu.
Lucy ergueu os olhos e as sobrancelhas. Aquilo era uma blasfêmia!
– Como assim? – a incredulidade em sua voz estava tão grande que destruiu toda sua tristeza anterior. Sua surpresa era inimaginável. – Você é a pessoa mais poderosa que já conheci! Como não seria capaz de me proteger? É poderoso até demais. Como consegue pensar em uma coisa tão absurda? – normalmente defenderia que era perfeitamente apta para cuidar de si mesma, entretanto no momento a surpresa sucumbiu seu lado autônomo.
Ele sorriu amarelo, olhando-a nos olhos e entendeu rapidamente que apesar de ter massageado seu ego, o próprio não acreditava nisso. Era um fardo que, embora mais leve agora, teria de carregar sozinho, por toda a vida; o dia fatídico em que não foi o bastante.
Aconologia respirou fundo, fechando os olhos brevemente para tornar a abri-los uma vez mais, tomando sua decisão.
–Eu... eu... – engoliu em seco. Era mais difícil dizer que pensar. Será que a Heartphilia enxergava que mesmo que brigassem e resistisse, sempre acabaria cedendo? Será que ela via que a amava a esse ponto? – Eu vou te levar a Magnólia. – soltou derrotado. A garota sorriu. – Amanhã. – completou. Ela piscou um pouco, mas não deixou-se abater por um prazo tão curto. – E com uma condição. – Estreitou os olhos castanhos. Estava bom demais para ser verdade; tinha de ter uma condição!
–E qual seria? – questionou.
– Você terá de me obedecer. – falou sério. – Não sei como estão as vigílias do conselho agora. Vamos entrar quando eu entender que é seguro, e, em qualquer sinal de problema, vamos embora. – decretou, encarando-a com seriedade.
A Heartphilia encarou suas opções. Os termos eram viáveis.
–Feito. – falou após alguns segundos.
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Apesar de nenhuma gota cair sobre a terra, a cidade das flores permanecia nublada; as nuvens com um aspecto cinza claro, indicando que não permitiriam a passagem do Sol, entretanto também não forneceriam chuva. Não poderia ser uma notícia melhor para Acnologia, que voava entre as massas acinzentadas com Lucy bem agasalhada em seus braços. Magnólia estava bem calma para uma cidade grande. Ficou um tempo sobrevoando a metrópole, vendo como estava a vigilância e seu movimento. Por ser um dia frio, as pessoas não estavam muito agitadas, além de sempre prestarem mais atenção nos parques e nas flores que no próprio trabalho.
Não se surpreendia. Em breve o desabrochar das arvores famosas da cidade traria turistas de todos os cantos. Primavera.
Não queria pensar muito nisso agora.
Planou bem em cima da Fairy Tail, analisando o melhor lugar para aterrissar. Por sorte, Makcrov mantinha uma vasta área no quintal da guilda e uma parte conservada de florestas. Mergulhou como um raio em meio à copa arbórea, não levando mais que alguns segundos para atravessá-la e reabrir as asas enormes, chegando ao chão com maestria e sem ser notado.
Lucy desceu de seu colo ao mesmo tempo em que recolhia suas asas e vestia uma camiseta. Guiou-a pela mata enquanto a mesma removia os casacos usados para a viagem e os pendurava em uma arvore para buscar depois. Acnologia se agachou atrás de um arbusto denso que dava uma visão perfeita dos fundos da guilda. Ao lado da porta havia inúmeras caixas vazias de cerveja, e uma janela que dava direto para a cozinha. Estreitou os olhos aguçando o olfato, audição e visão.
Ouvia um coração no cômodo; pelo cheiro sabia que era Mirajane, e pelo rápido vislumbre de cabelos prateados teve total certeza. Não havia membros no segundo andar, e todos estavam no salão principal. Na realidade, pelas suas contas, o numero de cheiros, vozes e corações batendo era o numero exato de magos da Guilda.
Saiu da encolha e fez sinal para Lucy segui-lo. Caminhou rapidamente pela área descampada do quintal, se aproximando da porta. Encostou as costas na parede e agachou; com um movimento de mão mandou Lucy por o rosto na janela. Se eles a odiavam saberiam agora, e em um lugar bem propício para fugirem.
Um pouco temerosa, a Heartphilia, também agachada, começou a se erguer colocando apenas o rosto visível pela janela. Mirajane, que estava organizando a bandeja com pratos e copos de cerveja, ergueu os olhos em um breve instante vendo um rosto amigável na janela; soltou os talheres deixado-os cair no chão com o susto. Os olhos azuis se arregalaram e ela levou à mão a boca. O susto não durou muito quando percebeu que era Lucy ali, viva e alegre.
Abriu um sorriso e tomou ar para falar.
–Mira-nee. – uma outra voz se fez presente, aproximando-se da porta dupla da cozinha.
A albina movimentou rapidamente a mão ordenando que Lucy se abaixasse, e ela o fez.
–Lissana. – murmurou se virando para irmã que acabara de entrar. As feições da albina mais nova eram depressivas, andava com a cabeça baixa e parecia cansada. Ao que parece, a pequena maga não conseguia assimilar muito bem o espírito vigente na guilda. Não estava muito confiante que sua irmãzinha em seu estado de “aborrecência” fosse guardar muito bem o segredo que se escondia nos fundos.
–Estou cansada. – Informou a menor. – Vou para casa.
A mais velha maneou a cabeça positivamente. Observou-a sair por onde entrou. Rapidamente abriu a porta dos fundos na esperança de dar um belo abraço apertado na Maga Estelar, entretanto, quando girou a maçaneta, encontrou alguém que não esperava. Lá estava ele, o imponente, mas agora nem tão imponente Rei Dragão atrás de Lucy, em uma postura desconfortável e um pouco nervosa. A saudade foi mais forte; ignorou-o e pulou em cima da loura abraçando-a com força.
–Meu Deus Lucy!- exclamou, soltando-a e analisando-a dos pés a cabeça. – Por onde andou? Nos deu um susto sabia? – o tom agora foi mais irritadiço. –Pensamos que estava morta! – observou de rabo de olho Acnologia se encolher como se tivesse levado uma facada. Ignorou-o de novo, preocupando-se em direcionar sua fúria para Lucy.
Observou de relance os olhos castanhos passarem preocupados para o garoto, e ficarem um pouco preocupados ao vê-lo todo retraído, mas logo retornou a si.
–Me desculpe, Mira. – pediu com um sorriso envergonhado.
–Me desculpe nada! – exclamou, controlando um pouco a voz. – Tem noção de como estávamos desesperados? Ou como ainda estamos? Você estava morta, e todos ficaram destroçados com isso! – observou uma vez mais o Dragão se retrair, ferido, com as palavras. Uma parte de si queria entender sua mágoa, mas não era hora de ser boazinha, precisava de respostas.
Preocupada, Lucy resolveu intervir de maneira mais brusca para refrear Mirajane. Sabia bem das conseqüências que a repetição de frases que envolvessem “você” e “morta”; elas poderiam muito bem agravar o estado psicológico de Acnologia, e isso poderia ser muito, mas muito ruim.
–Mira, é uma história muito complicada e realmente não quero explicá-la agora. O fato é que estou viva e vim ver meus amigos. – as palavras saíram firmes, mas seus olhos denunciavam que não queria ter sido grossa.
A albina respirou fundo e voltou a analisá-los. Com o garoto encolhido, realmente pressupôs que não fosse o melhor jeito de abordar a amiga.
–Entrem. – chamou rápido e abrindo passagem para os dois. Quando adentraram a cozinha, enfiou a cabeça para o lado de fora e espiou para os lados buscando ver se alguém tinha os visto. Não encontrando nada, fechou a porta e virou-se para o casal. – Fiquem aqui. Vou ver como estão as coisas lá fora. Informo quando puderem entrar. – Saiu pelas portas duplas indo em direção ao Hall da guilda.
Lucy suspirou. De fato não esperava todos os amores do mundo vindo deles. Talvez Mirajane tenha sido a menos pior. Bom, pelo menos ela os deixou entrar. Subiu os olhos para Acnologia, vendo-o retraído; as costas um pouco curvadas, olhos no chão, mãos nos bolsos; a expressão era um pouco abatida. Aproximou-se, erguendo seu queixo e sentindo os pouquíssimos pelos que ali estavam. Talvez Dragões não tivessem muitos pelos incumbidos em seu DNA, já que ele não tinha muitos pelo corpo, o que para Lucy só o tornava mais atraente.
–Ei. – chamou em um sussurro alegre. Percebia o tamanho esforço que ele fazia por si. Mesmo que seu instinto mandasse que a pegasse e fugisse para o mais longe possível de qualquer pessoa, lá estava ele; totalmente desconfortável, mas ainda assim cumprindo seu desejo. Admirou isso. – Não fique assim. Já conversamos sobre isso. Eu te amo, estou viva e você é a melhor pessoa que poderia estar ao meu lado.
Isso o fez sorrir fraco; não pela afirmação, mas sim pelo ‘eu te amo’. Ainda não conseguia convencer a si mesmo que era forte o bastante para protegê-la em qualquer circunstancia, entretanto não iria contrariá-la. Eram tão poucas as vezes que dizia ‘eu te amo’ a ela. Podia contar nos dedos. Talvez seja por que se considerava incapaz de amá-la o quanto ela merecia ser amada, ou então não fosse bom com palavras, poderia ser até mesmo o fato das palavras não suprirem todo o sentimento que queria expressar.
Conseguia ler os sentimentos dela pela conexão quando quisesse, mas queria deixar que ela sentisse os seus, vendo se o pouco que tinha para oferecer era o bastante.
Nunca foi amado para amar de volta. Não sabia de onde vinha o pouco amor que tinha, mas sabia que Lucy lhe dava mais do que talvez fosse capaz de retribuir.
Não tinha duvidas de como satisfazê-la na cama. Era algo natural, preso em si, ser capaz de lhe dar prazer e de saber os meios mais excitantes de fazê-la delirar... mas nunca se importou com os sentimentos de uma mulher antes. Era algo novo e, mesmo em meio aos largos tropeços, estava tentando fazer o melhor.
Seja como for precisava tropeçar menos. Até hoje, não tinha dado nada a ela; pelo contrario: tirou sua liberdade, sua capacidade de ter filhos, sua família adotiva de magos destrutivos, seu pai e seu direito de se socializar com pessoas novas. A lista era grande, mas seja como for, agora tinha a eternidade para compensá-la e faria isso a qualquer custo.
Os lábios rosados uniram-se aos seus em um selinho demorado e reconfortante. Suspirou preferindo não dizer nada no momento.
As portas duplas se abriram.
–Venham. – chamou Mira. – Se escondam atrás do balcão. – um sorriso travesso se abriu em seus lábios. – Quero fazer uma surpresa.
Obedeceram, passando agachados pelas portas e permanecendo escondidos atrás do balcão. Os passos do velhinho enrugado e com as feições carrancudas pelo cansaço ecoaram no salão, e todos os presentes se viraram para a escada. Passou a mão pelos poucos cabelos brancos que ainda possuía.
–O que é tão urgente para me tirar do escritório, Mirajane?! – perguntou, a voz um pouco arrastada. Vidrou os olhos nos azulados.
–Nada. – respondeu com um sorriso simples. O velho arqueou as sobrancelhas, quase zangado. – Apenas pensei que gostaria de rever alguém. – e com isso, fez um movimento para os inquilinos saíssem do esconderijo.
As duas cabeças ergueram-se, entretanto a loura foi a mais notada.
–Lucy!!! – não foi possível distinguir quem havia gritado seu nome.
–Oe, minna!- falou, sorrindo amarelo e abanando a mão em um comprimento.
Não soube exatamente como, mas uma hora estava atrás do balcão e na outra foi puxada para o meio do hall, sendo esmagada por diversos abraços diferentes.
–Lucy! – Erza chutou o montinho dando espaço livre para si. Puxou a amiga para um abraço sufocante, mas logo em seguida soltou-a com as feições bravas e indignadas. – Como você fez isso com a gente? Onde esteve? Por que não voltou antes? Por Deus, pensamos que estava morta!!!
Acnologia recuou três passos, ainda atrás do balcão. As palavras formavam vários tiros a queima roupa. Era sua responsabilidade.
A única razão para que todos os magos não implicassem com Erza era por queestavam furiosos e ansiosos com essas questões também.
–Olha, eu meio que estava realmente... – hesitou em usar a palavra, mas não tinha escolha. – morta. – falou rápido. – Como estou viva é uma longa história da qual nem eu entendi direito. – completou, não querendo falar a respeito de Shinuky ou de todos os acontecimentos. – Só vim agora por que realmente não pude vir antes. Por favor, eu não quero pensar muito sobre isso. Então... apenas... me perdoem. – pediu, tentando evitar que tocassem mais no assunto delicado. Ao menos por hora.
Erza ponderou. Poderia fazê-la responder depois. Era hora de comemorar não de perguntar.
–Tudo bem. – suspirou, abrindo um sorriso e puxando-a para outro abraço. – Bem vinda de volta.
Acnologia observou todos a abraçarem, sorrirem, comemorarem com bebidas e tudo que tinham direito. Natsu e Happy abraçaram-na aos choros, para logo em seguida discutirem quem tinha chorado mais quando pensaram que ela morreu; ela riu. Pobres coitados... se soubessem o quanto tinha chorado. Saiu de trás do balcão e foi sentar-se em uma cadeira em um ponto isolado da guilda. Não se sentia parte daquela comemoração. Achava tudo muito bonito, mas não tinha convivido com eles o bastante para sentir-se parte da família ou da festa.
Natsu e Gray começaram a brigar por algum motivo que não sabia e não se interessava em saber. Lucy se reuniu com varias pessoas em uma mesa para saber as novidades. Ria de piadas e corava toda vez que Cana dizia algo; assim como a maioria da mesa que também corava com a língua desinibida da maga das cartas. Via os olhos dela brilharem. Talvez tenha conseguido quitar uma pequena parte de sua divida trazendo-a aqui. Respirou fundo, fechando os olhos e recostando a cabeça na pilastra atrás de si. Não se sentia muito confortável em trazê-la para civilizações e lugares onde não poderia controlar o perímetro, mas faria um esforço por ela.
–Eu ia parabenizá-lo, mas você não está com uma cara muito boa. – olhou para baixo, avistando o velhinho. Makcrov não estava muito melhor; Puxou uma cadeira e sentou-se a poucos metros de si, também observando a bagunça. – Seja como for a culpa não foi sua.
O olhou de soslaio e não respondeu. Não importa quantas pessoas digam que a culpa não é sua. Considerava-se culpado.
–Ela me parece mais alegre. – continuou, mesmo sem receber nenhuma resposta do garoto. –Você, no fim, cumpriu a promessa. Mesmo com todos os problemas. Lhe parabenizo.
Isso o irritou. A última palavra soava como um insulto em sua mente.
– Não diga asneiras, velhote!- rosnou, sem se importar com o tom rude.
O Mestre nem se virou para refutá-lo. Continuou com os olhos fixos no montinho alegre.
– Não sei muito sobre o que ocorreu, mas posso deduzir. Ficar se culpando é a coisa mais ridícula que poderia fazer. Você tem que cuidar dela agora, dadas as circunstâncias, e me parece que está fazendo um bom trabalho, então, pare de agir como um idiota. Você costumava dar mais medo antes. Agora parece um mendigo com fome. – praguejou com a voz tranqüila, e, sem aguardar resposta, desceu da cadeira e retornou a sua sala.
O garoto olhou para baixo e suspirou. Levantou-se e foi para os fundos, precisava espairecer.
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A festa estava animada e sentia-se extremamente lisonjeada pela comemoração de última hora. Todos evitavam tocar no assunto ocorrido há alguns meses em seu respeito e faziam de tudo para colocá-la a par de tudo, sentindo-se mais a vontade.
O tempo passou, e com ele foi-se sua atenção. Após todos fazerem suas perguntas básicas, a guilda deixou de resumir o assunto em apenas coisas relacionadas ao seu desaparecimento, fazendo com que os montinhos se desagregassem e os assuntos se variassem. Lembrou a si mesma de aproveitar bem o tempo que todos tinham lhe dado sem fazer perguntas complexas. Percebeu que este era o momento ideal para o que pretendia.
Ergueu a cabeça, buscando com os olhos a pessoa que pretendia. Avistou a cabeleira azulada em um canto e dirigiu-se até lá. Quando se aproximou, viu a baixinha com as feições vermelhas totalmente raivosa e postura corporal de ataque, sentada na mesa. Os olhos escuros fuzilavam a pessoa a sua frente.Gajeel estava sentado de braços cruzados fuzilando-a igualmente com os olhos avermelhados. Seja como for o assunto era sério, mas dessa vez teria de intervir.
Com o máximo de naturalidade que pode reunir, colocou um sorriso no rosto e chamou.
–Levy-chan. – disse alegremente. Ela desviou os olhos do objeto de sua raiva para a amiga que retornara, tentando colocar no rosto uma feição mais amigável. Falhou miseravelmente.
–Lu-chan. – respondeu, tentando descontrair com casualidade. – Como vai? Você já falou boa parte do que todos queriam saber, mas não disse como estão as coisas entre você e Acnologia. – Disse tentando iniciar um assunto como se nada tivesse ocorrido. Falhou lamentavelmente mais uma vez. Levy nunca gostou muito de Acnologia.
Ignorando isso, Lucy pigarreou.
–Na verdade, poderíamos falar disso depois. – obviamente iria aproveitar a deixa mais tarde para saber o que tinha acontecido entre ela e o Dragão de Ferro. – Estou precisando de ajuda com alguns livros. Tem problema me ajudar agora? – A pergunta era retórica. A pequena estava claramente ansiosa para sair de perto dele, e ao perceber isso Gajeel fechou ainda mais a cara.
–Não, não. – negou abanando as mãos. – Te ajudo sem problemas. Não estava fazendo absolutamente nada de importante. – A segunda parte da frase era obviamente uma indireta.
Sem olhar para trás, não estando nem um pouco a fim de olhar para a cara do Dragon Slayer, Levy puxou Lucy rapidamente, serpenteando entre as mesas e entrando na biblioteca. A baixinha suspirou aliviada, assim que passou a tranca da fechadura.
–O que precisa? – questionou a Lucy.
A loura mordeu os lábios para evitar que a pergunta “O que aconteceu entre vocês?” saísse de sua boca. Respirou fundo querendo focar naquilo que realmente era importante.
–Lembra daquela vez em que começamos a pesquisar doenças neurológicas? — as sobrancelhas azuladas se ergueram na mais plena confusão, mas mesmo assim confirmou com a cabeça. – Teriacomo revermos algumas delas? – questionou, franzindo os lábios e rezando para que ela não fizesse a pergunta errada.
–Claro, claro. Mas por quê? – e ela fez a pergunta errada.
Lucy bagunçou um pouco os cabelos respirando fundo uma vez mais. Não queria mentir para a amiga; já bastava estar ocultando os acontecimentos de seus amigos. Acabar com a confiança que ainda tinham nela, sabe-se lá como, não era uma de suas opções.
–Acho.. – hesitou, franzindo os lábios. – Acho que Acnologia pode estar tendo um Transtorno de Stress pós Traumático ou um REC. – pausou, quando viu os olhos esbugalhados de Levy. – Ou, talvez os dois... – completou mais baixinho.
Os olhos pequenos se arregalaram ainda mais.
–Meu Deus! – Soltou em fim, depois de vários minutos. – Isso é muito grave, Lu-chan! – Mais que depressa a baixinha começou a andar, serpenteando palas prateleiras numerosas da biblioteca, com Lucy em seu encalço.
–Eu sei, eu sei. – Falou apressadamente balançando as mãos, enquanto a seguia. – Olha,... pode não ser nada. Acho que é apenas uma impressão. Não sei... Não me lembro muito bem dos sintomas, mas... creio que ele tenha desenvolvido algo. –Disse. Sua voz saía quase em súplica. Observou a pequena subir em uma das escadas e passar o dedo por cima das lombadas dos livros, puxando o que queria e descendo rapidamente.
Levy abriu o livro precisamente, parando na parte que desejava.
–Ele tem tido flashbacks, ou pesadelos? – falou rapidamente sem remover os olhos dos livros.
– Sim, mas...
Ela a interrompeu.
– Ele apresenta uma tendência a esquiva ou isolamento social? Como fugir de lugares agitados, procurar isolamentos e evitar o local ou áreas que possam lhe relembrar o gatilho emocional que ocasionou o transtorno?! – murmurou mais apressada.
–Sim, mas...
– Apresentou comportamentos e, ou, distúrbios como: Hiperexcitabilidade* psíquica e psicomotora, taquicardia, sudorese, tonturas, dor de cabeça, distúrbios do sono, dificuldade de concentração, irritabilidade, hipervigilância*?
Lucy ponderou rapidamente.
–Sim e não, mas...
–Mas, mas, mas. – ralhou, finalmente removendo os olhos do livro ligeiramente irritada. Não tinha sido ela a pedir ajuda? – Mas o que?
Lucy ficouum pouco irritada com o comportamento explosivo de Levy. Gajeel poderia ter feito besteira, mas ela não... até agora.
–Mas eles tem diminuído! – ela exclamou. – De fato ele teve muitos pesadelos; um quase o transformou por isso, entretanto eles caíram. Sim, ele apresenta um comportamento de esquiva e isolamento, todavia também está se esforçando para não entrar em colapso todas aas vezes em que isso ocorre. De fato ele está mais sensível psicologicamente a fatores externos; não deu nenhum sintoma de taquicardia, sudorese, ou tonturas, mas sim ele teve dores de cabeça, insônia e algumas vezes fica desligado! – respirou, recuperando o fôlego, após o acesso emocional. Puxou alguns fios loiros e finalizou. – Quanto à hipervigilância, ele sempre teve, só que agora esta... um pouco mais avançado. – agora estava mais calma.
A baixinha piscou várias vezes e logo endireitou a postura.
– Está vendo? – ralhou ainda um pouco irritada, mas sem saber por que exatamente. – Ele está cada vez mais perigoso. Tem que se afastar dele!
Os olhos de Lucy se arregalaram enquanto um tremor percorreu seu corpo. Ficou de mãos atadas por pouco tempo; seu corpo esquentou, trazendo consigo a cólera.
– Olha, Levy, não sei o que está acontecendo entre você e Gajeel, mas com certeza não tem nada a ver com o meu problema. Posso te ajudar depois, mas agora estou com um baita problema e não quero conselhos ridículos! – rosnou, sem ter condições de conter o estresse. Ao se dar conta do que disse, arregalou os olhos, olhando para a pequena que se encolheu, de olhos igualmente arregalados e com a boca ligeiramente aberta. – Eu... – hesitou. – Desculpe. Eu... eu não devia ter dito aquilo. – murmurou quase em um sussurro, desabando na cadeira mais próxima e escondendo o rosto nas mãos, enquanto massageava as têmporas com o polegar. – Desculpe.
A Mcgarden ficou parada por um longo minuto, até por fim suspirar e puxar também uma cadeira. Coçou um pouco os cabelos azuis antes de tomar fôlego para falar.
–Tudo bem. – murmurou. – Tudo bem eu... realmente estou com alguns problemas. Desde que você se foi, as coisas ficaram um pouco caóticas. Desculpe-me. Acho que não fui uma boa amiga ao dizer aquilo. – Disse dando um sorriso amarelo e envergonhado. Lucy devolveu o mesmo sorriso. – Vamos começar de novo, Ok?– A loura acenou positivamente. – Me diga o que aconteceu.
A Heartphilia respirou profundamente, buscando o melhor jeito de tratar aquilo. Franziu os lábios hesitando em falar.
– Quando eu... voltei dos mortos, por assim dizer, ele começou a ter alguns pesadelos. – explicou sem contar detalhes sobre os sonhos; achava isso pessoal demais para dizer a Levy. Seria quebrar a confiança de Acnologia. – No primeiro dia ele quase se transformou, e eu tive que acordá-lo. Já nos próximos não chegou a tanto, mas não mudava o fato de que todos os dias ele estava com olheiras. Uma semana depois os pesadelos começaram a regredir para dia sim, dia não, até pararem por um tempo. Alguns dias depois ele voltou a tê-los. Nós... – hesitou. – Conversamos um pouco e chegamos a um acordo. Como uma terapia. – Murmurou mais baixinho, não podendo evitar de corar quando chegou nessa parte. Por sorte, Levy estava tão concentrada na história que não notou. – E então os pesadelos pararam. Acredito que definitivamente, mas os outros sintomas ainda não.
A azulada apoiou o cotovelo no joelho e o queixo em uma das mãos, pensando e analisando os acontecimentos.
– É estranho ele ter regredido automaticamente a doença, mas se levarmos em consideração que você foi o gatilho, o objeto da perda dele que acionou isso tudo, pode fazer sentido. Como você está de volta sua doença tem uma tendência a regredir, entretanto pode surgir outra. Ele pode se tornar mais irritadiço e possessivo, pois sabe o que acontece se perder você. – Levy parecia estar mais falando para si mesma que para Lucy. A Heartphilia ignorou esse fato.
–Eu sei. – falou em um suspiro. – Ele odeia quando eu vou as cidades ou quero sair de casa.
–Entendo. – Murmurou. – Vou precisar pesquisar mais, entretanto posso dizer que ele ainda não manifestou a doença completa. Ou doenças. Ele está em estágio inicial e, seja o que for que tenha feito para que ela regrida, continue fazendo. Pelo menos por um tempo, tente ficar em um local que ele considera confortável. Tolere isso até achar que ele está pronto para... bom, sair. Vá com calma. Se essa regressão prosseguir talvez ele não demore muito a ficar menos hipervigilante. – Franziu os lábios, adquirindo uma feição hesitante e analítica. – O ideal seria encaminhá-lo a um médico, mas dadas as circunstâncias...
Lucy suspirou, já sabendo a continuação da frase, e segurou a cabeça com as mãos. Teria de ajudá-lo sozinha com sua pouca experiência no assunto. Sua expressão era preocupada.
–Eu sei. Obrigada de todo jeito.
Levy sorriu.
–Sem problemas. Vou ajudar no que puder.
Riu um pouco, fazendo a loura abrir um breve sorriso também.
–Lucy... – chamou, agora com a voz séria e preocupante. A maga olhou para a pequena, atenta. – Os livros se baseiam em doenças adquiridas por soldados depois que voltam da guerra, ou em prisioneiros mantidos em cativeiro de tortura. Todos eles são humanos. Dragões são criaturas extremamente ligadas a seus sentimentos, tanto é que retiram magia deles. Algo fantástico, mas só pode ser realizado quando a magia integra totalmente seu ser.
Respirou fundo, formulando melhor as palavras.
–O que eu quero dizer é que essas... doenças são ligadas ao psicológico e aos sentimentos, o que pode significar que ele sofrerá muito mais com os sintomas do que um ser humano normal sofreria. – Estreitou os olhos negros, analisando a amiga melhor para falar o que pretendia. – Há casos de soldados que mataram as próprias esposas ao reviverem flashbacks de situações de perigo que sofreram quando estavam na guerra. Eles entram em surto psicótico e não tem a menor noção do que estão fazendo. Isso pode ser perigoso e...
–Eu sei o que vai dizer. – interrompeu Lucy, jogando a cabeça para trás. – Isso já aconteceu uma vez, mas ele não me machucou. Sou a prova de magia, pelo menos a dele, portanto ele não pode me ferir. – suspirou, voltando a olhar para a amiga. – Eu sei que se me afastar ele ficará muito pior.
Levy sorriu amarelo.
–Bom, eu não sei muito bem como essa historia de marcas funciona. Ainda não pesquisei o assunto devidamente, mas vale a pena avisar.
A heartphilia fechou os olhos balançando positivamente a cabeça. Esperou vários minutos, mas a Mcgarden não disse nada. Voltou a encará-la.
– E quanto a Resposta Emocional Condicionada? – perguntou.
Levy se remexeu, desconfortável.
– Bem... o REC é um pouco mais grave. – murmurou quase em um sussurro. – As respostas emocionais são geralmente violentas seguidas de retração, mas é necessário um gatilho para que ocorra. Algo muito grave. Entretanto, se ele tiver um surto REC é provável que entre em outro surto psicótico bem violento, e, sendo Acnologia, é bem provável que haja muitos... feridos pelo caminho.
Lucy compreendeu perfeitamente o que ela quis dizer,usando-se de meios mais apaziguadores.
–Obrigada, Levy. – agradeceu ternamente.
Ela sorriu.
–Só... só se cuida, ta? – respondeu, se levantando e retornando ao Hall.
A maga ficou na biblioteca por mais alguns minutos, sentindo o cheiro dos livros. Massageou os olhos, cansada psicologicamente.
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A brisa da madrugada era gélida, mas reconfortante. Ela entrava pela janela lembrando-lhe de apertar ainda mais o corpo miúdo contra o seu, esquentando-o. Sempre sentia-se muito grato por sentir o corpo dela junto ao seu novamente. Lembrava-o que ela estava viva e ele a lembrava que jamais estaria sozinha, e sempre seria aquecida por seus braços. Deitado sobre as costas nuas de Lucy, aconchegou-a o mais perto possível.
Pena que nem tudo durava muito.
Mais uma brisa entrou pela janela, balançando as cortinas e trazendo consigo uma mensagem. Suspirou. Não tinha escolha.
Com muito cuidado, retirou seu braço que cercava o ventre feminino e começou a se levantar. Tinha se esquecido que Lucy tinha um sono leve.
–Acno... – a voz arrastada, manhosa e confusa, chegou baixinho aos seus ouvidos. Estava muito sonolenta, não demoraria a reencontrar o sono.
Sorriu.
–Shh. – Sussurrou baixinho, próximo de seu ouvido. Deu dois beijinhos no pescoço exposto e grudou os lábios próximos a sua orelha. – Eu já volto.
–Não... demora... – murmurou quase sem nexo, caindo no sono instantaneamente.
Deu mais um beijo em meio a seus fios loiros e se levantou. Bagunçou os cabelos e bocejou, pegando uma calça qualquer jogada no canto e vestindo-a. Pulou a janela do quarto, silencioso como um gato, e andou um pouco até chegar à frente da casa. Bocejou uma vez mais e coçou os olhos. Logo suas asas começaram a sair pelas omoplatas, seu corpo foi se enchendo de escamas; nas laterais de sua testa saíram dois pares de chifres e suas unhas viraram garras. Seus caninos ficaram ainda mais avantajados, e sua calda apareceu, com a forquilha afiada na ponta.
Empurrou os cabelos negros, agora compridos, para o lado, massageando o pescoço e o estralando ao mover a cabeça. Abriu as asas enormes, ergueu-as, e logo as jogou com força para o chão, lançando-se a vários metros de altitude. Mergulhou em direção a floresta, mantendo um vôo silencioso por cima da copa das árvores, e seguiu o cheiro irritante que o tirara de casa. Em dado momento, perdeu drasticamente altitude, entrando em uma fresta das árvores pomposas, e aterrissando suavemente em um dos galhos.
Colocou as asas em posição de repousoe se esgueirou por entre os galhos até ficar em uma área que lhe dava visibilidade, mas ao mesmo tempo o mantinha escondido. Esperou com os olhos aguçados a presa aparecer. Sentia o rosnado começar a se formar em seu peito, retumbando baixinho.
Não demorou para que dois homens aparecessem em meio a mata. Um deles era alto, magro, cabelos presos em um rabo pequeno, usava óculos e possuía feições metódicas. O outro era mais robusto, mas ainda esguio; o cabelo rebelde de qualquer jeito e cicatrizes no rosto. Ambos usavam sobretudos brancos com insígnias do conselho. Já os tinha visto antes; foram eles que vieram até a guilda dar a Mackrov a incumbência da missão fatídica.
O rosnar se tornou mais protuberante.
Desceu como um felino da árvore que o abrigava, sentindo suas garras fincarem no chão sob seus pés, afoitas para serem usadas em prol de eliminar a ameaça. Saiu das sombras arbóreas aparecendo em frente a seus inimigos. Ambos pararam em choque, tanto por não terem percebido a presença ameaçadora, quanto pela forma dracônica com a qual ele se apresentava.
Acnologia sorriu malignamente ao olhar para suas presas.
Vendo que aquela era sua única chance de falar antes de ser dilacerado, Lahar engoliu o medo e se pronunciou.
– Acnologia, eu presumo. – murmurou, a voz hesitante e sem muita firmeza. Podia sentir o suor escorrendo por sua nuca. O Dragão alargou o sorriso. Lucy era a única que não fedia a medo quando via suas escamas e, embora ela nunca o tenha visto nessa forma, duvidava que tivesse medo ao vê-lo assim. Ao lembrar-se da loura, lembrou a si mesmo que ela o esperava e não poderia demorar, caso contrario ela acordaria. – Venho com uma proposta.
O Dragão hesitou em fazer seu ataque eminente. Curioso, não sabia que conselheiros faziam acordo com aqueles que caçam. Desde quando o leão perguntava a gazela se ela gostaria de ser devorada?
–Lahar, você tem certeza que... – Doranbolt se interrompeu quando o parceiro ergueu a mão, compelindo-o a ficar quieto.
–Ele não vai nos atacar sabendo que tropas do conselho virão para cá, caso algo aconteça conosco. – tranqüilizou-o. – Você não quer chamar atenção para este lugar, não é, Acnologia?
Inclinou a cabeça em tédio. Bastava jogar os cadáveres em outro lugar. Não seria problema para si. Por acaso seu inimigo era tão burro?
– Sabemos sobre Lucy e sua visita a Fairy Tail. – jogou Doranbolt, vendo que a ameaça anterior não funcionara.
Um rosnado tornou-se bem audível, provocando tremores nas pernas dos dois homens.
– Se quiséssemos fazer algo contra você teríamos denunciado aos altos conselheiros! – refutou Lahar, tentando fazê-lo recuar.
–Você tentou me matar uma vez e não conseguiu, imbecil.Por que acha que agora conseguiria? – rosnou o Dragão realmente irritado. Por que não os tinha matado em primeira instância?
A voz reptiliana e grossa era sinistra e medonha. Teve o ímpeto de querer sair correndo. O conteve com esforço.
–Quando tentei te matar também pensei seriamente que já estava morto! – Exclamou, dessa vez sem pensar.
Acnologia trincou o maxilar. Ergueu a mão que foi imediatamente coberta por chamas azuis. Lahar quase entrou em pânico, ao ver a criatura quase demoníaca abrir as asas e se preparar para atacar. Uma visão aterradora, realmente; seu coração saltava de medo, mas sabia que caso corresse seria seu fim.
–Lucy ama a Fairy Tail, não é? – Perguntou, erguendo as mãos em um gesto de rendição. – Quando soubemos que você tinha saído daquela caverna, eu imaginei que tivesse dado um jeito de fazê-la voltar a vida. Quando isso me ocorreu soube que ela daria um jeito de visitá-los. Tive de entregar uma carta a Makcrov ontem à noite, e vi que a guilda estava bem mais humorada; supus o óbvio. Depois foi só utilizar alguns recursos pessoais.
Os olhos azuis escuros fincaram em Lahar como se decidissem com que tortura iria matá-lo. Isso o fez retomar o diálogo rapidamente.
–Sou um dos comandantes no território de Magnólia e várias outras cidades. Posso fazer vista grossa e permitir que visitem a Fairy Tail, além de impedir que o conselho descubra seu paradeiro. – As palavras saíram tão rápidas que era quase impossível entende-las. – Posso fazer isso tudo se você nos ajudar com Hizame quan...
–Não! – a resposta foi curta e grossa, intimidando mais ainda os dois.
–Tudo bem. – murmurou, erguendo novamente as mãos. Agia como se estivesse de frente a um leão arisco. A situação era delicada e foi de muita surpresa que ele ainda não o tivesse matado. – Tudo bem. Não precisa responder agora. Eu sei que por mais que consiga vencer os exércitos do conselho, você não ia querer que eles venham até aqui. As tropas viriam incessantemente, mesmo sabendo que iriam fracassar, por que os velhos não perdem a oportunidade. Não acho que Lucy gostaria de vê-lo matando tanta gente desnecessariamente.
As chamas em seu punho diminuíram até desaparecer. Seria difícil o conselho descobrir sua localização, mas uma hora poderia acontecer. Com Lahar lá dentro seria muito mais fácil impedir que isso aconteça, além de ser muito mais simples repor tudo aquilo que estava tirando de Lucy. Era uma proposta considerável, mas sua mente quase mergulhava na insanidade quando pensava em entrar em uma batalha que provavelmente colocaria a Heartphilia em risco.
–Pense nisso. – disse calmo. – Doranbolt! – o mago segurou o ombro do outro homem e ambos desapareceram, antes que Acnologia mudasse de idéia e matasse os dois.
O Dragão jogou a cabeça para trás, olhando as estrelas pelas frestas nas copas. Era uma proposta na qual teria de pensar muito cuidadosamente. Abriu novamente as asas e alçou vôo. Seja como for, preferia pensar nisso sentindo o cheiro entorpecente de Lucy.
“A morte é o único Deus que vem quando você chama.”
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